terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Entre a vida e a morte

JOSÉ RIBEIRO E CASTRO    31.01.17    JORNAL DE NOTÍCIAS

1. Tem-se insinuado no debate público uma ideia que é um veneno. Veneno não é insulto, é qualificação: é que essa ideia mata. É a ideia da eutanásia legalizada. Agora, está na ordem do dia. Não ponho em causa os sentimentos de quem a defende por dolorosa experiência própria, ou genuinamente condoído por sofrimento que observa ou imagina. O sofrimento humano interpela-nos com dureza, por vezes de forma desconcertante. Abstenho-me de julgar as reações que provoca, sejam quais forem.
O problema é reconhecer e atribuir a alguém o poder de matar. Não pode ser. Essa caixa de Pandora não pode ser aberta - nem é preciso abri-la.
2. De forma geral, as ordens jurídicas em que nos enquadramos consideram a eutanásia ilegal há décadas, senão séculos. Só recentemente têm surgido esforços, aqui e ali, para a admitir na lei, como na Holanda e na Bélgica. Escândalo maior, permitiram a eutanásia de menores.
Sinal da hipocrisia das instituições europeias é terem entrado em histeria, há uns anos, por uma politiquice na formação do Governo austríaco e ameaçado a Áustria com sanções e suspensão; e continuamente rasgam as vestes contra a Hungria de Viktor Orban. Mas, contra a Holanda e a Bélgica, que não se limitam a ameaçar, antes violam significativamente o património comum europeu de direitos humanos fundamentais, atingindo até crianças, não esboçam o mínimo protesto, nem organizam missões de observação e de reporte.
Esta evolução é uma regressão e um paradoxo. É absurdo que seja na época em que o alívio e supressão da dor são mais acessíveis, em que a assistência na morte é mais completa, em que os cuidados médicos são extensos, que alguns querem precipitar a morte. Não é a compaixão que aumentou, não é a solidariedade que aumentou - são outros os sentimentos que cresceram.
3. Compreendo haver quem, vivendo ou antecipando o desespero, pense na eutanásia como boa para si. Mas, ainda aí, não tem legitimidade para impor o risco aos outros. Uma ordem jurídica, um quadro ético e deontológico, é para todos: aberta uma porta, fica aberta para todos. Neste caso, como risco e ameaça.
A questão não é compaixão e solidariedade. Toda a pessoa em sofrimento merece ser socorrida, apoiada e acarinhada, eliminando, minorando ou aliviando o sofrimento. Não podem, de forma alguma, ser esquecidas, nem desvalorizadas as situações dolorosas - às vezes, muito dolorosas - por que todos passámos, passamos ou passaremos na vida. São situações que interpelam a nossa humanidade, que desafiam a nossa coragem e o nosso amor. A questão é se podemos, por lei, atribuir a alguém o poder de matar. Não podemos. Isto é, não podemos, na civilização em que estamos.
O debate da lei resvalará provavelmente para a dramatização populista de casos concretos, apresentados de modo unilateral e dirigido. Já foi assim noutros debates: a confusão intencional dos planos do legislador e do juiz. Uma pura fraude. Diversamente dos magistrados, que têm vasta ferramenta para lidar com casos concretos, o legislador só emite preceitos gerais e abstratos. Não é de outra maneira. E o preceito geral e abstrato, em sociedades que observam o direito à vida, só pode ser: matar, não.
O progresso da medicina confronta-nos crescentemente com problemas complexos e de decisão difícil. Mas, além da reprovação do encarniçamento terapêutico, a classe médica, juntamente com os doentes e as suas famílias, está perfeitamente habilitada a lidar e a decidir esses problemas no quadro da lei e da deontologia. O Direito não tem de se imiscuir mais naquilo que é próprio da ética médica.
Os promotores da lei da eutanásia acreditam provavelmente num Mundo em que não há corridas a heranças, não há violência doméstica, não há abandono de velhos e doentes. Acreditam talvez que uma lei que permita matar não estimulará o já hoje enorme egoísmo social. Acreditam que, podendo haver corrupção em todos os estratos e profissões, não há qualquer possibilidade de corrupção entre profissionais de saúde.
Eu não creio nisso. A porta da eutanásia é um poço sem fundo. Um poço de morte.
4. Penso impor-se objeção de consciência legislativa. Por maior que fosse a minha dúvida, não quereria pôr o meu voto ou a minha assinatura numa lei que servisse para matar alguém. Quando soubesse de um caso e, mais ainda, de um escândalo, eu não quereria ter o peso dessa culpa.
Ainda por cima, tendo que atropelar a Constituição, suprema garantia, e fazer de conta que não diz taxativamente aquilo que escreve: "A vida humana é inviolável".
* EX-LÍDER DO CDS

