quarta-feira, 30 de novembro de 2016

“Cristo está esperándote”

ALETEIA    30.11.16


“Cristo está esperándote”, a ultima mensagem do piloto do avião acidentado. 


O piloto paraguaio Gustavo Encina fazia parte da delegação que viajava no vôo que transportava a equipa de futebol brasileiro Chapecoense até Medellín (Colômbia) e que acabou na tragédia que comoveu o mundo inteiro.

Gustavo foi um dos falecidos no acidente, e a mensagem que postou na redes sociais antes do acidente gerou a maior consternação e um convite à reflexão.




“Para onde olhas na vida. Para trás ou para a frente? Que o Senhor te dê a graça de largar as coisas, mesmo aqueles que consideras preciosos nesta vida, e permita-te olhar para a frente, onde Cristo está à tua espera para um encontro glorioso que te abrirá as portas da eternidade ", escreveu ele.

30 Novembro: S.André, apóstolo



(El Greco)  Santo André

O primeiro a ser chamado, o primeiro a dar testemunho

«Como é bom, como é agradável, viverem os irmãos em unidade» (Sl 132, 1). [...] Depois de ter estado com Jesus (Jo 1, 39), e de ter aprendido muitas coisas, André não guardou esse tesouro para si: apressou-se a ir ter com seu irmão, Simão Pedro, para partilhar com ele os bens que recebera. [...] Repara no que ele diz ao irmão: «Encontrámos o Messias (que quer dizer Cristo)» (Jo 1, 41). Estás a ver o fruto daquilo que ele tinha aprendido há tão pouco tempo? Isto é uma prova, a um tempo, da autoridade do Mestre que ensinou os Seus discípulos e, desde o princípio, do zelo com que estes queriam conhecê-Lo.

A pressa de André, o zelo com que difunde imediatamente uma tão grande boa nova, dá a conhecer uma alma que ardia por ver cumpridas todas as profecias respeitantes a Cristo. Partilhar assim as riquezas espirituais é prova de uma amizade verdadeiramente fraterna, de um afecto profundo e de uma natureza cheia de sinceridade. [...] «Encontrámos o Messias», diz ele; não está a referir-se a um messias qualquer, mas ao verdadeiro Messias, Àquele que esperavam. 

Comentário de São João Crisóstomo (c. 345-407), bispo de Antioquia, depois de Constantinopla, doutor da Igreja
Homilias sobre o evangelho de João 19, 1  


                                              A cruz em X ou a crux decussata
Santo André foi um dos apóstolos mais fervorosos e próximos de Cristo. Ao sofrer o seu martírio, assim como Cristo, através da crucificação, Santo André pediu para ser crucificado numa crux decussata, ou seja, uma cruz em forma de X, e não numa cruz latina como foi Jesus Cristo, pois dizia não ser digno de sofrer o seu martírio numa cruz do mesmo tipo da cruz de Jesus.
A cruz de Santo André faz parte da vasta iconografia cristã e é uma das diferentes estruturas da cruz.
Além do uso em brasões de armas, a partir do século XIV, a cruz de Santo André passou a ser frequentemente usada em bandeiras.

Minto, sim

A honestidade, não sei porquê, é apreciada. As pessoas detestam ouvir mentiras. Mesmo quando elas são agradáveis, preferem saber a verdade. Por muito horrível e assustadora que a verdade seja, ela é também um bálsamo que sossega a desconfiança. Por exemplo, a desconfiança de a verdade ser mais terrível ainda. Ou, simplesmente, a desconfiança de que a outra pessoa está a mentir.

Há só uma área em que é impossível reduzir o número de mentiras. Como todas as pessoas destituídas de sentido de orientação, provoco em quem se orgulha de tê-lo longas explicações acerca de trajectos. São sequências. Começam pelo trajecto para bons navegadores que conhecem bem o terreno. Quando este falha, passam para um trajecto mais longo e mais para a compreensão das criancinhas. Finalmente, entram numa explicação passo-a-passo, em que usam marcadores que consideram infalíveis: “Está a ver aquela igreja com uma cruz de 50 metros de altura?”

A nossa ignorância provoca-os. Torna-se um teste divertido do jeito deles para ensinar percursos a burros. Não desistem. E, por isso, obrigam-me a mentir. Não, não sei onde são os Cabos Ávila. Mas digo que sei. Idem para o chinês e para a Repsol. É tudo mentira. É tudo para que se calem, satisfeitíssimos.

Documento de Trabalho do Sínodo Diocesano

  Sínodo Diocesano by papinto on Scribd

Presidente da República saúda Sínodo Diocesano de Lisboa


PRESIDENTE DA REPÚBLICA  30.11.16     presidenciadarepublica.pt 

Deu-se início hoje ao Sínodo Diocesano de Lisboa que acontece no contexto dos 300 anos da qualificação patriarcal da diocese e após 376 anos (1640) da realização do anterior. O Presidente da República saúda esta iniciativa, no quadro da liberdade religiosa consagrado na Constituição da República.

