quinta-feira, 29 de novembro de 2001

As falsas vítimas

João César das Neves, DN, 20011029
Os terroristas de Setembro justificaram o seu acto cruel pelo facto de serem... vítimas. A suposta legitimidade para matar milhares de inocentes vinha da resposta ao alegado imperialismo americano. Este raciocínio é típico desta época e, embora em geral menos sangrento, é hoje partilhado por muita gente. Vivemos num período em que grande parte da violência, mesmo a mais infame, é apresentada como indemnização de vítimas.
Uma das nossas grandezas é, sem dúvida, a grande preocupação com a equidade e a justiça. Desde o último século que se vive um grande movimento, de leis, programas e instituições para defesa e promoção dos pobres e desprotegidos, dos excluídos e minoritários. O juízo da História irá, certamente, sublinhar a generosidade e o valor do nosso grande interesse pelas vítimas da opressão, desvantagem e discriminação. Mas até os ideais mais elevados podem ser corrompidos. Por isso, frequentemente a luta contra a injustiça é invocada com propósitos muito pouco dignos ou até francamente viciosos. Numa época de relações públicas, é sempre bom ganhar uma imagem de oprimido e injustiçado, para tocar na corda sensível da nossa cultura. Mesmo os agressores o fazem.
Este processo tornou-se rotina. Os sindicatos e empresas, ao lado de verdadeiras queixas, misturam muitas falsas. Trabalhadores e empresários consideram-se automaticamente vítimas de exploração do patrão ou do Estado, independentemente das condições objectivas. A classe operária, mesmo com as regalias actuais, é por definição oprimida e o patronato sente-se sempre injustiçado pelos impostos. Ambos vêem nesse facto a justificação para as exigências mais variadas. Assim, gravíssimas injustiças são apresentadas como "justas reivindicações" para compensar alegados agravos. As verdadeiras vítimas acabam por ser os clientes e os contribuintes, roubados pelos falsos mártires da exploração.
Claro que hoje existem muitos infames abusos. Mas esses, normalmente, passam despercebidos. Vale a pena não esquecer que uma das características mais sensíveis das verdadeiras vítimas é o silêncio e o anonimato. Os crimes são, em geral, feitos às escondidas. Por isso, quando se ouve falar muito de um caso, isso é já um excelente sinal de que o problema não é grave ou está em vias de solução. Foi sempre assim. Na aventura colonial, por exemplo, os países europeus denunciavam ataques mútuos, justificando assim as agressões que praticavam. Mas os autênticos sacrificados eram os índios e os escravos, de quem ninguém falava.
Os casos multiplicam-se. Os homossexuais e as uniões de facto, apesar de viverem triunfantes nos tempos que correm, fazem grande alarde para se apresentarem como vítimas da sociedade. No entanto, quem realmente está a sofrer uma pressão terrível, mediática, legal e cultural é o matrimónio e a família. Múltiplos grupos sociais querem tratamento de excepção devido a agravos fictícios.
Médicos, professores ou camionistas mostram-se sempre humilhados e ofendidos.
Até os canhotos querem ser beneficiados, dizendo-se oprimidos por uma sociedade de destros, numa paródia grotesca aos problemas dos verdadeiros deficientes.
Num tempo que se preocupa tanto com as minorias, acabam por ser as pessoas banais, os cidadãos comuns, os contribuintes normais as verdadeiras vítimas dos interesses organizados, que se apresentam como minorias esquecidas e atacadas. Uma das manifestações mais recentes está no ressurgimento de agravos antiquados, exigindo-se reparações às gerações seguintes dos perpetradores. Começou com os descendentes das vítimas dos nazis, pretendendo que parentes ou sucessores longínquos das pessoas ou empresas que oprimiram os seus antepassados os indemnizem agora principescamente décadas após o acontecido. Na recente reunião da ONU, a prática quis alargar-se aos delitos dos colonizadores de há séculos. Ninguém duvida da gravidade do crime antigo. Mas também é evidente a injustiça de uma restituição anacrónica imposta a inocentes. Pessoas que não são vítimas recebem de pessoas que não são culpadas, as quais acabam por ser as reais vítimas.
A atenção ao verdadeiro sofrimento é vital na sociedade. Mas as coisas nem sempre são tão simples e lineares como parecem, e muitas queixas escondem verdadeiros ataques. Sobretudo é preciso rejeitar a ideia-base de que "ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão". Um mal nunca justifica outro mal; e se a vítima do roubo se sente justificada em reciprocar ao agressor, a lógica leva a uma espiral de roubo e violência que tantas vezes surge neste tempo tão justo, precisamente por causa desta falácia. As falsas vítimas existem desde a velha fábula do lobo e do cordeiro. O carnívoro sente-se obrigado a esconder a sua voracidade debaixo do agravo pueril de lhe terem turvado a água. E também ele, como tantos hoje, usa pretextos anacrónicos: "Se não fostes tu, foi o teu pai."