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O discurso histórico de Mike Pence na "Marcha pela Vida"

JOÃO SILVEIRA         SENZAPAGARE.BLOGSPOT.PT       27.01.17

Pela primeira vez na História, um vice-presidente dos Estados Unidos da América esteve presente e falou à multidão na "March for Life". O discurso de Mike Pence foi muito forte, pela positiva, e poderá representar um momento-chave na luta contra o aborto naquele país e no mundo.

Desejo a todos as boas vindas a Washington DC para a 44ª marcha anual pela vida. É um dia bom. É o melhor dia que já vi para a marcha pela vida em vários sentidos. Sinto-me profundamente honrado em encontrar-me perante vós hoje. Sinto-me profundamente honrado por ser o primeiro vice-presidente dos Estados Unidos na história a ter o privilégio de participar neste evento histórico. Há mais de 240 anos, os pais fundadores da nossa nação escreveram palavras que ecoaram através dos tempos. Eles declararam como verdades auto-evidentes o facto de todos nós sermos dotados pelo nosso Criador de certos direitos inalienáveis, como a vida, a liberdade e a procura da felicidade. 

Há 44 anos o nosso Supremo Tribunal afastou-se do primeiro de todos estes ideais intemporais. Hoje, três gerações desde então, graças a todos vós e a muitos outros milhares, que estão connosco em marchas como esta em todo o país, a vida está a ganhar, de novo, na América. Isto é evidente ao olharmos para a eleição de maiorias pró-vida e para o Congresso dos Estados Unidos da América. Mas nada é tão evidente quanto a eleição histórica de um presidente que se bate por uma América mais forte, mais próspera e de um presidente – digo-o com orgulho – defende o direito à vida: o Presidente Donald Trump.

Na verdade foi o Presidente Trump que me pediu para estar aqui convosco hoje. Ele pediu-me que vos agradecesse o vosso apoio, pela vossa defesa da vida e pela vossa compaixão pelas mulheres e crianças da América. Há uma semana atrás, nos degraus do Capitólio vimos a inauguração do 45º Presidente dos Estados Unidos da América. Digo-vos em primeira mão que o nosso presidente é um homem de ombros largos e de um grande coração. O seu horizonte, a sua energia e o seu optimismo não têm fronteiras e eu sei que ele fará a América grande outra vez. 

Desde o seu primeiro dia no cargo tem mantido as suas promessas para com o povo americano. Gosto de dizer que ali, no nº 1600 da Avenida da Pensilvânia, estamos no negócio do cumprimento de promessas. É por isso que na Segunda-feira o Presidente Trump reestabeleceu a “política da Cidade do México” para prevenir que ajudas internacionais cheguem a organizações que promovem ou façam abortos mundialmente. É por isso que esta administração trabalhará com o Congresso que acabe o financiamento do aborto e de prestadores de aborto com dinheiro dos contribuintes, transferindo esses recursos para prestadores de serviços de saúde para mulheres na América. É por este motivo que na próxima semana o presidente Donald Trump vai anunciar quem nomeará para o Supremo Tribunal, que defenderá as liberdades – de origem divina – espelhadas na nossa Constituição e na tradição do grande Juiz recém-falecido Antonin Scalia.

