Eutanásia

Nota prévia da Redação: 

Este relato de como o debate e votação parlamentar sobre a legalização da eutanásia foi vivida numa casa de família é expressivo de duas coisas que se pretendem salientar: 


"É interessante ver um filho com 16 anos a defender a sua posição, distinta da dos pais, tentando argumentar com inteligência. Mostra que sente abertura para pensar pela sua própria cabeça, o que é algo que nos enche de felicidade. Ainda que, por vezes, algumas das suas opiniões nos inquietem, o facto de pensar nas coisas, de nos ler em voz alta artigos com os quais concordou, de relatar discussões que teve com amigos e professores, deixam-nos a certeza de estarmos a criar alguém com liberdade de pensamento e raciocínio."

1) A intuição dos jovens perante os valores absolutos, como a vida e a sua defesa em qualquer circunstância, pode ser mais clara, que a dos adultos, particularmente aqueles que têm visibilidade social, e que procuram agradar a todos. Na verdade, o exemplo que esta mãe blogger dá no dia a dia, nas preocupações com quem está doente na família e não só, no desgosto perante a morte de alguém querido, e não só, educa ao filho no valor da vida. Só um raciocínio abstrato que não advém da observação da realidade e da forma como a deseja, ela própria, viver, é que a poderá levar a pensar que outros - os suicidas - devem ter a liberdade, não só de levarem a termo o seu desejo anti-natural de não viver mais , como devem para isso ser assistidos por pessoas que não têm esse desejo, nem (por enquanto) esse direito. 


"Surpreende-me o chumbo porque agora vou viver num país meio esquizofrénico em que o aborto é possível e a eutanásia não. Ora, em última instância, o aborto é a decisão de alguém sobre uma vida que não é a sua. E a eutanásia é a decisão do próprio sobre a sua própria vida. Portanto vivo agora num país onde é legítimo (e legal) terminarmos uma vida que não é a nossa, mas é ilegítimo (e ilegal) decidirmos quando devemos terminar a nossa própria vida? Wow."

2) Que a base deste raciocínio que valida a eutanásia como prática médica e social seja a já legalizada prática do aborto, é a única evidência que precisamos para perceber como estes passos legislativos de chamado progresso, levam verdadeiramente  ao que tantas vezes ouvimos chamar de desvios civilizacionais. Como o aborto já é legal, deixamos de ter argumentos válidos para não legalizar tudo o que se equipara... não é mesmo disto que trata quando se refere o efeito rampa deslizante?! 

"Para mim é bastante óbvio que se trata de uma questão de liberdade. Ninguém obrigaria ninguém a ser eutanasiado. Porém, ao contrário, este chumbo obriga-nos a ficar vivos mesmo que a nossa vida já não seja mais do que sofrimento, dor excruciante, desespero lancinante. E sim, falamos apenas destes casos, basta ler as propostas. Adoro a argumentação de que passariam a "matar todos a torto e a direito". 

3)  "Passariam a matar todos a torto e a direito" seria, pelo efeito de rampa deslizante acima evidenciado, a consequência mais provável a legalização da eutanásia. 


https://coconafralda.sapo.pt/    30.05.2018

O assunto "eutanásia" deu muito que falar cá em casa, com opiniões diametralmente opostas. É interessante ver um filho com 16 anos a defender a sua posição, distinta da dos pais, tentando argumentar com inteligência. Mostra que sente abertura para pensar pela sua própria cabeça, o que é algo que nos enche de felicidade. Ainda que, por vezes, algumas das suas opiniões nos inquietem, o facto de pensar nas coisas, de nos ler em voz alta artigos com os quais concordou, de relatar discussões que teve com amigos e professores, deixam-nos a certeza de estarmos a criar alguém com liberdade de pensamento e raciocínio.
Quanto ao assunto propriamente dito, lamento o chumbo tanto quanto lamento quando oiço alguém do lado oposto dizer que "é pela vida", como se os que defendem um fim digno fossem "pela morte". 
Para mim é bastante óbvio que se trata de uma questão de liberdade. Ninguém obrigaria ninguém a ser eutanasiado. Porém, ao contrário, este chumbo obriga-nos a ficar vivos mesmo que a nossa vida já não seja mais do que sofrimento, dor excruciante, desespero lancinante. E sim, falamos apenas destes casos, basta ler as propostas. Adoro a argumentação de que passariam a "matar todos a torto e a direito". Falamos apenas de antecipação da morte por decisão "da pessoa com lesão definitiva ou doença incurável e fatal que se encontra em sofrimento duradouro e insuportável". E não me venham falar de cuidados paliativos, por favor. Eles têm melhorado muito, graças ao trabalho extraordinário de pessoas igualmente extraordinárias. Mas todos sabemos que há dores que não passam nem com as doses máximas de morfina possíveis de ministrar. Dores físicas inimagináveis e dores psicológicas indizíveis. Que muitos podem tolerar até ao último suspiro, admito que sim, sem querer abreviar a existência. Mas... e aqueles para quem a existência assim feita de dor (e sem esperança em melhoras mas com o fim à vista) não faz qualquer sentido? 
Surpreende-me o chumbo porque agora vou viver num país meio esquizofrénico em que o aborto é possível e a eutanásia não. Ora, em última instância, o aborto é a decisão de alguém sobre uma vida que não é a sua. E a eutanásia é a decisão do próprio sobre a sua própria vida. Portanto vivo agora num país onde é legítimo (e legal) terminarmos uma vida que não é a nossa, mas é ilegítimo (e ilegal) decidirmos quando devemos terminar a nossa própria vida? Wow. 
Por fim, uma última questão: todos sabemos que quem tem possibilidades financeiras vai continuar a morrer com dignidade. Na Suíça, na Holanda, na Bélgica. E que, quem não as tem, é quem fica condenado a um fim tortuoso. Tal como antes da aprovação do aborto. As mulheres com dinheiro (e muitas anti-aborto) iam fazê-los a Espanha, em clínicas de luxo. As outras, as pobres, faziam-no em vãos de escada, morrendo tantas vezes em consequência da falta de condições. 
Assim continuaremos. Tenho pena.
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