segunda-feira, 29 de maio de 2017

Homilia do Cardeal Parolin na Vigília de 12 de Maio 2017

Queridos peregrinos de Fátima!
Jubilosos e agradecidos, aqui nos congregamos neste Santuário que guarda a memória das Aparições de Nossa Senhora aos três Pastorinhos, juntando-nos à multidão de peregrinos que, ao longo destes cem anos, aqui acorreu a testemunhar a sua confiança na Mãe do Céu. Em honra do seu Imaculado Coração, celebramos esta Eucaristia; na Primeira Leitura, ouvimos o povo exclamar: «Vieste afastar a nossa ruína, procedendo com retidão na presença do nosso Deus» (Jdt 13, 20). São palavras de louvor e gratidão da cidade de Betúlia a Judite, sua heroína, a quem «Deus, criador do céu e da terra, (…) conduziu para esmagar a cabeça do chefe dos nossos inimigos» (Jdt 13, 18). No entanto estas palavras ganham o seu sentido pleno na Imaculada Virgem Maria, que, graças à sua descendência – Cristo Senhor –, pôde «esmagar a cabeça» (cf. Gen 3, 15) da «Serpente antiga – a que chamam também Diabo e Satanás – o sedutor de toda a humanidade, o qual (…), furioso contra a Mulher, foi fazer guerra contra o resto da sua descendência, isto é, os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus» (Ap 12, 9.17).
Como mãe preocupada com as tribulações dos filhos, Ela apareceu aqui com uma mensagem de consolação e esperança para a humanidade em guerra e para a Igreja sofredora: «Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará» (Aparição de julho de 1917). Por outras palavras: «Tende confiança! No fim, vencerão o amor e a paz, porque a misericórdia de Deus é mais forte que o poder do mal. O que parece impossível aos homens, é possível a Deus». E Nossa Senhora convida a alistarmo-nos nesta luta do seu divino Filho, nomeadamente com a oração diária do terço pela paz no mundo. Porque, embora tudo dependa de Deus e da sua graça, é preciso agir como se tudo dependesse de nós, pedindo a Virgem Maria que o coração dos indivíduos, o lar das famílias, a caminhada dos povos e a alma fraterna da humanidade inteira Lhe sejam consagrados e colocados sob a sua proteção e guia. Ela quer gente entregue! «Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz» (Aparição de julho de 1917). Enfim, o que deverá vencer a guerra é um coração: o Coração da Mãe alcançará vitória, à frente de milhões dos seus filhos e filhas.
Nesta noite, rendemos graças e louvores à Santíssima Trindade pela adesão de tantos homens e mulheres a esta missão de paz confiada à Virgem Mãe. Do oriente ao ocidente, o amor do Imaculado Coração de Maria conquistou um lugar no coração dos povos como fonte de esperança e consolação. Reuniu-se o II Concílio Ecuménico do Vaticano para renovar a face da Igreja, apresentando-se substancialmente como o Concílio do amor. O povo, os bispos, o Papa não ficaram surdos aos pedidos da Mãe de Deus e dos homens: foi-Lhe consagrado o mundo inteiro. Por toda a parte se formam grupos e comunidades crentes que vão despertando da apatia de ontem e se esforçam, agora, por mostrar ao mundo o verdadeiro rosto do cristianismo.
«Se fizerem o que Eu vos disser, terão paz». O certo é que, cem anos depois das Aparições, «se, para muitos – como diz o Papa Francisco –, a paz aparece de certo modo como um bem indiscutido, quase um direito adquirido a que já não se presta grande atenção, entretanto, para outros, é apenas uma miragem
distante. Milhões de pessoas vivem ainda no meio de conflitos insensatos. Mesmo em lugares outrora considerados seguros, nota-se uma sensação geral de medo. Com frequência somos surpreendidos por imagens de morte, pela dor de inocentes que imploram ajuda e consolação, pelo luto de quem chora uma pessoa querida por causa do ódio e da violência, surpreendidos pelo drama dos deslocados que fogem da guerra ou dos migrantes que morrem tragicamente» (Discurso ao Corpo diplomático, 09/I/2017). No meio de toda esta preocupação e incerteza quanto ao futuro, que nos pede Fátima? Perseverança na consagração ao Imaculado Coração de Maria, diariamente vivida com a reza do terço. E se, não obstante a oração, as guerras persistirem? Ainda que não se veja resultados imediatos, perseveremos na oração; esta nunca é inútil. Mais cedo ou mais tarde, frutificará. A oração é um capital que está nas mãos de Deus e que Ele tem a render segundo os seus tempos e os seus desígnios, muito diferentes dos nossos.
