quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Os principais inimigos da segurança social são os seus defensores

OJE, 31/10/12, 00:20
Entrevista a João César das Neves

A segurança social não vai implodir, diz João César das Neves. O economista e professor diz que é relativamente fácil tornar o sistema sustentável, mas este tem grandes inimigos e que são os "defensores da segurança social", que sistematicamente atiraram para cima do sistema várias obrigações que o fragilizaram.
No Dia Mundial da Poupança o economista César das Neves afirma que os portugueses começaram a poupar quando o Governo fazia o contrário. Retomaram-se as preocupações com o futuro e a poupança é a forma de garantir a passagem inter-geracional. Critica os que afirmam que a segurança social "morreu", porque esta é sustentável e com facilidade pode ser garantida por dezenas de anos. Defende o ligeiro aumento das contribuições da idade da reforma.
Como vê, neste momento, os portugueses e a poupança?
A poupança é, neste momento, uma das grandes noticias que temos sobre a crise. Estão a acontecer coisas muito importantes nesta evolução da economia, sendo que as pessoas estão a olhar para as más, mas acontecem várias boas e uma delas é com a poupança.
Vivemos este longo endividamento que nos arruinou e que nos trouxe a esta situação de queda brutal da taxa de poupança. Chegou a ser 4% do rendimento disponível, mas logo em 2008 aumentou para o dobro, 8%. Foi um fenómeno imediato e notável. Aliás, enquanto o Governo continuava a esbanjar, as pessoas começaram a reagir perante o susto que foi a falência do Lheman Brothers e depois a crise internacional.
A poupança chegou aos 9%, depois voltou a cair e agora está a subir com os últimos dados a indicar 9%, o que dá um número que não sendo extraordinário, é significativo.
Fomos heróis do máximo de poupança do mundo nos anos 60 e 70, orgulhávamo-nos muito disso, mas isso era um sinal de subdesenvolvimento. Era sinal de um país que não tinha crédito ao consumo, que não tinha crédito para quase nada e que não tinha segurança social para todos e por isso as pessoas ou poupavam ou estariam desgraçadas. Era a existência de mecanismos deficientes na economia.
Felizmente o pais desenvolveu-se, apareceu o crédito, a segurança social e tudo isso permitiu às pessoas deixarem de poupar e o país passou a atuar como a maior parte dos países desenvolvidos. Só que os valores (de endividamento) atingiram níveis inacreditáveis, muito próximos dos americanos, uma economia que está completamente ligada ao crédito. Foi um período dramático de descapitalização da economia.
Este fenómeno da queda de poupança das famílias é um fenómeno que se enquadra no problema geral de endividamento do país e da descapitalização, que é neste momento o que nos está a assolar. Mas o ponto significativo é que houve um salto imediato na taxa de poupança, como disse, e isto mostra como as pessoas reagem aos incentivos. Na altura os agentes perceberam o que tinham de fazer, aliás com o Governo a afirmar o contrário.
Para se poupar mais é preciso incentivos fiscais, tipo os que vigoraram para os PPR, ou não é necessário?
Considero que a decisão da poupança tem a ver com a situação económica de cada um. Os incentivos fiscais vão alterar a forma como se poupa, onde se coloca o dinheiro. Logo, quanto muito irão afetar uma decisão daquele tipo e duvido, por isso, que os incentivos fiscais tenham um grande impacto na decisão da poupança. Aliás, a poupança desceu muito no momento em que o Estado concedia muitos incentivos fiscais.Este tem como efeito orientar a poupança para certos produtos financeiros em vez de ser para outros, mas se os cidadãos não estiverem interessados na poupança, não se consegue nada.

Daquilo que se sabe do OE de 2013 leva psicologicamente à poupança? É um incentivador da poupança?
Sim e pelos dois lados. Já os primeiros economistas tinham notado que havia dois efeitos aqui: a capacidade de poupar e a vontade de poupar.
O OE vai, pelo lado dos impostos, atacar violentamente o rendimento das pessoas e por esse lado teremos menos capacidade para poupar. Por outro lado, precisamente por estarmos aflitos, temos mais vontade de poupar porque o futuro assusta e as pessoas irão "apertar o cinto". Este será um efeito misto e vamos ver o que irá acontecer.
Tal como disse a evolução dos últimos quatro anos foi muito significativa e é provável que as coisas continuem assim, que as pessoas se habituem a um nível de poupança porque o crédito está fechado e vêem, o futuro, com susto.

Acredita na implosão do sistema de segurança social dentro de poucos anos?
Sinceramente não acredito. Há vários erros na análise, mas claro que temos um problema sério que foi causado, sobretudo, pelos defensores da segurança social. Foram pessoas que atiraram para cima do sistema várias situações que evidentemente o tornam frágil em termos financeiros. Os principais inimigos da segurança social são os defensores da segurança social.
É preciso dizer que o que está por detrás da segurança social é uma coisa excelente e que é vivermos mais tempo e com boa saúde. É um problema em que temos de um lado o facto de vivermos mais tempo e depois temos um crescimento económico que "vai acontecendo". Logo temos mais para distribuir não menos. Não existe um problema económico da segurança social e basta ser só realista, ou seja, aumentar a idade da reforma (porque vivemos mais tempo e em melhores condições) para resolver a questão.
O que aconteceu foi que para este aumento da idade da morte houve uma redução da idade da reforma, o que é um disparate. Criámos não um problema económico na segurança social, mas um problema financeiro. Se aqueles que pagam continuarem a pagar o mesmo, e se aqueles que recebem continuarem a receber o mesmo, não chega o dinheiro.
E uma irresponsabilidade e deve dizer-se que em Portugal é muito mais frágil do que em outros sítios, porque em outros locais começaram muito mais cedo e têm um problema muito maior. O nosso é menor pois não temos ainda um défice da segurança social como a maior parte dos nossos parceiros tem, e a decisão do eng. Sócrates no seu primeiro Governo de fazer uma pequena reforma da segurança social foi suficiente para atirar o problema para daqui a 20 anos. A questão está já adiada e se tivesse um pouco mais teria resolvido a questão de vez, mas infelizmente não o conseguiu fazer.
Mas qualquer outra reforma dentro deste modelo - possivelmente dentro desta crise, isso será feito - irá resolver a questão. Acredito que mais um pequeno aumento da idade da reforma conseguirá resolver a situação.

Fala de que idade para a reforma?
Não tenho contas feitas e não sou especialista nessa matéria. Por aquilo que vi não será necessário nenhum aumento brutal, bastando ter realismo, já que as pessoas estão a ganhar mais e a viver mais tempo, logo pode-se subir as contribuições e aumentar a idade.
Pode haver um juízo para que este sistema seja estável, tanto mais que é um sistema que todos querem. Basta ser realista, embora boa parte dos decisores que são defensores "nominais" do sistema de segurança social não fizessem as contas e atirassem para cima do sistema responsabilidades que depois não puderam ser sustentadas.
Acho uma tolice dizer-se que o sistema está falido ou que o Estado português "morreu". Temos de abandonar isso, é um "papão" que alguns usam com finalidades políticas inconfessáveis.
E embora seja um problema exigente, um problema financeiro muito grande porque se inicia quando as pessoas começam a trabalhar e só acaba quando as pessoas morrem, estamos a falar do mais longo de todos problemas financeiros que existem no mundo, mas repito, não tem dificuldade técnica especial.
Também é verdade que na segurança social tem de se separar várias coisas diferentes. Temos um sistema de pensões que é um sistema de capitalização; temos um sistema de seguro, caso do subsídio de desemprego; e depois temos um problema de redistribuição, essencialmente para os mais pobres e que não descontaram. Estes três problemas têm de ser tratados de forma diferente, mas há dinheiro para tudo e as pessoas conseguem resolver desde que o façam com seriedade e equilíbrio. Infelizmente a demagogia neste campo é muito forte.

Este OE poderia ter isso em consideração e não tem...
Este Orçamento está espartilhado à nascença. Boa parte das pessoas que estão a insultar o OE não percebem que este estava pré-definido, primeiro pela Troika e pelo Memorando, e depois pela decisão do Tribunal Constitucional que proibiu o caminho que tinha sido decidido inicialmente e que era um caminho que ia pelas despesas, embora de uma maneira brutal e não estrutural, mas conjuntural. Ora, isso ficou proibido por esse lado e houve que arranjar uma outra solução.
A primeira ideia a envolver a TSU funcionaria melhor do que a solução entretanto proposta a nível de consolidação?
Não sendo especialista em fiscalidade posso afirmar que tenho grandes hesitações. Desde logo, a medida incidiria diretamente sobre as empresas e o setor produtivo, o que me parece sempre uma má ideia. É evidente que via IRS acaba-se por ir lá, mas já está filtrado. São as pessoas a gastar e não as empresas a pagar.
Depois há um outro problema que se deve ao facto de a TSU ser proporcional e não ser progressiva, o que significa que iria afetar os mais pobres, independentemente de alguns ajustamentos, haveria um problema de progressividade e, portanto, de injustiça. E depois politicamente seria algo impossível. Não se pode no mesmo imposto descer para uns e subir para outros.
Aliás, quando a Troika pediu para se descer a TSU, essa foi a única medida da Troika que não foi aplicada, para as empresas e sem mais nada. Isso não foi feito e um ano depois vai-se tentar a fazer isso, a par de se tentar subir a TSU dos trabalhadores que estão debaixo do mesmo teto de quem iria pagar menos... . Não consigo perceber. É uma insensibilidade política evidente.

