Carta dirigida à TVI


PEDRO VASSALO CARTA DIRIGIDA À TVI

Começo por me apresentar: fui administrador da TVI, e jornalista (em vários meios) durante 12 anos, a maior parte deles na RTP (onde trabalhei de muito perto com a Judite de Sousa).
Tive responsabilidades editoriais importantes (tanto em jornais, como rádios e televisão), e não me lembro nunca de ter escrito uma carta tão magoado (indignado?), com uma reportagem que há pouco ouvi e vi, da repórter Ana Leal.
Como ex colega de profissão de Ana Leal (e provavelmente com mais de experiência que a própria), atesto que o que se passou com a reportagem sobre uma suposta sociedade secreta (onde junta psicólogos com padres da Igreja católica), é uma afronta aos mínimos exigíveis na elaboração de uma reportagem séria e honesta.
Nunca percebi qual seria o ponto central da reportagem? Seria denunciar uma sociedade secreta? Se sim, gostaria de perceber onde está o secretismo? Nos obstáculos à entrada na Sociedade? Reúnem-se à porta fechada? O que desejam esconder (já que é secreta) ? Conspiram? Contra quem e contra o quê? Obrigam ou têm poder de chantagem sobre terceiros, à margem da Lei? È secreta por divulgar, o que pensa a Igreja Católica sobre a homossexualidade (dificilmente será uma novidade)? E se é uma sociedade (secreta ou não), quem manda e quem obedece? Que ritos tem? O que pretende? Qual a sua missão? Quem faz parte dessa sociedade? Trocam os nomes (como a maçonaria fazia para evitar represálias/prisões)? E já agora porque é secreta?
Ou seja: não percebi o título da reportagem, anunciada com tanto alarido.
Quanto à reportagem, há mínimos “técnicos” (eu prefiro chamar-lhes éticos), a respeitar: I) há contraditório? Ou seja houve oportunidade dos visados responderam na reportagem? II) Houve autorização para filmar uma conversa privada? Recordo que não se está a falar de uma reportagem criminal – venda de droga, armas, de tentativa de corrupção - onde o consentimento não é possível. Ao invés, trata-se de uma consulta do foro psicológico, onde o que se diz é do mais intimo que tanto doente como médico partilham; III) É legítimo gravar, sem consentimento, uma conversa entre um padre e um terceiro, sem que o padre o saiba? Ou será que o padre obrigou Carlos a conversar, ou terá algum poder de chantagem, ou forçou a uma qualquer atitude contra a sua vontade, ou excedeu as suas funções (não deve o padre falar com quem o procura?).
Ou seja a jornalista não cobre nenhum destes aspectos, não respeita a deontologia, nem explica coisa alguma.
E o disfarce da “personagem principal”? Será que Carlos foi obrigado a ir à consulta? Tem receio de ser difamado, atacado, perseguido pela sua condição de homossexual? Pela tal sociedade secreta? Se escolheu livremente a psicóloga e diz que o fez porque se trata de uma psicóloga católica, onde está a coacção? Sente-se mal, inconfortável com o que pensa a Igreja católica? Até poderá ter razão, mas porquê o disfarce? E onde está a novidade do que pensa a Igreja católica sobre o tema?
Também aqui, a jornalista nada explica, nem argumenta, nem justifica.
Numa palavra, fiquei confuso: a jornalista anuncia uma suposta sociedade secreta (que não prova em momento nenhum), mas atira-se uma psicóloga que o único crime parece ser o de ser católica. É isto?
Onde está a novidade? Ou o furo jornalístico?
Não me alongo mais, porque percebe-se a ideia: a) título bombástico, b) que junta no mesmo saco igreja e sociedade secretas, c) alguém a falar sob disfarce, (para dar o ar de secretismo/tentativa de algo misterioso, fora dos olhares do público, algo que se pratica em lugares obscuros, no meio da noite); d) peça propagandeada ao longo do Jornal da Noite, conferindo a ideia de “mais um furo TVI”.
A mistura não é nova, nem original.
Tenho pena do jornalismo, da TVI (que prostitui o jornalismo pela batalha das audiências), e da repórter que em troca da fama que procura não hesita em mandar às malvas o mínimo de deontologia profissional.
Será famosa, mas não pelas melhores razões.
Obrigado pela paciência/disponibilidade
Pedro Vassalo

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