O que devemos reter de 2015 para perceber 2016

Rui Ramos
Observador 5/1/2016

O que devemos reter do ano que passou para perceber o ano que começa? O fracasso de Obama, a queda dos BRIC, o populismo no Ocidente, a esquerda que não governa, a persistência de Passos, e Marcelo.
O fracasso da estratégia de Obama de olhar para o lado. Após o ataque de 11 de Setembro de 2001, o presidente Bush tentou democratizar o Médio Oriente. Não conseguiu. Barack Obama, a partir de 2009, seguiu por outra via: retirar, não intervir, ceder às potências hostis (Irão, Rússia…), mesmo quando estas pisavam as suas “linhas vermelhas”. O resultado foram mais guerras, mais atentados e a maior vaga de refugiados a atingir a Europa ocidental. Finalmente, Obama mandou os aviões. O próximo presidente enviará a infantaria. E veremos o que fará perante a desordem entre a Arábia Saudita e o Irão. Como disse Marco Rubio, não é possível transformar os EUA numa Suíça em ponto grande. Os EUA e o mundo são como Maomé e a montanha.
O futuro nem sempre é tropical. Durante alguns anos, enquanto os EUA e a Europa ocidental patinavam na crise da dívida, o futuro pareceu residir entre bambus e coqueiros. A China exportava produtos industriais e expandia cidades e infraestruturas, e os outros países exportavam energia e matérias primas para a China. Alguma coisa podia correr mal? Podia. Bastou a China abrandar, ao mesmo tempo que os juros aumentavam nos EUA. O Brasil, Angola, e a Venezuela – a trilogia das nossas esperanças pós-europeias de há uns anos atrás — tremeram. A nova classe média brasileira começou a ser comprimida pela inflação e pelos impostos. A notícia do fim da predominância ocidental talvez tenha sido tão prematura como a da morte de Mark Twain.
Os populismos ocidentais. Na América Latina, a queda do preço do petróleo feriu os populismos socialistas da Argentina, Venezuela e Brasil. Na Europa e nos EUA, porém, os populismos xenófobos estão em ascensão. Já governam na Hungria e na Polónia, afectam a governação no norte da Europa, e progridem nas eleições em França e Inglaterra. Donald Trump representa a tendência nos EUA. Em comum, têm o repúdio da globalização (migrações, quaisquer formas de cooperação ou de integração económica), e o culto de Vladimir Putin. No Reino Unido, os populistas terão em breve o referendo sobre a UE. Depois do teste da recessão, as democracias ocidentais vão ter o teste do populismo.
A esquerda não deixa governar, mas também não governa. António Costa, o PCP e o BE conseguiram impedir o PSD e o CDS de governar. Mas não conseguem governar eles próprios, a não ser para aumentar a despesa. O governo chefiado pelo grande derrotado das eleições de 4 de Outubro terá de negociar com toda a gente, a todo o momento. Temos o governo mais fraco deste regime. Não pensemos em reformas para propiciar o investimento e viabilizar o Estado social. Tal como a Grécia, Portugal só mudará sob pressão. A crise é o novo modo de governo em países incapazes de se reformarem.
Passos Coelho veio para ficar. Desde 2011, muitos oligarcas contestaram o programa de ajustamento apenas para contestarem Passos Coelho: era preciso afastá-lo, mesmo à custa de um segundo resgate. Atribuíram-lhe fanatismos que nunca teve, negaram-lhe qualidades pessoais que obviamente tinha. Passos esteve assim destinado a surpreender. Surpreendeu em 2013, quando não desistiu; surpreendeu em Junho de 2014, quando conseguiu a saída limpa em que mais ninguém acreditara; surpreendeu em Outubro de 2015, quando ganhou as eleições que nunca deveria ter ganho; e surpreendeu outra vez em Dezembro, quando toda a gente o esperava isolado e vingativo, e ele percebeu que lhe convinha estar acima de golpes fáceis.
Marcelo Rebelo de Sousa. Vai ser preciso que Cristo desça à terra para ele não ser Presidente da República, e muito provavelmente até Cristo acabaria por votar em Marcelo.
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