Orgulho em ser de direita

Henrique Raposo
Expresso, 11 de Novembro de 2015

Nunca me passou pela cabeça escrever algo assim. Orgulho não é a sensação que me suporta quando penso nas minhas crenças políticas. Aliás, este orgulhoso sentimento tem traços esquerdistas. As boas almas de esquerda é que batem no peito quando dizem “esquerda”, seguindo assim um sentido marcial de pertença, como se fossem soldados de um exército de linha. A direita, por definição, não é um exército de linha, é mais um bando disperso de milícias que se junta por necessidade e que encontra o seu orgulho noutros círculos da vida, na fé, na família e nas centenas de atividades que a liberdade privada nos garante. Até será discutível apresentar a fórmula “ser de direita”. Porventura, faz mais sentido dizer “estar à direita” (uma posição) por oposição ao “ser de esquerda” (uma essência). Contudo, há momentos especiais como aquele que estamos a viver, um momento marcado pela maior demonstração de baixo maquiavelismo de que há memória. Perante uma esquerda que executa com cinismo florentino uma jogada de secretaria que viverá em infâmia, tenho um certo orgulho em dizer que sou de direita. Com clareza pouco habitual, sei que estou do lado certo, do lado que foi derrubado de forma ilegítima por um oportunista e por dois radicais que já afiam facas.
Mas, apesar da indignação, repare-se que a direita está a reagir de forma civilizada. Imaginem o cenário oposto, imaginem que a Coligação, depois de obter o apoio de um PNR qualquer, estava agora a sacar o poder ao PS, violando todas as convenções constitucionais criadas por duas gerações de políticos em quarenta anos. Como é fácil de imaginar, o jornalismo que fala hoje em “democracia madura” estaria neste cenário a espumar ódio contra a direita “fascista” e o ambiente seria outro, seria de exaltação, de violência explícita, de pedidos de golpes de estado “para restaurar o 25 de Abril”, de manifestações diárias. Já estaríamos numa atmosfera de estado de emergência. Basta lembrar 2004. Santana Lopes tinha mais legitimidade do que António Costa tem hoje (fazia parte do bloco vencedor por maioria absoluta), mas a esquerda que apoia agora a golpada costista é a mesma que há onze anos viu em Santana uma usurpação da democracia. Além da histeria, este é outro problema da esquerda portuguesa: a incoerência; os princípios mudam consoante as necessidades táticas.
Por comparação, a reação da direita, da política aos jornais, está a ser civilizada. Não se respira um ambiente de estado de emergência, apesar da destruição das convenções que ligavam centro-esquerda e centro-direita. Sim, há indignação, mas está a ser canalizada, filtrada, domesticada. A verve que a direita lança sobre Costa em nada se compara à violência verbal que ainda hoje a esquerda lança sobre Passos e Portas. Aliás, há uma diferença entre verve e violência. A segunda sai em bruto, a primeira já é o resultado de um trabalho de depuração, é violência que se deu ao trabalho de calçar luvas. Continuar este caminho de autocontenção é a saída. Na escrita, a revolta deve ser canalizada para a ironia ou para uma clareza seca e fria. Na política, deve ser canalizada para um pedido de eleições antecipadas. Precisamos de votar ainda neste ano de trabalho (2015-16). O país precisa de uma clarificação que trave o avanço deste sangue mau, desta septicemia que ameaça não só o sistema político mas também a sociedade inteira. Precisamos de eleições para serenar cabeças, para reencontrar as convenções da legitimidade, para recriar o convívio civilizado. O tom e o trato podem ser pormenores despiciendos para os traficantes de ódio que lideram as esquerdas neste momento, mas não são pormenores para quem de facto acredita na democracia.
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