segunda-feira, 26 de novembro de 2001

Guerra Santa

João César das Neves
DN 2001.11.26

As grandes religiões, incluindo o Islão, estão todas de acordo: Deus não gosta nada da violência e da guerra. Ele é o Deus da paz. Mas uma distorção subtil deste ponto tem vindo a ser usada para fazer guerra à religião. Diz ela que a luta entre crentes é inaceitável em qualquer situação. Ela é mesmo incompreensível. O nosso tempo não entende que alguém lute e morra em nome de Deus. Por isso despreza a religião.
A agressão é sempre, obviamente, inaceitável. Existe apenas um caso em que a violência se justifica, a legítima defesa. Foi essa a razão que os americanos invocaram para este ataque. O argumento é muitas vezes abusado, mas isso não lhe tira a lógica. Todos a aceitamos. Os combatentes pela liberdade têm um lugar elevado na glória da sociedade ocidental. A nossa opinião pública, tal como todas as culturas em todos os tempos, percebe perfeitamente que uma pessoa ou um povo se levantem em armas para defender as suas vidas, casas, modo de ser. O que não compreende, ao contrário das culturas de todos os tempos, é como alguém pode lutar pela sua fé. Até hoje, o ser humano sempre achou normal que, entre as coisas por que se está disposto a morrer, esteja o valor supremo da religião. Vivemos na primeira época que o desconhece. Quem é aqui o obscurantista?
Esta nossa limitação manifesta-se de várias formas. Fazemos, por exemplo, enorme ginástica mental para conseguir explicar por razões socioeconómicas, que são as únicas que verdadeiramente entendemos, o comportamento dos cruzados da fé e dos mártires da religião. Essas complexas elaborações lógicas, de que estamos tão orgulhosos, pretendem mostrar a ingenuidade dos que, na nossa visão materialista, pensam morrer por Deus mas apenas servem interesses produtivos. Realmente, a única coisa que tais raciocínios mostram é a nossa indigência espiritual e intelectual.
Ficaríamos muito ofendidos se alguém justificasse por motivos interesseiros a luta generosa dos voluntários da Guerra de Espanha ou da resistência ao nazismo. Mas não nos damos conta da aleivosia que cometemos na interpretação dos combates de religião. Se fosse por problemas de mercearia, acharíamos razoável que lutassem, mas não por convicções. Quem é aqui o fanático?
Um caso interessante, de que tanto se tem falado, é o das Cruzadas. Vistas como a suprema tolice do Ocidente e como uma infâmia histórica, essas expedições são tão intensamente desprezadas como incompreendidas. É importante notar que as Cruzadas têm muito pouco a ver com o ódio entre cristãos e muçulmanos. De facto, Jerusalém e a Terra Santa foram conquistadas pelas forças islâmicas logo em 637, cinco anos após a morte do profeta, mantendo-se debaixo do poder árabe ao longo de todos os séculos seguintes.
Mas este facto, naturalmente dramático para judeus e cristãos, não despoletou nenhum levantamento ou "guerra santa" por parte da Europa. O califa Omar e os seus sucessores permitiram as peregrinações aos lugares santos e em breve tudo se normalizou. Foi só quando em 1055 os turcos seldjúcidas tomaram a Palestina que as coisas mudaram radicalmente.
Os turcos oprimiam igualmente muçulmanos, judeus e cristãos. E, acima de tudo, fecharam a Terra Santa aos devotos. Para os medievais, esse atentado constituiu uma ofensa muito mais grave do que o corte do petróleo seria para nós. Quando, depois de várias tentativas diplomáticas falhadas, o papa Urbano II apelou em 1095 à primeira cruzada, toda a Europa aderiu entusiasticamente, porque compreendeu bem o seu significado. Poucos sabem hoje que este papa, que assim chamava os exércitos a lutar por Cristo, estava desterrado de Roma há anos pelas lutas na cidade. Mas nada parecia importante ao lado da impossibilidade de visitar o lugar da Ressureição. De todo o lado vinham pessoas alistar-se para poder arriscar vida, bens e viver em condições miseráveis. Mas faziam-no em nome do que tinham de mais elevado, a sua fé.
Obviamente que nas Cruzadas se cometeram excessos horrorosos e chacinas inaceitáveis, que aliás o papa, a Igreja e a sociedade condenaram. É assim em todas as guerras. Mas a origem e motivação destas incluem uma grandeza de espírito que falta aos nossos tempos.
A nós, não é tanto o problema da guerra que nos choca nos acontecimentos antigos e recentes; é mesmo a parte religiosa. Compreendemos que alguém lute e morra pelos valores em que acredita. O que nos custa é acreditar em Deus.
A fé é caminho de paz, como a Igreja o mostrou sempre ao longo dos séculos.
O nosso dever hoje é trabalhar pela harmonia entre os povos e o diálogo das culturas. Por isso, é muito triste e sério que pessoas, devido a uma horrorosa distorção na compreensão do que Deus quer, se entreguem ao morticínio em nome da sua fé. Mas é também muito triste e sério ver tantos que, atulhados em ocupações e delícias, não elevam os olhos acima da poeira. Desprezam mártires e cruzados só porque lhes falta ideal de vida mais alto que o seu ventre.

