quarta-feira, 7 de outubro de 2015

LUÍS, O JESUÍTA

A tua família é o ponto de partida para a tua fé?
Absolutamente. É uma boa família. Vivi numa quinta, sem barulho de carros nem prédios, onde podíamos correr e esfolar os joelhos à vontade. Nesta quinta, vivem os meus avós, três irmãos e uma irmã do meu pai, uma prima direita e a nossa família. Somos sete famílias ao todo. Cresci com os meus tios, primos e irmãos com toda a liberdade. Só percebi que vivia de maneira diferente, e que o mundo não vivia como eu, quando entrei para a Companhia de Jesus.
Sair do núcleo também deve ter tido vantagens. Católico significa, afinal, universal.
Exactamente! É uma coisa que custa porque te desenraíza e te tira o chão. Mas foram eles que me deram o exemplo. A minha família foi a minha primeira comunidade cristã.
Como reagiram os teus pais quando lhes contaste o caminho de vida que querias seguir?
Para começar, eu era um grande beato…
Bom… (risos)
Fazia voluntariado, campos de férias, peregrinações, era animador do CUPAV… Os meus pais sabiam o quão envolvido estava e que as pessoas confiavam em mim. Por isso, quando lhes contei disseram que já sabiam que isto poderia ser o meu caminho mas ficaram surpreendidos por ser tão cedo. Reagiram bem apesar de ser sempre uma situação agridoce.
Qual é a parte amarga e a parte doce?
Uma família católica sabe da importância de um padre e de todo o seu trabalho. Tem uma opinião bastante justa sobre a Igreja: sabe que é uma boa instituição e que faz o bem. Mas também tem a ideia de que a vida de um padre é solitária. O que não é verdade… E depois, claro, os pais querem ter netos.
Como olhas para a paternidade na tua decisão em ser padre?
Na verdade, a minha decisão foi muito mais entre ser pai ou ser padre do que entre ser casado ou ser padre. Senti-me muito mais ser chamado a ser pai do que a casar. Mas, dou-vos o exemplo de São José, que não é o pai de Jesus, mas que de alguma maneira, é pai de Jesus. Sinto-me chamado a ser pai dessa forma.
Então, a castidade é uma forma diferente de amar?
A castidade é a forma de amar: é ter uma relação pura, que não é egoísta, com toda gente. É uma relação gratuita - não querendo dizer que sou o único que dou! Também recebo senão não era relação. E, não são só os religiosos que vivem em castidade, qualquer cristão é chamado a viver em castidade. Um casal é chamado a viver em castidade com uma relação pura. Uma relação sexual pode ser vivida puramente, por exemplo.
No entanto, a castidade é uma das coisas que mais confusão faz às pessoas. 
A castidade faz confusão às pessoas porque pensam que tem apenas ver com sexo. Mas é muito mais do que isso: é não usar o outro. Penso que uma relação sexual sem compromisso é usar o outro e não pode ser pura.
Um homem casa com uma mulher, abdicando de todas as outras mulheres do mundo. Eu só abdiquei de mais uma! Reparem, um homem que olha para outra mulher, que não é a sua, pensa, “que gira!”, e sente-se atraído. É natural, também acontece comigo mas, no fim, o que conta é a fidelidade. O que conta é que escolho e decido pelo compromisso que fiz. 
Só o compromisso verdadeiro torna a relação casta. Uma relação sexual minha com uma mulher não seria casta. Não é que sexo e castidade sejam incompatíveis, mas a castidade é incompatível com a falta de compromisso. E eu escolhi não me comprometer com ninguém a não ser com Jesus.
Qual sentes ser o teu papel na igreja?
A minha vocação é ser padre jesuíta, muito claramente. Mas, ainda não sou padre. Neste momento, o meu papel é ser jesuíta, estudante de filosofia. O meu futuro não sou eu que decido mas os meus superiores. Temos votos de pobreza, castidade e obediência. O voto de obediência faz com que a minha vida esteja entregue aos meus superiores.
