Carnaval nas Cinzas

Henrique Raposo, Expresso, 10 de Fevereiro de 2016 

Visto que Deus não me fez nascer no “Carnaval no Fogo”, de Ruy Castro, tenho a dizer que o Carnaval é deprimente. E a depressão aumenta quando constato que este forrobodó pagão está a dar uma goleada teológica à Páscoa cristã. Páscoa, essa, que até “começa” hoje, uma quarta-feira de cinzas que passará incógnita depois de uma semana de serpentinas e meninas colonizadas pelas princesas Disney. A paganice da festa, do corpo e da imanência, representada pelo Carnaval, está a reduzir a transcendência da Páscoa a um culto semiclandestino. O Natal lá vai sobrevivendo à OPA pagã, porque, ao invés da Páscoa, não fala em morte. Mas, se repararem, o Natal que temos é cada vez mais um Carnaval disfarçado. Não há como fugir: o cristão hoje em dia joga sempre fora de casa. O que me dá, confesso, um certo gosto. Nunca me teria reaproximado da fé se isto fosse fácil. 
Dentro deste espírito que vê no cristão um bicho de museu ou de zoo, muitos amigos não compreendem a minha reconversão. Dizem que podia viver a minha fé sozinho, até porque leio a Bíblia e não sei quê. Na resposta, costumo oferecer um livro, “Aleluia”, de Bruno Vieira Amaral, e um cartão que diz o seguinte: “o meu percurso é o exato oposto do do Nuno Soares.” E passo a explicar porquê. “Aleluia” é um retrato dos protestantes portugueses e, ao longo destas páginas, salta à vista o respeito que o autor sente por Nuno Soares. Estamos a falar de um jovem que cresceu no meio batista para depois romper com a instituição, alegando que a instituição seca a fé; Soares acaba por sair da organização num inequívoco ato de coragem e, mais tarde, parte para uma missão evangélica na República Checa. É impossível não reconhecer coragem, é impossível não sentir uma volúpia literária por Nuno Soares. “Aleluia” explora isso muito bem, até porque Bruno Vieira Amaral (que também deixou uma Igreja) sente uma empatia imediata pelo Nuno, sente simpatia por aquela vivência purista e não institucional da fé. Ora, eu percebo a posição do Nuno. Eu também pressinto uma fé mecânica, monótona, morta em muitas pessoas. Essa é uma das razões que tem adiado o meu regresso à Igreja. As minhas tias alentejanas que acreditam na crendice do mau-olhado são muito mais cristãs e humanas do que boa parte do beatério farisaico. E, sem modéstia, sei perfeitamente que, com todas as minhas dúvidas, estou mais dentro da Igreja do que muita gente que passa lá a vida. E também sei que o encanto que tenho provocado em católicos e protestantes advém desta minha posição intermédia, entre linhas, ambígua, sexy. Eles pressentem que estou a caminho da fé, à procura de qualquer coisa, e por isso oferecem a sua simpatia porque me querem seduzir. No fundo, sou a miúda gira que católicos e protestantes querem sacar. Para mim, seria muito fácil perpetuar este estado de graça, seria muito proveitoso continuar nesta posição fácil e ambígua, seria vantajoso continuar a caminhar sem bater nesta ou naquela porta. Mas isso não é aceitável. 
Se quero ser coerente com a minha fé, tenho de dar passos no sentido da Igreja, tenho de completar o trajeto. Não posso ficar eternamente no umbral, tenho de entrar e testar a sério a minha fé. Porquê? Sem a comunidade e sem a autoridade de uma instituição, é difícil distinguir entre fé e emoção. Por outras palavras, tenho de saber se a minha fé é mesmo cristã. O Nuno Soares sabe que é cristão a sério, porque teve formação na instituição que deixou. Eu sinto que tenho apenas uma opinião, porque nunca pertenci a uma Igreja. Eu estou a ir, ele está a vir. Tal como o Bruno Vieira Amaral, diga-se. Eles deixaram uma Igreja, eu estou à procura de uma Igreja; eles querem liberdade em relação às instituições que formaram a sua infância, eu quero uma instituição que me dê essa infância de fé que nunca tive. Quando lá entrar, serei um chato insuportável e irritar-me-ei dezenas de vezes com a Igreja e com o beatério farisaico que desconhece a misericórdia, mas não posso continuar a ser treinador de bancada.
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