sábado, 17 de novembro de 2001

O bem e o mal

António Pinto Leite
Expresso, 2001.11.17 

O mês de Novembro do ano 2001 foi o tempo em que uma organização terrorista, capaz do crime de Nova Iorque, ameaçou o Mundo com o uso de armas nucleares.
Estes são os dias em que potências nucleares escondem as suas próprias armas, ou se desdobram, talvez mais do que nos bombardeamentos no Afeganistão, a proteger as suas centrais nucleares.
Neste contexto, a Humanidade vive com ansiedade diária a nova guerra. A questão de fundo, todavia, está para além dos protagonistas concretos do momento. A questão de fundo da actualidade é uma luta de ontem, de hoje e de sempre, é a luta entre o Bem e o Mal.
O Bem e o Mal não tanto entendidos como categorias morais, mas como conceitos que se jogam na fronteira patológica do demoníaco.
O Mal existiu, existe e existirá sempre. O Ocidente não tem, sequer, razões para se orgulhar: a evidência mais cruel da maldade humana recente pertence-lhe. Foi Hitler.
O que hoje há de novo na tensão entre o Bem e o Mal é a dimensão assustadora das armas de que o Mal dispõe.
O que se tornou qualitativamente diferente na História do Homem é a capacidade que o Mal tem de, não só destruir homens, como destruir a Humanidade.
A ansiedade diária pela nova guerra transforma-se numa pressa inútil se admitirmos que os terroristas de hoje mais não são do que a expressão da própria condição humana e daquela sua tremenda dualidade.
Olhar Bin Laden como causa aleatória de um tempo de terror, por pior que ele seja, é bem mais tranquilizante do que olhá-lo como sintoma natural da própria natureza humana.
A primeira versão torna-o perigoso mas derrotável. A segunda versão torna-o passageiro, é certo, mas imbatível, porque a natureza humana é, ela mesma, intorneável.
O conceito terrorista de não limite no uso das armas disponíveis, conjugado com as potencialidades mortíferas do arsenal de armas criadas pelo Homem, mais do que um acontecimento, desenha-se como um precedente.
Agora é a causa islâmica que inspira este momento e é o milionário saudita o seu grande animador. Mas não estarão criadas as condições - a perversidade marginal do Homem e as novas armas disponíveis - para que, amanhã, seja outra a causa e outros os animadores, sendo que as armas serão cada vez mais mortíferas e mais acessíveis?
E o potencial catastrófico das armas existentes não constitui, ele próprio, um factor fascinante e desencadeante da maldade humana?
O Mal é próprio da condição humana e, por isso, as suas consequências são recorrentes na vida em comum.
A visibilidade que hoje se pode ter do futuro permite perceber, por exemplo, como será transtornante o efeito para a Humanidade do acesso e da manipulação das ciências da vida por mentes perversamente orientadas. Levará dez, vinte ou cinquenta anos, mas chegará o dia em que a manipulação genética cairá também nas mãos deste tipo de personalidades e de organizações.
O verdadeiro problema da Humanidade é como passar a conviver com o Mal tendo-lhe dado a possibilidade quase decisiva de destruir o Homem ou de o tornar irreconhecível.
É preciso ganhar a guerra a curto prazo, para ir a tempo de repensar a Humanidade a longo prazo.
O mundo que combate o terrorismo combate o Mal, é certo, mas não representa, só por isso, o Bem. É sobre isso que é preciso reflectir e a partir daí transformar.
Quando potências nucleares se apressam a esconder os seus arsenais de um inimigo que não vêem, não vale a pena fazer de conta.

quarta-feira, 14 de novembro de 2001

O Sino da Minha Aldeia

Impressiona-me neste artigo a verificação de que a verdade do significado das coisas (como o ritmo do tempo marcado pelo sino da igreja que sacraliza o tempo, isto é, que reconhece a sua origem no Senhor de todas as coisas) é verdadeira para todos, sobretudo para aqueles que vivem de foma mais emenhada a sua humanidade, mesmo que a percebam superficial ou confusamente.
Fico contente por isso.
Pedro Aguiar Pinto
O Sino da Minha Aldeia EDUARDO PRADO COELHO
Público, Quarta-feira, 14 de Novembro de 2001


Dizem os jornais que a Direcção-Geral do Ambiente solicitou à Igreja Católica o cumprimento da lei do ruído. Ao que parece, há pessoas que não conseguem dormir porque os sinos lhes interrompem o sono. Sobretudo (e neste ponto não se pode deixar de lhes dar razão) quando os sinos por campânulas são substituídos por mecânicos sistemas de amplificação sonora.