A demografia em Portugal tem vindo a ser afetada ao longo dos últimos 15 anos. De que forma esta situação impacta na poupança e na segurança social?
Estamos com uma catástrofe demográfica de primeira dimensão. Portugal está bem pior do que os outros europeus. Temos duas catástrofes no mundo demográfico, que são a Rússia e o Japão, depois a China e a Europa vêm a seguir, sendo que o pequeno Portugal - que não afeta nada - está pior do que qualquer destes blocos, com uma baixíssima taxa de natalidade.
Esta é uma situação dramática, para além das questões do casamento que criam instabilidade na relação das pessoas e daí também os problemas da segurança social, velhice e de isolamento. Estamos a ter um problema gravíssimo em termos sociais e para o qual ninguém está a olhar, estando todos centrados na crise e no desemprego, sem que ninguém olhe para aquilo que é realmente o mais importante e que terá consequências a longo prazo, na próxima geração.

E quais as consequências práticas para o país?
Portugal aguenta-se, acredito eu, mas duvido que se aguente a cultura portuguesa, com outros a virem para cá. O que isto significa em termos de futuro: ninguém sabe, mas esta é a questão mais decisiva e a questão que ninguém fala.

Um último comentário global sobre esta proposta de OE?
O OE cumpre o que está previsto, os 4,5%, que já é um alívio. Infelizmente cumpre o défice, mais uma vez pelo lado da receita e não pelo lado da despesa que aumenta mais que a inflação e mais que o produto nominal. A despesa volta a aumentar em todas as dimensões. É preciso dizer que em 2011 foi a primeira vez desde1950 que a despesa pública desceu em termos nominais.
Em 60 anos não houve qualquer ano em que descesse a despesa pública. Desceu 5% em 2011 e voltou a descer este ano 10%. Foi uma vitória espantosa, algo inesperado, mas as forças instaladas têm poder e reagiram, conseguindo invertendo a situação. Debaixo de escolta como estamos não podíamos fazer outra coisa e essa outra coisa só podia ser pelo lado das receitas, que é o meio que foi sempre usado ao longo das últimas décadas em Portugal para conseguir fingir que se resolve o problema.
O problema português nunca foi uma questão de receita, foi sempre o de despesa. Quando se aumenta a receita só se confirma a despesa e logo aumenta-se o problema.
Vamos conseguir o défice, mas nos dois primeiros anos de uma boa maneira e nestes dois próximos anos será dentro do modelo do costume, o que não é nada bom.

Halloween ou Pão por Deus

Em véspera de Todos-os-Santos, (All Hallows Eve, de onde derivou Halloween) vale a pena pensar no modo como educamos as nossas crianças, cedendo à globalização dos costumes e perdendo em troca a função educativa das nossas tradições.
Em Pão por Deus ficamos a saber a história desta antiga tradição portuguesa que nalgumas paróquias foi retomada com um novo e solidário significado
Recordo, a propósito posts antigos do Povo onde se reflecte sobre esta descristianização subtil e aparentemente inocente em que vamos caindo, substituindo hábitos cristãos por folias pagãs:

Europa trocou crucifixos por abóboras Cardeal Tarcísio Bertone
Halloween Aura Miguel
Noite das bruxas Aura Miguel
Com grande alegria de toda família o Pedro Maria chegou a casa! O avô aproveita para agradecer todas as mensagens de parabéns e todo o cuidado com ele e connosco durante estes dias. Agora é tempo de vê-lo crescer na graça de Deus.

3ª Catequese do Ano da Fé - A Fé da Igreja

03 Cate Que Se 20121031

Pedro avô e Pedro neto

Pedro Avo Eneto

O medo de verdade

Público 2012-10-31  Miguel Esteves Cardoso

Há uma imagem que me dá pesadelos e que me assusta tanto que me custa olhar para ela: é o Perro Semihundido, de Goya. Evite vê-lo, se puder.

O medo é uma coisa fácil de mostrar mas difícil de fixar. O cão semiafogado de Goya, à beira de morrer afogado, tem os olhos abertos a olhar para a massa de água que o vai matar.

Os cães têm medo muitas vezes. Mas este sabe que vai morrer. É este o último momento de vida: a vida suficiente para saber ter medo do que lhe vai acontecer.

Na noite das bruxas brinca-se com os sustos. Os sustos não dão tempo para ter medo. Para ter medo é preciso tempo. É preciso um momento parado, como aquele durante um acidente violento de automóvel, em que o tempo, por crueldade, se alenta, para que possamos contemplar o horror que aí vem, que já não pode ser evitado, que parece fazer render o já ser tarde de mais para fazer qualquer coisa.

Quando se tem mesmo medo, não se consegue fechar os olhos. O cão de Goya tem os olhos bem abertos. É o único ser vivo. O resto são coisas brutas que não sabem o que fazem, que nem o prazer de matar têm.

Há muitas interpretações do mural de Goya mas nem sequer interessa se o cão está à beira da morte, seja por afogamento, seja por outra razão. O que importa é a aflição de quem olha para a cabeça daquele cão e imediatamente a reconhece. É por isso que faz medo: não ameaça nem assusta. Declara uma condição que um dia será a nossa, mas de que já temos medo desde que nascemos.

Sandy e Nossa Senhora

Nossa Senhora rodeada de destroços provocados pela passagem da tempestade Sandy em Queens, NY.
Fotografia do Wall Street Journal

El perro semihundido

El Perro semihundido
Francsico de Goya (1819-1823)
Óleo sobre revoco, trasladado a lienzo
131,5 cm × 79,3 cm
Museo del Prado
 

Pão por Deus

Em Portugal, no dia de Todos-os-Santos as crianças saem à rua e juntam-se em pequenos bandos para pedir o pão-por-deus de porta em porta. As crianças quando pedem o pão-por-deus recitam versos e recebem como oferenda: pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, amêndoas ou castanhas, que colocam dentro dos seus sacos de pano. É também costume em algumas regiões os padrinhos oferecerem um bolo, o Santoro. Em algumas povoações chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’.
Esta tradição teve origem em Lisboa em 1756, 1 ano após o terremoto que destruiu Lisboa em 1º de Novembro de 1755. Nesse evento morreram milhares de pessoas e a população da cidade - na sua maioria pobre - ainda mais pobre ficou.
Como a data do terramoto coincidiu com uma data com significado religioso (1 de Novembro), de forma espontânea, no dia em que se cumpria o primeiro aniversário do terramoto, a população aproveitou a solenidade do dia para desencadear, por toda a cidade, um peditório, com a intenção de minorar a situação paupérrima em que ficaram.
As pessoas, percorriam a cidade, batiam às portas e pediam que lhes fosse dada qualquer esmola, mesmo que fosse pão, dado grassar a fome pela cidade. E as pessoas pediam: "Pão por Deus".
Esta tradição perpetuou-se no tempo, sendo sempre comemorada neste dia e tendo-se propagado gradualmente a todo o país.
Até meados do séc. XX, o "Pão-por-Deus" era uma comemoração que minorava as necessidades básicas das pessoas mais pobres (principalmente na região de Lisboa). Noutras zonas do país, foram surgindo variações na forma e no nome da comemoração. A designação indicada acima (Dia dos Bolinhos) em Lisboa nunca foi utilizada, nem era sequer conhecido este nome.

