quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Dar vista aos cegos

João César das Neves
DN 20151104
Conhece alguma instituição livre e democrática que, em temas decisivos, delicados e controversos, consiga votar 94 vezes, sempre com aprovação maioritária de dois terços? Isto são resultados da Coreia do Norte ou antiga União Soviética, não o que acontece no Parlamento alemão ou francês, quanto mais no americano ou português. Este espantoso acto de liberdade e cidadania aconteceu nos quase cem parágrafos das conclusões da XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos da Igreja Católica.
Claro que perante isto muitos especialistas sorriem, confirmando apenas que a Igreja se parece com ditaduras obsoletas. Esquecem-se de como nas semanas anteriores se tinham deliciado com as alegadas clivagens, supostamente radicais e insanáveis, que dividiam irredutivelmente a aula sinodal. Esquecem até as eminências respeitáveis que falaram de cisma definitivo na Igreja. Curiosamente, nenhuma se lembrou, depois de tão esmagador desmentido, de vir assumir publicamente o estrondoso disparate. E podemos confiar que na próxima oportunidade virão de novo a pontificar com as suas argutas análises porque, afinal, são eminências respeitáveis.
Daquilo que ninguém duvida é de que o ensinamento da Igreja acerca dos temas da família, assunto do Sínodo, é obsoleto, letra morta neste mundo, mesmo entre os fiéis. Isso mostra à evidência que tem de ser mudado, único resultado admissível do Sínodo. Quanto ao facto da mudança se ter ou não verificado, as mesmas argutas personalidades têm-se dividido, algumas dizendo que ela é inevitável, outras que já se verificou, outras ainda que nunca se verificará. O que ninguém pergunta é se está melhor aquele mundo que abandonou o ensino da Igreja.
O Ocidente é a única zona do globo que, tendo vivido séculos segundo a doutrina cristã, pelo menos nas leis e costumes, esqueceu, em certa dimensão, essas orientações e enveredou por um caminho de promiscuidade, divórcio e aborto. É também a única sociedade da história que sofre decadência demográfica atrofiadora e profusão de casais desfeitos, depressão psicológica, crianças descartadas antes de nascer, velhos abandonados antes de morrer e corrupção avançada do tecido social. Nunca um tempo mostrou com tal evidência que quem quer ganhar a sua vida perdê-la-á.
A Igreja nunca pediu tal coisa, mas o Ocidente contemporâneo constitui a melhor prova que se poderia pedir da sabedoria da doutrina cristã acerca da família. Claro que o mundo actual nem sequer o compreende, pois esqueceu o essencial da doutrina cristã. Aquela parte que ainda conhece vagamente é abstinência sexual extraconjugal, indissolubilidade do matrimónio e proibição estrita do aborto e eutanásia. Mas não entende que isto é, não o centro da doutrina, mas uma consequência lateral. Porque o centro da visão cristã é ser pobre de espírito, aflito, manso, faminto de justiça, misericordioso, puro de coração, pacífico e perseguido por causa da justiça. Isto, que sempre foi ainda mais esquecido do que os aspectos referidos, é realmente a origem desses aspectos. Não admira que os casamentos se desfaçam; eles só são indissolúveis para os que dão a outra face quando lhes batem. Não admira que as crianças e os velhos sejam descartados; eles só são realmente acolhidos por quem toma a sua cruz todos os dias e segue Jesus, mesmo se não lhe conhece o nome.
A maior cegueira é, face ao panorama devastador da sociedade contemporânea, esperar que a Igreja mude a sua doutrina para se assemelhar à devastação. Isso mostra a ignorância radical, pois nem sequer se vê o essencial da questão. Não sabem que a Igreja nunca poderá mudar a sua doutrina, porque não a inventou. Recebeu-a, e recebe-a ainda hoje continuamente, de Outro.
O Papa Francisco anda alegadamente a fazer uma grande revolução na Igreja. Mas, quando os jornalistas lhe perguntam se ele acha que ela o seguirá nas suas ideias, ele responde sempre: "Eu é que sigo a Igreja." Esta resposta mostra a drástica dissonância que impede esses jornalistas de sequer começar a entender a realidade. O Papa segue a Igreja, como a Igreja segue Cristo. Nestes assuntos nunca esteve em causa mais nada.
Claro que esses jornalistas são os mesmos que se enganaram redondamente quanto ao resultado do Sínodo. Só que, como não foram despedidos após tão evidente incompetência, continuarão a ser as nossas fontes de informação sobre temas religiosos. A situação neste campo é como ter mendigos como analistas financeiros ou terroristas em repórteres parlamentares. Espera-se a continuação do chorrilho de disparates.
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