Não é difícil entregares-te totalmente? 
Esta entrega, total e plena, é muito libertadora. Parece uma contradição, não é? Todos os anos converso com o meu provincial sobre como estou e me sinto, para que ele possa decidir comigo. A minha pessoa é tida em conta mas é o meu superior que decide. Aliás, eu um dia decidi que seria o meu superior a decidir a minha vida. E isso é muito libertador. É como se chegasses a um sítio, fizesses um mau trabalho e depois dissesses, como dizemos entre Jesuítas, “A culpa não é minha, foi o meu superior que mandou!”.
Existe a impressão de que o sentido de humor é, por vezes, excluído da Igreja…
É verdade, existe essa impressão. Ainda por cima, é tão importante! O Padre Pedro Arrupe, que foi Superior Geral da Companhia de Jesus, dá um conselho óptimo para quem quer ser jesuíta, “Entra na Companhia de Jesus se te sabes rir de ti próprio”. O humor evangeliza. O riso é uma linguagem universal que nos faz sentir mais próximos.
Mais próximos de Deus também?
Sem dúvida nenhuma.
Portanto, Deus não vê o riso como leve e fútil?
Existem risos fúteis e feios. Se o motivo de riso é o outro e a sua humilhação, esse riso não é bom. Mas, um riso puro é essencial. Rir faz-nos sentir próximos, queridos e amados. E Deus é amor. Pronto.
“Mas que descanso é viver a morrer todos os dias ,
Por ir contra o próprio querer e esquecer o que se queria,
E querer o que Deus quer
Queira eu o que Deus quer” 

Quando escreveste isto?
Escrevi na altura do noviciado, quando entramos para a Companhia de Jesus e rompemos com o que conhecemos, com a família e amigos. Vamos viver com pessoas que não conhecemos e temos de os amar como irmãos… é uma altura de tensões. É uma altura que vamos muito contra o próprio querer e é uma altura que cansa muito. Uma noite, estava a ler uma carta de São Francisco Xavier - que escreveu o mesmo que eu sentia! - e fez-me sentido escrever a música. Depois, fui ter com a Alice, a cozinheira do noviciado, e mostrei-lhe a música, todo contente. Respondeu-me: “Oh… está gira, está bem” (risos)
É bom ter uma Alice na vida a pôr-nos os pés no chão.
Como é que é a transição de uma vida confortável, de apegos afectivos para pobreza, castidade e obediência?

Não se fica pobre, casto nem obediente num dia, nem pensar. É um caminho para toda a vida. Pode sempre ser-se mais pobre, mais casto, mais obediente e o modelo disso é Jesus. Não é no dia em que faço os votos que mudo de repente. Não muda nada. Sou uma pessoa normal.
(silêncio)
É difícil… é difícil sair de casa, largar a família, os amigos, os irmãos, e as coisas; não ter nada meu, ser tudo de todos.
Deves ter momentos em que pensas “Preciso de sair daqui”.
Sim, “preciso de sair daqui”. Mas, é como um casamento. Quando vão viver juntos, descobrem que há coisas completamente diferentes e que irritam. O pacote de leite está vazio no frigorífico, ou a tampa da retrete está levantada (risos). É normal. Como em qualquer relação, há momentos bons e momentos maus. Há dias em que “saio daqui”: pego em mim, vou passear e desanuviar a cabeça. Volto à tarde e já gosto outra vez de toda a gente. O que conta é voltar, é a fidelidade. E eu quero ser fiel.
Também tens esses momentos com Deus?
Sim.
O que te leva a afastar de Deus?
A minha teimosia. Tentar resolver tudo sozinho porque o “eu é que sei” leva-me a afastar de Deus. Eu sou teimoso que nem uma mula. Quando não consigo resolver, bloqueio-me nesse assunto, entro numa espiral centrada e fechada em mim mesmo. E isto tem consequências práticas na minha vida: deixo de conseguir rezar, estou em oração mas sempre a pensar no problema, isolo-me, deixo de confiar… 
Tens que ter um grande auto-conhecimento…
A oração diária ajuda-me muito. É uma relação entre mim e o meu Deus. Numa relação, falo da minha vida… e, se todos os dias falares do que sentes, começas a conhecê-lo, a dar-lhe um nome, a perceber o seu porquê e como evolui. Vais percebendo onde te sentes bem, em paz e com força para servir os outros com alegria. É por aí que Deus chama. 
