A dança da poupança

João César das Neves
DN 2016.01.07

As recentes derrocadas bancárias têm compreensivelmente assustado a população. Muitos viram as poupanças evaporar-se; muitos mais temem pelas suas. Que se passa? Que há a fazer? As respostas são simples, mesmo se debates e controvérsias baralham tudo.
Portugal sofre uma forte crise financeira. Com os bancos na base do sistema creditício, um colapso destes coloca-os no centro das dificuldades. Défice público, endividamento das famílias ou descapitalização das empresas, tudo envolve sempre a banca. Esta limita-se a ser o bengaleiro dessas dívidas, desmoronando quando elas explodem.
Esta explicação, pacífica até há semanas, é hoje oficialmente recusada pelos actuais dirigentes. O governo rejeita que o país tenha "vivido acima das suas posses", atribuindo a crise ao cavaquismo e à austeridade. Por isso, apesar de óbvio, é preciso repetir que défices e consequente aumento de dívidas, que ninguém pode negar, significam apenas que se gasta mais do que se recebe. Isso na expressão popular é viver acima das posses. Foi essa a condição global do país de 1994 a 2012, visível na balança externa, e ainda é a situação do Estado.
Claro que houve roubos, desvios e má gestão política e empresarial, mas esses percalços, mesmo dominando a atenção mediática, são laterais ao assunto. O país todo está há 20 anos a reduzir a poupança, e isso chega para explicar a situação. A maior factura não foi em luxos e loucuras, mas salários, pensões, infraestruturas e serviços públicos, de que todos beneficiámos. A crise é nossa, não há volta a dar-lhe.
Que fazer quando as dívidas pesam? As respostas são variadas. Às vezes, sentar-se e esperar que passe funciona bem. Aliás foi isso que nos livrou do sarilho anterior. Após 1974 as dificuldades bancárias também eram enormes. Só que em vez de repudiar dívidas, resolver bancos ou vender ao estrangeiro preferiu disfarçar-se e dar tempo ao tempo. Dessa vez tivemos sorte: o grande crescimento após a entrada na CEE foi suficiente para tapar os buracos e acabou tudo bem.
Seguindo essa lição, desta vez as autoridades também adoptaram uma estratégia paciente. Pelo menos do nosso lado do Atlântico. Nos EUA, após a crise, fez-se uma auditoria rigorosa (stress-test) em 2009 que pôs a nu as dificuldades. Foi muito caro, mas a confiança recuperou e, embora combalida pela dimensão do choque, a economia retomou a dinâmica. Na Europa preferiu-se a ambiguidade e a tolerância. As sucessivas auditorias só recentemente começaram a convencer e por isso as más surpresas continuam a rebentar, sete anos após o colapso.
O caso português é paradigmático. É espantoso que seja depois da suposta "saída limpa" do programa de ajustamento que se sucedam as derrocadas bancárias. Pior, a situação parece envolvida num surdo mas implacável deslize. Sem crescimento sólido, as empresas recuperam mal ou tarde. As dívidas, sempre adiadas, agravam-se em vez de melhorar. As veementes garantias dos responsáveis perdem credibilidade.
Esperar que os problemas se resolvam funciona às vezes, mas negar as dificuldades é sempre um disparate. O actual governo anda apostado em propor exactamente o contrário do que devia. Claro que não o poderá cumprir, mas mesmo assim os estragos serão consideráveis.
Sugerir estimular o consumo para obter crescimento é uma ideia de quem não conhece a situação nacional. Com a taxa de poupança das famílias em 4% e o investimento em 15% do produto, os registos mais baixos da história de Portugal, o mal do consumo é excesso, não falta de estímulo. Logo que a economia começou a tímida recuperação os portugueses voltaram ao despesismo improdutivo. Assim, as políticas de aumentos de rendimentos, pensões e salários só servirão para subir impostos, reduzir lucros e, portanto, atrasar o crescimento.
Também reverter privatizações ou concessões e castigar os aforradores institucionais significa atacar os poucos incautos, nacionais ou estrangeiros, que decidem investir em Portugal. Esta é a melhor forma de assinalar ao mundo que não somos um país de futuro. Costa tem menos condições do que Barroso ou Sócrates, que prometeram mas não conseguiram crescimento.
Durante anos as nossas poupanças dançaram à volta das cadeiras, que eram poucas. Em 2008 a música parou e desde então muitos se têm encontrado sem assento, simplesmente porque não há. Agora, a orientação antiausteridade do governo promete uma nova fase. Por enquanto a única novidade foi convidar à dança, mas sem mais cadeiras. Isso só nos aproxima do próximo colapso
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