Vaticano: Papa assinala 500.º aniversário da inauguração do teto da Capela Sistina

Santa Sé descarta hipótese de limitar entradas de visitantes que querem ver pinturas de Miguel Ângelo, realizadas entre 1508 e 1512

Cidade do Vaticano, 30 out 2012 (Ecclesia) – Bento XVI vai presidir nesta quarta-feira à celebração da oração de vésperas na Capela Sistina, do Vaticano, para comemorar o 500.º aniversário da inauguração do teto pintado por Miguel Ângelo (1475-1564) entre 1508 e 1512.
A Santa Sé anunciou hoje que a cerimónia vai ter início pelas 18h00 (hora local, menos uma em Lisboa).
A decoração do espaço de 1100 metros quadrados foi confiada ao pintor, escultor e arquiteto italiano por Júlio II, Papa entre 1503 e 1513, que assinalou o final da obra com o rito solene das vésperas de todos os Santos, há 500 anos.
Segundo o jornal do Vaticano, a capela é visitada todos os dias por "10 mil pessoas, com picos de 20 mil nos períodos de máxima afluência turística".
"São pessoas de todas as proveniências, línguas e culturas. De todas as religiões ou de nenhuma", refere o diretor dos Museus do Vaticano num artigo publicado pelo 'Osservatore Romano', acrescentando que a "adoção do número limitado [de visitantes] não será necessária".
A Capela Sistina deve o seu nome a Sisto IV, Papa entre 1471 e 1484, que promoveu as obras de restauro da antiga Capela Magna a partir de 1477.
Júlio II, sobrinho do Papa Sisto, decidiu modificar parcialmente a decoração do espaço, confiando a tarefa a Miguel Ângelo, que pintou a abóbada e a parte alta das paredes  com cerca de 300 figuras: nos nove quadros centrais estão representadas histórias do Génesis, primeiro livro da Bíblia, desde a criação ao dilúvio.
De dimensões iguais ao templo do rei Salomão, em Jerusalém – 40,5 metros de comprimento, 13,2 de largura e 20,7 de altura -, a capela que alberga os Conclaves dos últimos séculos, onde são eleitos os Papas, ficou assim conhecida pelos seus frescos de temática bíblica.
A Sistina começou por ter elementos do século XV, como as histórias de Moisés e de Cristo, além dos retratos dos Papas, trabalho que foi executado por uma equipa de pintores originalmente formada por Pietro Perugino, Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio e Cosimo Rosselli.
Perto do final de 1533, o Papa Clemente VII encarregou novamente Miguel Ângelo de modificar a decoração da Sistina, pintando na parede do altar o Juízo Final.
João Paulo II (1920-2005) fez referência a esta obra na Constituição Apostólica ‘Universi Dominici Gregis’, sobre a eleição do Papa, quando escreveu: “Disponho que a eleição continue a desenrolar-se na Capela Sistina, onde tudo concorre para avivar a consciência da presença de Deus, diante do qual deverá cada um apresentar-se um dia para ser julgado”.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Não tenho de pagar a Fundação Saramago

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
7:33 Terça feira, 30 de outubro de 2012
Na semana passada, descobrimos que a Câmara Municipal de Lisboa do genial António Costa vai ficar responsável pelas despesas da genial Fundação Saramago. Ou seja, água, luz e demais coisas comezinhas não cabem na genialidade da Fundação. Os génios, como se sabe, não sabem o que é a conta da luz. Seja como for, este encargo significa mais 50 mil euros por ano. Coisa pouca, diga-se. Nada que se compare à doação da Casa dos Bicos à Fundação Saramago, depois de ter sido devidamente arranjada com obras financiadas pelo erário público. Portanto, bem vistas as coisas, tudo isto acaba por fazer sentido: a CML fez uma espécie de habitação social para um génio, e agora tem de pagar as despesas correntes do génio. E, atenção, as declarações da Presidenta da Fundação também fazem todo o sentido. Pilar del Rio anda por aí a dizer que a democracia está morta, que não há democracia. Tenho de concordar: de facto, não há democracia quando alguns privilegiados dispõem deste acesso directo ao erário público.  
Mas deve ser tão bom bancar o benemérito com o dinheiro dos outros.

O Pedro Maria chegou a casa!

A decadência da Europa

Sol, 30 de Outubro, 2012 Jaime Nogueira Pinto

Foi há um século a primeira guerra dos Balcãs: enfrentou uma coligação dos Estados cristãos da região – a Grécia, a Sérvia, a Bulgária e o Montenegro – contra o Império otomano, durou até ao Verão de 1913 e foi logo seguida por outra entre Estados da coligação vencedora – a Grécia e a Sérvia contra a Bulgária.
Esta segunda guerra terminou rapidamente com a intervenção da Roménia. Os turcos valeram-se da divisão entre os cristãos para retomarem a iniciativa e recuperar parte dos territórios perdidos.
O pior foi que um ano depois a Europa estava toda na Grande Guerra – o conflito que marcou o princípio do fim do Euromundo e o princípio da decadência do Continente.
A História é assim. A partir da formação da Alemanha Unida, pela estratégia de Bismarck, apoiado no primeiro exército do tempo, a Europa encontrava um novo destino, mas também o princípio do seu fim. Até ali, as potências da periferia geográfica – a Grã-Bretanha e a Rússia – tinham sido, conjunta ou alternativamente decisivas, numa balança de poder feita de mobilidade e equilíbrio de alianças. A França da Revolução e de Napoleão tentara a hegemonia e fora derrotada por uma coligação de geometria variável, mas onde a Inglaterra estivera sempre presente. A Santa Aliança e a Quádrupla Aliança tinham sido tentativas de manter a velha ordem tradicional, a que o nacionalismo e a democracia, novas e vitoriosas ideias, tinham posto termo.
A Alemanha era um produto dessas novas ideias e forças com o realismo modernizante de Bismarck, usando o nacionalismo alemão e a máquina militar prussiana. Bismarck bateu sucessivamente os Habsburgo de Viena e a França de Napoleão III. Depois, deu a cada uma das potências o que ela queria – solidariedade ideológica à Rússia e à Áustria, neutralidade colaborante ao Império Britânico, encorajamento à expansão colonial francesa.
Os seus sucessores deram cabo desta política e a Alemanha ficou isolada e foi para a guerra isolada, em 1914.
Ao nacionalismo militar conservador de 1914, sucedeu o nacionalismo socialista e popular de Hitler, gerado na humilhação da paz punitiva de Versalhes. Com ele, a Alemanha mobilizou contra si a maior coligação da História. Em 1945, foi vencida e a Europa entrou no seu Ano Zero, já que, quer os vencidos alemães e italianos, quer os vencedores ingleses e franceses, estavam com as suas economias e sociedades destruídas, divididas e falidas. Os impérios ultramarinos iam desaparecer em consequência dos princípios da nova ordem internacional e do nacionalismo das áreas coloniais.
Não entender que estas guerras civis europeias e as consequentes derrotas e perdas tinham que ter um preço na economia e nas finanças dos países (logo, na vida das pessoas) é que surpreende. A Europa já não tem impérios, não produz energia, importa comida, deixou de ser a fábrica do mundo, não tem poder militar.
Está em decadência há muito, embora seja o lugar aprazível onde quem ganha muito dinheiro vem gastá-lo. Por que é que havia de ter um alto nível de vida?

O que é a fé? (II)

O que é a Fé? (II)

É também o título da 2.ª catequese sobre o Ano da Fé que hoje foi publicada em português e que podem encontrar aqui.
Não foi, seguramente, apenas coincidência, que o título da mensagem do Povo de hoje – preparada ontem – coincide literalmente com o título desta catequese que só hoje conheci e li.
Faz hoje também uma semana de vida o Pedro Maria: uma semana de mar alto, mas onde o testemunho dos pais e a experiência pessoal dos avós acerca da fé é magistralmente descrita nestas palavras do Santo Padre nesta 2.ª catequese:
A fé oferece-nos precisamente isto: é um entregar-se confiante a um «Tu», que é Deus, o qual me confere uma certeza diversa, mas não menos sólida do que aquela que me deriva do cálculo exacto ou da ciência. A fé não é simples assentimento intelectual do homem a verdades particulares sobre Deus; é um gesto mediante o qual me confio livremente a um Deus que é Pai e que me ama; é adesão a um «Tu» que me dá esperança e confiança.
O que é a fé?
A atitude humana que melhor pode descrever a atitude de fé é a da confiança. Ter fé é, no sentido mais básico, confiar em algo ou alguém diferente de nós mesmos. Assim, opõem-se-lhe duas atitudes: a da desconfiança total, que levaria, em muitos casos, ao desespero; ou a da autoconfiança total, ou seja, a da confiança apenas em nós mesmos. Portanto, a fé pressupõe capacidade de confiar e capacidade de confiar noutros. Ler aqui
Um milhão de páginas vistas O Povo passou ontem o nº redondo de 1 000 000 de páginas vistas…..
Comunicado FLE - O Custo por Aluno Fernando Adão da Fonseca
Poupar e melhorar na educação Alexandre Homem Cristo
Frase do dia Luigi Giussani
Difícil é fazer bem João César das Neves

Dois textos a não perder

O acontecimento de uma humanidade diferente capaz  de despertar o interesse pela fé – Intervenção do Padre Julian Carrón no Sínodo dos Bispos
Sinos da Europa - Entrevista ao Papa sobre Cristianismo Europa e futuro por ocasião da antestreia do filme "Bells of Europe" perante o Sínodo dos Bispos




O que é a fé?

