Destino fora de casa
JOÃO CÉSAR DAS NEVES DN 11 março 2015
A doença mais mortal é a mal diagnosticada, quando os esforços de cura aumentam a enfermidade. Um dos cancros que hoje rói a humanidade é incompreendido por muitos que se digladiam à sua volta; por isso não cessa de aumentar.
O erro começa na identificação da questão. A degradação da família e a queda da natalidade são os elementos mais influentes, porque mais nucleares, da situação presente. Uns acham--nos excelentes, outros horríveis; a maioria desconhece-os.
Começa por ser visto como um fenómeno ocidental, ignorando que se verifica do Japão ao Irão, da Bolívia à África do Sul, sem esquecer Índia e China. As culturas são muitas e os contornos variados, mas a tendência é geral. Outro erro é tomar a situação presente, com casamentos desfeitos, uniões de facto e ausência de natalidade, como a nova realidade. Isso é tão ingénuo como ter achado sólida a família tradicional. Precisamente porque poucas décadas revolucionaram o que existia há séculos, o resultado é tudo menos estável. Irá para um lado ou para o inverso, mas será diferente do que está. Por muito que se exaltem ou abominem os chamados "novos" tipos de família, eles são voláteis. O mais ridículo é considerar "modernos" ou "progressistas" hábitos e formas velhos como o mundo.
Na consideração de causas e consequências os erros tornam-se clamorosos, dado muitos, de ambos os lados da barricada, centrarem a atenção em questões político-económicas. Culpa-se a crise, sem se reparar que a maior mudança aconteceu em tempos de prosperidade. Acusam-se políticas familiares "perversas" e promovem-se as "adequadas" (que, conforme o sentido que se dá às palavras "perverso" e "adequado", podem ser inversas) sem notar que os esforços do Estado para interferir na família são ineptos há séculos. Os príncipes sempre tiveram intentos demográficos, para aumentar os braços ou reduzir as bocas, e sempre falharam. Isto não exime de responsabilidades as leis desmioladas ou infames; apenas constata a sua inanidade.
O mesmo se diga da cultura popular. É verdade que esta geração de filhos únicos, netos únicos e sobrinhos únicos de parentes divorciados ou amancebados é herdeira de 007 e Indiana Jones, Star Trek e Star Wars, Super-Homem e Batman, falhos de matrimónio e fertilidade. É verdade que a emancipação da mulher a masculiniza, desprezando as características femininas, no esforço obsessivo de as provar capazes em jogos de homens. É verdade que, em nome da liberdade sexual radical, se abandonam dignidade e equilíbrio, sacrificando essa liberdade no altar do deboche. Mas todos estes traços ideológicos, dominantes em filmes e novelas, discursos e conversas, leis e vida, são consequência e manifestação, não causa da situação. A propaganda é sempre retórica do produtor, não sua origem.
Passando para as consequências, o discurso continua centrado em problemas socioeconómicos, único registo aceitável hoje em dia. Aqui até os defensores da evolução lamentam os seus efeitos laterais sobre produtividade ou sustentabilidade financeira, enquanto os inimigos anunciam colapso eminente da sociedade de bem--estar. Neste campo, o erro atinge proporções gigantescas. Primeiro em termos objectivos: se há coisa que a economia e finanças fazem bem é adaptar-se. É verdade que o processo de desenvolvimento, a segurança social ou o Orçamento do Estado, tal como os conhecemos, se basearam em populações crescentes e férteis e famílias estáveis e solidárias. É verdade que sem filhos a base fiscal cai e, destruída a família, os custos da assistência social explodem. Mas a humanidade passou por transformações muito piores a que os sistemas produtivos e financeiros se acomodaram. Economicamente esta questão é mais simples do que a Revolução Industrial, a Guerra Fria ou as ameaças ecológicas, sempre exageradas e sempre resolvidas. Já estão em andamento as mudanças que gerarão prosperidade nas novas condições.
O pior é não notar que é precisamente esta obsessão político-económico-financeira que está na origem do cancro. Quem vê a vida como projecto de poder, promoção ou prosperidade, quem toma como finalidade da existência a realização na carreira e prazer, nunca enfrentará os enormes sacrifícios exigidos por um casamento feliz e fecundo. A origem radica no deslumbramento que levou o ser humano ao erro fatal de colocar o seu destino fora de casa, em forças sociais, económicas e políticas. Assim esta geração conseguiu provar em conjunto a sabedoria da antiga sentença paradoxal: "quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á" (Mt 16, 25).
