Quer mudar a sociedade de forma ilegítima? Comece por mudar o sentido das palavras.


Manifestação ‘Toda a Vida tem Dignidade"
Pedro Morrumba
29.05.2018

Boa tarde, 

Se eu dissesse que há tempos atrás eu prestei assistência a um suicida, o que é que vocês entenderiam?
Certamente nenhum de vocês pensaria que eu teria reunido os meios e disponibilizado os meios para essa pessoa se matar. 

Uma das coisas que se faz quando se quer mudar uma sociedade de forma ilegítima, é começar por mudar o sentido das palavras e das expressões. E prestar assistência a alguém que está em sofrimento não é, de todo, provocar a morte dessa pessoa e apressar a morte dessa pessoa. 

Todas as vezes que nós quisemos ouvir uma pessoa dizer: “Eu prestei assistência a alguém que estava em sofrimento”. O significado que nós sabemos que essa expressão tem é que ele esteve ao lado de quem estava a sofrer, é que ele apoiou quem estava a sofrer, é que ele ajudou quem estava a sofrer. 

Não significa certamente que essa pessoa antecipou, que essa pessoa apressou a morte de quem estava em sofrimento. 

Por isso, quando nós pensamos de compaixão, sim porque há quem acredita que a compaixão é a razão que leva a apressar, a antecipar a causar morte de alguém  , e nós percebemos que compaixão é estar ao lado de quem sofre. Compaixão é apoiar quem sofre, compaixão é cuidar de quem sofre. 

Sim! Nós já passámos por essa experiência. Eu vivi essa experiência quando a minha avó morreu com uma doença degenerativa. Eu vivi essa experiência quando o meu sogro morreu de cancro e o meu sogro partiu para o hospital da minha casa. Eu prestei assistência ao meu sogro na sua morte. Eu não o matei! A compaixão não me levou a matá-lo. 

Então, quando nós pensamos em compaixão, nós pensamos em cuidar de quem sofre. 

E oiçam isto, que é importante, nós que temos a vivência, aconteceu-me quando acompanhei, está aqui o pai dela, uma jovem pré-adolescente que aos 12 anos morreu de cancro, nós como comunidade, nós como amigos, nós como família, prestámos assistência não só a ela, no hospital, como à família dela, e nós não provocámos a morte dela, nós não antecipámos a morte dela.

E nós, quando nós usamos de compaixão com alguém, nós temos consciência que não podemos tudo, nós temos consciência que há formas de sofrimento que não conseguimos retirar. Mas não é verdade dizer que há formas de dor e formas de sofrimento que não se pode fazer nada, não é verdade sobre o ponto de vista científico, não é verdade em termos de família, não é verdade em termos de comunidade, não é verdade em termos de sociedade. 

Então, compaixão não pode ser a frase que se diz, antes de concluir “eu apressei a morte, eu provoquei a morte.”
Compaixão tem que ser aquilo que nos vai mover todas as vezes que estivermos ao lado de alguém que sofre, para dizer: “Eu, por compaixão, eu estive lá, eu não fiquei indiferente, eu não me omiti, eu não me afastei, eu estive ao pé do meu familiar, eu estive ao pé de um desconhecido, e cuidei, NÃO MATEI!

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