segunda-feira, 26 de junho de 2017

Perguntas que ardem

FERNANDA CÂNCIO   DN    26.06.17


Passou uma semana e não é mais fácil escrever sobre o incêndio de Pedrógão. No início era a dor, a incredulidade, a incapacidade de encaixar aquele número - 64 -, o pavor daquela estrada. O mais adequado era o silêncio: a capa do DN de segunda-feira, no seu vazio, encenava isso mesmo. Mas os jornais são feitos de palavras, como o resto do jornalismo, como a opinião. Temos de escrever, portanto escrevemos. Mesmo que para dizer o paradoxo - que nada temos para dizer.
Até porque quando escrevi, no domingo, não sabia muito sobre o incêndio, a não ser o número de mortos e que ainda ardia. Não sabia sequer a que horas tinham morrido as pessoas naquela estrada. E não sabia porque ninguém dizia. Nunca vi, nas perguntas aos responsáveis e sobreviventes, alguém pedir uma linha de tempo, questionar: a que horas foi isso? Não: o que vi foi uma desmesurada, desrespeitosa e obscena exploração da dor. Sobretudo nas TV, mas na verdade em quase todos os relatos. Sobre factos puros e duros, que permitam começar a desenhar um mapa do que aconteceu, zero.
Estabelecer uma cronologia é essencial - a coisa mais essencial - para a análise do que se passou. É a partir dela que se pode perceber se era possível ou não evitar aquelas mortes - e quando digo "se era possível" significa, obviamente, se era exigível dadas as circunstâncias (podemos sempre considerar que era possível se os bosques estivessem "limpos", se as árvores não estivessem perto da estrada e não fossem das que ardem com facilidade, etc). Mas uma semana depois essa cronologia continua a faltar. Alguns jornais e meios tentaram fazê-la, nos últimos dias. Mas são tentativas falhadas, muito incompletas. E, mais grave: ainda não foi tornada pública uma cronologia oficial. Não acho isso normal. Não acho normal que a ministra da Administração Interna diga que ainda não a tem. Como não? Há pessoas que estiveram lá, no meio do fogo, e se salvaram. Será assim tão difícil questioná-las? Há os bombeiros e as comunicações dos bombeiros, às quais ao que parece o Expresso teve acesso, e que descreve como "desesperadas" (não é difícil acreditar: quem não desesperaria perante aquilo?). Há o comando da Proteção Civil que supostamente coordenou tudo. Como, não há uma cronologia?
Também não é normal a resposta que a GNR deu ao primeiro-ministro. Vaga, sem - mais uma vez - cronologia, sem responder diretamente a uma pergunta direta sobre se as pessoas foram encaminhadas para a N236, dizendo que todas as comunicações falharam mas não dizendo durante quanto tempo e se todas ao mesmo tempo, e se isso fez, no entender do comando, a diferença entre salvar ou não aquelas pessoas. Não me espanta isso na GNR: tem uma cultura de falta de transparência e não raro de encobrimento. Por que haveria de ser diferente neste caso?
E já se sabe com certeza que houve falhas do SIRESP. Um sistema de comunicações de emergência que falha numa emergência serve para quê? Falta saber a que ponto falhou. E se há responsabilidades por isso.
Sim, devemos questionar tudo. E exigir. E duvidar. Mas que sentido faz, por exemplo, ter reportagens e entrevistas a assegurar que o incêndio não começou com um raio porque, de acordo com as pessoas da região e a que ligou para o 112, não se ouvia trovoada", se há especialistas (como Emanuel de Oliveira, consultor na área dos riscos naturais e incêndios florestais) a garantir que um determinado tipo de raio - o "positivo" - pode partir de uma trovoada a dezenas de quilómetros de distância (até 95) e que um raio desses, de acordo com as imagens de satélite meteorológico, caiu às 14.45 de 17 de junho na zona onde o incêndio se iniciou? Não quer isto dizer, obviamente, que a PJ não se pode enganar; porém, para pôr a versão da PJ em causa talvez seja necessário um pouco mais que senso comum sobre trovoadas e relâmpagos, não?
Porque há uma diferença entre questionamento sério e fundamentado e o atiçar da polémica porque sim. Porque há uma diferença entre querer saber e salivar com a hipótese de se estar ante "o fim do estado de graça" do governo Costa; porque há uma diferença entre exigir esclarecimentos e falar de "branqueamento", como sucedeu, ainda o incêndio lavrava, porque o PR se lembrou de, numa óbvia e compreensível tentativa de sossegar as pessoas, e provavelmente a si mesmo, dizer que "tinha sido feito tudo o que era possível".
"Se morreram 64 pessoas alguma coisa falhou", leio repetidamente. Sim, óbvio que muita coisa falhou. Mas isso significa que há culpados? Que têm de rolar cabeças e que já sabemos quais? E não, pedir calma não significa "desdramatizar". Passos, entre outros, insiste em dizer, desde domingo, que houve "desdramatização". Onde? De quem? Como se pode falar de desdramatização depois de ver, na madrugada de dia 18, o secretário de Estado a chorar nos braços do Presidente e o PM a falar da maior tragédia de vidas humanas nos incêndios em Portugal? Fala de quê, Passos? Tenha - tenhamos - a seriedade de não fazer dos mortos estandartes para aproveitamento político. Não precisamos de atear mais fogos, obrigada.
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