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Por um Natal sem crises

João Miguel Tavares, Público, 24/12/2013 As coisas mais importantes que temos nas nossas vidas são imunes a ratings e a aberturas de Telejornal . Por uma noite, são tudo aquilo que conta. Calhando-me, pela primeira vez, escrever no PÚBLICO na véspera de Natal, pensei em deixar para quinta-feira a análise a mais um chumbo do Tribunal Constitucional e compor hoje um texto optimista e esperançoso, que falasse dos aspectos positivos desta crise. Mas estou um pouco hesitante: será que se pode? Uma das consequências lamentáveis da crise é todo o discurso que a procura superar ser torpedeado pelos vigilantes da sensibilidade alheia, que com toda a facilidade classificam como "insensível" e de "mau gosto" qualquer desvio à narrativa oficial. A saber: nada de bom sai de uma crise, que apenas extrema as desigualdades sociais, empobrece o país e lança pessoas na miséria. Tudo isto é verdade, mas não é toda a verdade. Só que o resto da verdade, aquele resto que não ca...

Santo Natal

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Bom Natal

João Carlos Espada Público, 23/12/2013 Talvez essa civilidade dos portugueses deva alguma coisa à cultura cristã, que nos tem impregnado ao longo dos séculos. Na véspera da véspera de Natal, pensei que devia escrever sobre temas de esperança e sinais de concórdia. Felizmente esses temas existem entre nós, sem ser preciso procurar excessivamente. Refiro-me, por exemplo, a três eventos recentes de aparente sinal contrário: o veto do Tribunal Constitucional a uma medida governamental; o acordo entre a maioria e o partido líder da oposição para reduzir os impostos; e a forma incrivelmente ordeira e pacífica com que as escolas e as forças de segurança lidaram com a grosseira tentativa de boicote a um exame para professores do secundário. O veto do Tribunal Constitucional é uma prova irrefutável de que o nosso sistema de separação de poderes e de freios e contrapesos está a funcionar regularmente. Não se trata de saber se concordamos ou não com a decisão do Tribunal. Trata-se ...

Conto de Natal

JOÃO CÉSAR DAS NEVES DN 2013-12-23 Isabel empurrou a custo os últimos escombros e conseguiu ver o céu. Chovia e o vento era forte. À volta havia só destroços fumegantes do ataque nuclear. Ignorava se o país sobrevivera, mas ali a destruição era total. Se fosse um filme americano ela resistiria, após aventuras épicas. Mas na vida real o seu fim estava próximo. Suportara demasiada radiação para sobreviver. Mais cedo ou mais tarde morreria. Então notou que essa fora a sua condição toda a vida: mais cedo ou mais tarde ia morrer. Era a existência humana. De forma estranha, o pensamento negro deu-lhe ânimo. A morte era certa mas tinha de tratar da vida. "Viver cada instante em pleno" fora sempre o seu lema. Isabel era pragmática: tinha de pensar no melhor uso das suas poucas forças. Numa cidade morta, mantimentos não faltavam, mas não ia poder ficar. Os inúmeros cadáveres rapidamente tornariam a vizinhança inabitável. Sozinha e abalada tinha de sair. Os campos a norte eram m...

Isto já não é o que era!

O problema do nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser Paul Valéry (1871-1945) Poeta francês

Seleção natural

Alberto Gonçalves DN 2013-12-22 Não faço ideia se a prova feita aos professores foi a adequada para avaliar as respectivas competências, mas se a ideia era separar os capazes dos restantes, a coisa correu muitíssimo bem. Tal como ninguém escolheria para protagonista do filme o maluco que arruinou o casting à pedrada, os sujeitos e sujeitas que a mando dos sindicatos tentaram boicotar os colegas através de berreiro, violência, arruaça, artimanhas e pequenos delitos não podem desempenhar a profissão. Ou não poderiam, caso o País se orientasse por padrões civilizacionais médios. Em Portugal, porém, os padrões são outros e, após o pandemónio, decretaram a derrota do ministro Nuno Crato. A vitória, presume-se, coube à classe docente, ou à parcela que de docente tem pouco e classe tem nenhuma.

Tempo para Deus neste Natal

A beleza do Natal não cessa de tocar profundamente o nosso coração. É sempre comovedor contemplar o presépio e ver com os nossos próprios olhos que Deus ― que é tão grande, imenso, infinito ― Se torna uma criança para que nos aproximemos d'Ele com confiança, com segurança. Até, acrescentaria, com um certo atrevimento! Torna-Se uma criança para que O possamos amar, acolher ― sem nos assustarmos com o Seu esplendor divino. Toda a Sua glória fica oculta para que não nos amedrontemos ― para facilitar a nossa proximidade. Sem medo, sem temor, sem nenhum tipo de receio. Como nos dizia Bento XVI numa Noite de Natal, sempre nos toca o coração ouvir aquela frase do Evangelho que nos relata o que se passou em Belém: "Enfaixou-O e reclinou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria" (Lc 2, 7). Inevitavelmente, pomo-nos a questão: que teria feito eu? Como teria reagido se Maria e José batessem à minha porta? Haveria lugar para eles ou diria que a mi...