Paris já vale bem uma missa?

Filipe Alves | Económico | 2016.03.02
filipe.alves@economico.pt

A polémica em volta do cartaz bloquista sobre o Jesus Cristo com dois pais é mais do que uma guerra de alecrim e manjerona, como alguns querem fazer crer, pois tem um significado mais profundo do que aparenta à primeira vista. Mas vamos por partes.
Em primeiro lugar, o cartaz do Bloco de Esquerda (BE) faz troça das crenças mais profundas de uma larga fatia da população portuguesa. Sejamos honestos: para além de ser ineficaz para o fim a que se propõe (celebrar uma conquista social provocando o lado derrotado?), o cartaz goza com os católicos e é natural que algumas pessoas se sintam incomodadas. 
Em segundo lugar, a sátira, o humor e a crítica são livres. Mas isto também significa que as pessoas que se sentem incomodadas com o cartaz têm o direito de protestar contra o mesmo, desde que de forma civilizada. A liberdade de expressão é para todos. E muitos dos que criticam a resposta dos católicos são os mesmos que, frequentemente, exigem que rolem cabeças à menor violação do políticamente correcto ‘laico’. Somos todos muito tolerantes, mas quando fazem troça das nossas convicções...
Em terceiro lugar, um partido político não é um “Charlie Hebdo” e a religião deve ficar de fora do debate político. Enquanto peça de propaganda política, o cartaz do BE é tão lamentável como um outro que mostre a figura de Jesus a condenar a adopção de crianças por casais homossexuais. 
Em quarto lugar, não é segredo que o BE e os partidos que lhe deram origem nunca esconderam a sua hostilidade ao catolicismo. Essa hostilidade vai além da proverbial visão marxista da religião como o ópio do povo e não tem paralelo com a forma como trata outras confissões. O BE, que diz compreender a indignação dos muçulmanos face aos ‘cartoons’ de Maomé, nunca demonstrou igual compreensão para com os sentimentos dos católicos portugueses. Mas não está só: a esquerda europeia bem-pensante está sempre disposta a “compreender” os outros, desde que não sejam cristãos, europeus brancos ou americanos do Midwest que gostem de armas e votem em Donald Trump.
O que nos conduz ao aspecto que, de facto, constitui novidade. Quando se apercebeu do sarilho causado pelos cartazes, o Bloco apressou-se a reconhecer o “erro”, pelas vozes de Marisa Matias, Francisco Louçã e Catarina Martins. O que antes seria motivo de orgulho - o confronto público com a Igreja Católica - é agora visto pelos próprios como um tiro no pé. E isto acontece porque o BE passou a ver-se a si próprio como uma força política com vocação de poder, que não pode alienar o eleitorado mais sensível. O caso dos cartazes mostra como a proximidade ao poder está a mudar a forma como o Bloco de Esquerda se quer mostrar aos portugueses. E, a seu tempo, veremos se, para Catarina Martins, Paris já vale bem uma missa.
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