Como o Sporting e Jorge Jesus ajudaram os meus filhos a crescer

Inês Teotónio Pereira
ionline, 2015.06.06

Na escola o dia foi de sobressalto. Como defender a nova contratação contra inimigos benfiquistas que agora atacam o ex-treinador?
O relato é dramático: Jorge Jesus sentiu-se “pouco desejado na Luz” porque não foi tido nem achado nas novas contratações. Está “magoado” com o Benfica. Luís Filipe Vieira soube que o treinador estava de saída e tentou demovê-lo: quis combinar um almoço, um jantar, um café, uma reunião, mas Jesus desligou o telemóvel. Tarde de mais: o treinador do Benfica já era treinador do Sporting. Tinha decidido pela “sua própria cabeça” atravessar a Segunda Circular sem dar ouvidos a Jorge Mendes.
Ao mesmo tempo que a coligação apresentava o programa de governo, nas televisões, em rodapé, passava a notícia de última hora. Olhámos todos para a data: não, não é 1 de Abril. A coligação não se calava e não havia maneira de se perceber se a notícia tinha fundamento. Desemprego, dívida, segurança social, estabilidade, sim. E sobre Jesus? Nada.
Hora de ir para a cama e foi com esta dúvida que os meus filhos foram dormir. Será que o inimigo tinha passado a amigo? Não era possível. Li uma daquelas histórias de amizade e fidelidade com animais e fadas para acalmar a pequenada. Não se falou do assunto, mas o assunto era o elefante no meio da sala. Dormiram. 
No dia seguinte acordaram com a confirmação. Silêncio. O primeiro a falar diz que Jorge Jesus sempre foi do Sporting. A traição deu-se no dia em que foi para o Benfica, a redenção quando voltou para o Sporting. Silêncio. Outro, mais crescido, interrompe o silêncio: “Só acredito quando for oficial” – é assim como na igreja, só acreditamos quando é o Papa a falar e Bruno de Carvalho ainda não tinha falado.
Na escola o dia foi de sobressalto. Como defender a nova contratação contra inimigos benfiquistas que agora atacam o ex-treinador? Vivia-se a confusão: benfiquistas a defender Marco Silva, sportinguistas a defender Jorge Jesus. Foi duro. Ainda no domingo Marco Silva era um herói sportinguista e agora passava a uma vítima benfiquista. Era difícil mudar ideias em tão pouco tempo. O Joker passou a Batman e ninguém lhes explicou como defender o Joker no recreio da escola. A urgência era enorme. “Um verdadeiro sportinguista defende sempre o seu presidente”, decretou um deles. A linha de defesa estava montada. 
Chegaram a casa exaustos e com mais informação: afinal Jesus tinha saído do Benfica por dinheiro e não por ser sportinguista. Pior: Marco Silva saiu do Sporting sem dinheiro; o herói tinha sido escorraçado porque não usou o fato oficial do clube. Sem palavras. Por outro lado, corria no recreio outra possível explicação: “O sonho do pai de Jorge Jesus é que ele treine o Sporting por isso ele vai cumprir o sonho do pai.” Podia ser isso; Deus queira que seja isso. Para piorar as coisas o jantar foi peixe.
Deixem, expliquei eu, também no meu partido tivemos presidentes e dirigentes que passaram para outros partidos e aguentámos. Não serviu de nada. Na política, já se sabe, não há princípios. Já o futebol é diferente e o Sporting um exemplo. No secretismo do lar desabafaram: “Eu preferia que o Marco Silva continuasse. Ele apostou na formação, ganhámos a Taça…” Outro procurava uma forma de apagar anos e anos de gozo: “É verdade que Jorge Jesus não sabe falar, mas para ser treinador não é preciso saber falar.” Bruno de Carvalho falará por ele.
O mais velho, que gosta tanto de futebol como de ginástica acrobática, ajudava à festa: “Sabem de onde vem o dinheiro para contratar Jorge Jesus?” Eles não quiseram saber, até porque não sabem onde fica a Guiné Equatorial. As notícias continuaram a cair em catadupa e a luta titânica que cada um deles travava interiormente entre lealdade e ética contra racionalidade e eficácia consumia-lhes as energias. Como esquecer Marco Silva, como defender Bruno de Carvalho e Jorge Jesus? O que é o mercado? Quem são os bons? Dei um chocolate a cada um e acabei a noite a ver uma reportagem sobre o novo treinador do Sporting: o novo herói dos meus filhos. 
Em dois dias apenas os meus filhos perderam parte da inocência, descobriram que o amor à camisola tem a ver com o preço da mesma e aprenderam que nunca, mas nunca, se podem esquecer do equipamento em casa. Obrigada, Sporting; obrigada, Jorge Jesus: andei enganada durante anos, convicta de que não se aprendia nada com o futebol. 

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