A vida está a vencer na América. Hoje é uma celebração do progresso que temos feito por esta causa. Desde há muito que acredito que uma sociedade pode ser julgada de acordo com a maneira como cuida dos seus membros mais vulneráveis, os idosos, os doentes, os incapacitados e os não nascidos. Chegámos a um momento histórico na causa pela vida e temos de viver este momento com respeito e compaixão por todos os americanos. A vida está a vencer na América por várias razões. A vida está a vencer pelo avanço sólido da ciência, que cada vez mais, de dia para dia ilumina-nos quanto ao momento em que a vida começa

A vida está a vencer pela generosidade de milhões de famílias de acolhimento que abrem os seus corações e casas para as crianças que precisam. A vida está a vencer pela compaixão das obras caritativas e voluntários nos centros de crise na gravidez assim como por organizações fundamentadas na fé que servem as mulheres nas cidades em toda a América. A vida está ainda a vencer nos conselhos silenciosos que são passados entre mães e filhas, entre avós e netas e entre amigas nas universidades, nos cafés e nas cozinhas. A verdade está a ser dita. A compaixão está a sobrepor-se à conveniência e a esperança está a vencer o desespero. Numa palavra, a vida está a vencer na América por causa de todos vós.

Assim, quero incentivar-vos a continuar. Está escrito: “deixai a vossa mansidão ser evidente para todos”. Deixem que este movimento seja conhecido pelo amor, não pela raiva. Deixem que este movimento seja conhecido pela compaixão, não pelo confronto. No que respeita questões do coração, nada há mais forte do que a mansidão. Acredito que continuaremos a vencer os corações e as mentes da geração vindoura se os nossos corações se compadecerem das jovens mães e dos seus filhos nascituros e se cada um de nós fizer tudo o que puder para ir ao seu encontro onde estiverem com generosidade e não com julgamento

Para curar o nosso país e restaurar a cultura da vida temos de continuar a ser um movimento que envolve todos, preocupa-se por todos e mostra respeito pela dignidade e valor de cada pessoa. Espelhadas nos muros do Jefferson Memorial estão as palavras do nosso terceiro presidente, que há tantos anos advertiu para que lembrássemos que Deus nos deu a vida e nos deu a liberdade.

Da parte do Presidente dos Estados Unidos e da minha pequena família agradecemos-vos pela vossa defesa da vida. Agradecemos-vos pela vossa compaixão. Agradecemos-vos pelo vosso amor pelas mulheres e crianças americanas. Tenham a certeza – tenham a certeza –que assim como vós também nós não nos cansaremos nem descansaremos até restaurarmos uma cultura de vida na América para nós e para os nossos descendentes. Obrigado e que Deus vos abençoe. 


Mike Pence, vice-presidente dos Estados Unidos da América - Washington, 27/I/2017

domingo, 29 de janeiro de 2017

1 Fev :: Manifestação STOP EUTANÁSIA

Surrealismo

JOSÉ MARIA C.S. ANDRÉ   29.01.17
Correio dos Açores,  Verdadeiro Olhar,  ABC Portuguese Canadian Newspaper,  Spe Deus, Clarim, O Alcoa

