Casados à Primeira Vista - de repente parece que toda a gente se conformou. Eu não!

ISABEL STILWELL     FAMÍLIA CRISTÃ

Casamentos à Primeira Vista
O que faço ao meu optimismo?

Fujo aos discursos fatalistas do hoje já nada é como era. Até porque quem passa os dias enfiado em livros de História, e conhece o passado, sabe bem que não era cor-de-rosa como tanta gente o quer pintar. E então, quando o assunto é o casamento, menos ainda, que o digam as mulheres obrigadas a casar com perfeitos desconhecidos, tantas vezes com idade para serem seus pais ou avós, míseras peças num tabuleiro de estratégias económicas e políticas das suas famílias.
Na Idade Média, a Igreja estabelece os 12 anos como idade mínima para o matrimónio e exige, coisa nunca antes vista, o consentimento livre da mulher. A intenção era louvável, embora a mesma Igreja tenha fechado vezes demais os olhos às suas próprias exigências, a semente foi germinando nos países de cultura judaico-cristã, ao ponto de hoje acharmos inadmissível o casamento de crianças, ou que um pai escolha casar uma filha contra o seu desejo.
Por tudo isto não gosto de romarias a tempos que nunca foram. E prefiro mil vezes acreditar que a humanidade, no seu todo, se vai aperfeiçoando, preferindo a verdade dos sentimentos à hipocrisia das normas, mesmo quando isso significa, por exemplo, uma separação ou um divórcio. Que só acontecem, quero muito crer, porque o casamento é sério demais para admitir a falta de amor ou compromisso.
Mas tenho igual receio de quem nunca olha para o caminho que já percorremos e desvaloriza gratuitamente as conquistas feitas. Como acontece em reality shows como o “Casamento à Primeira Vista”. Tanto esforço para nos libertarmos de casamentos arranjados, para promovermos a autonomia das nossas escolhas, e afinal há por ai gente disposta a voltar à estaca zero, seja sob a luz dos holofotes, no conforto do seu sofá?
Ainda para mais recorrendo ao argumento antigo de que há quem saiba melhor do que nós o que nos convém, argumento que serviu, e serve ainda em tantas culturas, para justificar que pais agrilhoem os filhos a relações cruéis. Ao perpetuar da ideia sórdida de que um casamento se pode consumar sem amor (e não nos venham com conversa, como se pode amar quem não se conhece?), que somos sérios quando nos comprometemos a partilhar com um desconhecido uma vida.

Que gente que confessa abertamente ter sido incapaz de manter relações amorosas, numa versão sorte ao jogo, azar ao amor se entregue a uma suposta ciência, feita por “especialistas”, peritos em neuro isto e coaching aquilo,acreditando que é o vestido de noiva, a festa, a lua de mel e horas de exposição às câmaras de televisão que vai superar as suas falhas e carências, é triste, mas e o que vai na cabeça de quem assiste? Finge que não percebe que uma ciência com 90% de insucesso é no mínimo duvidosa, que o que se procura ali é exatamente a cena canalha? (títulos dos clips na página da SIC no dia 6/ 11: “Vem aí uma discussão”, “Sónia vai viver com o João contrariada”, “Ana chora”, “Hugo fica desiludido” ).

Mas, confesso, que até obter um “Sim” da SIC à minha pergunta “Estes casamentos são juridicamente válidos”, quis acreditar que era uma brincadeira, de mau gosto, mas uma brincadeira em que participava gente maior e vacinada e via quem queria. Contudo a surpresa de que há de facto uma banalização absoluta de um contrato de casamento, e de um subsequente divórcio ( a SIC assegura que corre pela casa os custos respetivos, desde que se dê no tempo da “experiência/programa”), perante a passividade geral, deixam-me de facto sem saber o que fazer ao meu optimismo.


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