Resta-nos os jornalistas

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA    DN   24.06.17

Quando falha tudo resta-nos o jornalismo como uma espécie de bote salva-vidas da democracia. Quando sentimos, e sentimos nesta semana, que em vez de políticos responsáveis, corajosos e humildes no perdão temos políticos empenhados em fugir para a frente, em passar culpas descartando-se assim ao julgamento democrático, em arranjar desculpas em vez de as pedir, resta-nos os jornalistas. Quando sentimos que a política é cobarde, sobra-nos os jornalistas para neutralizar essa podridão. São agora eles o primeiro poder, aquele que nos garante que todos os outros têm de funcionar.
Pelo menos 64 mortos depois, não sabemos porquê ou como. E, mais assustador ainda, não temos a certeza de que não existam mais mortos ou que algum dia saibamos mesmo o porquê. Desconfiamos. Desconfiamos de quem vai à televisão justificar tragédias com causas naturais como se Deus ou a natureza tivessem alguma coisa a ver com estradas que não foram cortadas, com sistemas de comunicação que não funcionaram, com o falhanço total em salvar vidas. O "não fui eu" na política é uma vergonha. E tem de ser dessa vergonha, desonestidade e imoralidade que os jornalistas nos devem salvar, fazendo perguntas, exigindo respostas, denunciando mentiras, revelando incoerências, descobrindo factos e chatear. Chatear até que as mãos lhes doam de tantas horas passadas ao telefone, de tantos silêncios que teimarão em não cessar, de tantos relatórios inconclusivos, de tantas mentiras que vão ouvir, de tantas horas passadas a ouvir comissões parlamentares de inquérito intermináveis. São eles que não podem largar, pelo menos eles não nos podem falhar. A tragédia de Pedrógão tem de ser notícia, tem de ser primeira página até ao dia em que não existam mais notícias para dar. Dure o que durar. E então, só então, poderá ser memória.
Quando a política não é nobre, o jornalismo tem de ser realeza. Tem de mostrar que um bom político não é quem sabe justificar, argumentar, convencer, manipular. É quem nos convence pela verdade, justifica com a razão, argumenta com seriedade e escolhe a responsabilização em detrimento da manipulação. É quem não se atreve a usar beijos e lágrimas para amaciar a sua responsabilidade, quem tem a honra e não a vergonha de assumir erros, falhas e más opções. Só assim a democracia faz sentido porque só assim se consolida a confiança. Quando não são os políticos a defendê-la, a exercitá-la, que sejam os jornalistas. Que são quem nos resta quando falha tudo o resto.
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