A doença mais mortal é a mal diagnosticada, quando os esforços de cura aumentam a enfermidade. Um dos cancros que hoje rói a humanidade é incompreendido por muitos que se digladiam à sua volta; por isso não cessa de aumentar.
O erro começa na identificação da questão. A degradação da família e a queda da natalidade são os elementos mais influentes, porque mais nucleares, da situação presente. Uns acham--nos excelentes, outros horríveis; a maioria desconhece-os.
Começa por ser visto como um fenómeno ocidental, ignorando que se verifica do Japão ao Irão, da Bolívia à África do Sul, sem esquecer Índia e China. As culturas são muitas e os contornos variados, mas a tendência é geral. Outro erro é tomar a situação presente, com casamentos desfeitos, uniões de facto e ausência de natalidade, como a nova realidade. Isso é tão ingénuo como ter achado sólida a família tradicional. Precisamente porque poucas décadas revolucionaram o que existia há séculos, o resultado é tudo menos estável. Irá para um lado ou para o inverso, mas será diferente do que está. Por muito que se exaltem ou abominem os chamados "novos" tipos de família, eles são voláteis. O mais ridículo é considerar "modernos" ou "progressistas" hábitos e formas velhos como o mundo.
Na consideração de causas e consequências os erros tornam-se clamorosos, dado muitos, de ambos os lados da barricada, centrarem a atenção em questões político-económicas. Culpa-se a crise, sem se reparar que a maior mudança aconteceu em tempos de prosperidade. Acusam-se políticas familiares "perversas" e promovem-se as "adequadas" (que, conforme o sentido que se dá às palavras "perverso" e "adequado", podem ser inversas) sem notar que os esforços do Estado para interferir na família são ineptos há séculos. Os príncipes sempre tiveram intentos demográficos, para aumentar os braços ou reduzir as bocas, e sempre falharam. Isto não exime de responsabilidades as leis desmioladas ou infames; apenas constata a sua inanidade.
O mesmo se diga da cultura popular. É verdade que esta geração de filhos únicos, netos únicos e sobrinhos únicos de parentes divorciados ou amancebados é herdeira de 007 e Indiana Jones, Star Trek e Star Wars, Super-Homem e Batman, falhos de matrimónio e fertilidade. É verdade que a emancipação da mulher a masculiniza, desprezando as características femininas, no esforço obsessivo de as provar capazes em jogos de homens. É verdade que, em nome da liberdade sexual radical, se abandonam dignidade e equilíbrio, sacrificando essa liberdade no altar do deboche. Mas todos estes traços ideológicos, dominantes em filmes e novelas, discursos e conversas, leis e vida, são consequência e manifestação, não causa da situação. A propaganda é sempre retórica do produtor, não sua origem.
Passando para as consequências, o discurso continua centrado em problemas socioeconómicos, único registo aceitável hoje em dia. Aqui até os defensores da evolução lamentam os seus efeitos laterais sobre produtividade ou sustentabilidade financeira, enquanto os inimigos anunciam colapso eminente da sociedade de bem--estar. Neste campo, o erro atinge proporções gigantescas. Primeiro em termos objectivos: se há coisa que a economia e finanças fazem bem é adaptar-se. É verdade que o processo de desenvolvimento, a segurança social ou o Orçamento do Estado, tal como os conhecemos, se basearam em populações crescentes e férteis e famílias estáveis e solidárias. É verdade que sem filhos a base fiscal cai e, destruída a família, os custos da assistência social explodem. Mas a humanidade passou por transformações muito piores a que os sistemas produtivos e financeiros se acomodaram. Economicamente esta questão é mais simples do que a Revolução Industrial, a Guerra Fria ou as ameaças ecológicas, sempre exageradas e sempre resolvidas. Já estão em andamento as mudanças que gerarão prosperidade nas novas condições.
O pior é não notar que é precisamente esta obsessão político-económico-financeira que está na origem do cancro. Quem vê a vida como projecto de poder, promoção ou prosperidade, quem toma como finalidade da existência a realização na carreira e prazer, nunca enfrentará os enormes sacrifícios exigidos por um casamento feliz e fecundo. A origem radica no deslumbramento que levou o ser humano ao erro fatal de colocar o seu destino fora de casa, em forças sociais, económicas e políticas. Assim esta geração conseguiu provar em conjunto a sabedoria da antiga sentença paradoxal: "quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á" (Mt 16, 25).
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