O que é a fé?
A atitude humana que melhor pode descrever a atitude de fé é a da confiança. Ter fé é, no sentido mais básico, confiar em algo ou alguém diferente de nós mesmos. Assim, opõem-se-lhe duas atitudes: a da desconfiança total, que levaria, em muitos casos, ao desespero; ou a da autoconfiança total, ou seja, a da confiança apenas em nós mesmos. Portanto, a fé pressupõe capacidade de confiar e capacidade de confiar noutros. Ler aqui
  Um milhão de páginas vistas O Povo passou ontem o nº redondo de 1 000 000 de páginas vistas…..
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Dois textos a não perder

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O ónus da prova

úblico 2012-10-30 Pedro Lomba

A miséria a que chegámos provou, mesmo para os mais renitentes à ideia, que não vai ser possível chegar ao fim do acordo com a troika, ou até mesmo ao fim da próxima "fase" do acordo, sem alterar drasticamente as funções do Estado. Há anos que se vem falando em mudar as funções do Estado, sempre com generalidades piedosas e inconsequentes. Agora deixou de haver tempo para a hesitação. Quem quiser renegociar o acordo com a Europa e o FMI está obrigado a pensar no Estado que esse novo acordo comportaria. A urgência inclui aquilo a que se chama funções sociais ou o Estado Social como o conhecemos, e que durante anos temos vindo a defender sem propriamente o definir.

Se renegociar implica esse consenso, também não será fácil atingi-lo. Bem pode Passos Coelho, interessado na "limpeza" do seu Governo, apelar ao PS para a "refundação" do memorando da troika, o que evidentemente significa a refundação do regime e uma revisão constitucional em conjunto. Previsivelmente, o PS começou por responder que não tem agora interesse em se associar a um Governo em crise. É preciso dizer que nunca teve. Mas o PS foi mais longe na sua negação. Disse também que não aceitará nenhuma revisão constitucional que contenda com as funções sociais do Estado.

O PS esqueceu, mas podemos lembrar. Quando os socialistas começaram, a partir de 2010, a odisseia dos planos de estabilidade e crescimento, perceberam que não podiam fugir a cortar no Estado social. De PEC em PEC, o PS ia agravando o seu choque entre a ideologia e a realidade. Ora se viam a anunciar cortes na despesa com medicamentos, ora davam como inescapáveis as reduções no rendimento social de inserção, nos abonos de família, nas contribuições para a ADSE, nas transferências para a Segurança Social. Mesmo no famoso PEC IV que, para alguns, ter-nos-ia livrado de horrores vindouros, o PS precisou de aceitar o congelamento das pensões para 2012 e 2013, o corte progressivo das pensões mais elevadas ou a redução dos dias de indemnização por despedimento, um daqueles típicos casos de legislação social que mostra bem por que o Estado Social não se resume a serviços públicos e prestações sociais.

Foi assim desde o PEC I. Não por acaso, as primeiras reacções em choque partiram de dentro. Manuel Alegre (quem mais?) disse que não via "neste PEC um suficiente esforço de partilha". Não custa admitir que aquele crescendo de devastação estava a ser intolerável para o anterior primeiro-ministro, nem que aquilo que ele mais temia no pedido de assistência externa fosse uma razia terrível no nosso Estado providência. O que interessa recordar é que o PS precisou nos últimos tempos do seu governo de mudar de maneira quantitativa e qualitativa alguns pontos fulcrais das funções sociais do Estado.

Porquê esta quase absoluta inércia em repensar agora o que puder ser repensado? Verdade que os partidos, quando estão na oposição, esquecem rapidamente que acabaram de passar pelo Governo. E este já não é o PS que cortava em abonos. É um PS naturalmente contra qualquer compromisso que implique uma certa forma de co-responsabilização política. Compete-lhe portanto satisfazer o ónus da prova. Se recusar esse debate alargado sobre todas as funções do Estado, o PS precisa de esclarecer como é que conseguiria governar o país nestas circunstâncias sem cair no mesmo destino de Sócrates e, por sinal, Passos Coelho: de corte em corte, de redução em redução, até ao desastre final.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Doar 20 milhões de euros e receber chuva de críticas

Leonídio Paulo Ferreira
DN 2012-10-29

Quando foi a última vez que deu cinco euros a um pobre? Não puxe muito pela memória. A pergunta faz tanto sentido como as críticas ao dono da Zara por ter doado 20 milhões de euros à Cáritas espanhola.
É que houve logo vozes que fizeram questão de lembrar que se tratava de 0,05% da fortuna de Amancio Ortega, sacrifício igual ao de cinco euros para um espanhol que tenha um pé de meia de dez mil euros. Outros preferiram denunciar a generosidade do terceiro homem mais rico do mundo como marketing da Inditex, grupo que detém ainda a Massimo Dutti e a Bershka. E a escritora Lucia Etxebarria publicou no Facebook que o magnata arranjou forma de cortar nos impostos.
Ao contrário do seu país, mergulhado na recessão, o ano tem sido excelente para Ortega, milionário de 72 anos que gere a partir da Galiza o maior grupo têxtil mundial. No primeiro semestre os lucros aproximaram-se dos mil milhões de euros, mais 32% do que em 2011, muito graças à inauguração das novas lojas na China.
Com tanto dinheiro a entrar, a fortuna do dono da Zara aumenta a tal ritmo que a revista Forbes o dava como quinto mais rico na sua última lista de milionários mas a Bloomberg já o coloca em terceiro, com perto de 40 mil milhões de euros. Só está atrás de Bill Gates e de Carlos Slim, conhecidos pela sua filantropia. Aliás, o americano e o mexicano chegaram a juntar esforços em 2010 para oferecerem cem milhões de dólares para um programa de saúde destinado à América Central.
Se foi nos Estados Unidos que começou a tradição dos magnatas doarem parte da fortuna, espécie de gesto de ética protestante em agradecimento à sociedade pelo êxito, o fenómeno é agora tão global como os negócios. E por isso Ortega só surpreende porque, escreve o El País, "este tipo de ações são pouco frequentes em Espanha".
Mesmo assim, a Cáritas espanhola teve doações privadas de 166 milhões de euros no ano passado. Que lhe permitiram apoiar 1,8 milhões de pessoas. Este ano, o dinheiro de Ortega dará de certeza jeito. O país aproxima--se dos seis milhões de desempregados e tal como em Portugal não se vislumbram sinais de uma saída para a crise.
É evidente que Ortega deu uma migalha do que tem; que 20 milhões de euros é tanto como o salário anual de Pablo Isla, o gestor que comanda a Inditex. Pode-se ainda questionar sobre as condições de trabalho nas fábricas mundo fora que fornecem as lojas da Zara e suas irmãs, como faz Etxebarria. E defender que o contributo social dos ricos é através do pagamento de impostos e não da caridade. Mas mesmo assim esta doação é útil e de saudar.
É preciso não esquecer que há muitos tipos de rico. Ortega pertence à categoria dos que nasceram pobres. Filho de um ferroviário de Castela-Leão, chegou com a família à Galiza com 14 anos. Começou a costurar com a sua primeira mulher, Rosalia, na sala de estar. Que ninguém diga que este homem não sabe o que são dificuldades.

Comunicado FLE - O Custo por Aluno

COMUNICADO: O CUSTO POR ALUNO
Foi com grande expectativa que o FLE - Fórum para a Liberdade de Educação recebeu o relatório do Tribunal de Contas sobre o "Apuramento do Custo Médio por Aluno" nas escolas Portuguesas. Embora incidindo num único ano lectivo, de 2009/2010, esclarecendo ainda o Tribunal de Contas que o valor apurado não considera diversas rubricas, tais como (i) as despesas de investimento (nomeadamente as da Parque Escolar E.P.E e outras despesas em infra-estruturas), (ii) as despesas do MEC imputáveis à administração, manutenção e gestão das escolas estatais (nomeadamente, com a contratação, gestão, avaliação e formação dos professores) e (iii) algumas despesas das Autarquias Locais, os cálculos apresentados permitem-nos perceber que existem muitas e diversificadas alternativas ao modelo actual em vigência que, sem acréscimo de custos para o Estado, permitirão reformar de forma significativa e determinante o sistema educativo Português.

Os inimigos da liberdade de escolha na educação acenam frequentemente com o fantasma do custo para o Estado das escolas privadas. O facto deste relatório evidenciar que este custo é superior nas escolas estatais deve afastar definitivamente os argumentos que pretendem que o Estado diferencie as escolas em função de quem é o seu dono em vez de só e apenas em função da qualidade do seu ensino e da preferência que os pais têm entre elas. A principal utilidade que o relatório traz é a de mostrar que um melhor serviço prestado às crianças e jovens portugueses não pode ter a ver com a questão da propriedade da escola ser privada ou estatal, mas sim com a qualidade da mesma.

Com um sistema educativo assente nos princípios da liberdade de educação, entendida como a liberdade de escolha da escola e de criação de escolas, o aluno passa a ser a única razão de ser de tudo o que tem a ver com a educação, com as escolas a existirem para os alunos e não os alunos para as escolas. Um sistema educativo livre, em que o Estado é apenas regulador e garante da qualidade das escolas, permitirá a Portugal oferecer à próxima geração uma escola, seja ela do Estado ou privada, que usufrui da autonomia necessária, sendo por ela responsabilizada, para adaptar o seu currículo, os seus programas, a sua organização pedagógicas e as suas dinâmicas internas às principais características, anseios e necessidades dos seus alunos.

