quarta-feira, 31 de maio de 2017

Agora vou-te dar uma pica no olho

LAURINDA ALVES   OBSERVADOR  30.05.17
Ser médico é uma vocação, ser pai de cabeceira é uma imposição. Se fosse possível passar ao lado desta realidade, todos os pais passariam sem qualquer hesitação, pois ninguém quer ver um filho sofrer.
Arrepia, não arrepia? A ideia é sinistra, mas a certeza de que vai mesmo acontecer é ainda mais apavorante. Apetece fugir e não parar de correr até termos a certeza de que ninguém vem atrás de nós, de seringa na mão. Falo por mim, que nunca fui exposta a tamanho pesadelo, mas acho que também posso falar pela esmagadora maioria de seres humanos que não lidam bem com a ideia de agulhas espetadas no corpo e, muito menos, nos olhos.
Escrevo porque sei de um rapazinho de 4 anos que foi à urgência de um hospital e passou por isto na semana passada. Não só estava no auge do sofrimento físico como bastou o médico dizer a frase assassina, enquanto mostrava o raio da seringa com a agulha ao alto, para o miúdo ficar num cúmulo de nervos e ansiedade. Percebo-o bem. Escrevo a pensar nele, mas também nas crianças doentes e hospitalizadas que felizmente nunca se cruzaram nem cruzarão com médicos tão insensíveis às suas dores e pavores. Crianças que lidam diariamente com profissionais de saúde incapazes de anunciarem as ‘torturas’ antes de os ‘torturarem’.
Começo pelo rapaz. Já estava aflito e com dores, mas depois de o médico lhe ter explicado crua e detalhadamente o que ia fazer, o trauma aumentou e ele esperneou, chorou, gritou, contorceu-se e debateu-se até mobilizar um batalhão de gente compassivamente empenhada em conter o seu terror. Coitado, foi um castigo para o acalmarem. Eu faria o mesmo, insisto. Aliás, eu faria pior: fugia e não deixava que ninguém me apanhasse! Mas isso sou eu, que tenho tamanho e força mais que suficientes para enfrentar um médico estagiário que ainda não cresceu nem aprendeu tudo.
O rapazinho de 4 anos estava claramente em desvantagem e, por isso, não teve outro remédio senão sujeitar-se. Mas fica a pergunta: como é que um jovem médico não percebe que a comunicação é decisiva na atitude terapêutica? E como é que não sabe que a predisposição para certos tratamentos envolve sempre empatia e nunca susto? Não aprendeu na universidade? Acho difícil que ninguém lhe tenha ensinado este básico essencial. Se calhar foi ele que não quis ou não conseguiu aprender e é pena, pois toda a sua vida de médico vai ser construída com base na relação interpessoal. Seja a relação entre pares, seja com os doentes e as suas famílias, ou seja com os outros profissionais de saúde, é elementar ter a noção de que ser médico é muito mais que lidar com doenças, lâminas e máquinas. É, acima de tudo, lidar com pessoas. E saber como comunicar com elas, tendo sempre a noção de que calar pode ser tão importante como falar.
Agora, que o rapazinho da urgência já levou a pica no olho e já voltou para a sua vida, viro a página e passo a escrever sobre outros médicos e outras crianças, mas estas com doenças crónicas e internamentos prolongados. Crianças e famílias que vão e voltam muitas vezes ao hospital, que vivem realidades muito dolorosas, mas, ao menos, têm o descanso de saber que os seus médicos, os seus enfermeiros e os seus assistentes operacionais nunca lhes vão dizer nem fazer barbaridades que facilmente se confundem com grandes crueldades. Um tratamento não pode nem deve ser uma tortura, mas quando assim é, a obrigação dos profissionais de saúde é minimizarem o seu impacto e fazerem tudo o que estiver ao seu alcance para ajudarem, para aliviarem os sofrimentos, para eliminarem os danos morais e emocionais e, se possível, até para evitarem revelar aos doentes certos detalhes de certos tratamentos.
Ao contrário do jovem médico, que se calhar achou que fazia bem, mas certamente percebeu que fez mal, muitos médicos novos e menos novos assistem diariamente legiões de crianças nos pisos e unidades de hospitais pediátricos sabendo que não lhes podem dizer toda a verdade sem eles estarem preparados para a ouvir. Eu própria vivi essa realidade durante os 10 anos em que fui voluntária da Acreditar, bem como nos anos em que estive à cabeceira de doentes crónicos ou terminais de todas as idades. Assisti a situações extraordinariamente delicadas e vi médicos, enfermeiros, assistentes, auxiliares e estagiários de todas as especialidades terem uma extrema delicadeza na comunicação.
