Xutos e Pontapés na Igreja e no Estado

 Pe. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA        OBSERVADOR           16.12.2017

Não podendo o Parlamento honrar todos os cidadãos falecidos, é razoável que reserve as suas homenagens para os portugueses que mais se distinguiram pelo seu saber e serviço à comunidade.

Há já muito tempo que não via algo tão insólito como o Parlamento aprovar por unanimidade – que, poucos dias antes, foi negada à memória de Belmiro de Azevedo – um voto de pesar pelo Zé Pedro, músico da banda Xutos & Pontapés.

Belmiro de Azevedo foi um empresário como poucos no nosso país. Criou um grupo económico que dá emprego a milhares de trabalhadores e sustenta outras tantas famílias. Esteve também na origem de um jornal de referência, que é certamente uma mais-valia cultural. Nunca pedi nem obtive qualquer favor do Eng.º Belmiro de Azevedo, que não conheci pessoalmente. Também não tive nenhuma relação com qualquer seu familiar nem, que eu saiba, com nenhuma empresa directa ou indirectamente a ele ligada. Mesmo tendo esporadicamente colaborado no Público, muitas vezes discordei da sua linha editorial. Mas reconheço que, dada a relevância nacional do fundador da Sonae, foi justo que o Estado português lhe prestasse a homenagem que a sua obra merecia. Lamento que alguns grupos parlamentares, conhecidos pela sua ideologia totalitária e ódio de classe, não tenham tido a decência de o honrar por ocasião da sua morte, mas talvez a memória de Belmiro de Azevedo tenha ficado beneficiada com essa sua atitude.

Quanto ao Zé Pedro, que também não conheci pessoalmente, sempre lhe tive simpatia, porque sou da sua geração – ele era pouco mais velho do que eu – e por isso cresci ouvindo a sua música e a de muitas outras bandas, nacionais e internacionais. Soube que na sua adolescência passou, como tantos outros, por algumas experiências menos felizes e, por isso, alegrou-me sabê-lo recuperado e empenhado em ajudar jovens na mesma situação, participando com regularidade em acções de sensibilização. Sei que, como ele próprio dizia, ‘casou para a vida’, o que no meio artístico e nos tempos que correm é bastante meritório. Foi, sem dúvida, um músico muito conhecido e querido, sobretudo se comparado com o distante patrão da Sonae. Contudo, não conheço nenhuma intervenção relevante do Zé Pedro a nível nacional, ou no estrangeiro, que justifique o voto de pesar de todos os deputados de todos os partidos com assento parlamentar. Que significa esta rara unanimidade?! É só populismo?! Eleitoralismo barato?! Pieguice nacional?! Onde pára a respeitabilidade do Estado e dos seus órgãos de soberania?!

Por este andar, quando um popular locutor da televisão render a alma ao Criador, decreta-se luto nacional e vela-se o mediático sujeito na Assembleia da República. Ou, quando um mais ou menos conhecido cançonetista, ou jogador de futebol, tiver guia de marcha para a eternidade, fecham-se as escolas e põe-se a bandeira nacional a meia-haste.

Desejo uma longa vida e as maiores felicidades a todos os artistas portugueses, bem como aos desportistas nacionais, aos intervenientes nas marchas populares alfacinhas, aos figurantes do carnaval de Torres Vedras, aos participantes nos fóruns da TSF e às idosas que fazem de público nos programas matutinos da TVI. Mas, não podendo os deputados honrar todos os cidadãos falecidos, é razoável que reservem as suas condolências para os portugueses que mais se distinguiram pelo seu saber e serviço à comunidade. Aos ‘Belmiros’, entenda-se, que são poucos, e não aos ‘Zés’ que, com toda a consideração e simpatia pelo músico, são aos milhares.

Jean d’Ormesson disse, em 2008, que um escritor deve evitar o azar de morrer ao mesmo tempo que alguma celebridade mediática pois, nesse caso, arriscava-se a ser por ela eclipsado. Sábias palavras premonitórias: ele próprio faleceu recentemente, horas antes de Johnny Hallyday, que atraiu a atenção da imprensa, em detrimento da vida e obra do ‘imortal’ membro da Academia Francesa.

Infelizmente, não foram só a comunicação social e o parlamento que promoveram esta triste encenação, pois a Igreja também se prestou a isso, segundo notícia recentemente divulgada: “A morte do fundador do Xutos & Pontapés provocou as mais diversas mensagens de pesar, bem como as mais originais homenagens um pouco por todo o país. E uma delas chega-nos de Guimarães, mais precisamente da Basílica de S. Pedro do Toural. Na missa realizada no domingo seguinte ao funeral, o pároco e o coro da igreja resolveram homenagear o Zé Pedro cantando ‘Não sou o único’. O vídeo mostra como o padre, o coro e os fiéis cantam a música do Xutos & Pontapés, numa homenagem ao falecido fundador da banda rock portuguesa”.

Embora o masoquismo não seja o meu forte, não me poupei ao sacrifício de ver o vídeo da infeliz actuação do canoro e dançante presbítero, paramentado a rigor, com o coro e os fiéis que tiveram o mau gosto de, em plena igreja e na missa, segundo reza a peça, cantarem uma música dos Xutos & Pontapés. Se fosse uma homenagem a um futebolista, provavelmente promoveriam um jogo no adro da igreja, ou decorariam o altar com bolas de futebol, chuteiras, bonés e bandeiras do clube em questão. Tudo, claro, em honra do defunto que, como se sabe, desfruta imenso com modinhas pegadiças e efemérides futebolísticas em sufrágio da sua alma.

A propósito destes despropósitos, o Papa Francisco, na audiência geral de 12 de Novembro passado, “repreendeu os padres e os bispos que tiram fotos com o telemóvel durante a missa. O sumo pontífice disse que, ao invés de tirar fotos, deveriam concentrar-se em Deus. (…) Fico muito triste quando celebro (a missa) aqui na praça (de São Pedro) ou na basílica e vejo tantos telemóveis erguidos. Não só pelos fiéis, mas também por alguns padres e até bispos!”, afirmou o Papa, acrescentando: “A missa não é um espectáculo!” – um recadinho que vem mesmo a propósito da ‘tourada’ no Toural …

Que o Zé Pedro, os seus familiares e amigos me desculpem o desabafo em que, quero crer, ‘Não sou o único’. Não o faço em desprimor da sua pessoa, pela qual tenho, como disse, mais simpatia até do que pelo Engº Belmiro de Azevedo, que deixou uma obra admirável. Também tenho mais estima pela minha falecida avó do que por Sophia de Mello Breyner Andresen mas, ao mesmo tempo que reconheço que é justo que a poetisa esteja sepultada no panteão nacional, acharia disparatado que lá jazesse também essa minha progenitora, que foi – releve-se a imodéstia – cultíssima filha de um reitor da Universidade de Lisboa e presidente da Academia das Ciências. Não é esta uma questão de afectos, compadrios ou simpatias. É tão-só uma questão de justiça e de respeito, neste caso pela Eucaristia e pelo Parlamento, pela santidade da Igreja e pela dignidade de Portugal.
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