Mimar e ser mimado

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA    DN    28.04.2018


Quem é mimado sabe mimar, disse-me a Teresa educadora dos meus filhos. A frase não me sai da cabeça. Nunca dei assim tanta importância ao mimo, como se fosse condição para mimar ser mimado, mas pensando bem, ou apenas pensando sobre o assunto, é isso mesmo. É como quem ama: só sabe amar quem foi amado; ou dar: só sabe dar quem recebe. E por aí fora. Com o mimo é a mesma coisa. A minha mãe embrulhava-me na toalha quando me tirava do banho e apertava-me com força no abraço mais maravilhoso que alguma vez senti. Não sei que idade tinha, mas tinha idade para caber no colo da minha mãe como se tivesse nascido só para caber ali. Também tenho uma irmã que me fazia cócegas às escondidas da minha mãe quando eu estava na cama quase a dormir. Ela ia ao meu quarto só para me fazer rir. "Não excitem a criança que ela não dorme", mandava a minha mãe, e eu ficava com dores de barriga de tanto rir e não dormia. Os meus irmãos diziam que eu era a cola Bostick (lembram-se?) e a minha irmã era a cola UHU porque vivíamos agarradas à minha mãe, uma de cada lado e a minha mãe a fazer tricô. Tenho a sorte milionária de ter tido mimo em grande quantidade e qualidade apesar de ser uma de nove irmãos. Ainda hoje pergunto como é que perceberam que eu andava por ali, mas perceberam.


Hoje, com os meus filhos, sempre que os tiro da banheira tento imitar a minha mãe. Não sei se consigo ou se resulta - se eles daqui a dezenas de anos se vão lembrar -, mas tento dar o mesmo abraço demorado. Também os encho de beijos e de cócegas enquanto não crescem, depois, quando crescem, disfarçamos todos que gostamos de mimos e a vida continua. O mimo toma a forma de olhar, de conversa, de tolerância e de perdão. Um filho mimado é um filho a quem se perdoa e se tolera tudo. É isto. Não são chocolates, nem presentes, nem fazer as vontades todas ou satisfazer caprichos, isso é querer agradar e também é bom. Mas mimo é mais do que isso: mimo é amar em ação. Não sei se foi a Teresa quem me disse, mas alguém tão bom quanto ela ensinou-me que não se criticam as crianças, os filhos, mas sim as suas atitudes. Não se julga, não se condena, não se é intolerante com os filhos. Os filhos mimamos; as atitudes, as mentiras, a preguiça, o egoísmo, a inveja que eles revelem é que se criticam, como se não fossem eles, como se fossem coisas estranhas que os querem estragar. É isto mimar, acho eu. É apertar em silêncio e ser intolerante com tudo o que lhes pode manchar o coração. Só assim os ensinamos a mimar e a amar. Quem é mimado sabe mimar, disse a Teresa sobre o meu filho. E eu cresci de orgulho.

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