A invasão da Geórgia
João Carlos Espada
Se o Ocidente não sinalizar agora que a Rússia tem um preço a pagar pelo seu comportamento na Geórgia, mais tarde vai ser ainda pior |
Há uns anos, quando da invasão do Iraque por tropas anglo-americanas, houve uma célebre reunião em Kaliningrad dos senhores Putin, Schroeder e Chirac. Aí juntaram as suas vozes para denunciar a arrogância da “superpotência norte-americana” e apelar a um mundo multipolar. Dizem as más línguas que foi também em Kaliningrad que Putin terá convidado o então chanceler alemão para dirigir a empresa de energia russa - a mesma que decidiu construir um canal de energia através do Báltico, para isolar a Polónia.
Agora, com a descarada invasão da Geórgia pela Rússia, com total desprezo pela lei e comunidade internacionais, temos uma antevisão desse maravilhoso mundo multipolar com que sonhavam Schroeder, Chirac e Putin, para não citar os seus intérpretes noutras paragens. Onde estão agora as vozes que se indignaram contra o derrube do ditador iraquiano que violara 12 resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas?
Não se trata de reabrir a discussão, aliás inteiramente legítima, sobre a intervenção no Iraque. Trata-se apenas de recordar algumas verdades perenes da cena internacional. O Ocidente cometeu certamente muitos erros e podemos discordar de muitas das suas políticas. Mas o Ocidente é a sede da democracia e do primado da lei. Quando esta sede é enfraquecida, a ordem multipolar que emerge não é mais democrática e mais respeitadora da lei. É simplesmente mais bárbara.
É isto que deve ser recordado quando presenciamos a invasão da Geórgia. E quando podemos ainda prevenir o que virá depois. A invasão culmina uma série de acções provocatórias por parte de Moscovo, que estabelecem um padrão: o corte de energia à Ucrânia, Bielorrússia, Geórgia e até à Lituânia (que é membro da NATO); o chamado ciberassalto à Estónia; a campanha contra o inofensivo escudo antimíssil na Polónia e na República Checa. Agora, a invasão da Geórgia serve o óbvio propósito de controlar o único canal de energia para a Europa que escapa ao monopólio russo, o oleoduto que liga o Azerbaijão à Turquia através da Geórgia.
Depois da Geórgia, onde vai parar a Rússia? Vai reclamar o seu direito de intervir nas Repúblicas Bálticas, onde existem significativas minorias russas? Que fará na Ucrânia, onde a etnia russa é tão significativa? Vai exigir um corredor por terra até Kaliningrad, através da Lituânia?
O Ocidente deu repetidamente sinais de boa vontade para com a Rússia na última década: convidou-a para o G8, onde o seu estatuto económico deixa muito a desejar; fechou os olhos à barbárie na Tchetchénia; aceitou a concentração ilegal de tropas no Cáucaso. Se o Ocidente não sinalizar agora que a Rússia tem um preço a pagar pelo seu comportamento na Geórgia, mais tarde vai ser ainda pior.
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