sábado, 7 de novembro de 2015

O iogurte

João Vieira Pereira
Expresso, 20151107

Gostava de ver Catarina Martins e Jerónimo de Sousa no governo. E não estou a ser irónico. Durante anos a cassete tocou incessantemente. “Abaixo o capital. Viva o proletariado. Nacionalização da economia. Domínio do público sobre o privado.” Não concordo com uma única destas ideias, mas respeito quem as defende. E defendo que devem lutar por elas. E devem fazê-lo no lugar próprio se tiverem essa hipótese. No governo. A ideia de que é possível fazer um acordo parlamentar entre a esquerda para viabilizar um governo liderado por António Costa é de quem não tem coragem. É o melhor de dois mundos. Por um lado, o líder do PS consegue chegar a primeiro-ministro, o único posto que ainda o pode salvar, depois de ter sido humilhado nas eleições legislativas, achando que não compromete a base do eleitorado socialista. E comete o erro de achar que não fica nas mãos do BE e do PCP. Do outro lado, os partidos mais à esquerda ficam sentados no Parlamento a assistir com gáudio à lenta destruição do PS. Quer por implosão interna quer pelas medidas que vai ser obrigado a engolir, a bem da estabilidade política. 
O grande desafio de António Costa não é chegar a primeiro-ministro, mas manter-se lá. Um governo destes tem a consistência e o prazo de um iogurte. Se querem estabilidade política, a solução passa por uma verdadeira coligação à esquerda. Se Catarina Martins e Jerónimo de Sousa querem fazer parte da solução só o podem fazer no governo. Uma coisa é estar no Parlamento a apoiar o PS de vez em quando, sempre com um pé atrás e a atirar culpas aos socialistas acerca de tudo o que corra mal. E acreditem, muitas coisas vão correr mal. Ainda esta semana ouvimos Catarina Martins dizer que o cenário macroeconómico é do PS e que o BE está a ajudar a torná-lo menos mau. Não é preciso dizer mais nada, pois não?
Diferente é assumir responsabilidades governativas e ter de pôr a assinatura em medidas que afetam milhões de pessoas. Se querem um governo de esquerda, então deixem-se de jogos políticos que fazem lembrar as lutas para a associação de estudantes e assumam-no. Caso contrário é melhor um governo de gestão, mesmo que fiquemos até agosto sem Orçamento do Estado. É que não vem mal nenhum em gerir um país em duodécimos, um cenário que garante que, pelo menos, não estragamos tudo.
Na quinta-feira, a Comissão Europeia veio dizer que o défice orçamental vai ficar nos 3%. Contra tudo e contra todos, o Governo parece ter conseguido, ao fim de quatro anos, retirar Portugal do procedimento por défice excessivo. Bruxelas diz mais: a dívida pública em percentagem do PIB vai continuar a cair nos próximos anos. Chegar aqui custou muito a muita gente. Deitar fora essa conquista é o pior crime que se pode cometer. As fragilidades da economia mantêm-se. O consumo privado já começou a mostrar que quer ser o único motor da economia e o sistema financeiro não é saudável. Para destruir estes quatro anos é preciso muito pouco. O primeiro passo vai ser dado na próxima terça-feira. É a democracia. Mas não deixa de ser criminoso.
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