Educar rapazes


INÊS TEOTÓNIO PEREIRA    DN      20.01.2018


Tenho cinco rapazes, o que não me dá autoridade nenhuma para falar sobre a educação dos rapazes - é a primeira vez que me confronto com o problema. Tenho uma rapariga, o que me deixa aterrada e na expectativa da primeira saída à noite, do primeiro namorado, eu sei lá. Não sei porquê mas sinto algum nervosismo quando a imagino daqui a uns aninhos, livre e senhora do seu nariz, do seu sim e não, dos seus amores e desamores. "Ah, mas tens de ter confiança que ela vai saber tomar conta de si. As miúdas de hoje são diferentes." Pois. Talvez. Aliás, claro que sim. É conhecê-la, de queixo empinado, de sorriso fácil e aberto (inclina a cabeça para a esquerda quando está envergonhada) e vai à luta, sempre. Não cede a modas, não cede, ponto. Não fizesse ela esgrima. Mas o meu nervosismo não desaparece. Devo ser eu. Depois olho para eles. Nervosismo nenhum. Nadinha. Só tenho medo dos carros, dos carros e dos copos, das drogas. É confiar, dizem-me. Claro, isso e estado polícia. Mas confesso que o tema dos amores e desamores dos meus rapazes não me tiram um minuto de sono. Preconceito meu, só pode. Porque é que o desgosto amoroso da minha filha me parte o coração e os deles nem tanto? Já lhes disse, ainda mal sabiam falar, que o respeito pelas raparigas é tema sensível. Cá em casa não se levanta a mão à irmã. Mas isso é injusto, dizia um deles: "Lá por ela ser rapariga pode irritar toda a gente e não apanhar?" Isso. Isso mesmo. E ela abusa, claro, não é parva. Sabe gritar como poucas e é perita do clichê de puxar cabelos.

Escrevia o Henrique Raposo que a educação dos rapazes é a chave para o problema do assédio, que não os educamos para o compromisso, que ainda se considera o marialvismo como uma virtude (currículo até em alguns casos), que aquilo que exigimos às raparigas, e não lhes permitimos, incentivamos nos rapazes e que, na verdade, a nossa sociedade põe em cima das raparigas o ónus de tudo o que lhes possa acontecer e a eles, nada. Depois, cada um é educado como é. No entanto, eduquemos de uma forma ou de outra, a verdade é que a censura social, cultural, moral e ética é só para elas. Sim, eu educo e exijo aos meus filhos respeito, pudor, decência. Mas a verdade é que nada lhes seria apontado se eles não acatassem a educação que os pais lhes dão. Sim, o Henrique tem razão. Os pais e as mães dos rapazes têm muito que fazer. E não, nada disto é um discurso feminista ou que tenha qualquer coisa a ver com esta maluquice do assédio que varreu o mundo. É antes uma evidência cultural que vai do Ribatejo às casas do Benfica, passando por qualquer universidade ou escritório.

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