Como Salmo Responsorial, tivemos o cântico do Magnificat, onde sobressai o contraste entre a «grande» história das nações e seus conflitos, a história dos grandes e poderosos com a sua própria cronologia e geografia do poder, e a «pequena» história dos pobres, humildes e sem poder. Estes últimos são chamados a intervir a favor da paz com outra força, outros meios aparentemente inúteis ou ineficazes, como a conversão, a oração reparadora, a consagração. É um convite a travar o avanço do mal, entrando no oceano do Amor divino como resistência – e não capitulação – à banalidade e à fatalidade do mal.
Como devemos fazer? Deixai que vo-lo explique com um exemplo (cf. ELOY BUENO DE LA FUENTE, A Mensagem de Fátima. A misericórdia de Deus: o triunfo do amor nos dramas da história, 22014, pg. 235-237): se recebermos uma nota de dinheiro falsa, uma reação espontânea, e até considerada lógica, seria passá-la a outra pessoa. Nisto se vê como todos somos propensos a cair numa lógica perversa, que nos domina e impele a propagar o mal. Se me comportar segundo esta lógica, a minha situação muda: era vítima inocente quando recebi a nota falsa; o mal dos outros caiu sobre mim. Mas, no momento em que conscientemente passo a nota falsa a outrem, já não sou inocente: fui vencido pela força e a sedução do mal, provocando uma nova vítima; converti-me em transmissor do mal, em responsável e culpado. A alternativa é travar o avanço do mal; mas isto só é possível pagando um preço, ou seja, ficando eu com a nota falsa e, assim, libertando os outros do avanço do mal.
Esta reação é a única que pode travar o mal e vencê-lo. Os seres humanos alcançam esta vitória, quando são capazes de um sacrifício que se faz reparação; Cristo consegue-a, mostrando que o seu modo de amar é misericórdia. Um tal excesso de amor, podemos constatá-lo na cruz de Jesus: carrega o ódio e a violência que caem sobre Ele, sem insultar nem ameaçar vingança, mas perdoando, mostrando que há um amor maior. Só Ele o pode fazer, carregando – por assim dizer – com a «nota falsa». A sua morte foi uma vitória alcançada sobre o mal desencadeado pelos seus algozes, que somos todos nós: Jesus crucificado e ressuscitado é a nossa paz e reconciliação (cf. Ef 2, 14; 2 Cor 5, 18)
«Vieste afastar a nossa ruína, procedendo com retidão na presença do nosso Deus»: rezamos nós, nesta noite de vigília, como um imenso povo em marcha seguindo Jesus Cristo ressuscitado, iluminando- nos uns aos outros, arrastando-nos uns aos outros, apoiando-nos na fé em Cristo Jesus. De Maria, escreveram os Santos Padres que Ela, primeiro, concebeu Jesus na fé e só depois na carne, quando disse «sim» ao convite que Deus Lhe dirigiu através do Anjo. Mas aquilo que aconteceu de forma única na Virgem Mãe, verifica-se espiritualmente connosco sempre que ouvimos a Palavra de Deus e a pomos em prática, como pedia o Evangelho (cf. Lc 11, 28). Com a generosidade e a coragem de Maria, ofereçamos a Jesus o nosso corpo, para que Ele possa continuar a habitar no meio dos homens; ofereçamos-Lhe as nossas mãos, para acariciar os pequeninos e os pobres; os nossos pés, para ir ao encontro dos irmãos; os nossos braços, para sustentar quem é fraco e trabalhar na vinha do Senhor; a nossa mente, para pensar e fazer projetos à luz do Evangelho; e sobretudo o nosso coração, para amar e tomar decisões de acordo com a vontade de Deus.
Assim nos molde a Virgem Mãe, estreitando-nos ao seu Coração Imaculado, como fez com Lúcia e os Bem-aventurados Francisco e Jacinta Marto. Neste centenário das aparições, agradecidos pelo dom que o acontecimento, a mensagem e o santuário de Fátima têm sido ao longo deste século, unimos a nossa voz à da Virgem Santa: «A minha alma glorifica ao Senhor, (…) porque pôs os olhos na humildade da sua serva. (…) A sua misericórdia estende-se de geração em geração» (Lc 1, 46-50).
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