Assim, teremos uma escola que promove a inovação, o empreendedorismo e a cidadania, representando um passo em frente na consolidação da nossa identidade e da democracia em que vivemos. Sem custar ao Estado mais recursos, a liberdade de educação fomenta ainda a escolha livre e responsável, definindo um novo paradigma de progresso pelo qual todos ansiamos.

Centrar a análise deste relatório na questão dos custos, aproveitando-os para fomentar a discórdia e o divisionismo, é impedir Portugal de aproveitar a oportunidade para assumir a liberdade de educação como o destino de excelência ao qual todos desejamos chegar.

Lisboa, 29 de Outubro de 2012

O Presidente do FLE

Fernando Adão da Fonseca

Um milhão de "pageviews"

O Povo acabou de ultrapassar o primeiro milhão (1 000 000) de páginas visitadas.
Obrigado aos fiéis leitores

Poupar e melhorar na educação

Alexandre Homem Cristo, i-online 29 Out 2012

Em Portugal, o debate é pouco racional e os conceitos de melhoria e poupança são raramente compatíveis. E a maioria dos portugueses recusa-se a cortar na educação
Quanto custa educar um aluno numa escola pública? A pergunta esteve, há tempos, no centro do debate. Estavam então em causa cortes no financiamento público às escolas com contrato de associação, por ordem de Isabel Alçada. Estimativas, oficiais e não-oficiais, não faltaram. E cada uma coincidente com os interesses de quem as apresentava. Erraram quase todos. Mas pior do que isso foi ter-se reduzido a questão do custo por aluno ao confronto entre escolas estatais e escolas privadas. Por isso, quando os cortes ocorreram, o debate murchou. Acontece que está, sempre esteve, muito mais em causa. Tal como avaliar a gestão dos recursos nas várias escolas do Estado. Ninguém queria saber. E, assim, o custo por aluno manteve-se uma incógnita. Até hoje.
O Tribunal de Contas publicou agora os números no seu aguardado relatório de auditoria. No ano lectivo 2009/2010, o custo médio por aluno numa escola do Estado foi de 4920 euros, para os 2º e 3º ciclos do ensino básico e secundário. Nas escolas com contrato de associação (escolas públicas que não pertencem ao Estado), o custo médio foi de 4522 euros. Ou seja, menos 400 euros do que nas escolas do Estado. É certo que estes valores, e outros que constam no referido relatório, já estarão longe da realidade actual. Desde esse ano lectivo, muito mudou. Nomeadamente a necessidade de conter a despesa pública. Mas isso não significa que, através deles, não possamos retirar importantes conclusões.
Em primeiro lugar, a questão que mais marca o debate. As escolas com contrato de associação têm, em média, um custo por aluno menor do que as escolas estatais. Dito de outro modo, em 2009/2010, o Estado poupou 21 milhões de euros ao ter 53 mil alunos nas escolas com contrato de associação. E apesar dos valores não serem extrapoláveis para os anos lectivos seguintes, a expectativa é que a tendência se mantenha. Até porque a contenção da despesa pública atinge ambos os tipos de escola. Em segundo lugar, descobrimos que o custo por aluno varia conforme as regiões do país. O facto, em si, não é surpresa, mas os valores são. Entre a região Centro, a mais cara, e a região do Algarve, a mais barata, a diferença por aluno atinge os 608 euros. Ou seja, no total de alunos, milhões de euros separam estas regiões.
Estas duas conclusões têm algo importante em comum. Ambas permitem uma melhor gestão dos recursos. Porque realçam a eficiência da gestão das escolas públicas com contrato de associação. E porque permitem a comparação entre escolas estatais da mesma região, identificando-se os casos de má gestão. Sim, estas duas conclusões revolucionam o debate. A partir de hoje, será possível melhorar na educação enquanto se poupa nos recursos.
Não tenhamos ilusões. Há ainda um longo caminho pela frente. Em Portugal, o debate é pouco racional e os conceitos de melhoria e poupança são raramente compatíveis. Numa sondagem recente (i, 22.10.2012), 82,5% dos inquiridos defendeu cortes na despesa em vez de aumentos de impostos. Mas apenas 0,7% dos mesmos achou que se deve cortar na educação. A incongruência é clara, mas explica-se: os portugueses não acreditam que seja possível poupar na educação sem prejudicar a instrução dos alunos. Mas é possível. O Tribunal de Contas mostra-o. E já só se depende do poder político para que aconteça. Investigador

Frase do dia

Deus não faz nada ao acaso

L. Giussani  (Qui e Ora. 1984-1985, Milão, Bur, 2009, p. 446

Difícil é fazer bem

DN 2012-10-29 João César das Neves

Vivemos tempos dolorosos, com Portugal enfrentando desafios históricos. São compreensíveis discussões, protes- tos, até tumultos. Apesar disso, alguns extremos verbais de pessoas responsáveis degradam o debate político. Compreende-se a irritação, mas espanta a falta de sensatez e nível democrático. Precisamente porque o momento é doloroso tem de haver recato.
"É preciso uma nova revolução, há essa tendência de que é preciso modular isto tudo de novo, mas ninguém pensa que a evolução para essa revolução possa ser pacífica. Esse é o grande temor que existe" (Lusa, 17/Out). Quando o herói do 25 de Abril, coronel Otelo Saraiva de Carvalho, fala em revolução exige-se atenção. Mas a revolução que ele fez há 38 anos implantou a democracia, libertou a sociedade, mudou o regime. Onde estão hoje as terríveis situações paralelas às de 1974? Há presos políticos? Censura? Partidos proibidos? Falta de liberdade? Vivemos, sem dúvida, situação grave, mas a questão é de dinheiros, uma herança endividada com zangas nas partilhas. É normal os ânimos exaltarem-se, mas não é digno comparar tais discussões a momentos grandes do passado. O 25 de Abril teve razões e ideais profundos e não deve ser rebaixado, invocando-o em questões fiscais.
O Dr. Manuel Alegre achou conveniente afirmar: "É bom não esquecer que matou-se um rei, um príncipe, um primeiro-ministro, um presidente da República e até os fundadores da República. Portanto isto não é um povo assim de tão brandos constumes como à primeira vista parece" (TVI24, 17/Out). Pode conceder-se-lhe toda a liberdade poética, mas isto parece incitamento ao terrorismo.
O mais surpreendente e negativo, porém, é ver grandes economistas, ex-ministros da área do Governo enfurecerem-se com expressões violentas e incendiárias. Por exemplo, a Dra Manuela Ferreira Leite pergunta: "O que é que interessa Portugal não entrar em falência, se no fim vamos estar todos mortos?" (DN, 19/Out). É bom lembrar que para nos matar a todos é preciso bastante mais que alterar escalões do IRS.
Cada um tem as opiniões que quiser, e em tempos dolorosos elas tendem a extremar-se. Apesar disso surpreende a falta de sensibilidade a alguns pontos elementares. Os economistas que zurzem tão violentamente a orientação do Governo conhecem como poucos a situação delicada em que o país se encontra. Sabem perfeitamente como é mínima a margem de manobra que nos é permitida. A condição do actual ministro das Finanças é a mais limitada e restrita de todos detentores do cargo nas últimas décadas, precisamente por causa dos erros cometidos nessas décadas.
O Orçamento em discussão nasce totalmente espartilhado, preso ao Memorando de Entendimento, que foi concebido, não por forças maléficas, mas pelos nossos parceiros europeus e pela instituição mundial mais experiente em ajustamento de economias. A reestruturação é indispensável e inevitavelmente dolorosa. O compromisso assinado, vinculativo em termos nacionais e aceite pelas forças políticas responsáveis, exigia um défice de 3% em 2013. Na última revisão o limite foi ajustado para 4.5%, concedendo na prática mais um ano de folga ao país.
Compreende-se a irritação dos ex-ministros, mas lamenta-se a falta de comedimento e autocontrole. Eles próprios ouviram no seu tempo frases desse tipo, mas nunca na boca de antecessores. A sua experiência ensinou-lhes como a retórica exagerada pode ser devastadora. Têm consciência que expressões como as que disseram, não contribuindo em nada para resolver as dificuldades, ajudam pelo contrário a aumentar a animosidade, incerteza e desequilíbrio nacionais. Críticas há muitas, e até há alternativas. São é piores. Todas as soluções passam por pedir renegociação das condições, o que manifesta não haver escolha.
A discordância é saudável e o debate democrático. Mas quando as coisas serenarem, será difícil entender como pessoas responsáveis sugeriram revoluções violentas, assassinatos políticos ou que o Orçamento nos mata a todos. É tão fácil dizer mal. Difícil mesmo é fazer bem.

