Lisboa e os lisboetas expulsos

CATARINA FONSECA      fonsecaville.activa.sapo.pt      18.05.17

Um dia destes, vou deixar Lisboa.
Não porque não goste, mas porque me obrigam. Lisboa tornou-se um sítio onde as pessoas não são bem vindas ( só os chineses com dinheiro, mas esses não contam). Lisboa está linda, arranjadinha, ai que belos passeios para ir com a família, mas qual família? Onde estão os lugares para estacionar os carros? Já não vivemos no século XIX: já não trabalhamos ao lado da nossa casa. É muito lindo dizer 'vão trabalhar de transportes', mas eu para chegar ao sítio onde trabalho preciso de apanhar quatro transportes. É lindo,  não é? À chegada a casa, demoro uma hora às voltas. Uma hora roubada à família, à minha vida, ao raio que o parta. Além disso, eu tenho direito a ter carro e tenho direito a ter onde estacioná-lo. Tão simples como isso. Quase que aposto que os senhores vereadores têm todos o seu lugarzinho de garagem. 
Mas não. Nesta Lisboa tão verde, tão bonita, tão fantástica, os lisboetas deixaram de poder viver. E o surrealismo não se fica por aí. 
Depois de quase uma semana fora, vou hoje à procura do carro, e nada. Estranhei: então o carro estava quase em frente à porta de casa. Depois comecei a entrar em pânico. Acabei por descobrir: tinha sido rebocado. 
Lá vou de escantilhão ao parque de Entre Campos.

E rebocaram o carro porquê: porque está estacionado na sua rua.
Desculpe? Atão: a sua rua está dividida ao meio, e a senhora só tem dístico até meio.
Desculpe? Pois, do meio para cima pode, do meio para baixo já não pode. 
Vocês só podem estar a gozar comigo.
Não, é assim. E passe para cá 150 euros. 
Guarda do parque: - Ninguém a avisou de que tinha direito a dois dísticos? Isso foi azelhice deles. Queixe-se. E enquanto não se queixa, vá lá a abaixo à câmara e peça já o segundo. 
Mais uma hora à espera na câmara. Menina da Emel: - Pois, só tem um dístico. Devia ter dois. Mas nós aqui também não podemos informar de tudo. 
Ah não? Então quem é que pode? é Deus? Catarina, filha: ouve-me: sou o teu Pai do Céu a informar-te que precisas de rezar mais Avé Marias pela conversão da Rússia e de te arrepender dos teus pecados e já agora, precisas de dois dísticos para estacionar na tua rua, que está dividida em dois como a aldeia do Asteríx e como Olivença.
A sério. Internem-nos.

O problema nem é que a rua esteja dividida ao meio. Dividam lá as ruas por onde quiserem. Uma amiga minha até tem uma rua onde as casas de um lado pertencem a uma freguesia e do outro a outra. O problema é que não avisam as pessoas na altura em que pedem o dístico. Alguém no seu juízo perfeito anda na sua rua a ver se todos os parquímetros têm um número igual? Só se tiver sérias perturbações mentais... 
Parece que não tem uma coisa a ver com a outra, mas a verdade é que me sinto cada vez mais insegura numa cidade que é a minha desde que nasci. Lisboa está cada vez mais bonita - e cada vez mais vazia. Parabéns: estão a conseguir expulsar os lisboetas. E pouco a pouco, vamos transformar-nos em Veneza - uma cidade saqueada, de onde todos fugiram excepto os americanos gordos sentados de calções e perna aberta nos salões forrados a veludo vermelho.
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