Adjectivos

JCdasNeves, DN 040816

Vivemos no tempo dos adjectivos. Nunca houve tanta certeza e vastidão na catalogação humana do universo. Avaliamos atitudes, classificamos ideologias, julgamos a História, condenamos a sociedade. Em tudo, pessoas, ideias, coisas, colocamos qualificações. No meio de tantas sentenças há, no entanto, dois termos que desapareceram do nosso vocabulário: «bom» e «mau». Atribuímos os mais variados rótulos, mas nunca estes dois, os qualificativos éticos fundamentais.

Temos uma excelente razão para isso. Vivemos num tempo científico, concreto, rigoroso e essas valorizações são altamente subjectivas. Épocas antigas, dogmáticas e supersticiosas, usavam tais juízos e preconceitos, que nós desqualificámos. Preferimos adjectivos mais específicos, patentes e demonstráveis. Os nossos epítetos são de outro tipo. As pessoas ou as ideias não são boas nem más; são antiquadas ou totalitárias, modernas ou eficientes, fundamentalistas ou liberais. Estes sim, são qualificativos contemporâneos.

De facto, esta opção não só não ganha em objectividade como sofre de hipocrisia. Porque considerar alguém «conservador», por exemplo, nada traz de informativo à avaliação. A sabedoria diz-nos que uma atitude correcta deve ser sempre conservadora de uns aspectos e reformadora de outros. Além disso, ninguém é verdadeiramente conservador, pois todos, quem quer que sejam, defendem a correcção de certos elementos, mantendo o resto. Assim, ser conservador pode ser excelente ou horrível, conforme as circunstâncias.

No entanto, nunca se ouve este termo a não ser para denegrir. Acusar de conservadorismo é hoje sempre uma forma de chamar mau a alguém, mas sem usar essa palavra que, obviamente, seria de uma subjectividade imperdoável. O mesmo se diga de expressões como «neoliberal», «esquerdista», «dirigista» ou «intolerante», que sempre têm um propósito injurioso, debaixo de uma capa de seriedade.

No lado positivo é igual. Os atributos «democrata», «livre», «criativo», «tolerante» pretendem sempre ser elogiosos. E, no entanto, se fossemos realmente científicos e objectivos, teríamos de dizer que uma pessoa totalmente «tolerante» é muito má, ao pactuar com actos, posições ou ideias que são, realmente, intoleráveis. Aliás, tal pessoa não existe, pois qualquer um de nós, por muito tolerante que pretenda ser, tem sempre um limite que não suporta.

Cada um acha sempre que aceita aquilo que deve aceitar combatendo o que tem de ser. O rótulo de «tolerante» nada significa portanto fora do contexto concreto.

Estes adjectivos têm, pois, muito pouco de objectivo.

Aliás, são mesmo contraditórios, pois os nossos discursos estão cheios de «fundamentalistas neoliberais» ou «esquerdistas totalitários». Sem falar daqueles que não contêm nenhum significado informativo, como «moderno», «actual», «original», que todas as épocas usaram para manifestar as mais variadas realidades.

Mas esta opção linguística traz consigo um grande perigo, o de cair cegamente precisamente nos preconceitos e juízos doutrinais que pretendia evitar. Condenamos objectivamente os «conservadores» ou «revolucionários», sem medo de injustiça. Nem precisamos de os ouvir para saber que não prestam. Assim esquecemos a regra de ouro, que nos ensinaram épocas antigas, dogmáticas e supersticiosas: debaixo do céu, tudo tem sempre bem e mal. A sabedoria na vida está em distinguir, em todos os grupos, os bons dos maus.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt


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