domingo, 28 de outubro de 2012

O compromisso e as teimosias

José Luís Nunes Martins, i-online27 Out 2012 - 03:00
Ser teimoso é um compromisso sério, muito sério, com a estupidez. Perseverar no mal, sem disso desistir, não é sequer conduta digna da inteligência mais rudimentar
Somos o que formos capazes de fazer de nós. Há sonhos e tempos para os fazer reais, sofrimentos a passar em função das metas que se querem alcançar. Uma constante luta entre o que somos e o que podemos ser. Mas há, em toda esta dinâmica um erro que é importante erradicar, sob pena de se desperdiçar tempo e esforço no sentido oposto ao que se devia: a teimosia.
Muitas pessoas se afirmam teimosas, como se a teimosia fosse um defeito que se pode e deve assumir, como se se tratasse apenas de uma forma de perseverança que se professa com modéstia... Não. Ser teimoso é perseverar no sentido errado. É saber-se errando e continuar a seguir pelo mesmo caminho. Outras vezes, o teimoso é o que se recusa simplesmente a analisar e avaliar o que anda a fazer, como se isso fosse uma mera perda de tempo.
O compromisso é determinante na plena realização do ser humano enquanto tal. As crenças e convicções devem fazer-se concretas na vida de cada um de nós. A fidelidade à palavra dada é um valor transcultural. Sermos fiéis aos nossos compromissos honra-nos e dignifica-nos. A nossa palavra é um momento que atesta a nossa identidade, ou, pelo menos, que permitirá avaliar depois de forma muito concreta quem afinal somos.
Os atos são mais importantes do que as palavras. Mas serão mais coerentes e belos se estiverem inscritos num programa sonhado, pensado e desejado.
Desistir de um projeto só é errado se se tratar de um plano bom, que vise o bem; caso contrário, é a opção correta. Não se percebe como há gente que afere o carácter de outrem através da forma como se mantem fiel a uma linha de rumo, independentemente de onde ela o leve...
Teimosia é esperar junto a uma parede, para que ali haja uma porta. É estar convencido que todas as evidências são aparências enganosas, e que mesmo que tudo aponte num determinado sentido, desistir da ideia inicial corresponde a uma falta de integridade.
O compromisso será a forma mais elevada que qualquer homem tem de assumir o que é e o que quer ser. Não se desobrigando nunca de, corajosamente, repensar tudo a cada momento. Mantendo o rumo se esse for o caminho certo para o bem; alterando-o, na medida do necessário, se com isso o bem se atingir com mais eficácia; desistindo, se cada passo ou minuto projetados nos afastassem do que é o maior bem: a felicidade.
Ser feliz passa por um compromisso pessoal, uma vontade férrea de não se deter em dificuldades, por maiores que sejam. Mas sempre, sem teimosias, porque isso é insistir no mal, é não perceber que muito pior que estar errado é querer continuar assim.
Ser teimoso é um compromisso sério, muito sério, com a estupidez. Perseverar no mal, sem disso desistir, não é sequer conduta digna da inteligência mais rudimentar.
A fidelidade faz com que o Homem seja maior. A obediência é uma das formas mais belas de ser livre, porque um homem pode escolher ser feliz servindo um projeto que não tem sequer de ser seu... infelizes serão todos quantos julgam que a liberdade é fazer o que apetece, como se fossem escravos dos seus apetites.
Quem luta pelos seus sonhos, sem teimosias, determina-se a ser maior, melhor. E engrandece-se imediatamente, com o primeiro gesto, o momento em que a realidade se lhe submete à vontade. O momento em que os olhos se abrem e os sonhos devem começar a cumprir-se.
Há compromissos, sem nada de teimosia, que envolvem mais do que uma pessoa, importa nesses casos pensar na obediência como uma concessão bela e inteligente, a capacidade que dispomos de trocar a nossa felicidade individual por um sonho sonhado por mais do que uma pessoa, cuja concretização envolve a multiplicação generosa das possibilidades de cada um dos envolvidos ser feliz... Mas isto será algo absolutamente impossível de compreender por qualquer egoísta... como o são sempre os teimosos!
Investigador

sábado, 27 de outubro de 2012

Alegria não paga dívidas

Inês Teotónio Pereira, i-online 27 Out 2012 - 03:00 |
No nosso mundo alguém que se ria sem razão toma remédios. As pessoas da nossa idade (a partir dos 14) riem-se excepcionalmente 
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As crianças têm pouco sentido de humor. É certo que se riem muito, aliás riem-se por tudo e por nada: basta tapar a cara a um bebé de meses com uma fralda e dizer cu cu que ele desata a rir à gargalhada. É um sentido de humor estranho, mas uma pessoa habitua-se rapidamente (até porque os bebés fartam-se depressa e passam do riso para o choro histérico se insistirmos muito em tapar-lhes a cara mesmo que mudemos de cu cu para ca ca – o que faz mais sentido).
Mas a verdade é que as crianças não têm poder de encaixe, não são sensíveis a metáforas ou a mensagens subliminares e têm pouca subtileza. Além de que não fazem a mínima ideia do que é uma indirecta. No mundo delas é tudo brutalmente directo. Uma piada é explícita, não é soft.
Há muito poucas anedotas, além das protagonizadas pelo menino Joãozinho, que façam uma criança rir. Por exemplo, no outro dia contei uma dessas anedotas parvas e secas próprias de adultos a um dos meus filhos. O coitado resolveu contá-la na escola a um bando de crianças sem sentido de humor e veio para casa desgraçado porque ninguém percebeu a anedota. Ninguém se riu. Então, para o consolar, dei-lhe o livro do Tonecas e rendemo-nos os dois ao mundo infantil das piadas, dos trocadilhos e dos trambolhões provocados por cascas de banana – que não têm nenhum sentido de humor mas apenas o mais puro sadismo.
Sendo assim, porque é que as crianças passam o dia a rir e a gritar como se o mundo inteiro fosse uma comédia? Qual é a graça? Riem de quê?
Ora, como a maior parte das coisas que dizem respeito às crianças, também isto não faz sentido. Não tem lógica. Elas têm uma vida chata, passam o dia a receber ordens, não têm liberdade, comem couves, estão sempre a cair e a fazer feridas, não têm dinheiro, nem carro, nem casa, nem cigarros, não vão jantar fora, dormem quando não querem e acordam quando não querem. E riem-se. É estranhíssimo.
Ora eu desconfio que as crianças têm uma particularidade: são alegres por natureza. Assim como o Pateta, as crianças são naturalmente alegres. Estão naturalmente contentes todos os dias. Acordam com sono mas estão alegres; vão para escola, mas riem-se; esfolam-se violentamente mas continuam contentes. Não faz sentido, eu sei.
No nosso mundo, alguém que se ria sem razão aparente toma remédios. As pessoas da nossa idade (a partir dos 14) só se riem excepcionalmente. É preciso uma razão muito forte, como um programa de rádio fora de série, uma anedota brilhante ou uma comédia fantástica, para que o mundo seja prendado por um sorriso nosso. Não é fácil.
As pessoas crescidas e maduras como nós, por princípio, não estão alegres. Não revelamos sinais exteriores de alegria. Somos contra. Podemos ser cordiais, reservados, bem-educados, simpáticos, bem-dispostos, afáveis, amáveis, amigáveis, mas alegres é que não. Não há condições, não é a altura e raramente se proporciona. No fundo, rir é quase uma falta de respeito.
As crianças que se riam que nós tratamos do mundo. Seriamente e sempre muito sérios. Sem perder a compostura porque o assunto é sério. E como é sério, como a seriedade tem sempre qualquer coisa de velório, de preto, de formal, não fica bem rir. Se rimos muito poderá parecer que não estamos a levar o assunto a sério. A vida a sério. Porque uma coisa tem tudo a ver com a outra.
No entanto, ao contrário das crianças, nós temos sentido de humor: de manhã, durante cinco minutos, rimo--nos à gargalhada com a Mixórdia de Temáticas. Mas chega. Se a tristeza não paga dívidas, a alegria também não. E tem de se cortar em tudo: cinco minutos de riso por dia chega e sobra.

Esperteza e sabedoria

"Aproveitar-se" e "tirar proveito" não são bem a mesma coisa. Uma coisa é a esperteza de ficar por cima e de estar atento às ocasiões para ganhar e ficar bem visto. Outra coisa é saber crescer, isto é, tirar proveito de tudo o que acontece, mesmo das coisas dolorosas e injustas. Uma coisa é esperteza, outra é sabedoria.

NÃO HÁ SOLUÇÕES, HÁ CAMINHOS
365 vezes por ano não perguntes porquê, mas para quê
Vasco P. Magalhães, sj

Edições Tenacitas
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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Pode haver esperança depois dos tempos sombrios?