Propõe-se assim que, sobretudo entre as 22 horas e as 7 horas da manhã, os sinos deixem de tocar - para que cada um possa ter o merecido repouso, obtido muitas vezes à custa de um "stress" acumulado e do apoio de soporíferos. Parece que na lei do ruído a Igreja é a principal prejudicada: não apenas está em causa o toque dos sinos, como as normas para a sua intensidade, que têm de ter em conta o que a legislação prescreve relativamente à proximidade de escolas, zonas habitacionais e espaços de recreio e lazer. E basta uma queixa para que a Igreja seja multada.

Acreditamos que as pessoas sofrem mesmo com estas formas de poluição sonora que são os sinos. O que isso significa é que algo na vida delas se empobreceu - e sobretudo que algo se perdeu na qualidade de vida de todos nós. Porque o toque dos sinos - que deveria ser tão pouco incomodativo como para o antigo moleiro o ruído da roda do moinho, que apenas o acordava quando deixava de rodar - foi sempre um sinal de paz, de serenidade e de aceitação deslumbrada da evidência das coisas.

Se os sinos nos incomodam, é porque nós perdemos algo de fundamental: deixámos de ser capazes de ouvir o silêncio. Porque o silêncio não é o não ouvir coisa nenhuma: é o sentimento dessa respiração nocturna donde os sons vêm e para onde os sons regressam. E o que nós queremos, no enredo neurótico das nossas vidas, é esconder a cabeça debaixo das almofadas e não ouvir absolutamente nada - em vez de sentirmos a felicidade dos sons que atravessam a noite: cães que ladram de casa em casa, sinos que tocam devagarinho por dentro das pálpebras.

Como escreveu Joaquim Manuel Magalhães, nesse extraordinário livro que é "Alta Noite em Alta Fraga", "ninguém acerta o relógio por um sino". E Fernando Pessoa, ao explicar que o sino da sua aldeia era o sino que tocava na sua igreja do centro de Lisboa, mostrou como cada uma das suas badaladas soa, não na rua, não no ar, nem sequer no céu, mas, sempre repetida, sempre a primeira que repete outra anterior que desde sempre existiu, "dentro da minha alma".

Se hoje já não somos capazes de ouvir as lentas badaladas das campânulas longínquas, é porque perdemos a capacidade de sentir esse espaço interior do mundo a que os poetas chamam "alma". E a alma não é mais do que isso: o lugar onde os sinos tocam.

terça-feira, 13 de novembro de 2001

A Banalidade do Mal

JOSÉ VÍTOR MALHEIROS
Público, Terça-feira, 13 de Novembro de 2001

Nunca um acidente de um enorme avião de passageiros foi recebido com maior frieza que o do Airbus que ontem se esmagou no bairro de Queens, em Nova Iorque, matando todos os seus ocupantes.

Depois de um primeiro momento de suspensão, em que se receou que pudéssemos reviver os momentos do ataque às torres do World Trade Center, em que se imaginou um segundo aparelho espetando-se na parede espelhada da sede das Nações Unidas, ou outro desastre encenado frente às câmaras que apontavam à distância para Queens, a adrenalina diminuiu até a excitação se transformar numa quase indiferença, à medida que a tese do possível ataque terrorista não era confirmada pelos dados.

Claro que a população das zonas limítrofes teve o seu momento de pânico (não é todos os dias que cai um avião na nossa rua), mas mesmo os moradores de Queens que foram entrevistados pelas televisões mostravam um sangue-frio de cirurgiões de Serviço de Urgência e faziam uma descrição factual e detalhada, digna do mais empedrenido dos pivôs televisivos. Reacções tanto mais surpreendentes quanto o acidente teve lugar em Nova Iorque e não num canto perdido da Ásia, com o qual a empatia podia ser mais difícil, e para mais num bairro residencial e não numa montanha inóspita, onde é sempre mais fácil aceitar que as desgraças aconteçam.

A verdade é que o 11 de Setembro colocou o nosso limiar de tolerância do horror num patamar de um nível diferente daquele onde se encontrava antes.

A encenação de mestre dos terroristas (Stockhausen teve o mau gosto de lhe chamar "obra de arte") joga assim, de alguma forma estranha, contra o terrorismo. Será cada vez mais difícil aterrorizar, como é cada vez mais difícil chocarmo-nos com a violência do cinema, ou mesmo impressionarmo-nos com a montra de crueldades dos telejornais.

