O grito do povo

Jorge Fiel
DN2010-11-25
O Grito do Povo era a marca de uma organização pró-chinesa que no ocaso do marcelismo estava bem implantada no Norte e era dirigida por Pedro Baptista, a quem a democracia não reservaria grande papel - ao invés do que aconteceu com o seu rival de então, Pacheco Pereira, que liderava um pequeno e insignificante grupúsculo da mesma obediência ideológica.
Após o 25 de Abril, o Grito do Povo integrou a UDP, conglomerado maoista que publicava a Voz do Povo (onde debutaram José Manuel Fernandes, ex-director do Público, e Henrique Monteiro, futuro ex-director do Expresso) e viria a juntar os trapinhos no Bloco de Esquerda com os seus velhos inimigos trotskistas.
Apesar de nunca ter navegado politicamente nas turvas águas do maoismo, sempre achei feliz a marca Grito do Povo, pois o grito é a expressão da dor física que sentimos quando o sofrimento moral se torna insuportável.
Por falar em gritos, este Verão tive o privilégio de visitar na Luisiana um fabuloso museu nos arredores de Copenhaga, uma exposição que cruzava declinações feitas por Warhol de obras de Munch, entre as quais do Grito, o quadro ícone da dor, angústia e desespero.
O choro é sinónimo de resignação conformada. O grito é a lancinante e dramática exteriorização da indignação. A greve geral de ontem deve ser entendida como o grito de revolta de milhões de portugueses, que, fartos dos partidos que nos têm desgovernado, disseram que deve ser o Governo a trabalhar para os cidadãos - e não os cidadãos a alimentarem o Governo.
A Igreja não precisa de gritar, pois tem megafones para o seu porta-voz Manuel Morujão nos avisar que "chegamos a esta crise por uma desonesta distribuição da riqueza". Belém também não precisa de gritar, pois têm à disposição microfones que permitem a Cavaco alertar-nos para o facto de "todos os dias nos depararmos com casos de riqueza imerecida que nos chocam".
No dia seguinte ao grito do povo anónimo, o importante não é contar quantas gargantas gritaram, mas perceber que, infelizmente, para sairmos do buraco em que nos meteram, não podemos continuar a consumir como alemães, ganhar como espanhóis, produzir como marroquinos - e a sermos governados por gente a quem não compraríamos um carro em segunda mão.
A verdade de sangue é que vai haver menos rendimento para gastar e mais dívidas para pagar, menos crédito fácil e barato, menos investimento público, mais desemprego (com menos subsídios) e menos pensões. Para aceitarmos de cabeça levantada estes sacrifícios temos de, em contrapartida, olhar para o Governo e ver gente competente e honesta, justa a distribuir os nossos recursos e que não favoreça enriquecimentos lícitos. Será isso pedir muito?

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