Muitos meios de comunicação social têm dificuldade em perceber a Igreja, porque parece que ela não fala do dia-a-dia real. Faz lembrar aqueles artistas dos anos 20 que rejeitavam a chamada «ditadura da razão» e lhe contrapunham o sonho, a falta de lógica. A inconsistência dos surrealistas dos anos 20 gerava momentos de humor e, realmente, nada daquilo era para ser levado a sério ainda que, frequentemente, fosse muito divertido.
Hoje em dia, muitos jornalistas estão convencidos de que a Igreja também vive numa nuvem de sonhos, irrealista, «acima da realidade», como proclamavam os surrealistas com o seu humor muito especial. O discurso da Igreja tem alguma coisa a ver com os problemas do mundo em que vivemos?
No meio de tantas convulsões, o Papa Francisco está focado no sacramento da Confissão!
Das primeiras vezes, as pessoas estranharam. Com a insistência, muitos estão perplexos. Neste momento, os jornalistas já não sabem se devem dar a notícia ou se é a brincar.
Na Carta Apostólica com que encerrou o Ano da Misericórdia, o Papa Francisco estabelece que «o sacramento da Reconciliação precisa de voltar a ter o seu lugar central na vida cristã». Em cada parágrafo, aparece uma referência a este «caminho que somos chamados a percorrer». «A misericórdia constitui a própria existência da Igreja. Tudo se revela na misericórdia; tudo se compendia no amor misericordioso do Pai». «O perdão é o sinal mais visível do amor do Pai, que Jesus quis revelar em toda a sua vida». «Nada que um pecador arrependido coloque diante da misericórdia de Deus pode ficar sem o abraço do seu perdão». «Agora, concluído este Jubileu, é tempo de olhar para diante e compreender como se pode continuar, com fidelidade, alegria e entusiasmo, a experimentar a riqueza da misericórdia divina». «Não limitemos a força renovadora da misericórdia; não entristeçamos o Espírito». «Mantenhamos o coração aberto à confiança de ser amados por Deus. O seu amor sempre nos precede, acompanha e permanece connosco, não obstante o nosso pecado». «O sacramento da Reconciliação é o momento em que sentimos o abraço do Pai, que vem ao nosso encontro para nos restituir a graça de voltarmos a ser seus filhos».
«Recebi muitos testemunhos de alegria pelo renovado encontro com o Senhor no sacramento da Confissão. Não percamos a oportunidade de viver a fé, inclusive como experiência da reconciliação. “Reconciliai-vos com Deus”: é o convite que ainda hoje dirige o Apóstolo a cada crente».
Nesta carta e nas homílias do Santo Padre, vejam-se as da última semana, há um apelo muito forte aos padres para que dediquem horas ao confessionário: «Aos sacerdotes, renovo o convite para se prepararem com grande cuidado para o ministério da Confissão, que é uma verdadeira missão sacerdotal». «O sacramento da Reconciliação precisa de voltar a ter o seu lugar central na vida cristã; para isso requerem-se sacerdotes que ponham a sua vida ao serviço do “ministério da reconciliação”». «Agradeço-vos vivamente (...) e peço-vos para serdes acolhedores com todos, testemunhas da ternura paterna não obstante a gravidade do pecado, solícitos em ajudar a reflectir sobre o mal cometido, claros ao apresentar os princípios morais, disponíveis para acompanhar os fiéis no caminho penitencial (...), generosos na concessão do perdão de Deus». «Nós, confessores, temos experiência de muitas conversões que ocorrem diante dos nossos olhos. Sintamos, portanto, a responsabilidade de gestos e palavras que possam chegar ao fundo do coração do penitente».
Seria impossível enunciar todas as vezes em que o Papa pede aos católicos para se confessarem e aos padres para estarem disponíveis.
Que Deus continua a ser o mais importante parece tão fora da realidade comum que os próprios católicos se surpreendem. Não admira que muitos jornais não saibam informar sobre um discurso tão surrealista. Resta saber se os católicos também olham para o Papa como se fosse um surrealista.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A hipocrisia que exclui, na Marcha das Mulheres em Washington

Kelsey Kurtinitis       19.01.17       LIFESITENEWS.COM  



I am a woman, and yet the Women’s March on Washington does not represent me.
This is not because of any prejudice I hold - I do not hate women, nor do I suffer from any “internalized misogyny”. No, the Women’s March does not represent me because they have chosen not to.
You see, the Women’s March only believes in the pro-choice buzzword when you choose to agree with them.
As you may have heard, women from across the country are organizing to take part in the Women’s March on Washington on January 21st - one day after President-elect Donald J. Trump’s inauguration - as a way to protest the incoming administration.

