O lucro e o prejuízo

Alberto Gonçalves
DN 20151113
Entre as dezenas de comentadores isentos que povoam os serões televisivos, é fácil de distinguir os que tendem para a esquerda com o fervor que nem o popular "Barbas" dedica ao Benfica: são os excitados que, instados a prever a opção de Cavaco Silva, explicam que Cavaco Silva não tem opção. Cabe-lhe indigitar o dr. Costa e, advertem, com toda a rapidez.
Não importa que o dr. Costa não tenha cumprido uma única das condições exigidas pelo presidente da República. Não importa que a coligação para um governo estável não seja uma coligação, não vá para o Governo e não apresente qualquer vestígio de estabilidade. Não importa que o mero acordo parlamentar não seja um acordo e não consiga sequer que as bancadas dos "parceiros" se aplaudam mutuamente. Não importa que a "posição conjunta" sejam duas (ou três, se alguém levar os Verdes a sério) "posições conjuntas", consumadas com a vibrante exposição pública que caracterizava as intervenções de Bin Laden. Não importa que a lendária "maioria de esquerda" se mostre logo de início mais preocupada em inventariar o que distingue os seus elementos do que o que os aproxima (além do desejo de derrubar a "direita" e de influenciar o poder, nada de especial). Não importa que, a acrescer a tudo isto, o PS tenha perdido as eleições para os exactos partidos cujo amparo espera nas horas de angústia. Importa é que Cavaco Silva aceite - e depressinha, relembro - o guardanapo ou guardanapos com assinaturas que o dr. Costa levará a Belém. Até porque, volto a relembrar, Cavaco Silva não tem outra hipótese.
A não ser que - e sugiro-o com trémula hesitação - Cavaco Silva ousasse por absurdo desobedecer às abalizadas sentenças de Pacheco Pereira, Constança Cunha e Sá, Fernando Rosas, o prof. Freitas e dois transeuntes inquiridos em Santarém. É hipótese remota, eu sei. Ainda assim, não é impossível que um chefe de Estado eleito em duas ocasiões com maioria de facto se deixe tomar pela loucura e decida de acordo com a autonomia que o cargo lhe confere. Se a extravagância vingar, o caso muda de figura e inaugura questões fresquinhas.
A primeira é o que acho que Cavaco Silva fará. A segunda é o que acho que Cavaco Silva deve fazer. Começo por responder a esta: deve rejeitar a trapaça "estável" do dr. Costa, sob todos os pretextos enumerados acima e o pormenor, suficientemente repetido, de não dar jeito ao país ficar nas mãos de um governo sem legitimidade política, por sua vez nas mãos de agremiações sem currículo democrático.
O desaforo comprometerá eleitoralmente o PSD e o CDS? Ao contrário do que aconteceu com o seu antecessor, a ponderação das escolhas do eleitorado não é competência do presidente da República. A desfeita lançará a CGTP e os recentes companheiros de caminho aos berros na rua? A ameaça de grupelhos, mesmo que numerosos, não é problema do presidente e, de resto, a CGTP não cessa de berrar desde que há precisamente 40 anos a civilização a despachou para as franjas do protesto. A insolência de impor por uns meses um governo de gestão limitadíssima, com os actuais protagonistas ou com aqueles que o presidente designar, é má para Portugal? Não parece grande coisa, admito.
Mas esqueçam por momentos os comentadores isentos que dão o peito pelo inacreditável dr. Costa. Contemplem o próprio. Ouçam-no por uns minutos. Pesem-lhe as palavras, incluindo as poucas que profere correctamente. Recordem quem o apoia, perdão, quem manda nele. Pior não há. O que sobra é lucro. O que acho que Cavaco Silva fará? Acho que dará posse ao prejuízo.
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