Solução Omissa


JOÃO LUIS CESAR DAS NEVES    DN   05.05.2018

Avança no mundo o projecto de morte do sistema capitalista debaixo das ordens do capital rentista e especulativo que proporciona, ano após ano, uma brutal concentração de riquezas nas mãos de poucos (...) Mas, não satisfeita com tanta concentração de riquezas, a elite burguesa do planeta ataca a classe trabalhadora retirando-lhe direitos adquiridos ao longo dos tempos e através de muitas lutas, sofrimentos e sangue derramado".

Este texto, retirado de uma proclamação do recente 1.º de Maio, encaixa nas retóricas habituais da efeméride. O elemento estranho é vir assinado pelo Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos (mmtc-infor.com). Dado que os discípulos de Jesus se encontram sob mandato, não só de amar o próximo, mas até os inimigos (Mt 5, 44), não é costume encontrar dentro da Igreja declarações tão incendiárias. Será o manifesto do MMTC expressão correcta da visão cristã da sociedade contemporânea?

Os dramas que o motivam têm uma indiscutível e pungente actualidade. A desigualdade cresce realmente e todos sabemos da existência de "milhões de famílias de trabalhadores e trabalhadoras, nos diversos continentes, que vivem debaixo de constantes ameaças no meio de conflitos religiosos e políticos, forçadas a abandonar as suas terras, a sua pátria e, dispersas, emigram para destinos incertos em busca de sobrevivência em terras nem sempre acolhedoras". Assim, quanto aos males identificados, a justeza do manifesto é incontornável.

Isso não esconde os defeitos do texto. Primeiro, não pode ser sequer considerado verdadeira denúncia, tratando apenas de conceitos abstractos e genéricos, sem apontar o dedo a problemas e entidades particulares, para mais misturando assuntos diferentes e até contraditórios. A realidade é muito mais complexa do que o simplismo destas declarações drásticas.

Pior são as graves acusações. Vivemos, sem dúvida, um momento de intensa transformação histórica, implicando enormes incertezas, turbulências e conflitos. Atribuir esses males a "uma agenda hipócrita, moralista e fascista, articulada pela elite económica do mundo" é disparate. A verdade é que, perante os enormes tumultos socioeconómicos da era, todos andam perplexos, sem ninguém os controlar, quanto mais planear. Existem vítimas em todos os estratos e sectores. Se é gravíssimo o sofrimento dos mais pobres, ignorado criminosamente pelos poderosos, também é verdade que esta linguagem extremista e explosiva aumenta o horror, contribuindo para promover divisões, incompreensões e agressividades pouco caridosas.

Aqui surge uma objecção: não usa o Papa Francisco expressões parecidas? Aliás a exortação conclusiva do dito manifesto é eco de famosas declarações papais: "Diante de tão grande calamidade, frente a tamanha violência, o Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos - MMTC, neste 1.º de Maio, une-se aos demais movimentos e organizações sociais do mundo inteiro, com todas as Igrejas, todos os credos e até com os que não têm credo nenhum, homens e mulheres de boa vontade, para juntos afirmar: não a uma economia de exclusão; não à nova idolatria do dinheiro; não a um dinheiro que governa em vez de servir; não à desigualdade social que gera violência. E gritar alto e bom som, nenhum trabalhador(a) sem tecto, sem terra, sem trabalho. Vida digna para a classe trabalhadora." A primeira parte é retirada directamente dos números 52 a 60 da Exortação Apostólica Evangelli Gaudium de 2013, documento programático deste pontificado, enquanto a segunda, também referida no número 191 desse documento, foi tratada com profundidade nos discursos e mensagens de Francisco aos Encontros Mundiais dos Movimentos Populares, iniciativa papal que reúne organizações de luta pelos pobres. Será o MMTC seguidor fiel do Pontífice?

Aqui surge o problema central do manifesto, que é, menos aquilo lá tem, o que lhe falta. As expressões decalcadas de Francisco vêm de pequenos extractos, omitindo a grande maioria daquilo que o Papa afirma, aquilo que o identifica como vigário de Cristo. Mais que denunciar, as exortações e discursos do Papa tratam da verdadeira solução para os dramas da actualidade: a misericórdia de Deus, o amor ao próximo, o seguimento de Jesus, manso e humilde de coração. Francisco, como todos os cristãos, contempla e descreve os horrores que todo o mundo vê, mas traz de novo aquele elemento que o distingue das visões burguesas ou revolucionárias, capitalistas ou socialistas: aquela Pessoa que há 2000 anos permanece no meio de nós para salvar a humanidade.

A era actual anda cheia de injustiças, explorações e sofrimentos. Para os denunciar não seria preciso um Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos, pois, felizmente, muitas outras organizações o fazem. Aquilo em que que os cristãos são indispensáveis, que é aquilo que lhes compete como missão, é o anúncio do «único nome dado aos homens pelos quais possam ser salvos» (Act 4, 12), que o manifesto omite.

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