According to their mission statement, they aim to “join in diversity” while sending “a bold message to our new government on their first day in office, and to the world that women’s rights are human rights.” The statement goes on to elaborate on their reasons for rallying against Trump, claiming that “the rhetoric of the past election cycle has insulted, demonized, and threatened” women of all different communities.
All of these well-intentioned statements might have at least maintained consistency if they had not then immediately violated their very own mission statement.
Yesterday, the Women’s March organization made headlines by removing New Wave Feminists, a pro-life women’s group, as an official event sponsor. The Women’s March released a statement to defend their decision, apologizing for “the error” of having previously listed an “anti-choice” group as a partner. They also made it clear that they only wish to march on behalf of those who share the pro-abortion mindset.

Are you starting to see the hypocrisy yet?

For a women’s group who sings the praises of diversity and tolerance throughout the “About” section of their website, it is quite duplicitous to then publicly disavow a women’s group simply for holding a different opinion.
But this is what the Left is known for championing - diversity in all things, except diversity of thought.
Prior to the release of the official statement, Guardian columnist and self-proclaimed feminist, Jessica Valenti, tweeted yesterday that she was “horrified” that the Women’s March had partnered with a pro-life group, insisting that women need to “stop the myth that feminism is simply ‘anything a woman does.’” -- in other words, if a woman does not think or act in line with their specific brand of feminism, she does not count as a woman.

“We call on all defenders of human rights to join us,” the Women’s March website states.

Well, obviously not.

The Women’s March has essentially declared that pro-life women do not have a place at this event, even if a woman is an ally on every other issue that the protest claims to fight for.
This line of thinking is not only ignorant, it is self-defeating.
When the Roe v. Wade decision was handed down, the medical understanding of when life began was largely unclear, mostly due to a lack of evidence provided by the relatively young discipline of embryology. The issue of viability also lacked sufficient medical understanding. But as medical technology has advanced, the humanity of the unborn continues to be affirmed within the scientific community.
Now that we know that human life begins at conception and that babies born as early as 22 weeks are setting the new viability standard, the millennial generation has been trending toward the pro-life point of view, giving rise to a new kind of civil rights movement.

Additionally, the latest report from the Guttmacher Institute has found that the number of abortions in the US has dropped to its lowest level since 1974.
These numbers spell doom for any women’s group that demands conformity of thought and a pro-abortion litmus test.
As a pro-life woman and millennial activist, it is frustrating to be misrepresented by those who claim to have women’s interests at heart.
To be a pro-life woman is to believe in modern medical science and to champion human rights for all -- including the unborn.
You cannot boast advocacy for human rights while simultaneously denying the humanity of unborn human beings. You can’t even advocate for all women’s rights while fighting against the inalienable right to life of the developing young woman in the womb.

The Women’s March claims to recognize that “defending the most marginalized among us is defending all of us” -- but how can they not realize that the most marginalized group in America is the unborn? No other group in the country has been targeted for mass murder: more than 54 million babies have been killed since the Roe V Wade decision in 1973.
But maybe the most ironic twist in the decision to remove a pro-life sponsor from the Women’s March is that, in so doing, they are showcasing the same divisive, intolerant, and discriminatory qualities as the Trump-esque rhetoric they claim to march against.
Perhaps the Women’s March could benefit from further study of the Audre Lorde quote they selected to close their mission statement, which reads: “It is not our differences that divide us. It is our inability to recognize, accept, and celebrate those differences."

Kelsey Kurtinitis is a board member of Personhood Iowa, an editor for The Liberty Conservative, a millennial mom, and a pro-life activist.

Vai um Gin do Peter's

MARIA ZARCO   http://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.pt   24.01.17

Hannah Arendt é, certamente, a filósofa mais citada do século XX, despertando paixões e ódios descontrolados. Quem não conhece a célebre caracterização dos totalitarismos como a «banalidade do mal»? Não por ser um mal banal, mas por se ter imiscuído na normalidade, convertendo-se na norma generalizada da sociedade. Aí reside a sua perversão, de contornos mais hediondos do que aquele mal do antigamente, distinto da normalidade até por reivindicar, geralmente, um estatuto de superioridade. Sob a aparência da banalidade, a mentira instalou-se rapidamente, invertendo os valores mais elementares. A obediência tornou-se num valor supremo e ilimitado, com as consequências nefastas que se conhecem.  

