A História recente de Portugal lembrada ao povo e contada às crianças

Henrique Monteiro 
Expresso, 10 de Novembro de 2015

Um republicano de esquerda, que chegou a ser ministro dos Negócios Estrangeiros de um dos últimos governos da I República, dedicou o fim da vida a publicar clássicos da literatura em versão simplificada a cujo título acrescentava “lembrado ao povo e contado às crianças”. É, pois, numa homenagem a esta figura que tento fazer uma História recente de Portugal, ou como diria o outro, uma narrativa.
Essa narrativa começa com a crise de 2008. Até lá tudo ia bem. Faziam-se PPP, autoestradas, negócios com países como a Venezuela e projetos para aeroportos e TGV. Depois, o Lehman Brothers faliu, o capital financeiro provocou uma crise e o Governo teve de reagir.
Reagiu de acordo com o que mandou a Europa. Aumentou o investimento público. De caminho, e nada tendo a ver com as eleições de 2009, aumentou o salário dos Funcionários Públicos quando as empresas privadas cortavam custos e salários.
Das eleições de 2009 não resultou uma maioria de Governo. Tivemos, pois, um Governo minoritário que foi malevolamente derrubado pelo CDS e PSD. O Bloco de Esquerda e o PCP também votaram no mesmo sentido, mas foi por motivos diferentes, bons e belos. Houve novas eleições e o PSD venceu-as, coligando-se depois com o CDS para ter maioria absoluta. Aí revelou-se um conjunto de pessoas más e sádicas que quiseram destruir os pobres, o Estado Social e tudo o que era bom em Portugal.
Depois de quatro anos negros, a coligação PSD/CDS perdeu estrondosamente as eleições, ficando não obstante em primeiro lugar. Porém, os milhões de portugueses que votaram contra eles, divididos em cinco partidos, mostraram que ninguém os apoiava, salvo os dois milhões que ainda votaram neles. Foi assim que quatro partidos, representando dois milhões e setecentos mil eleitores, assinaram acordos, em separado, que permitiram um novo virar de página, voltando Portugal a preocupar-se com os pobres, os desfavorecidos e o Estado Social.
O Bloco de Esquerda assinou um acordo; o PCP assinou outro acordo; e o PEV assinou outro acordo, sequencialmente.
Como nota de rodapé, talvez devêssemos dizer que em 2011 o Governo chamou o FMI, o BCE e a Comissão Europeia (conhecida por troika), porque já não havia dinheiro para pagar salários nem nada, estando o país na bancarrota, mas isso não foi muito importante. Talvez se devesse referir que o Governo em 2011 caiu porque o primeiro-ministro se demitiu, não tendo sido derrubado no Parlamento pelos outros (que apenas não aprovaram o Plano de Estabilidade e Crescimento, o quarto plano que o então Governo apresentava).
De qualquer modo, o tempo dos maus já lá vai e chegámos ao tempo dos bons. Quem doravante não for feliz é anticomunista, cavernícola, reacionário e malévolo. E se, por acaso, o resultado da sua governação não for melhor (ou for até pior) do que o do Governo anterior, tal deve-se às pressões ilegítimas dos mercados, da banca, das agências financeiras e do capitalismo internacional.
Por isso, crianças e povo de Portugal, saudemos os patriotas que de hoje em diante vão transformar o país num oásis de crescimento, equidade, justiça social e felicidade.
Vá lá, não sejam assim…
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