Público 2012-10-26 José Manuel Fernandes
Estamos num tempo em que o relógio da História começou a rodar ao contrário e não sabemos como lidar com as novas realidades

Há dias em que uma pessoa nem acredita no que ouve. Então não é que Jorge Sampaio, numa das muitas entrevistas que deu a propósito do lançamento da sua biografia, decidiu considerar que a sua inoportuna e lamentável frase sobre haver vida para além do défice era hoje mais actual do que nunca? Compreende-se que uma adolescente como a que beijou o polícia no 15 de Setembro faça declarações a lamentar a existência de dinheiro, escusando-se a explicar, por exemplo, sobre que critério seguiria para trocar laranjas por umas sandálias novas. Já se compreende pior que um antigo Presidente da República insista numa boutade politicamente explosiva que muito ajudou a estragar o debate político e a permitir que nos enfiassem no poço negro onde hoje desesperamos. Bem sei que é de bom tom, em certos sectores da esquerda lunática, duvidar da genuinidade da dívida que pesa sobre o nosso presente e o nosso futuro, mas ver uma figura como Sampaio regressar à desculpabilização do défice quando se sabe que a dívida não é mais do que os défices acumulados de muitos e muitos anos, deixa qualquer um incrédulo. Pelos vistos Mário Soares não estará sozinho: há um outro antigo Presidente que também acha, porventura como achará a rapariguinha dos longos caracóis, que isto do dinheiro (ou do défice, ou da dívida...) não é problema, pode-se sempre mandar imprimir mais notas.

No mesmo dia em que Sampaio voltou à tona, foi conhecida uma importante sondagem. Não a relativa ao próximo Presidente da República ou ao próximo líder do PSD, um tipo de exercício fútil que delicia os corredores da Assembleia e alimenta as especulações das redacções, mas a que revela preferirem os portugueses (82,1%) os "cortes na despesa" ao "aumento de impostos". É uma boa notícia e um sinal de que, após décadas em que só se pedia ao Estado para gastar mais e mais, os cidadãos começam a perceber que isso também implica mais e mais impostos. O problema vem a seguir: cortar sim, mas não na educação nem na saúde, ou seja, não nas áreas onde o Estado gasta a maior parte do dinheiro dos impostos. O que nos conduz a um paradoxo: a população quer um Estado social mas não quer pagá-lo. Ou, se preferirmos, quer um Estado social mais dispendioso do que aquele que os nossos impostos são capazes de pagar. Nisso Vítor Gaspar tem razão. E é por isso que os próximos meses, os próximos anos, vão ser muito duros, pois vai ser preciso chegar a um novo consenso sobre o que queremos que o Estado nos dê e quanto estamos dispostos a pagar. Até lá, não haverá soluções que não sejam muito dolorosas.

Por entre todas estas dificuldades, começa-se a ouvir um discurso que é muito, mas mesmo muito, perigoso. Vem curiosamente de diferentes quadrantes políticos mas converge num ponto: o questionamento da democracia. Por um lado, há quem proclame (Sampaio foi, de novo, e para nossa desgraça, uma dessas vozes) que a austeridade põe em causa a democracia. De acordo com esta tese, tempos difíceis de cortes podem precipitar o fim do regime. Do outro lado, há quem recorde (nalguns casos com angústia, como sucedeu com César das Neves) que a dificuldade em "controlar a despesa pública" pode muito bem ser "um traço estrutural português só resolvido em ditadura". É bem verdade que o nosso passado não é o mais tranquilizador, mas a ideia de que em democracia não se pode impor a austeridade é, em si mesma, uma ideia autoritária, uma ideia que menoriza a capacidade de os eleitores, mesmo rangendo os dentes, escolherem um caminho diferente do que nos encheu de défices e dívidas. Há muitos sectores que alimentam a ideia de que a democracia tem de continuamente entregar aos eleitores uma dose suficiente de prosperidade para que estes não desanimem ou se deixem tentar por autoritarismos. Ora a democracia não é garantia de prosperidade (apesar de ser a melhor forma de governo para assegurar essa prosperidade). As democracias maduras, como as anglo-saxónicas, mostram-nos que é possível viver longos anos de dificuldades, mesmo de dura austeridade, até de chegar ao ponto de enfrentar a catástrofe de uma guerra, sem nunca colocar em causa o regime ou cair na tentação das revoluções. É tempo de interiorizarmos que são democracias assim as que desejamos, e não ir por caminhos onde o discurso sobre a defesa da "democracia social", por exemplo, pode levar-nos a novas formas de autoritarismo.

Na vida das sociedades, a necessidade de mudança chega sempre antes da percepção de que é preciso mudar. A zanga de uma professora primária de 56 anos que, de acordo com o Jornal de Negócios, se queria reformar em 2013 e já não vai poder fazê-lo é um bom exemplo disso. Apesar de ter 35 anos de serviço, essa professora tem hoje a esperança (estatística) de viver mais 25 a 30 anos. Se se reformasse já, com a reforma por inteiro, o sistema ter-lhe-ia de pagar pensões durante quase tanto tempo como aquele que teve de vida activa, o que nunca será sustentável. Apesar de conhecermos os dados da esperança de vida, apesar de todos dizerem que aqueles que têm hoje 30 ou 35 anos nunca receberão senão um pequena fracção do que essa professora um dia receberá, o seu "drama" foi notícia de jornal. Nada de grave, mas muito de revelador: criaram-se expectativas que a economia e a demografia já não conseguem suportar e muito poucos são capazes de antecipar os problemas futuros (ou até os problemas presentes) e falar com clareza. Durante muitas décadas, a evolução das sociedades permitiu, no Ocidente desenvolvido, que, ao longo da vida, se fossem quase sempre superando as expectativas, agora estamos num tempo em que o relógio da História começou a rodar ao contrário e não sabemos como lidar com as novas realidades. É por isso que Portugal não deve, não pode, sonhar sair do poço para regressar ao tempo falsamente luminoso de há 10, 15 anos. Quando virmos a luz ao fundo do túnel será uma luz diferente e um quotidiano mais modesto, mas não obrigatoriamente pior.

Até há 200 anos, nenhuma sociedade conseguira crescer mais de um por cento ao ano por um período longo. E apenas viviam mil milhões de humanos no planeta (hoje somos sete mil milhões). Depois, primeiro em países como o Reino Unido, a Alemanha, a Suíça, os Estados Unidos ou o Canadá, a seguir em todo o Ocidente, mais recentemente a uma escala quase global, assistimos a um ritmo de desenvolvimento que permitiu que centenas de milhões de cidadãos das classes médias vivam hoje com mais conforto (mas menos luxo) do que os Crawley de Downton Abbey. Este milagre talvez não se possa projectar para a eternidade e temos de estar preparados para isso. No mundo desenvolvido, já desapareceu a capacidade de crescer em número de habitantes e está agora a desaparecer a capacidade de crescer economicamente. Ainda há pouco tempo, Martin Wolf, do Financial Times, dedicou uma das suas crónicas ao fim do crescimento ilimitado. Acontece, porém, que sistemas políticos e sociais desenhados para crescimentos sustentados de três por cento ao ano têm hoje de ser repensados para crescimentos anémicos de apenas um por cento, ou menos, como os que foram regra até há 200 anos. É isto que está a acontecer à nossa frente e ainda nos recusamos a acreditar, mas o mais provável (até por razões ambientais) é que nunca regressemos aos ritmos de crescimento que permitiam sustentar os nossos estados sociais e dívidas gigantescas. Não é dramático que isso aconteça se soubermos recalibrar os nossos hábitos e modos de vida. Afinal, para se ser da "classe média", talvez não seja necessário ter um bom automóvel, uma segunda habitação e passar férias no estrangeiro. Para termos esperança depois destes dias sombrios temos de começar a tentar perceber que estamos a entrar num outro tempo, e adaptarmos as nossas expectativas. Keynes tinha previsto que o aumento da produtividade levaria a que se trabalhassem menos horas para manter a qualidade de vida, mas as sociedades preferiram enriquecer e consumir. Talvez neste caso seja caso para escutar o conselho de Keynes.

Amigos

Li, também hoje, esta frase de Henry Nowen, que nos ajuda a ajudar

Os amigos que conseguem estar em silêncio connosco num momento de aflição e confusão, que conseguem estar connosco numa hora de dor e angústia, que conseguem tolerar não saber, não curar e encarar connosco a realidade da nossa impotência, esses são os amigos verdadeiros
Henri Nouwen
The Road to day break: a spiritual journey

Destaques de hoje

Não é fácil ouvir estas boas notícias nos jornais. Porque será?

O dia D João César das Neves argumenta aqui que o dia deste período recente que será lembrado é o dia do Acórdão do Tribunal Constitucional que considerou inconstitucional as medidas indicadas e criou as condições para este "enorme" aumento de impostos

Um exercício fiscal para 2013 por António Bagão Félix

Homens e bichos Pedro Vaz Patto
….não pode deixar de se sublinhar o contraste entre, por um lado, a consideração atribuída a muitas reivindicações animalistas e, por outro lado, a indiferença e apoio perante atentados contra a vida humana em qualquer das suas fases, a partir da fase embrionária.
Já está disponível a primeira da série de catequeses do ano da Fé. À medida que forem acontecendo (nas audiências gerais de quarta-feira) serão arrumadas na nova página dedicada ao Ano da Fé.

O que pedis para o vosso filho?