É sobre a audácia desta filósofa e teórica da política que a realizadora israelita, Ada Ushpiz – munida de igual ousadia – lhe dedica o documentário «Vida Activa: o Espírito de Hannah Arendt» (1). Somos levados a acompanhar o nexo do pensamento de Arendt para clarificar a densidade das suas ideias e confirmar a actualidade da sua reflexão. De certo modo, aprofunda a película dedicada à filósofa pela realizadora alemã Margaretha von Trotta (tema do gin de 11 de Novembro de 2013). 


Assistimos a excertos de entrevistas, uma dada à televisão alemã ocidental (em 1964, creio) e outra datada de 1973, intercaladas pelas intervenções de académicos e políticos a discorrer sobre a doutrina de Hannah, além de imagens de arquivo da Segunda Guerra e do julgamento de Eichmann. O grande desafio de Ada corresponde ao esforço de tornar perceptível o circuito mental de Hannah, revendo os factos que a impressionaram e lhe terão revelado a existência dos novos conceitos que cunhou. O julgamento do arquitecto da Solução Final para extermínio dos judeus é dos acontecimentos mais pródigos na construção do corpo doutrinário da filósofa. 

O filme acaba por oferecer uma súmula espantosa do seu ideário, estribada nos episódios que Arendt cita para ilustrar a sua perspectiva inovadora sobre a história e a chegada ao poder de regimes iníquos. Observados à distância, resulta incompreensível o sucesso desses totalitarismos demenciais e homicidas. Daí a importância em denunciar os contextos que favorecem o seu surgimento e a sua inexplicável popularidade até à conquista absoluta do poder. Infelizmente, é muito mais fácil do que gostaríamos. Hannah aponta como factor-chave o fluxo desregrado de refugiados após a Guerra de 1914-1918. Face àquelas multidões tornadas infra-humanas, tinha-se quebrado a primeira barreira moral de não reconhecimento da plena dignidade de determinado segmento da população. Uma vez despoletado o processo de transgressão, qual brecha num dique, fora depois uma questão de tempo reduzir mais gente ao estatuto de pária. Nas suas palavras: «Evil […] seems to be closely connected with the invention of a system in which all men are equally superfluous […] The dangers of the corpse factories and holes of oblivion is that today, masses of people are continually rendered superfluous when we continue to think of our world in utility terms rather than in terms of a common world, shared by all […] Totalitarian solutions may well survive the fall of totalitarian regimes in the form of a strong temptation which will come up whenever it seems impossible to alleviate political, social, or economic misery in a manner worthy of man.»    

Acompanhando as grandes etapas da vida de Arendt, que se considerava uma refugiada (2), ouvimos o relato de uma atitude marcante da mãe sobre a dignidade de cada ser humano, a exigir uma vigilância rigorosa e ininterrupta. Ainda na pré-primária, dera-lhe ordem para abandonar a sala de aula sempre que um colega fosse ofendido por ser judeu. Em seguida, a mãe enviava uma carta de protesto ao Conselho Directivo, enquanto a pequena Hannah se deliciava com este pretexto para faltar à escola. Contou isto a rir, numa das entrevistas, embora reconhecesse o alcance pedagógico daquele exemplo, que teve mais efeito nela do que nos dirigentes da escola.  

