Viver a vida

RAUL DE ALMEIDA         07.11.2017        JORNAL ECONÓMICO  

Convirá recordar que os grandes monstros que a história recorda são precisamente os que se libertaram deste princípio de inviolabilidade da vida humana, do respeito do seu curso natural, da noção da sua transcedência.

No último fim de semana, nas grandes cidades caminhou-se pela Vida. O grande número de pessoas presente, a transversalidade social e etária, o ânimo dos presentes e a alegria contagiante que se viveu, atestam a profunda importância deste testemunho.

Num mundo em que os poderosos abrem um fogo contínuo e inclemente sobre aqueles que defendem a preservação dos valores fundacionais da nossa civilização, resistir exige coragem e, acima de tudo, profundidade de convicções. Cada manifestante, cada cidadão que se mobiliza, sabe desde cedo que tão grande é a importância do que defende quanto é grande a força impiedosa de quem se lhe opõe.

Os media e quem os controla, sob as suas mais diversas formas, perseguem uma estratégia de ridicularização das pessoas e dos movimentos pró-vida. A caricatura da senhora farisaica e do senhor intolerante, a colagem do crucifixo a afirmações medievas, o achincalhamento de quem não segue a cartilha da suposta modernidade, denunciam um clima de bullying de enorme proporções, visando estancar o crescimento do número de pessoas que se interroga e pensa pela própria cabeça. A compaixão de hoje é retratada no pai que compreende e encoraja a eutanásia do filho. A amizade de agora é reconhecida na amiga que facilita sem questões incómodas o aborto à advogada que não quer interromper a carreira de sucesso, acabando as duas num restaurante da moda ou a comprar um par de Jimmy Choo’s para ultrapassar o sucedido. O respeito dirige-se cada vez mais aos animais, ao meio ambiente, ao planeta, desviando-se da pessoa e da exigência que tal respeito acarreta.

O aborto e a eutanásia são os grandes instrumentos de desvalorização do individuo, são a absoluta relativização da sua humanidade, a peste que nos dizimará por acção directa e indirecta. Para além de cada acto, para além de cada vida humana que é negada, há a terrível chaga social que representa esta banalização da morte, a depreciação implícita do valor da vida de cada um de nós. Neste curso de acontecimentos obscuros, poderão a qualquer momento surgir novas causas que ampliem sem critério o cardápio de justificações que ponham em causa a vida que entretanto se tornou descartável.

A esta corrente opressiva que combate, ataca e ridiculariza quem é intransigente na defesa da vida, e a considera um bem maior, convirá recordar que os grandes monstros que a história recorda são precisamente os que se libertaram deste princípio de inviolabilidade da vida humana, do respeito do seu curso natural, da noção da sua transcedência.

A esta nublosa que se espalha todos os dias de modo insidioso, convirá opor a realidade das nossas vidas. O aborto não é uma passagem fugaz por uma clínica de luxo em Lisboa ou Nova Iorque, de onde se sai a tempo de uma peça de teatro com as amigas. O aborto é um procedimento clínico contra natura que deixa invariavelmente marcas na mulher que o faz. O aborto é objectivamente o acto que termina com uma vida humana que não teve direito a defesa, a expressão de vontade. O aborto é o mais aberrante acto de violência sobre a mulher, por muita perfídia que se invista a tentar vendê-lo como libertador.

Esta é claramente uma luta desigual. Não há grandes corporações, sociedades secretas com tentáculos nos centros de decisão e influência, organizações internacionais de peso, por trás das associações pró-vida. Ainda assim, resistindo com alegria, são muitas as vidas que salvam, os projectos de vida que ajudam a edificar, o amor que entregam gratuitamente, a dignidade que acordam em quem abraçam. É daqueles casos em que quem dá enriquece tanto ao dar quanto o seu semelhante ao receber. Vale por isso a pena travar este combate. Vale por isso a pena correr o risco de não seguir acriticamente o rebanho. Vale por isso a pena ter consciência que a repetição dos actos ou seu acolhimento legal não os torna naturais ou desejáveis. Valerá sempre a pena viver cada dia com sentido, com espirito crítico, com vontade de contribuir pelas diversas formas ao nosso alcance para um mundo mais justo, mais digno, mais acolhedor da Pessoa. É uma empreitada que se renova e recomeça a cada dia, que faz de nós quem realmente somos: únicos e irrepetíveis. Com o direito inalienável de viver a Vida e o dever irrenunciável de garantir o mesmo direito aos outros.
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