O Pedro Maria foi baptizado ontem de manhã. Quando ouvi o Padre Luís Miguel perguntar `"O que pedis para o vosso filho?" ouvi com determinação uma resposta surpreendente. Seria de esperar pedir saúde, que a vida lhe corra bem, mas não. O que a Inês e o Gonçalo pediram, foi o baptismo.
Com o baptismo restituímos a Deus o que veio d'Ele. Passa a pousar no Pedro Maria a complacência de Deus.
Relembro a homilia do Papa no dia do Baptismo do Senhor de há uns anos como aprofundamento da consciência desta adopção divina. Como dizia há dois dias (Ser avô) a fé dos pais dos nossos netos é um testemunho e uma educação para os avós.


Pagar a colégios fica 400 euros mais barato ao Estado

DN 2012.10.26

Relatório sobre custo anual da educação por aluno defende continuidade dos contratos de associação com o ensino particular e cooperativo
4921,44 euros anuais em 2009/10, mais 399,44 euros do que os 4522 pagos pelo mesmo serviço contratado a um colégio privado com contrato de associação. Valores que, defendeu ontem a Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo (AEEP), significam que o Estado terá poupado 21 milhões de euros com estes vínculos.
Os números constam do relatório "Apuramento do Custo Médio por Aluno", do Tribunal de Contas (TdC), onde o Governo é aconselhado a melhorar e introduzir "planos oficiais de contabilidade" nas escolas mas também a "ponderar a necessidade de manutenção dos contratos de associação no âmbito da reorganização curricular".
Nestes números, que agradarão mais aos que defendem a maior eficácia destes colégios, não se considera o 1.º ciclo, porque não existe qualquer contrato de associação com privados para esse nível de ensino. Contabilizando a antiga primária, muito mais barata - 2771,97 euros -, a fatura das escolas públicas baixa para 4415 euros. Mas esse é obviamente um valor que, pelas razões descritas, não pode ser utilizado para efeitos de comparação.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O que eu faria com os 336 mil euros de Catarina Furtado

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
7:42 Quinta feira, 25 de outubro de 2012
Devido à fraca qualidade do autor do costume, a gerência de "A Tempo e a Desmodo" abriu uma nova secção: os convidados. O convidado desta semana é Alexandre Borges, guionista, autor da série documental "Os Santos de Portugal".
Fará algum sentido, em qualquer momento, mas particularmente neste, que o contribuinte pague mais ao apresentador de "O Preço Certo Em Euros" do que ao primeiro-ministro? Será, digam-me, mais difícil apresentar a "Praça da Alegria" do que ser ministro das Finanças, entalado entre a troika e as manifs? E Catarina Furtado - pelo que diz a imprensa, a apresentadora mais bem paga da RTP - aceitou uma redução salarial de 20% em Junho. Significa isso que vai passar de 30 mil para 24 mil euros mensais. (Respiremos fundo.) Não está em causa se Catarina merece tal ordenado (tive o grato prazer de trabalhar com ela e posso, caro leitor, atestar do seu profissionalismo. E sim, é ainda mais bonita ao vivo). Está em causa se deve ser o contribuinte a pagá-lo.
Não há qualquer razão para que o cidadão-enquanto-contribuinte sustente uma guerra de audiências desprovida de qualquer sentido entre sector público e privado, particularmente se tivermos em conta que o cidadão-enquanto-telespectador poderá continuar a desfrutar dos talentos de Jorge Gabriel, Fernando Mendes ou Catarina Furtado numa SIC ou numa TVI, que terão o maior prazer em oferecer-lhes os ordenados que os accionistas quiserem e bem entenderem.
E que faríamos ao dinheiro poupado? Documentários, magazines culturais e de interesse social, grandes reportagens, programação pedagógica para crianças e jovens, uma selecção de filmes essenciais, uma grelha que poderia e deveria ser articulada com os planos de leitura e cinema do Ministério da Educação e da Secretaria de Estado da Cultura.
Falar é fácil, dirá. E estará correcto - não se programa uma estação de televisão numa modesta coluna de jornal. Mas, para que tenha uma ideia, o custo médio de um documentário para a RTP2 rondou, nos últimos anos, 10 mil euros. 10 mil. Os 336 mil euros anuais do novo ordenado de Catarina Furtado dariam para 33 documentários, sendo que o último se poderia estragar com um orçamento de 16 mil loucos euros. Se a bitola for o antigo ordenado de Catarina, então teríamos 420 mil euros anuais = 42 documentários. "Sociedade Civil", o magazine-emblema da 2 que, há seis anos, junta mais de 120 organizações da dita sociedade, não custa muito mais do que isso. De segunda a sexta-feira, durante um ano inteiro. Para pagar apresentadora, realizador, jornalistas, produtores, técnicos, meios, tudo.
Muito antes de falar em privatizar ou não a RTP, devemos, pois, pensar que RTP queremos ter, tendo em conta o serviço público que deve prestar e aquilo que podemos pagar por ele. Para além de uma longuíssima lista de instituições da sociedade civil que podem contribuir com meios, preocupações e conhecimento, há uma geração de brilhantes documentaristas portugueses - brilhantes mesmo - que seria criminoso ignorar numa nova RTP: Miguel Gonçalves Mendes, Gonçalo Tocha, José Filipe Costa, Marta Pessoa, Graça Castanheira - só para citar alguns. Há um país ainda grandemente iliterato para quem o serviço público de televisão deve trabalhar. Há centenas de milhar de jovens e crianças que se podem educar, de forma mais económica e eficaz, com o auxílio da RTP. Há um público que quer ver televisão em Português, para além dos reality-shows, dos programas ditos de entretenimento e da informação mastigada até à náusea por um exército de comentadores.
E há, finalmente, um trabalho que Jorge Wemans operou, nos últimos sete anos, na discrição da RTP2 (e que vem de longe, se quisermos lembrar, por exemplo, Fernando Lopes) e que seria completamente estúpido deitar ao lixo.

Balança de Pagamentos com excedente de € 750 milhões até Agosto, quem diria?!

Tavares Moreira

1. Segundo o Boletim Estatístico do BdeP, esta semana divulgado, a Balança de Pagamentos com o exterior apresentou, no período Jan-Agosto, um EXCEDENTE de € 750 milhões.
2. Este excedente é o resultado de um défice da Balança Corrente (- € 1.733 milhões) e de um superavit na Balança de Capital (+ € 2.483 milhões), este último proveniente de transferências de capital da EU.
3. Note-se que o défice da Balança Corrente é consequência da elevada factura de juros pagos ao exterior, causados pelo endividamento da economia portuguesa e que pesam na rubrica de Rendimentos, a qual apresenta um défice elevado (- € 4.770 milhões) – enquanto que as rubricas de Bens e de Serviços, em conjunto, apresentam já um superavit de € 315 milhões, pela 1ª vez desde há mais de 15 anos!

4. Esta evolução é tanto mais notável quanto é certo que o mesmo saldo da Balança de Pagamentos, agora positivo como referido em 1, apresentou no último triénio os seguintes valores:

- Em 2009, deficit - € 17.009 milhões (10% do PIB)

- Em 2010,    "      - € 15.184   "

- Em 2011,    "      - € 8.975     "

5. Se me tivessem dito há 3 anos que isto iria acontecer, eu teria comentado "estão a sonhar alto"! Mas aconteceu, e o mérito desta radical mudança de desempenho da economia vai em primeiro lugar para as empresas privadas – empresários e trabalhadores – que têm vindo a realizar um esforço gigantesco de adaptação às novas condições da economia, arregaçaram as mangas e foram por esse Mundo fora à procura de novos clientes e mercados!
6. Note-se que as exportações de Bens aumentaram até Agosto 9,15% em relação ao período homólogo de 2011 e as exportações de Serviços 15,7%, isto num enquadramento internacional que, como se sabe, está longe de ser favorável. É certo que as importações diminuíram 4,3%, no mesmo período, mas sem o crescimento das exportações a Balança de Pagamentos não teria sofrido esta enorme alteração de comportamento da Balança.
7. Mas, PARADOXO dos PARADOXOS, um País sufocado por uma despesa pública opressiva, com exemplos de desperdício lamentáveis na administração central, regional e autárquica, bem como nos respectivos sectores empresariais, é obrigado, para cumprir os compromissos com os seus credores internacionais, a tributar cada vez mais aqueles que têm estado na base deste quase milagre económico...para dar ainda mais dinheiro ao Estado!
8. Pior ainda, "dia sim dia não" temos de assistir ao espectáculo de protestos de rua protagonizados pelas corporações de comensais do Orçamento – desde os ENVC até aos grupos de artistas subsidiados – reclamando que não estão sendo bem servidos, que a mesa do Orçamento deveria ser mais generosa!
9. Para cúmulo, esses protestantes quase profissionais beneficiam de toda a cobertura e mesmo do apoio explícito da generalidade dos "media", a começar por aqueles que tb pagamos a título de prestarem um serviço público! Mas que "raio" de País, este!