Porém, nem sempre primou pela coerência nem pela racionalidade. O documentário não se esquiva à relação demasiado próxima com o mestre e partidário do nacional-socialismo – Martin Heidegger. Décadas depois da guerra, Hannah continua a visitá-lo e responde à reprovação de uma sobrinha (que o explica no filme), assumindo que alguns comportamentos escapam à razão. Do seu lado, também sofreu traições (a começar pelos 2 maridos) e ataques ferozes, perdendo grande parte dos amigos.  O modo independente com que defendeu as suas convicções, sem integrar nenhuma escola de pensamento nem alinhar com as ideologias da moda, colocou-a num limbo desconfortável, terra de ninguém. Acabava por ser demasiado atípica: revolucionária nas ideias, mas recusando a revolução armada dos anos 50 e 60. 

Curiosamente, Hannah não tinha total consciência do efeito das suas palavras, expressivas de um pensamento muito livre. Demasiado? De uma racionalidade acutilante e animada pelo tal sentido de dignidade do ser humano, ultrapassavam-na as manigâncias da maioria que se acomoda ao poder vigente, preferindo o conforto de uma sobrevivência ao sabor dos ventos dominantes. Não antecipou, por exemplo, o efeito incendiário da sua reportagem para a revista New Yorker sobre o julgamento de Eichmann (1960s). Começara logo por não valorizar o facto de a sua perspectiva mais objectiva sobre o processo decorrido no tribunal de Jerusalém estar nos antípodas da do público que, ao seu lado, se inflamava e projectava naquele homem os traumas horrendos causados pela guerra. Como lhe dizia o marido (o segundo): tinha um lado naïve, que não lhe permitia antever as fúrias que muitas das suas teorias políticas desencadearam, mal conheceram a luz do dia. Vivia na ilusão de que bastaria ter um olhar discernido e desvendar a verdade total, quase sempre, até doer, sem cuidar de não ferir as inúmeras susceptibilidades e preconceitos que também as vítimas tinham acumulado.
Acabou por sofrer na pele a ostracização acintosa dos mais próximos, que não souberam compreender o alcance das suas ideias revolucionárias. Menos ainda de tolerar a dureza gélida do seu ferrão crítico, apesar de certeiro (a mais das vezes) e de manifesta honestidade intelectual. Só que nem sempre foi verbalizado de forma calibrada. Ao invés, sobressaia a leitura mais extremada. Como nunca a dor a fez travar nas suas incursões intelectuais e políticas, nem percebia que os outros preferiam ser poupados a uma verdade posta a nu, com as fraquezas escancaradas, tantos dos algozes (as únicas expectáveis) como das vítimas. Sim, do lado destas também houvera comportamentos reprováveis. Quantos sobreviventes protagonizaram faltas repugnantes, que doem até ao fundo da alma?
Se, por um lado, arrasou todos os totalitarismos e alertou a sua geração para as causas do novo patamar de mal que os campos de extermínio do Reich tinham inaugurado, foi também q.b. dura com os Conselhos Judaicos, a quem os nazis incumbiram da tarefa mesquinha de preencher os nomes dos compatriotas judeus a abater, impedir as fugas durante a viagem até Auschwitz – tarefa cumprida com um zelo repugnante –, atirar os mortos para as valas comuns que abriam e depois fechavam, etc.
No documentário de Ava vêem-se esses esbirros a maltratar os seus irmãos judeus com a brutalidade dos cobardes. Essas curta-metragens de arquivo tinham sido filmes de propaganda alemães, percebendo-se a intenção de provar a facilidade com que angariaram  traidores façanhudos junto do povo perseguido, para evidenciar as alegadas debilidades étnicas. 

Ciclicamente, surge no filme um ecrã negro, comparável à ardósia da sala de aula do século XX, sobre o qual letras brancas são gravadas ao ritmo do batuque da velha máquina de escrever em que Arendt terá fixado os seus pensamentos mais emblemáticos. Por exemplo, sobre a necessidade de pensar afirmou: “To think always means to think in a critical manner […] every thought actually undermines whatever there is of rigid rules, general convictions […] That means there are no dangerous thoughts, because thinking in itself is such a dangerous enterprise». Ainda assim, o maior perigo para Hannah seria abster-se de pensar. Explicava ainda que este exercício implica pausa e citava a expressão idiomática inglesa: pare para pensar. Transpondo para o presente, alertava para o frenesim da vida hodierna, impeditiva do raciocínio, i.e., da capacidade de avaliação da realidade circundante. 