Hannah Arendt falava da banalidade do mal a propósito de Adolf Eichmann, referindo-se à vulgaridade dos carrascos nazis, ao hábito da crueldade, à perda de sentido com que a rotina embebe a tortura. Mas há também uma banalidade do mal do ponto de vista de quem vê, não apenas de quem executa. O horrível acidente de ontem, com os 255 passageiros e tripulantes que morreram no choque e no incêndio, além dos não se sabe quantos moradores, foi uma manifestação de mais algo que se perdeu desde o 11 de Setembro. Antes só nos impressionávamos com o sofrimento próximo, de agora em diante só nos vamos impressionar com exibições de sofrimento de massas e espectaculares ("artísticas"?).

As pessoas protegem-se dos sentimentos que as perturbam. A fuga da dor alheia é uma das consequências da banalidade do mal à nossa volta. Mas se torna mais difícil o medo, torna também mais longínqua a nossa humanidade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2001

O maior dom

João César das Neves

Diário de Notícias, 20011112

Tempo é dinheiro. E nos tempos que correm, com a enorme ocupação geral, tempo é mesmo muito dinheiro. Por isso, dar tempo aos outros é hoje uma das ofertas mais difíceis e valiosas que se podem fazer. Estamos no Ano Internacional dos Voluntários, iniciativa com que a ONU pretende chamar a nossa atenção para a miríade de actividades desinteressadas em que, um pouco por todo o mundo, muitas pessoas se entregam em solidariedade ao próximo. Dada a estrutura da vida moderna, estas iniciativas contam-se entre as dádivas mais generosas da sociedade contemporânea. A opinião corrente é que vivemos num mundo egoísta e impiedoso, mesquinho e calculista, onde nada se dá sem receber algo em troca. No entanto, nesta como em todas as épocas, existem muitos exemplos grandiosos de benevolência generosa e altruísmo empenhado que nascem de uma nobre atitude de vida. As sociedades mecânicas e capitalistas, onde o poder de mercado domina, são também aquelas que mais se têm destacado nestas acções voluntárias. Aliás, o progresso económico é mesmo um dos principais factores decisivos na promoção dessa realidade. Fazendo subir o nível de vida e, sobretudo, criando tempo livre, ele permite às pessoas que se sentem interpeladas pelo sofrimento alheio ou por causas sociais o acesso aos meios para atender a essas necessidades. Claro que sempre houve ajuda desinteressada e gratuita, muitas vezes heróica e revolucionária. A diferença agora está nas novas características particulares, típicas do nosso tempo. Aquilo que as gerações antigas faziam muitas vezes de forma entusiasta mas improvisada é hoje realizado de maneira orgânica, rigorosa e planeada. Num tempo que se considera eficiente e produtivo, o voluntariado representa a formalização da beneficência e a sistematização da caridade. Esses organismos são em geral instituições caracteristicamente actuais, compartilhando da visão corrente do mundo e usando os métodos e técnicas contemporâneos. Nas sociedades ocidentais mais avançadas, o voluntariado é hoje já uma acção vastíssima e diversificada, com forte impacte local e mundial. São múltiplas as pessoas que se empenham em instituições de natureza muito diversificada. Alguns dedicam muito do seu tempo livre a actividades humanitárias, culturais e artísticas. Apoiam museus, escolas, hospitais, prisões, câmaras municipais, ajudam pobres e doentes, drogados ou abandonados, promovem a história, a música ou o folclore, protegem o ambiente e a qualidade de vida, incitam ao diálogo inter-racial e intercomunitário. Outros, em geral ligados a "organizações não governamentais para o desenvolvimento" (ONGD), partem para regiões subdesenvolvidas entregando alguns anos da sua vida aos mais pobres. A iniciativa de dar a conhecer esta realidade é meritória porque de facto muito deste trabalho, de grande valor, acaba por ficar ignorado. Em Portugal, por exemplo, a pouco conhecida Leigos para o Desenvolvimento é a ONGD nacional com mais cooperantes no terreno, envolvendo à volta de trinta pessoas por ano em projectos directos nos países pobres. Em São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Malawi, Timor e também aqui em Portugal, esta pequena organização já integrou dezenas de cooperantes na criação de escolas, cozinhas sociais, bibliotecas, centros de apoio à infância, à terceira idade e à ocupação de tempos livres, apoiou a alfabetização, os refugiados, a agricultura e até a construção dos edifícios correspondentes, deu serviço em hospitais, instituições de ensino, e tantos outros. Com pouco mais de 15 anos de existência, este grupo católico, ligado à Companhia de Jesus, é simplesmente constituído por pessoas comuns, dispostas a dedicar pelo menos dois anos da sua vida a ajudar os mais necessitados. Estes voluntários, normalmente jovens, interrompem as suas carreiras profissionais e deixam as suas famílias. Em troca recebem uma experiência humana única que os marcará para sempre. E esta é apenas uma entre múltiplas e variadas ONGDs portuguesas, sendo Portugal um País onde, ainda assim, este fenómeno está no seu início. Na Europa Ocidental e na América do Norte são sobretudo os jovens e os idosos os grandes intervenientes nestas actividades. A razão principal está ligada à sua maior disponibilidade, mas também ao grande proveito que daí tiram. Para a juventude e a terceira idade, o voluntariado é uma forma excelente de se integrarem na sociedade que é, já e ainda, a sua. Abandonando o divertimento acéfalo em que tantos os querem prender e repudiando a crítica derrotista, fácil e azeda aos males do mundo, mostram assim que são cidadãos de corpo inteiro, úteis e construtivos. A sua nobre atitude de vida dá um sinal de esperança no concreto da resolução de problemas. O voluntariado é a manifestação em pleno de uma das maiores verdades da humanidade: é dando que se recebe. E o maior dom é um pedaço da própria vida.

