Regresso a 2008?

João César das Neves
DN 2016.02.11

O início do ano ficou marcado por forte turbulência financeira. George Soros, em 7 de Janeiro, comparou a situação com a de há oito anos, prevendo um novo colapso global, no que foi apoiado pelos relatórios de alguns grandes bancos internacionais (Royal Bank of Scotland, Société Générale, etc.). Há credibilidade neste regresso?
É interessante que a chamada "grande recessão" de 2008 e 2009 já tenha adquirido estatuto proverbial, servindo como aviso e ameaça. Tal como todos os escândalos jornalísticos ganharam o sufixo "gate", por referência ao Watergate de 1972-1974, e um abuso costuma ser apelidado de nazi, agora qualquer instabilidade financeira faz renascer a "crise de 2008". Isso aliás representa uma melhoria, pois antes invocava-se a "grande depressão", que foi muito pior.
É também curioso que hoje as causas da perturbação sejam exactamente as opostas das anteriores, por exemplo em 2008. Nessa altura preocupavam os choques do petróleo, pressões inflacionistas e a ameaça chinesa. Agora assusta a derrocada do mercado petrolífero, o risco da deflação e o abrandamento da China. Nestas coisas da economia, bom é só o equilíbrio. Os deslizes são maus para qualquer lado.
Será que 2008 vai mesmo regressar? A flutuação está forte e a fragilidade da economia mundial é grande. A razão é ainda não estarem digeridos todos os efeitos da crise de 2008. Pior, tendo os bancos centrais injetado imensa liquidez para a resolver, os instrumentos disponíveis são agora poucos. Assim, podemos habilitar-nos a um choque de grande magnitude, sem sabermos bem o que fazer. A principal diferença é precisamente o facto de aparecerem tantas vozes credíveis a avisar que vem aí uma crise. Nas finanças um verdadeiro colapso só acontece de forma inesperada. Por isso, mesmo muito mau, o ano de 2016 será certamente diferente de 2008, como esse não foi 1929.
Se esta é a situação global, alguns casos parecem apostados em replicar os finais da década passada. Um dos mais evidentes é o português. Os paralelos, certamente involuntários, chegam a ser chocantes.
Há oito anos, com o mundo à beira do abismo, o nosso Orçamento do Estado para 2009 continha "o maior aumento à função pública desde 2001", como titulava o DN de 15 de Outubro de 2008. No dia seguinte, também o DN assegurava que as "prestações sociais têm maior subida desde 2003". Os tempos mudam mas as políticas mantêm-se e, apesar da instabilidade financeira mundial, o Orçamento para 2016 promete coisas parecidas. O resultado não pode ser muito diferente. Na altura o défice previsto no documento era de 2,2% do PIB para 2009, igual ao indicado para este ano. É bom lembrar que o verdadeiro valor verificado há sete anos acabou por ser de 9,8%.
Se o lado governamental segue a cartilha da época, no sector privado as coisas não são muito diferentes. O papel que BPN e BPP desempenharam então é agora protagonizado pelo BES e o BANIF, enquanto o resto do sistema bancário também finge nada ter a ver com isso. Se existe alguma diferença é a maior dimensão das imparidades actuais.
No financiamento da economia, a 21 de Janeiro de 2009 a Standard & Poor"s reduziu o rating da dívida portuguesa de AA- para A+, o que deflagrou o encerramento dos mercados para todos os títulos nacionais. A economia cairia 2,7% nesse ano. Hoje o nosso país encontra-se de novo na berlinda das finanças. Seja pela reversão de privatizações e concessões pelo governo, ou pela forma original como o Banco de Portugal capitalizou o Novo Banco, penalizando investidores estrangeiros em dívida sénior, está a ficar claro que o nosso país não é de confiança para os capitais externos. No meio da instabilidade generalizada, Portugal volta a destacar-se pela fragilidade. Um novo encerramento de mercados, poucos meses depois da reabertura, é algo muito provável, se não aconteceu já.
Existe, no entanto, uma grande diferença entre o caso global e o lusitano. Quando os analistas internacionais dizem que vamos repetir 2008, estão a formular uma ameaça, algo que não querem que aconteça mas que tomam como provável. Por cá, porém, esse regresso é assumido, constituindo mesmo o ponto central da estratégia política. Foi para conseguir o retorno à situação insustentável de 2008 que muitos votaram em Outubro, e é precisamente isso que o governo promete no seu programa, chamando-lhe "fim da austeridade". O que ainda não é explícito, mas em breve ficará claro, é que não se pode regressar numas coisas e não noutras. Não se podem ter os benefícios, sem a respectiva falência.
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