Sobre o perdão e a reconciliação, Hannah tece considerações estranhas ao olhar cristão, reduzindo-os a uma escala meramente psicológica, dependente da habilidade no convívio social. Perdoar fica-se por um reconhecimento de que também a vítima poderia ter cometido a mesma falta. Um conceito empobrecido, que limita o perdão ao denominador comum, em matéria de fraquezas, entre prevaricador e ofendido, segundo o entendimento de cada um. 

Em Hannah e na realizadora, ambas formadas em filosofia, há um esforço de isenção para combater o preconceito em que muitos dos seus compatriotas se entrincheiraram, atribuindo ao anti-semitismo todos os males de que padeceram ao longo dos séculos. Ambas ousam opor-se a tal vitimização e simplificação desresponsabilizante da história. 

Mais, o documentário aplica o corajoso conselho da filósofa alemã sobre a necessidade de aceitar e cultivar a pluralidade de perspectivas individuais, para permitir uma leitura enriquecida sobre a vida. Dizia Arendt: «Só quando as coisas podem ser observadas por muitas pessoas, numa variedade de aspectos, de modo a que os diferentes observadores saibam que vêem o mesmo mas com a mais completa diversidade de visões, pode a realidade manifestar-se de maneira real e fidedigna.» (in «A Condição Humana»)

Vale a pena reaprender com Hannah a desmontar os chavões instalados, que condicionam a forma de percepcionar e interpretar a realidade. No decurso do documentário, o desafio vai em crescendo, no sentido de recuperarmos a lucidez e a serenidade reflexiva para identificar «the Banality of Evil in the world today». Matéria de observação não falta, no meio de tanta turbulência e campanhas orquestradas por uns e por outros. 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

Frase do dia

A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o suficiente para assumirmos a responsabilidade por ele. 

Hannah Arendt





Salientar a positividade é, não só um desafio, como uma responsabilidade. Temos nestas semanas testemunhado e pactuado com uma grande irresponsabilidade na tomada de posse do novo Presidente dos Estados Unidos. As manifestações nas ruas e as notícias publicadas nos media são,  não só uma falta de respeito por aquele que (quer se queira quer não) foi eleito Presidente como, mais grave ainda, mostram uma falta de respeito pelos fellow citizens que lhe deram os votos. 

É de facto curioso que esta falta de respeito seja demonstrada em nome da tolerância, da diversidade e de uma liberdade que leva exactamente àquilo que é consensualmente desagradável na vida pessoal do novo Presidente.  Nas muitas comparações feitas entre as duas famílias presidenciais, a família Obama com pai, mãe e filhas é, aos olhos de todos, mais agradável e popular que a família Trump, com filhos de 3 mulheres diferentes. Mas aqueles que mais salientam estas diferenças com escândalo são aqueles que continuam naquilo que chamam a luta por estes novos direitos, como o do divórcio legalmente facilitado, que facilitou exactamente a reconstrução da família que está agora, de forma tão contestada, na Casa Branca. 

'Mas é porque ele não respeita as mulheres'! poderão dizer. Diz uma mulher americana, que em nome desta liberdade, nem as mulheres respeitam as mulheres. Não será no momento em que "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" deixa de ser mandamento, para passar a ser uma questão de direito, que deixamos de ser irmãos para passarmos a ser juízes, lançando sentenças publicas sobre tudo e todos?

Cada um de nós tem na responsabilidade com que fala dos outros e partilha notícias, uma oportunidade para se perguntar se aquilo que o leva a fazê-lo é o amor ao próximo como Deus nos amou, ou uma ideologia. A esta ponderação Hannah Arendt chama educação, que é a mesma ponderação que sempre pautou a edição deste POVO. Por esta educação, vale a pena lutar, mas essa luta não é feita na rua, mas antes no coração de cada homem e mulher




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