O sofrimento e as crianças

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA    25.02.2017   DN

Os nossos filhos não sofrem. Não está na moda sofrer, não é bonito, sendo mesmo um sinal de fraqueza. E nós somos peritos em afastar os nossos filhos de tudo o que os possa fazer sofrer. Somos radicalmente bons nisso. Não queremos que eles vejam, que eles sintam ou que eles passem por uma qualquer experiência que também os possa fazer sofrer. Afastar as crianças do sofrimento é hoje um dogma. Se eles sofrem pelas frustrações que inevitavelmente vão tendo, damos a volta ao mundo e ao shopping para que eles não conheçam a privação. Se a avó está doente e "faz impressão" ir visitá-la ao hospital e vê-la sofrer, o melhor é não os levar. Se alguém morre e a comoção de um funeral assim como a própria morte podem "traumatizar" as crianças, o melhor é deixá-las em casa a jogar PlayStation. A morte e o sofrimento dão na televisão, não se experimentam em vida. Vão ter tempo para sofrer e para viver tudo isto, dizemos baixinho. Mas não vão. O sofrimento faz parte da vida, quer queiramos quer não, quer achemos que é injusto ou não, e afastar as crianças dessa inevitabilidade é afasta-las da vida. A primeira vez que vi um homem chorar tinha 7 anos. Era meu tio-avô e a sua irmã tinha morrido. Viu-o a entrar na capela, a destapar a cara da minha tia e a irromper num pranto. Se até ali ainda não tinha chorado pela morte da minha tia-avó, as lágrimas saíram-me pelo sofrimento daquele velhinho enorme que de repente ficou tão frágil. Fez-me impressão e não me esqueço da impressão que me fez. Foi a primeira vez que a vida me fez impressão. Até lá tudo o que retratava morte ou sofrimento passava na televisão. Até lá fui mera espectadora do sofrimento. Mas só naquele instante senti o que é a dor. Fez-me mal? Não, fez-me ficar menos mal. Emocionei-me pelos outros e até à data só me tinha "emocionado" nas lutas com os meus irmãos.
Afastar as crianças do sofrimento é encaminhá-las para um mundo de fantasia onde só se chora por frustração. É mostrar-lhes um mundo onde o sofrimento dos outros é uma mera abstração e a morte o argumento do Walking Dead. Faz, principalmente, que eles achem que a dor de alma ou física é um desvio e não uma inevitabilidade. É como ensinar alguém a guiar sem explicar onde é o travão. É uma maldade. Se não soubermos o que é sofrer, desesperamos quando conhecermos a dor e até matamos para acabar com ela. Não, o sofrimento não está nos vídeos do YouTube e circunscrito a zonas do globo; ele está deitado numa cama de hospital com os nossos avós. E não, o sofrimento não faz só impressão às crianças, também as comove. E é bom chorar por comoção. Ele existe mesmo e, tal como todas as más notícias, o melhor é serem os pais a dá-las.
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