naohaalmocosgratis@vizzavi.pt

domingo, 4 de novembro de 2001

Um Certo Islão e Um Certo Ocidente

ANTÓNIO BAGÃO FÉLIX*
Público, Domingo, 4 de Novembro de 2001


O que certo Islão fanatizou por excesso, certo Ocidente banalizou por defeito: a religião.

O que certo Islão transformou em imposição e intolerância, certo Ocidente escarneceu com pretensa superioridade: a tradição.

O que certo Islão assassinou na perseguição, certo Ocidente desvalorizou no comportamento: a virtude.

O que certo Islão fingiu combater, certo Ocidente conseguiu trivializar: o vício.

O que certo Islão diabolizou, certo Ocidente relativizou: o bem.

O que certo Islão espalhou, certo Ocidente consentiu: o mal.

O que certo Islão abusou, certo Ocidente corrompeu: o respeito pela Vida.

O que certo Islão anulou, certo Ocidente deixou de consultar: a consciência.

O que certo Islão proibiu, certo Ocidente comercializou: o prazer sem limites.

O que certo Islão desviou para o mal, certo Ocidente idolatrou como fim supremo: o dinheiro.

O que certo Islão fabricou em nome do mal, certo Ocidente destruiu em nome do igualitarismo: líderes.

O que certo Islão perpetuou, certo Ocidente ignorou: a pobreza.

O que certo Islão aproveitou, certo Ocidente semeou: a indiferença.

O que certo Islão quis utilizar demoniacamente, certo Ocidente quis tornar dispensável: Deus.

Não admira, neste contexto, a coligação negativa entre este (in)certo Islão e este (in)certo Ocidente. Os extremos embora não se fundam, tocam-se. De um lado, um errado, obscuro e insuportável moralismo; do outro um neutral, anódino e asséptico amoralismo. O que prova, em ambos os casos, que moralismo e amoralismo podem nada ter a ver com a moral baseada na dignidade inalienável da pessoa humana e na defesa do bem comum.

Neste certo Ocidente está uma Europa, amorfa, lenta, gordurosa de palavras e raquítica de carácter, que, enquanto tal, só existe nos tratados e nos directórios europeus, mas que não existe na sociedade e deixou de fazer história. Fala-se, à saciedade, de taxas, de percentagens, de moeda, de quadros de apoio, de regiões, de geometria variável, de coesão, de programas. Ao mesmo tempo, minguam as referências éticas, valorativas, geracionais, familiares - coisas, por certo, antiquadas para alguns - e definha o caudal que gerava líderes capazes de unir, robustecer, encorajar, orientar as pessoas.

Perante este cenário de fraqueza, uma perigosa nova "bomba atómica" está aí. A pérfida coligação do mal com a inteligência quer arrasar a saudável coligação do bem com a sensibilidade. E há quem nesta nossa periclitante civilização teime em fazer, mesmo que inconscientemente, a sua propaganda mediática.

O mal não pede autorização, nem suporta hediondas e ineficientes teias burocráticas. Ao contrário do bem que, não raro, tem que obter licença e resistir aos entraves de mil e uma coisas.

Enquanto em certo Islão, Bush e Blair são "queimados", em certo Ocidente decadente e totalmente permeável, arriscamo-nos a ver Osama Bin Laden passar de vilão assassino a herói romântico. Uma espécie de Che Guevara do fundamentalismo...

