“Devemos ser jardineiros junto das crianças - não carpinteiros nem escultores”

KATYA DELIMBEUF    EXPRESSO    18.02.17

Catherine l’Ecuyer é canadiana, mãe de quatro filhos e investigadora. Ao observar os seus rebentos a crescer, começou a constatar “coisas” - o modo como aprendiam, como se espantavam diante do novo. Hoje, tem publicada uma teoria educativa numa revista científica. Em suma, defende que a curiosidade natural das crianças e o espanto devem ser a base de tudo.


Catherine nunca pensou que a vida dela desse uma volta tão grande. A canadiana era advogada do outro lado do Atlântico antes de atravessar o mar para fazer o mestrado em Barcelona. Foi aí que conheceu o marido, catalão, e se instalou em Espanha. Entretanto, vieram os filhos. Quatro, nada menos - de 12, 11, 9 e 5 anos. Mas foi só à quarta gravidez, por uma finta do destino, que a professora universitária de Administração de Empresas mudou de rumo. Um choque frontal grave, durante a gestação da última filha, forçou-a a seis meses de repouso. Foi nessa altura que começou, de jato, a "despejar" as suas ideias para o computador. Nunca pensou que aquilo desse em mais do que isso. O facto é que as suas ideias sobre aprendizagem transformaram-se numa primeira conferência, em 2010, e num livro, "que todas as editoras recusaram". Até que um artigo de contracapa no jornal "La Vanguardia" alterou tudo. Hoje, os livros de Catherine l'Ecuyer têm dezenas de edições, traduções em coreano e direitos a serem negociados para entrar no mercado chinês. A última obra chama-se "Educar na Curiosidade (Ed. Planeta). Em 2014, a autora publicou o artigo "The Wonder Approach to Learning", na revista científica "Frontiers in Human Neuroscience", que reconhece a tese de Catherine como uma nova teoria da aprendizagem.
A sua teoria chama-se "aprender pelo espanto". O que é que isto significa?
Significa que uma pessoa espanta-se por tudo o que é e por tudo o que poderia ter sido. É como se olhasse para as coisas sempre pela primeira vez. É um pensamento filosófico, que Tomás de Aquino definiu muito bem quando falou do "desejo de conhecer". Com as crianças, devemos ser jardineiros – regar apenas - e não ser escultores ou carpinteiros, no sentido de modelar. As crianças todas têm um sentido inato para se estimularem com aquilo que está à sua volta, não precisam de ser sobreestimuladas.

Defende que é preciso respeitar "a natureza" das crianças e os seus ritmos. Contudo, vivemos numa sociedade frenética, tiranizada pelo relógio, com pressa para tudo. Como compatibilizar estes dados aparentemente antagónicos?
O ritmo das crianças é naturalmente lento. A infância é uma etapa diferente da dos adultos. Respeitar a sua natureza implica coisas tão simples como não as expor a violência, real ou na televisão, permitir-lhes que se apeguem a um cuidador, dormirem as horas que precisam, não acelerar o seu processo de crescimento. Os pais não devem ter pressa para que os seus filhos aprendam mais, mais depressa. Também não precisam de lhes comprar muita coisa... E quanto menos pilhas e botões tiver um brinquedo, melhor – para que seja a criança a comandar a brincadeira.

Existe a ideia de que as crianças de hoje são nativas digitais. Muito cedo é-lhes dado um tablet para as mãos.. Qual é a sua posição sobre ecrãs?
Eu sei o que os estudos científicos dizem. Dizem que por cada hora de ecrã antes dos 3 anos temos 10% mais probabilidades de ter crianças com déficit de atenção aos 7 anos. Não precisamos de os sobreestimular.

Como faz em sua casa? Não há tablets, videojogos, televisão?
Não gosto muito de falar de mim, porque pode parecer que sou diferente dos outros pais ou que a minha família é um modelo, quando não é o caso. Em nossa casa, não há proibições. Mas não há videojogos. Nem tablets. E há uma televisão, que só ligamos nos sábados à noite, para ver filmes em DVD. Os meus filhos nunca pedem para ligar a televisão.

Como consegue essa proeza?
A ideia é que haja sempre alternativas mais apelativas. Ao fim de semana vão pescar com o pai, andar de bicicleta, correr ou jogar ténis... Fazer passeios na natureza. Temos sempre Legos espalhados pelo chão.

Fala muito no silêncio e na natureza como uma das melhores formas de respeitar a verdade das crianças. Porquê?
A natureza é muito boa porque nela a criança é protagonista. O "Locus de controlo" é interno. É muito importante, porque é uma janela para o assombro, para o espanto. O jogo livre, não estruturado, é a melhor forma de desenvolver a concentração numa criança.

Quais os principais erros que cometem os pais de hoje, mesmo com as melhores intenções?
Procurarem respostas na "indústria dos conselhos empacotados", em busca de soluções rápidas, quando na verdade os pais têm uma intuição natural que, se aprenderem a ouvir, lhes dá sempre a resposta sobre os seus filhos. Os livros vão contra essa sensibilidade natural, porque dizem o que fazer para os miúdos dormirem, comerem e ficarem quietos. Outro erro comum é acreditarem naquilo a que chamo "neuromitos", interpretações erradas de estudos científicos, como: "só usamos 10% da nossa capacidade do cérebro" ou "é preciso estimular a criança até aos 3 anos". Isso só vai ajudar a queimar etapas.

Nunca houve tantos livros publicados sobre educação. Os nossos avós não tinham nenhum e contudo educaram os filhos. Os pais ficam perdidos no meio de tanta informação?
É verdade, em parte porque se esquecem de ouvir a sua intuição, mas há outro dado fundamental: é que passam pouco tempo com os filhos. Conhecer os filhos é essencial e para isso o mais importante é passar tempo com eles. Nem é preciso estar sempre preocupado em fazer "programas" com eles, basta estar. No meu caso, não tenho muitos programas pensados. Mas reservo muito tempo para falar com eles. Todas as noites, converso pelo menos 15 minutos com cada um deles. Meto-me na vida deles. É um hábito que tem de começar de pequeno, senão torna-se difícil começar mais tarde...

O que aprendeu com cada um dos seus quatro filhos?
Essa pergunta é tão difícil... Diria que, no primeiro filho, aprendemos tudo porque não sabemos nada. A paciência foi a primeira coisa que tive de aprender. No segundo filho, inspirei-me. É aquele que mais se espanta diante das coisas, muito observador. Já não me preocupei em estimulá-lo tanto, já não lhe mostrei os DVD do "Baby Einstein" (DVD com conteúdos educativos que supostamente estimulam a inteligência). Ao terceiro e ao quarto filho, aprendi a não me irritar tanto. A ser mais serena, a perceber que o mundo não acaba. Às vezes, a solução é tão simples como baixar-me e colocar-me ao nível dos seus olhos e ficar a olhar para ele, em silêncio. Simplificar é fundamental. Eu não inventei nada. Os gregos já faziam aquilo que eu escrevi, já falavam da Verdade, da Bondade e da Beleza. No fundo, é regressar aos básicos.
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