A questão dos feriados

DN 20120425
VASCO GRAÇA MOURA

Os feriados religiosos, ligados a evocações e cerimoniais do calendário litúrgico, têm na sua origem a destinação de certos dias para celebrações religiosas de sinal específico e para a interiorização das orações correspondentes, no caminho da salvação da alma. O feriado teria sido inicialmente destinado a permitir a participação numa determinada festa da Igreja e a concentrar mais intensamente a devoção do cristão num dia em que ele não teria mais nada que fazer a não ser isso. Não seria propriamente um dia de descanso, mas de devoção, que era vista como obrigação, sendo proporcionado assim um tempo interior para a vida religiosa.
Por sua vez, os feriados laicos ou civis, ligados por via de regra a datas históricas e à correspondente celebração, pretendem-se dotados de uma fortíssima carga simbólica, capaz de unir os cidadãos em torno de certos acontecimentos fundamentais pelo sentido patriótico de que se revestem.
Parece no entanto que, tanto no plano dos feriados religiosos, como no dos laicos, o sentido profundo de tal simbolismo se foi gradualmente esvaziando em quase todos os casos, e os feriados resvalaram, pura e simplesmente, para a situação de datas de desocupação folgada, sem obrigações laborais, podendo contar como dias de férias e tornando-se instrumentos para a construção de "pontes".
Provavelmente, só os feriados correspondentes ao dia de Natal e ao 1.º de Maio mantêm um sentido mais ajustado, aquele cobrindo mais ou menos todos os quadrantes do espectro ideológico e político, e este beneficiando de uma celebração pública muito participada e significativa, por parte das forças de esquerda.
Os outros feriados religiosos, incluindo a sexta-feira de Paixão, parecem longe do sentido universal que o Natal veio adquirindo; por sua vez, os outros feriados laicos vão dando lugar ou a romagens pouco expressivas ou a cerimónias oficiais que não arrastam mais do que aquelas centenas de pessoas que não podem deixar de comparecer e implicam algumas forçosas transmissões televisivas.
Sem querer discutir matérias que se prendem com a evolução do sentimento religioso na nossa sociedade e muito menos com soluções para neutralizar o seu progressivo esbatimento, parece-me que de há muito cessou a interiorização devocional que justificava o feriado para largas camadas das populações.
O mesmo se passa com a maioria dos feriados laicos: o seu alcance simbólico também se veio a dissipar, em grande parte porque a escola funciona com graves deficiências e quase ninguém sabe já, em boa verdade, o que é que se pretende celebrar. O desconhecimento da história, o falhanço no plano da cultura, o esfarrapamento da língua, o descaso quanto à relevância nacional de determinados acontecimentos, podem explicar tudo isso.
No tocante aos feriados laicos, o remédio para tal estado de coisas estará menos na manutenção deles e muito mais no apetrechamento dos espíritos para a boa compreensão dos significados e contextos de cada data.
Por exemplo, celebrar feriados como o 10 de Junho ou o 1.º de Dezembro, ou outros, seria muito mais importante e muito mais eficaz a partir da elaboração e aplicação exigentes de bons programas escolares, no tocante à língua, à história e à cultura portuguesas, do que pelo facto de se proporcionar mais um dia de inactividade laboral. Pelo menos, isso ajudaria a repensar certas coisas e a compreender melhor o significado e o alcance delas. Comemorar é isso mesmo.
Tenho visto defender com mais ou menos eloquência a manutenção dos feriados, mas não tenho visto reclamar com idêntico vigor quanto às deficiências e carências chocantes que nessa perspectiva ficam referidas e que só agravam a nossa geral irresponsabilidade.
Por muitos feriados que sejam mantidos, não será pelo facto de o serem que Portugal reforça o conhecimento dos seus valores, da sua identidade ou da sua história, ou se apetrecha para encarar o presente e o futuro. Essa manutenção, por si só, até tende a agravar o geral estado de balda e descaso em que se vive em tais matérias. Pode contribuir para o turismo interno e para a hotelaria, mas não contribui para interiorizar ou reforçar seja o que for quanto ao que mais importa.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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