Asfixiadas por um indiferentismo que adormece, anestesia, fere e até deixa matar, as sociedades democráticas, livres e abertas não estão preparadas para combater o mal nas suas formas mais insidiosas, cobardes e paradoxalmente mais artesanais. Como o efeito da pedra lançada à água, o terrorismo aproveita-se também das psicoses que sempre seguem acções criminosas. As pessoas sentem-se ameaçadas por um qualquer pó, por uma qualquer contaminação, por uma qualquer perturbação ou anomalia. As pessoas são, de facto, menos livres.

Será que vamos ser capazes de superar esta batalha que temos de travar dentro das nossas portas, mas que nem sempre enxergamos com clareza, lucidez e frontalidade?

*Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz


Afeganistão: Uma Guerra com Sexo

ZITA SEABRA
Público, Domingo, 4 de Novembro de 2001

Já se entendeu em todas as guerras recentes que tão importante como a condução das operações militares no terreno é a capacidade de fazer propaganda. Está em muitas memórias a influência decisiva da divulgação da fotografia da menina vietnamita bombardeada com Napalm para o desenlace da guerra do Vietname, e ainda não estávamos, como hoje, na era das comunicações, da televisão, da Net.

Vivemos presentemente um tempo em que tudo está tão próximo de nós, que temos a sensação de que a informação é neutra e isenta, que não é possível que ninguém a filtre e que somos nós, cada um de nós, que está no terreno a julgar com os seus próprios olhos o que se está passando. Há, porém, um momento em que consciencializamos o que estamos a ver e sobretudo o que estamos a não ver. É esse o momento em que a passividade do telespectador dá lugar à indignação, por vezes tão profunda que temos necessidade de a partilhar com outros.

Tudo isto vem a propósito das imagens que nos chegam do Afeganistão, particularmente das filmagens de vítimas civis dos bombardeamentos que ocorrem há três semanas. São imagens cedidas por um canal Árabe, autorizadas pelos taliban, filmadas no Afeganistão e retransmitidas pelos canais de televisão de todo mundo, incluindo as televisões portuguesas. São imagens de feridos civis nos hospitais afegãos, de pessoas feridas deitadas nas camas das enfermarias ou de pessoas feridas nas aldeias, ou nas cidades do país que se encontra sob os bombardeamento.

Ontem, vendo mais uma vez imagens, repentinamente consciencializei que até hoje não se viu, ninguém mostrou que eu tivesse visto, nenhuma mulher numa daquelas camas de hospital improvisadas num terreno de guerra! Corri rapidamente todos os canais nacionais e estrangeiros para verificar se nalgum sítio me aparecia uma única mulher ou uma única menina.

A conclusão é evidente: a acreditar nas imagens dos taliban, não há mulheres feridas. Se as imagens mostram só homens, mostram só meninos, é porque elas não existem. E qual será a razão de tão estranha constatação, sabendo-se que quando populações civis são bombardeadas são sempre elas as primeiras vítimas? Será que as bombas escolhem o sexo? Será que as vítimas são afinal militares e não civis? Ou será que os taliban, mesmo em guerra e com imagens para impressionar o Ocidente, não autorizam que as mulheres tenham tratamento nos hospitais deles, tal como decretaram desde que chegaram ao poder no Afeganistão já lá vão seis anos? Sabe-se, infelizmente, que, em todas as guerras, quando existem vítimas civis, a maioria são sempre mulheres e crianças. São elas as mais fotografadas e mostradas porque simbolizam a imagem da injustiça de quem é apanhado num conflito sem armas na mão.

Será que os taliban, fiéis à sua interpretação das leis religiosas que chamaram suas, deixam as mulheres morrer pura e simplesmente sem tratamento médico ou hospitalar, com o argumento de que não podem ser olhadas ou tocadas por nenhum outro homem? Será que, tal como acontece desde há seis anos (em que as deixam morrer de parto, ou morrer doentes), as deixam morrer feridas sem tratamento médico e hospitalar? Desde que chegaram ao poder, é sabido que os taliban não autorizam as mulheres a trabalhar e não consentem que sejam médicas ou enfermeiras, pelo que as doentes morrem em casa sem tratamento para que nenhum olhar masculino as toque...

As imagens que nos mostram dos hospitais no Afeganistão, só com homens, são a imagem mais cruel de uma guerra e não podem escapar a nenhum olhar civilizado. Não há diferença cultural (?), argumento religioso ou outro, que possa deixar passar essas imagens. A partir do momento em que pessoalmente interiorizei esse facto, de cada vez que os écrãs da televisão fixam os feridos de um hospital, só consigo perguntar a mim própria pelas mulheres e pelas meninas!

