Sobre o General Alcazar, perdão, António Costa

Maria João Marques
Observador 11/11/2015

Em vez de termos um governo tomando decisões num período crítico, teremos governo que mais que tudo tem de continuamente calar os duvidosos da sua legitimidade e, só a seguir, nos intervalos, governar
Escrevo-vos boquiaberta com a hipocrisia e a amoralidade que tenho visto no PS. A retórica daqueles lados está ao nível de realismo de conceitos como ‘professor Mário Nogueira’, ‘serenidade de Isabel Moreira’ ou ‘feminismo de Manuel Maria Carrilho’.
Vejamos. Temos António Costa, depois de perder eleições e não aceitar a vontade democraticamente expressa dos eleitores, a dizer, na primeira sessão da Assembleia da República, que a coligação tinha ‘mau perder’. O mesmo António Costa, durante o longo tempo de produção de um ‘acordo’ (e agora vou ingerir metade de um frasco de xarope para me eliminar a tosse quase fulminante) das esquerdas – o tal que é tão sólido que nem contempla votações favoráveis aos orçamentos apresentados pelo PS e menos ainda é acordo de coligação – afirmou que não ia deixar o país num pântano, tudo enquanto colocava diligentemente o país num pântano.
Carlos César, num clímax de alucinação, disse (juro!) que ‘o PS não procurou ser governo a qualquer custo’ – o mesmo PS que prometia chumbar o governo de dez dias gerado pelos resultados eleitorais, apresentando em troca um acordo resvés que promete nenhuma estabilidade ou durabilidade. António Costa, ontem no debate em que deitou abaixo o governo acabado de estrear, criticou crispado a falta de disposição de PSD e CDS para não viabilizarem a governação socialista-trotskista-estalinista, dizendo que os partidos da futura oposição estão ‘focados no revanchismo e animados pela obstrução’.
E a minha preferida. O reincidente António Costa, que mentiu às escâncaras ao país afirmando, após as audiências dos partidos com o Presidente, que tinha um acordo com PCP e BE para uma solução estável e duradoura de governo, quando não tinha nada (e agora tem só mais ou menos), proclamou ontem que ‘palavra dada tem de ser palavra honrada’. Preciosidades hipócritas destas não se inventam. Rejubilemos: somos a inveja de qualquer democracia musculada asiática.
(Ainda assim são mais divertidas do que as piadas intencionais que António Costa faz nos seus discursos. Ontem, por exemplo, fez uma bestialmente original. Deleitem-se: ‘Estavam tão ansiosos para me ouvir, agora ouçam-me’. Hein, não é digna dos Monty Python? Os socialistas riram imenso.)
Bom, mas foquemo-nos no que aí vem. E o que virá de António Costa? Ora: aquilo que se costuma esperar de líderes que têm problemas de legitimidade. Já que os ideólogos da suposta união das esquerdas usam a ficção da série Borgen para legitimar o futuro governo (sem atentarem ao fim da coligação periclitante de Birgitte na segunda temporada e a sua escolha de respeitar a vontade eleitoral na terceira temporada, que até os argumentistas são mais sensatos que as esquerdas portuguesas) deixem-me usar ficção ainda melhor (aviso já que num grande exagero ilustrativo).
Escolho o livro Tintin e os Pícaros. Lá, Tintin planeia e implementa um golpe de estado que leva o General Alcazar a presidente. A condição que coloca a Alcazar é de, quando no governo, não fuzilar os anteriores governantes nem os seus apoiantes, o que gera discussões acesas com o truculento aspirante. Depois do golpe, o próprio General Tapioca, o presidente deposto, protesta por não ser fuzilado, sente-se desonrado e termina partilhando um desabafo com Alcazar contra os idealistas como Tintin.
Nas democracias não se fuzilam os opositores, nem aqueles que podem com maior justiça e legitimidade reclamar o poder. António Costa não irá organizar uma secção secreta de black ops dedicada a assassínios políticos. Mas vai ter – já está a ter – todos os tiques daqueles que tomaram o poder de maneira esquiva em vez de o receberem dos eleitores. Em qualquer ocasião pequena terá de fazer demonstrações mesquinhas de autoridade – como na escolha do presidente da Assembleia da República ou mesmo neste golpe palaciano que orquestrou. Tem de se resguardar (no limiar da cobardia política) de possíveis golpes – como fez não interpelando Passos Coelho no debate desta semana e não respondendo a perguntas dos deputados. Pelo que, em vez de termos um governo tomando decisões num período crítico, teremos governo que mais que tudo tem de continuamente calar os duvidosos da sua legitimidade e, só a seguir, nos intervalos, governar.
Mas o mais grave não é isto. Nem sequer que PCP e BE estejam a determinar e tutelar as políticas do governo PS. É que deixámos de viver em democracia. Depois de ontem, o PS pode governar sempre que ganhar eleições mesmo com maioria relativa. Mas, depois de ontem, o PSD só pode governar se, juntamente com o CDS, alcançar uma maioria absoluta. A direita tem agora uma sobretaxa eleitoral que precisa de pagar para poder governar. Copiando Orwell, ‘todos os partidos são iguais mas uns são mais iguais que outros’.
Se Cavaco Silva sancionar isto, aquilo que não se cuidou de impossibilitar depois do 25 de Abril (governos de direita) porque a malta revolucionária achava que o povo iria votar sempre à esquerda, será impossibilitado de facto a partir de agora. E isto só é democracia no país do General Alcazar. Eu até aposto que se Hergé tivesse desenhado um Alcazar em jovem, este também teria recusado aceitar a derrota na associação de estudantes, só sendo convencido pela presença policial.
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