quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

A VIDA NO SÉCULO XXI

Diário de Notícias, 20090122
Pedro Lomba
Jurista - pedro.lomba@eui.eu

Shamsia Hussseini vive em Kandahar, a terceira cidade do Afeganistão e a capital simbólica do antigo poder dos talibãs. Tem 17 anos e estuda numa escola local só para raparigas. Em Novembro do ano passado, Shamsia e a irmã iam a caminhar para a escola quando um estranho as abordou na rua. Perguntou-lhes se era para a escola que elas se estavam a dirigir. Imediatamente, descobriu a burqa de Shamsia e apontou-lhe à cara um spray de ácido. Shamsia foi uma de 15 raparigas da mesma escola atacadas com ácido por um grupo de homens presumivelmente ligados aos talibãs. As mesquitas da região encheram-se de cartazes: "Não deixem as vossas filhas ir à escola."

A História do ataque à escola de Kandahar vinha, com particular destaque, em edição recente do New York Times, por acaso ao mesmo tempo que alguns se ocupavam por cá dos exageros estilísticos do cardeal-patriarca de Lisboa. O diário de Nova Iorque faz as suas escolhas como todos os jornais: desde o princípio que, em campanha aberta por Obama, defendeu a saída do Iraque e o aumento do contingente militar no Afeganistão para o combate ao terrorismo. Obama já anunciou que será pragmático a retirar do Iraque, de forma a não comprometer a segurança instável do país.

Mas, de qualquer forma, histórias como a do fundamentalismo que aterrorizou a escola de Kandahar, o mesmo fundamentalismo que coloca a dignidade da mulher no mundo muçulmano em níveis de barbárie, estão aí sobretudo para a demonstração duma verdade mais crua: é neste mundo e não noutro que Obama irá ser Presidente dos Estados Unidos; é neste mundo de ameaças e fanatismos vários sobre os nossos valores, os valores que os Pais Fundadores da América tinham por "verdades evidentes", que Obama irá governar e tomar decisões; é neste mundo precário, nesta era de todas as crises e todas as incertezas trágicas que existe e não deixará de existir contra os slogans e as aspirações. Não chega fazer bons discursos; não chega dizer "nós podemos", "acreditem", "estejam unidos".

Não é por isso o excesso de expectativas que pode prejudicar Obama. Como meio mundo, também eu tenho expectativas absurdas sobre o que Obama pode fazer dentro e fora de portas. A democracia é assim mesmo. A democracia é o único regime que permite o voto com expectativas excessivas, irrealistas, mesmo descabidas. Não se vota por derrotismo. Não se vota por desfastio. Para isso, é melhor ficar em casa.

O principal inimigo de Obama é o que um pouco por todo o lado já se nota de desaparecimento de espírito crítico. Obama é intocável, o que ele diz é intocável e ninguém questiona o que quer que seja. Nenhum Presidente, como nenhuma pessoa aliás, costuma ser bem-sucedida num tal ambiente de dependência e estupidificação.
Boa sorte, Obama.

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