Um piquenique em Atenas

Paulo Tunhas
Observador 18/6/2015

A Grécia, um país que conheço razoavelmente bem e no qual tenho pessoas que me são caras, vai ficar pior do que estava no fim de 2014. Por causa do Syriza, e com a completa indiferença do Syriza.
Num dos últimos filmes de Jean Renoir, Le déjeuner sur l’herbe, de 1959, conta-se uma história curiosa. Um cientista francês, o Prof. Étienne Alexis, candidata-se a Presidente dos Estados Unidos da Europa, com um programa de que apenas se conhece um ponto preciso: a generalização da inseminação artificial. O desenvolvimento da consciência europeia conduz naturalmente, aos seus olhos, à urgência de uma tal atitude. Num piquenique de promoção da sua candidatura (e que serve igualmente para publicitar o seu próximo casamento com uma prima alemã, Marie Charlotte, chefe de uma associação europeia da juventude, ou algo assim), o Prof. Alexis explica ao seu público que terminará em breve o reino das paixões, que se curarão cientificamente, como a gripe se cura com antibióticos. E está quase toda a gente muito feliz e crente nisso, quando, de repente, ao som de uma flauta que um velho acompanhado de um bode toca à distância, uma enorme ventania se levanta, dispersando toda a gente e despertando êxtases eróticos aqui e ali entre os convivas ainda há pouco muito admirativos dos desenvolvimentos próximos da consciência europeia.
O resto do filme não interessa aqui (“acaba bem”), mas esta primeira parte é um bom retrato da nossa situação actual na Europa. Só que o retorno da natureza, simbolizada pelo bode e pelo vento, não anda agora associado aos felizes excessos dos convivas do piquenique, mas à feia carantonha dos nacionalismos. Desde as coisas completamente inofensivas, como o pouco agrado dos franceses com as celebrações de Waterloo (como naquela história em que um francês, chegado a Londres, se surpreende com a mania dos ingleses de baptizarem praças com nomes de derrotas) até às coisas mais graves, entre as quais, claro está, se encontra a situação actual da Grécia.
Atena, como se sabe, saiu adulta e armada da cabeça de Zeus. O euro parece ter tido a ambição de também nascer por partenogénese e de, como a deusa, permanecer virgem, sábio e civilizador, imune às paixões causadas pelo vento do filme de Renoir. O desenvolvimento da consciência europeia exigia-o. Mas era uma ambição excessiva, como se vê desde há algum tempo e como nos arriscamos a constatar ainda com mais força dentre em breve. As paixões gregas puseram-nos a todos a tentar adivinhar o que se passará se a Grécia se decidir a sair do euro. E, nada surpreendentemente, ninguém sabe o que se passará.
A culpa não é só obviamente do utopismo flagrante que presidiu à constituição do euro, e menos ainda de Angela Merkel e dos que, com ela, tentam dar o seu melhor para resolver a triste situação. É sobretudo, e colossalmente, dos próprios gregos. É verosímil que, como diz o grande historiador da Grécia contemporânea Mark Mazower, em entrevista ao jornal grego Ekathimerini, tudo tenha começado a ir por muito mau caminho com o desenvolvimento maciço do Estado clientelista nos anos oitenta do século passado. E o mínimo que se pode dizer é que a eleição do Syriza é um belo corolário de todas as asneiras passadas.
Ao longo destes últimos cinco meses, tivemos direito a todas as técnicas leninistas que se podem imaginar. E à utilização sistemática da mentira tanto para consumo externo como para consumo interno (não consigo contar as vezes em que o Syriza, no mesmo dia, dizia coisas contraditórias). E à prática da violência verbal – “o FMI é “criminoso” – e da linguagem afectiva da “humilhação” – todos querem humilhar os gregos. E à tentativa de dividir entre si os “adversários” (as “instituições”). E à constante chantagem com a proximidade encenada com Putin. Tudo isto junto com a convicção de que coisas estritamente impossíveis de conjugar podem muito bem ser conjugadas (a absoluta soberania e a absoluta dependência do dinheiro alheio). Em suma, uma história de loucos. Ao que se acrescenta um cada vez mais notório autoritarismo. A televisão pública recentemente reaberta transformou-se, como tinha de acontecer, numa correia de transmissão do Governo, e é ver a maneira como foram recebidos pelo Syriza os avisos de Yannis Stournaras, o governador do Banco da Grécia, sobre as consequências da saída do euro para a Grécia. E ainda só estamos no princípio.
Sobram as questões em que toda a gente pensa. Vai haver acordo ou não? À medida em que as posições se afastam uma da outra, o Syriza afirma que um acordo está iminente. Mas também diz que pronunciará um grande “não”, caso se lhe proponha mais uma vez transgredir as célebres “linhas vermelhas”. Em todo o caso, é impossível levar a sério a palavra daquela gente. Pelo seu lado, a União Europeia tem uma longa tradição de acomodamentos de última hora, que não significam exactamente resolução dos problemas, mas antes adiamento de efectivas soluções. Tudo é possível. Tudo? Nem tudo. Mesmo que um acordo seja obtido, é quase certo que o Syriza não o cumprirá, como o afirmam, de resto, vários elementos dessa festiva associação.
E o que acontecerá se não houver acordo e a Grécia sair do euro? Então nessa hipótese a indeterminação ainda é maior. O que acontecerá à economia europeia, particularmente na zona euro? Os palpites são diversos e contraditórios. E quanto à própria Grécia, na sua relação à União Europeia? Também aqui as opiniões se dividem. Para Martin Schulz, o Presidente do Parlamento Europeu, a saída do euro significaria igualmente a saída da União Europeia. Mas, para outras cabeças igualmente sábias, como o próprio admite, não é assim.
De qualquer maneira, qualquer que seja o resultado, duas coisas são certas e seguras. Em primeiro lugar, a Grécia, um país que conheço razoavelmente bem e no qual tenho pessoas que me são caras, vai ficar pior do que estava no fim de 2014. Por causa do Syriza, e com a completa indiferença do Syriza. E, em segundo lugar, uma cultura política e económica não se pode criar por inseminação artificial e a partenogénese convém mais aos deuses do que aos humanos, que precisam, regra geral, de certas mediações. Quando nos convencemos dos méritos políticos da inseminação artificial, somos rapidamente desmentidos pela forte ventania. E, como no filme, perdemo-nos todos uns dos outros.

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