Foram anos a ouvir uma mentira

Isabel Figueiredo
4 de Outubro
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“Foram anos a ouvir uma mentira”. Esta frase é uma tirada publicitária de uma novela actual. Mas aplica-se dolorosamente à vida real.
E continuo a pensar no mundo da publicidade, tão agarrado aos nossos dias… Dou comigo a lembrar-me de tantas campanhas: se beber não conduza; se não quer enfrentar a obesidade, tenha uma alimentação saudável. E as nossas tentativas de educar os mais novos – se não estudares, se não dormires o suficiente, se só comeres doces, se, se, se. Defendemos publicamente e em privado, a certeza de que um comportamento determina uma situação.
Olhando com grande simplicidade para o passado recente e sem qualquer pretensão de ser exacta e exaustiva, vejo muitos comportamentos públicos e privados. Vejo auto-estradas vazias, estádios de futebol abandonados; lembro-me de escolas com sofisticados sistemas de ar condicionado e grandes piscinas em pequenas freguesias. Recordo o orgulho com que alguns afirmavam ter conseguido enganar o fisco; revejo a compra e venda de casas, de forma a não ter de pagar o IMI; lembro a facilidade com que se viajava em carros de serviço, os almoços ao fim de semana pagos com os cartões de crédito das empresas, as diferenças dos pagamentos, com ou sem recibo.
Olho para as terras mortas, sem capacidade de produzir e as fábricas fechadas. E em muitas das terras e das fábricas que conseguiram escapar a esta realidade, não se fala português. Os trabalhos mais duros estão entregues a outras pronúncias... Conheço quem tenha deixado o local de trabalho com as duas mãos ocupadas – uma com a indemnização e a outra, com carta para o fundo de desemprego. Conheço quem só tenho procurado emprego após o fim do subsídio de desemprego.
Será possível acreditar que nunca iriamos sofrer as consequências de tanta vigarice, tanto gasto inútil? Será possível acreditar que somos um país rico, cheio de indústrias lucrativas e riquezas naturais?..
Estamos a pagar as consequências de muitos comportamentos profundamente errados, praticados por eleitos e eleitores.
Estamos quase todos no mesmo barco. Digo quase, porque pobres haverá sempre e começa a ficar claro para todos, que não vão ser os verdadeiramente pobres, os mais lesados a partir de dia 15 de Outubro.
Mantem-se a esperança de que quem nos governa não desista. Porque ainda não ouvi alternativas válidas, nem criatividades geniais… só oiço mais do mesmo e um silêncio ensurdecedor sobre o passado tão recente.
Uma última nota – o último iPhone5 já está esgotado, ainda antes de chegar às lojas… e acho bem que o governo não explique tudo de uma vez. Se assim acontecesse, seria imediato um trabalho árduo pelo qual muitos cobrariam fortunas, para conseguir encontrar soluções, que permitissem aos seus clientes, uma fuga legal a mais impostos.

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