Como é que distingues a vontade de Deus da tua? 
Há um irmão jesuíta que diz, “Quem quer o que Deus quer, tem sempre o que quer”. É uma boa frase, também dava uma música! (risos)
Acreditas nisso?
Quero muito acreditar nisto. Se o Amor pleno tem uma vontade para mim, como é que não vou ser feliz a seguir essa vontade? Mesmo que ao princípio não seja bem a minha... mas todos temos medos e inseguranças, faz parte. Distinguir a vontade de Deus da minha é uma grande arte. É essa a grande herança que Santo Inácio de Loyola nos ensina nos exercícios espirituais: um método para discernir a vontade de Deus. Onde sentires a tua fé (algo que sabes, mas não sabes explicar porquê), a tua esperança (olhas para o futuro com alegria) e a tua caridade (queres fazer bem aos outros) a aumentar, aí está a vontade de Deus.
Uma das maiores concepções (para quem está de fora) é a da Igreja ser limitativa e não te deixar ser o teu eu mais pleno. 
É completamente ao contrário… Deus só me quer como eu sou.
Como pode a Igreja acompanhar as mudanças da sociedade sem abdicar das suas bases?
É uma tensão enorme entre o que é tradição e o que é actual; entre o “sempre se fez assim” e entre o que a realidade pede. Nem sempre a Igreja se consegue actualizar tão rápido quanto a sociedade avança. Isso acontece porque a Igreja recusa-se a responder aos problemas à queima-roupa: o “sim” ou o “não” da Igreja não é dito logo à primeira intuição, é muito bem pensado, porque as questões essenciais têm que ser filtradas. A Igreja quer dar respostas globais, e uma verdade na Europa pode não o ser em África. A questão é sempre se a sociedade muda bem ou muda mal, se essa mudança vem de Deus ou vem apenas do mundo, sem bondade, sem beleza. Precisamos de discernir se Deus quer que acompanhemos ou não essa mudança. Em muitíssimos casos a Igreja acompanha, mas como não se fala nos media, ninguém sabe.
É uma atitude quase “pensar globalmente, agir localmente”.
O ideal seria pensar-se assim em todo o lado! Não se pode pensar apenas globalmente senão a realidade passa-nos ao lado.
Qual a importância da dúvida para o teu crescimento de fé?
Para mim, a dúvida é crucial. É importante para o crescimento da fé, porque a fé é saber alguma coisa sobre algo que se busca. E a busca implica pergunta. É inevitável. Hoje, nós não fazemos perguntas. Não fazemos as perguntas que interessam.
Mas então quais são as perguntas que interessam?
As perguntas que interessam seriam: como posso amar mais, o que posso ser mais, aqui e agora? Que sentido dou à minha vida? E, essa pergunta, não tem uma resposta estática. A resposta que existe é diferente para cada pessoa, em cada sítio, em cada segundo. É uma resposta individual e acho que nos arriscamos pouco a perguntá-la. Vivemos ao sabor da vida, sabem? É o carpe diem que agarra; temos que nos agarrar menos e temos que dar mais.
Que conselhos darias a um jovem católico?
Para ser alegre, simples e misericordioso. Estas três coisas fazem com que uma pessoa seja capaz de aceitar toda a gente sem se negar a si próprio. São a unidade e a diversidade a conviverem.
Oração e não ter medo de fazer perguntas.
O que dirias a um jovem de outra religião?
Acreditas no amor? “Sim!” Então acreditamos no mesmo.
E a um jovem ateu?
Vamos beber uma cerveja. Quero ser teu amigo.
És feliz?
Digam-me vocês. (risos)
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