Como parecem estranhas as discussões de argumentos fantásticos em colunas enormes dos jornais ou em seminários bem pensantes, ou em programas de rádio, procurando apurar com rigor se estamos a assistir afinal a uma guerra de culturas, ou de religiões, ou dos pobres contra os ricos do mundo, ou de Deuses. Face a tamanha eloquência, só me vem ao pensamento a realidade da vida das mulheres, proibidas de aceder aos tratamentos médicos, que morrem de parto e de dor, que não podem ir à escola, nem à rua, que não podem fazer planeamento familiar - mulheres a quem até o olhar lhes é negado.

Não se pode deixar de pensar no que é a vida destas afegãs, vivendo em poligamia e coexistindo com o evidente pressuposto de que, se morrerem, o "seu" homem não fica viúvo porque tem mais 17 ou 18 mulheres para substituir alguma que adoeça e morra. E nova questão tem de ser colocada: será a poligamia uma das diferenças culturais de que se fala? Ou a monogamia é uma conquista civilizacional da humanidade inquestionável à luz dos nossos valores?

A mutilação sexual dos órgãos genitais femininos, como existe nalguns países muçulmanos de África (como o Togo, por exemplo), será também uma mera diferença cultural entre nós e eles? Ou constituirá uma barbaridade contra as mulheres e a universalidade dos direitos do Homem? Se é assim, então não podemos permitir que, quando vivem entre nós, tal prática seja invocada em nome de uma qualquer tradição cultural ou religiosa. E temos mesmo a obrigação de a denunciar. Ou será que alguém discorda da decisão, já tomada nos Estados Unidos e em França, de conceder o estatuto de asilo de refugiado a mulheres que fugiram dessa barbaridade?

Quando os taliban mandam imagens dos seus hospitais e não se vê nenhuma mulher ou menina, não pode haver complacência como se observássemos uma qualquer bizarria cultural do mundo islâmico. Devemos, sim, olhá-las com os olhos da nossa visão, de quem aceita que as conquistas civilizacionais, como o direito à igualdade (e aqui escrevo expressamente igualdade) entre o homem e a mulher não são questionáveis.

As imagens e os testemunhos que nos mostram que os taliban consideram que têm o direito de bater nas mulheres com paus porque mostram um pouco de pele, como fazem nas ruas de Cabul, não serão suficientes para se desejar, todos os dias, que rapidamente aquelas mulheres sejam libertadas e, juntamente com as suas filhas, tenham direitos que para nós fazem já parte da nossa identidade, da nossa pele? Ou alguma diferença cultural pode justificar aqueles paus que se vêem nas televisões não autorizadas pelos taliban? Diferenças culturais?

Dir-se-á que nós - as que não vivemos em poligamia, e que vamos ao hospital se estamos doentes e que não consentimos que ninguém nos tape a cara - só acordámos depois de percebemos que alguém atirou uns aviões cheios de homens, mulheres e crianças contra prédios cheios de pessoas. E, no entanto, desde os anos sessenta que não só as feministas, mas todas as que lutaram pelos direitos das mulheres, demonstraram que uma sociedade que oprime as mulheres não é uma sociedade livre, não é uma sociedade democrática, não é uma sociedade compatível com os valores civilizacionais que conquistámos. Apesar disso, durante anos fomos sabendo que as aquelas mulheres eram tratadas pelos taliban pior que nós tratamos os animais e preocupámo-nos mais com eles do que com elas. Deixámo-las sem palavras de denúncia, sem campanhas de mobilização, sem feministas que se manifestem e sobre elas escrevam e lhes façam chegar a nossa indignação.

Mas, mesmo agora, depois de nos mandarem imagens de hospitais sem mulheres e meninas; depois de sabermos que há países onde o prazer é abolido; de vermos mulheres batidas na rua com paus por serem mulheres; de sabermos que há mulheres proibidas de ir à escola; ou depois de termos consciência de que cada um daqueles homens tem dúzias de mulheres que acham ser sua propriedade privada; que têm 52 filhos e dezenas de irmãos; e de sabermos muito mais que tudo isso, ainda há quem discuta se não devemos respeitar estas diferenças culturais ou sociais da nossa civilização ocidental, a que alguns chamam decadente, e a deles, a que outros chamam "diferente".

Há mesmo quem sinta mais culpa por vivermos com os nossos valores do que culpa por consentirmos que esta barbaridade se passe em frente aos nossos olhos e até consinta que, quando alguns emigrantes chegam ao Ocidente, vivam com essas especificidades como a poligamia, ou tapem a cara das filhas para andarem nas nossas ruas ou as mandem de "chador" (esse símbolo da inferioridade feminina) às nossas escolas. Isto é: que nos imponham em nossa casa, aquilo que, com tanto sacrifício, abolimos há anos na lei e na vida do nosso mundo.

Uma sociedade onde o prazer e o gosto é proibido é uma sociedade condenada. Esperemos que rapidamente as mulheres afegãs se vejam livres de um pesadelo e se encontrem com um tempo que felizmente é o nosso e o das nossas filhas.