O Silêncio não me larga

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA     DN    04.02.17

Vi o Silence agarrada à cadeira. Com medo das dúvidas que o filme me podia despertar. Gosto do cantinho sossegado das minhas convicções, é lá que me sinto bem. Gosto das minhas certezas, gosto de resolver os meus dilemas, gosto de identificar o que não gosto e de discutir as minhas convicções, aos gritos se for preciso. É humano. Silence, já sabia antes de me sentar, ia desarrumar-me a sala. Ia pôr-me na fronteira das dúvidas e tirar-me o sono. Os dilemas tiram-me o sono. Mas as fronteiras são mesmo isso, são lugares de passagem onde muitas vezes fico tempos intermináveis em desassossego. E Silence levou-me lá. Do princípio ao fim do filme procurei o meu lugar, o meu personagem. E a pergunta que ele faz, o meu personagem, "qual é o lugar dos fracos neste mundo?", não me larga desde que a ouvi. Onde é o lugar dos que não são mártires, heróis e corajosos? Onde é o lugar dos que têm medo e por isso não conseguem ser melhores? Onde é o lugar dos que atiram a toalha ao chão e vivem na vertigem de não conseguir chegar? Onde é o meu lugar? O filme responde. Em Silence, Deus responde. Responde que a fé, a esperança, não é um troféu, mas sim um caminho. É uma fidelidade. Um dilema que temos de enfrentar todos os dias e ao qual respondemos com atos, pensamentos e omissões. É uma escolha ao minuto e não um manifesto. É um caminho feito aos tropeções. A fé não é glória, mas sim a convicção da glória espiritual intangível e a fidelidade a essa convicção. Não me retive na apostasia. A renúncia da fé em público nas condições em que no filme se coloca, ou seja, sob coação, não tem significado. Não pode ter. Não há renúncia quando não se quer renunciar. Também não se defende a fé privativa como suficiente: quando o silêncio protege a fé, seja. E ali o silêncio é dos homens, não é de Deus. Silence não é um filme sobre a Igreja ou sequer sobre missionários, esse é o cenário. A obra-prima de Martin Scorsese é uma viagem aos dilemas de cada cristão, à nossa consciência, ao nosso desassossego, à nossa fraqueza. Onde a coragem e a beleza da simplicidade nos comovem porque a ambicionamos. Quanto ao lugar dos fracos neste mundo, o meu lugar, o filme atira-nos de joelhos para o arrependimento. A fidelidade ao arrependimento. O filme atira-nos para a procura de Deus na fronteira, onde os jesuítas são as brigadas de elite. Silence é um filme que pede para ser vivido e não para sermos julgadores: cabe a Deus julgar o silêncio dos homens. O filme também é sobre isso.
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