Amoris Laetitia é um "documento orientador de um estilo pastoral"

FAMÍLIA CRISTÃ   19.04.17


Um ano depois da publicação da Amoris Laetitia, a exortação apostólica pós-sinodal sobre a família, o Pe. Duarte da Cunha, secretário do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e especialista em assuntos da pastoral da família, considera que este documento é «apenas uma etapa neste caminho que continua e que tem como pretensão acompanhar as famílias, discernir e enfrentar o objetivo de compreender o que é que Deus nos pede para fazer». «A certa altura do Sínodo, houve um pedido ao Papa para que escrevesse um documento conclusivo de todos os debates doutrinais que estavam em jogo, mas não era esse o objetivo do Papa Francisco, e por isso fez um documento orientador de um estilo pastoral», considera o sacerdote português.
Antes do lançamento da sua nova obra, Pensar e decidir em Família, onde faz uma leitura da exortação apostólica do Papa, o Pe. Duarte esteve à conversa com a Família Cristã sobre a exortação que deixou «muita gente assustada». «Quando faço o balanço, não posso dizer que está a ser fácil. Até pode estar a correr bem, mas há coisas que não são claras como abordar, para além até das famosas dubia dos quatro cardeais, há pessoas com dúvidas concretas relacionadas com o capítulo VIII», refere o sacerdote.

Apesar disto, ressalta do documento a vontade do Papa «em dizer que não estejam tão preocupados com grandes discussões intelectuais, mas arrisquem a aproximar-se das pessoas». «Mesmo que não tenham a certeza do que precisa de ser feito, é preciso amar essas pessoas», diz o Pe. Duarte.
Da extensa exortação, o Pe. Duarte da Cunha retira duas palavras, que resumem o tal estilo pastoral do documento. «Acompanhamento e discernimento: acompanhar noivos, casais novos, casais em crise, com situações, difíceis, a educação dos filhos… estar com, ajudar, pensar, incentivar, corrigir e ter uma proposta. Um acompanhamento que serve para iluminar, como Jesus no caminho de Emaús, que não se limita a caminhar com eles, mas explica-lhes as leituras; e um discernimento que implique um pensar, um decidir, ver a realidade em todos os seus fatores, e um pensar que seja em ordem a uma compreensão da ação», explica o sacerdote.
Um discernimento que, muitas vezes, é mal-entendido. «Muitos confundem o discernimento com um “estive a pensar e acho que…”, e não é nada disso. O problema do discernimento na cultura atual é que é contracultura. Implica parar, escutar e olhar, e isso na sociedade acelerada em que vivemos não é imediato. É preciso uma educação ao discernimento, uma atitude que procura escutar e pensar nas dificuldades, das famílias e das pessoas individuais.
Depois é preciso distinguir o que é o discernimento das pessoas sobre a sua própria vida e o que é o discernimento dos pastores sobre aquilo que devem ensinar e explicar às pessoas. Eu posso ajudar uma pessoa a discernir, mas tenho de fazer um discernimento sobre as coisas que lhe posso propor e as que não posso. E a Amoris Laetitia diz que o discernimento deve ser de acordo com aquilo que a Igreja ensina, com a vontade do bispo. O discernimento é uma tentativa de procurar compreender como é que esta situação é iluminada pela Palavra de Deus, pela doutrina da Igreja», avisa o secretário da CCEE.
Uma “novidade” da exortação que foi esquecida nos sínodos… o Amor



E é por isso que considera que, apesar de uma maior abertura para receber pessoas em situações irregulares ou até de situações complicadas como a poligamia em África, este caminho não poderá ir até aos sacramentos. «É importante não mudar nada da doutrina, mas acompanhar muito, estar perto, arranjar soluções para que as pessoas não sejam discriminadas, podem fazer leituras, estar na igreja, serem padrinhos de batismo, abriria a tudo isso sem dificuldade, sem nunca deixar de dizer que não é a mesma coisa que um casamento válido. O acesso à comunhão e à confissão implica reconhecer que a pessoa que vive maritalmente está casada com a bênção de Deus, e como para os batizados estar casado com a bênção de Deus significa o sacramento, como é que posso dizer, quando há um vínculo de um primeiro sacramento, que há um vínculo com outra pessoa, e que aqui não há uma situação de adultério?», questiona o sacerdote.
Muito do debate que se vem tendo sobre a exortação sobrevaloriza o capítulo VIII em detrimento do resto do documento, principalmente do capítulo IV, que, diz o Pe. Duarte, foi uma novidade em relação aos sínodos. «A exortação apostólica tem uma coisa que não se nota muito, mas é importante. Nos dois sínodos, ninguém falou no Amor. Não se percebeu o que é o amor cristão envolvido numa família. E o Papa introduziu o capítulo IV na exortação, dizendo “isto não foi tratado, mas é um tema essencial”. Ele explica a vivência do Amor dentro de uma família como um grande desafio», sustenta.
Sem conhecer «o impacto futuro da Amoris Laetitia na história da Igreja», o Pe. Duarte da Cunha sempre vai adiantando que a hipótese de cisma, que muitos colocam é «exagerada». «Continua a haver tensões, e na próxima semana haverá um polémico congresso em Roma sobre estes temas, mas dizer que haverá um cisma é exagerado. Eu não vejo os bispos em ambiente de cisma, vejo-os chateados uns com os outros, mas hoje é por causa deste tema, ontem era por causa de outro. Não deixam de se falar, discutem, mas os sínodos e concílios na história da Igreja foram sempre assim», considera.
Para este sacerdote, «há pessoas que não estão de acordo», e por isso é preciso enfrentar os problemas com realismo, a fidelidade à Tradição, mas sem ficar estagnado. Tem de haver um desenvolvimento que não seja invenção, mas continuidade», defende.

Até porque, conclui o secretário da CCEE, «o que é preciso é debater e discutir, e depois encontrar a luz do Espírito Santo para andar para a frente, e muitas vezes ceder, e dizer que prefiro estar com a Igreja do que estar só comigo. Se for preciso mudar de opinião, eu mudo, porque o que quero é estar com a Igreja».


Um livro com «dimensão pastoral fortíssima de apoio às famílias»
No lançamento da obra que aconteceu ontem na Igreja do Campo Grande, estiveram presentes Mons. Feytor Pinto, pároco do Campo Grande, e Tó e Zé Mouta Soares, casal das Equipas de Nossa Senhora. Mons. Feytor Pinto agradeceu a presença do Pe. Duarte e o ter decidido lançar o livro na sua paróquia e destacou a «síntese fantástica que o Pe. Duarte fez». «É um livro de uma riqueza muito grande, com uma dimensão pastoral fortíssima no apoio às famílias», considerou.
Já o casal convidado enalteceu «tudo o que o Mons. Duarte da Cunha tem feito pelos nossos casais e pela Igreja» e desejou que «a sua verdadeira pastoral faça ver o Evangelho e introduzir os homens na intimidade de Deus, como seus filhos».
Tomando a palavra, o Pe. Duarte agradeceu a presença de todos e explicou que «antes de se fazer seja o que for, devemos olhar para Deus». «Só depois de conhecermos o que Deus nos pede é que podemos olhar para a realidade», afirmou.
Segundo ele, não se pode falar de um Evangelho da Família, porque «a família cristã é uma expressão do Evangelho, é o anúncio do Evangelho na sociedade».
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