No piso 7 do IPO, para dar um exemplo que conheço por dentro, vi acontecer muita coisa que parecia impossível. Falo de autênticos milagres, operados por médicos e doentes capazes de fazerem equipa e lutarem juntos contra doenças terríveis. Nem sempre foi possível chegar à cura, e muitas vezes choramos juntos por perdas absolutamente irreparáveis. Por vidas que se perderam demasiado cedo, de crianças ou jovens que foram verdadeiros heróis e nos deram lições de bravura. Em 10 anos aconteceu muita coisa, e guardo para sempre os exemplos de boa comunicação, em que houve empatia e compaixão.
Todas as relações entre médicos e doentes são marcadas pela desigualdade e esta assimetria decorre do estado de vulnerabilidade, fragilidade e sofrimento em que se encontram as pessoas doentes. Quando se trata de crianças, tudo é ainda mais delicado pois a sua compreensão sobre a evolução da doença é porventura mais indecifrável. Há crianças que choram, e há crianças que não deitam uma lágrima; há as mais valentes e há as mais piegas; há as que fazem perguntas e as que não querem saber absolutamente nada.; há as que se queixam e as que nunca se queixam para protegerem os próprios pais dos seus sofrimentos. É muito difícil estar à cabeceira de crianças e jovens.
A comunicação importa sempre. Nunca nada do que dizemos ou fazemos é inócuo, muito pelo contrário. Em ambiente hospitalar, então, a maneira como comunicamos e como transmitimos as boas e as más notícias fica para sempre gravada na memória. Tudo tem efeitos secundários, no bom e no mau sentido. Por isso mesmo é fundamental apostar numa comunicação positiva, resgatadora, eficaz, autêntica, franca e compassiva. Dizer demais pode ser tão fatal como calar demais, e esta casuística exige uma calibragem afinadíssima e constante.
Nos anos de voluntariado na Acreditar vi muita coisa acontecer: pais à cabeceira de filhos com cancros terríveis, mães a comunicar com os seus bebés através de vidros, crianças muito pequenas em isolamento, enfim toda a realidade própria de uma unidade oncológica infantil que nos deixa aflitos mal pomos o pé fora do elevador, no piso 7. Em todos estes anos (e nos que se seguiram) percebi que tão importantes como as quimioterapias e as cirurgias eram as formas criativas e ternas como pais, familiares, amigos e profissionais de saúde combinavam os cocktails químicos com as conversas e os silêncios. A forma como comunicavam uns com os outros e se enchiam mutuamente de esperança, coragem e forças foram sempre decisivas em todas as etapas da doença.
Não resisto a recordar o Zé Maria, outro rapazinho com 4 anos, que ficou cego de um momento para o outro, mas continuou a ver através dos olhos de todos os que tinha à sua volta, a começar pela mãe e pelo pai, mas também pelos olhos dos médicos e enfermeiros que cuidaram dele até ao fim. O Zé Maria tinha cancro pela segunda vez e vivia massacrado por tratamentos abrasivos, uns particularmente dolorosos, outros que lhe exigiam que estivesse rigorosamente quieto durante minutos a fio, mas tudo isto era vivido com aparente facilidade e tranquilidade porque a comunicação entre todos era excelente. Aprendemos muito com o Zé Maria e com muitas outras crianças igualmente adoráveis que passaram e passam pelo mesmo que ele. Podemos ter cem anos que nunca os esqueceremos.
A maior de todas estas lições é perceber que a comunicação importa mesmo. Não apenas o que dizemos, mas a forma como o dizemos e, sobretudo a maneira como temos e damos esperança, como acreditamos e fazemos acreditar em sonhos. Ser médico é uma vocação, mas ser pai de cabeceira é uma imposição. Se fosse possível passar ao lado desta realidade, todos os pais do mundo passariam sem qualquer hesitação, pois ninguém quer ver um filho sofrer. Por tudo isto e porque ninguém está imune às doenças e, mais dia menos dia, podemos ter que ficar à cabeceira uns dos outros, vale a pena cultivar uma atitude de proximidade, usando palavras e gestos com mil cuidados.
Vi e revivi tudo isto há pouco tempo, quando fui assistir aos ensaios do musical “Terra dos Sonhos”, que vai estrear no Tivoli já no próximo dia 8. Vi como somos tomados por terrores e como podemos ser resgatados por quem nos ouve, quem conversa connosco e quem nos dá a mão nos momentos decisivos. Por quem nos poupa a detalhes e nunca diz frases que nos fazem fugir, muito pelo contrário, usa as palavras para nos encher de coragem e fazer permanecer firmes, de pé, prontos para enfrentar os medos. Vi no musical um elenco fabuloso que inclui crianças que representam outras crianças. E foi porque vi tudo isto que também agora escrevo. Para que o musical não passe despercebido e para que ninguém se esqueça que a comunicação importa. Muito.
Enviar um comentário