Sobre os impostos
Inês Teotónio Pereira , ionline 6 Out 2012
Tudo começou porque eles me perguntaram se as pessoas têm de pagar para ter emprego. Perante isto, sentei-me
Esta semana tentei explicar aos meus filhos o que são os impostos. Tudo começou porque eles me perguntaram se as pessoas têm de pagar para ter emprego. Perante isto, sentei-me. “De onde veio essa ideia?”, perguntei. “Então”, disse um deles, “as pessoas estão sempre a dizer que não conseguem arranjar emprego, por isso pensei que elas não arranjam emprego por causa da crise, porque não têm dinheiro para comprar um”. Disparate, disse eu. O emprego é mesmo para ganhar dinheiro. Ora, está claro que daí aos impostos, foi um saltinho.
O diálogo, como se calcula, foi lastimoso: a cabeça das crianças não está formatada para entender o que são impostos. Primeiro, porque elas acham que tudo o que têm lhes é devido e não querem nem saber como é que apareceu. Apareceu e pronto. Os candeeiros dão sempre e milagrosamente luz, a televisão é uma infraestrutura básica, a água é um bem tão banal e óbvio quanto a areia da praia, os carros tão evidentes quanto os sapatos e tudo isto existe porque sim. Uma crianças não imagina que tudo isto custa dinheiro e, como nem imagina, para ela nenhum bem essencial tem valor. Aliás, quanto mais essencial menos valor tem o bem. Que se pague por um big burguer, é compreensível e até justo – o big burguer é bom – agora que se gaste dinheiro numa coisa tão estúpida quanto o alcatrão da estrada ou tão chata como uma escola, isso é que elas não entendem. E eu tentei explicar. Expliquei, expliquei, expliquei e, pumba, cai nos impostos.
“Os impostos, meus meninos”, disse eu do alto da minha sapiência, “é dinheiro que as pessoas entregam ao Estado para que uns senhores que são eleitos comprarem e pagarem todas essas coisas que servem as pessoas, como hospitais, escolas, polícias, estradas, etc.”. Silêncio.
Foi então que um deles me fez a pergunta que revelou a segunda condição que dificulta a mente infantil entender o que são impostos: “E se eu não quiser pagar isso? O dinheiro é meu!” Ou seja, uma criança, não dá o que é seu com leviandade. Só presentes de anos. Se em vez do euro, a moeda fosse gomas, não havia qualquer hipótese de reduzir o défice pelo lado da receita, aliás, não havia défice porque nenhuma criança entrega o seu saquinho de gomas a alguém que não conhece de parte de nenhuma. No máximo, empresta. Os miúdos prefeririam comer a sua riqueza toda e ficar de diarreia do que entregar as suas gomas a “uns senhores que são eleitos”... .
Mais uma vez expliquei. Expliquei o conceito de bem comum, de Estado, e ainda não tinha sequer chegado à parte das empresas públicas, já os meus filhos estavam indignados (não chegaram à fase da contestação porque em minha casa impera um regime de partido único e os meios de produção alimentares assim como todos os bens existentes são controlados por uma só entidade. E, claro, há censura). Eles estavam indignados porque não querem dar nada a ninguém. Emprestam, mas não dão. Disse que os impostos eram uma forma de empréstimo, mas eles responderam que não querem pagar os bancos do jardim (que foi um dos infelizes exemplos que eu dei sobre a gestão do Estado...) ou emprestar dinheiro para isso porque é uma estupidez. Porquê bancos? Quais bancos? Para quem?
Os meus filhos, assim como a maioria das crianças, são forretas e comodistas. E o pior é que nem gostam de tomar banho. Ora, se já é difícil explicar a uma pessoa que gosta de tomar banho porque é que ela tem de pagar metade do seu vencimento ao Estado, muito mais difícil é explicar as virtudes desta cobrança a um rapaz que vive bem com sarro e sem escola.
Tudo começou porque eles me perguntaram se as pessoas têm de pagar para ter emprego. Perante isto, sentei-me
Esta semana tentei explicar aos meus filhos o que são os impostos. Tudo começou porque eles me perguntaram se as pessoas têm de pagar para ter emprego. Perante isto, sentei-me. “De onde veio essa ideia?”, perguntei. “Então”, disse um deles, “as pessoas estão sempre a dizer que não conseguem arranjar emprego, por isso pensei que elas não arranjam emprego por causa da crise, porque não têm dinheiro para comprar um”. Disparate, disse eu. O emprego é mesmo para ganhar dinheiro. Ora, está claro que daí aos impostos, foi um saltinho.
O diálogo, como se calcula, foi lastimoso: a cabeça das crianças não está formatada para entender o que são impostos. Primeiro, porque elas acham que tudo o que têm lhes é devido e não querem nem saber como é que apareceu. Apareceu e pronto. Os candeeiros dão sempre e milagrosamente luz, a televisão é uma infraestrutura básica, a água é um bem tão banal e óbvio quanto a areia da praia, os carros tão evidentes quanto os sapatos e tudo isto existe porque sim. Uma crianças não imagina que tudo isto custa dinheiro e, como nem imagina, para ela nenhum bem essencial tem valor. Aliás, quanto mais essencial menos valor tem o bem. Que se pague por um big burguer, é compreensível e até justo – o big burguer é bom – agora que se gaste dinheiro numa coisa tão estúpida quanto o alcatrão da estrada ou tão chata como uma escola, isso é que elas não entendem. E eu tentei explicar. Expliquei, expliquei, expliquei e, pumba, cai nos impostos.
“Os impostos, meus meninos”, disse eu do alto da minha sapiência, “é dinheiro que as pessoas entregam ao Estado para que uns senhores que são eleitos comprarem e pagarem todas essas coisas que servem as pessoas, como hospitais, escolas, polícias, estradas, etc.”. Silêncio.
Foi então que um deles me fez a pergunta que revelou a segunda condição que dificulta a mente infantil entender o que são impostos: “E se eu não quiser pagar isso? O dinheiro é meu!” Ou seja, uma criança, não dá o que é seu com leviandade. Só presentes de anos. Se em vez do euro, a moeda fosse gomas, não havia qualquer hipótese de reduzir o défice pelo lado da receita, aliás, não havia défice porque nenhuma criança entrega o seu saquinho de gomas a alguém que não conhece de parte de nenhuma. No máximo, empresta. Os miúdos prefeririam comer a sua riqueza toda e ficar de diarreia do que entregar as suas gomas a “uns senhores que são eleitos”... .
Mais uma vez expliquei. Expliquei o conceito de bem comum, de Estado, e ainda não tinha sequer chegado à parte das empresas públicas, já os meus filhos estavam indignados (não chegaram à fase da contestação porque em minha casa impera um regime de partido único e os meios de produção alimentares assim como todos os bens existentes são controlados por uma só entidade. E, claro, há censura). Eles estavam indignados porque não querem dar nada a ninguém. Emprestam, mas não dão. Disse que os impostos eram uma forma de empréstimo, mas eles responderam que não querem pagar os bancos do jardim (que foi um dos infelizes exemplos que eu dei sobre a gestão do Estado...) ou emprestar dinheiro para isso porque é uma estupidez. Porquê bancos? Quais bancos? Para quem?
Os meus filhos, assim como a maioria das crianças, são forretas e comodistas. E o pior é que nem gostam de tomar banho. Ora, se já é difícil explicar a uma pessoa que gosta de tomar banho porque é que ela tem de pagar metade do seu vencimento ao Estado, muito mais difícil é explicar as virtudes desta cobrança a um rapaz que vive bem com sarro e sem escola.

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