Reis de Espanha no parlamento

NOTÍCIAS AO MINUTO   30.11.16

Os reis de Espanha estiveram hoje pouco mais de uma hora na Assembleia da República, onde Filipe VI discursou, tornando-se no nono chefe de Estado estrangeiro a usar da palavra numa sessão solene no parlamento português.


O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, foi o primeiro a falar, passando depois a palavra a Filipe VI.

A crise económica que afetou gravemente os cidadãos portugueses e espanhóis foi um dos temas abordados por Filipe VI no seu discurso de 19 minutos, onde defendeu que, retomada a "senda do crescimento", Portugal e Espanha devem trabalhar para "consolidar a recuperação".
A intervenção do rei de Espanha na sala de sessões do parlamento português, onde há 16 anos também o seu pai discursou, foi aplaudida de pé pelo primeiro-ministro e restantes membros do Governo presentes e pelos grupos parlamentares do PSD, PS e CDS-PP.
Os deputados da bancada do PCP levantaram-se, mas não aplaudiram a intervenção de Filipe VI. O grupo parlamentar do Bloco de Esquerda também não aplaudiu, nem se levantou depois do discurso do rei de Espanha.
Os deputados do BE também não participaram na parte protocolar da cerimónia, falhando a sessão de cumprimentos aos monarcas espanhóis.
Apesar de valorizarem a importância das relações entre o Estado português e o Estado Espanhol, os bloquistas decidiram manter "a posição de sempre, republicana" e de não valorização das "relações de poder com base em relações de sangue e não em atos democráticos".
Entre os convidados sentados nas galerias, que não enchiam os lugares disponíveis, estavam o ex-Presidente da República Ramalho Eanes, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, e o ensaísta Eduardo Lourenço.
Nas bancadas parlamentares também se encontravam alguns lugares vazios entre as 230 cadeiras destinadas aos deputados.
Depois do presidente da Assembleia da República declarar encerrada a sessão, às 11:45, ouviram-se os hinos de Portugal e Espanha.
Filipe VI e Ferro Rodrigues saíram depois da Sala de Sessões e, já na companhia das mulheres, dirigiram-se ao Salão Nobre do Palácio de São Bento onde receberam os cumprimentos dos deputados.
Depois de Filipe VI assinar o livro de honra da Assembleia da República, na sala de visitas da Presidência, os reis de Espanha dirigiram-se para o átrio principal onde se despediram do presidente do parlamento português e da sua mulher.
Às 12:04 o carro que levou os reis para a residência do embaixador de Espanha em Lisboa, no Palácio de Palhavã, na Praça de Espanha, onde irá decorrer uma receção com a comunidade espanhola residente em Portugal, partiu da Assembleia da República.
A visita de Estado de três dias dos reis de Espanha a Portugal termina esta tarde com a deslocação de Filipe VI e Letizia à Fundação Champalimaud, na qual estarão acompanhados pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Não apaguem a memória

ZITA SEABRA     29.11.16    OBSERVADOR
 

É sabido que as vítimas dos regimes comunistas não têm nome, não têm monumentos, não têm baladas de homenagem, nem memoriais. Reduzem-se a números e, quando alguém sublinha que um fuzilado no «paredón» não é diferente de um assassinado no Estádio Nacional do Chile de Pinochet, cai um silêncio tal que se torna uma evidência que as vítimas do comunismo o foram por serem contrarrevolucionários e por colocarem em risco uma qualquer revolução comunista, tendo por isso apenas direito a ser apagadas da história com H grande.
No entanto as vítimas do regime cubano têm nome, tem mães e têm filhos. As «Damas de Blanco», mães e esposas dos presos políticos e dos desaparecidos do regime cubano, sofrem tanto, são iguais, nada as diferencia, das mães de branco do Chile de Pinochet. Ou serão diferentes as mães dos fuzilados e desaparecidos no Chile de Pinochet das mães dos fuzilados e desaparecidos de Havana?
As Damas de Blanco foi um movimento fundado por uma corajosa mulher, Laura Pollan, cujo marido era um dos presos após a brutal repressão do regime comunista cubano em 2003. Receberam, entre outros, o prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento do Parlamento Europeu, em 2005.
Os movimentos corajosos das mães cubanas apareceram logo após a revolução, pois a repressão brutal começou de imediato. Calcula-se que no primeiro ano (1959) tenham sido fuzilados cerca de 1.000 cubanos entre antigos apoiantes de Fulgêncio Batista e companheiros de armas, vindos da Sierra, com Fidel e com Che, como sempre aconteceu em todas as revoluções comunistas.
Um deles foi Humberto Sori Martim, antigo companheiro de Fidel e de Che Guevara na Sierra. Condenado à morte, a sua mãe foi pedir a Fidel, que a conhecia bem, que o seu filho não fosse fuzilado. Foi-o no dia seguinte. Só no primeiro ano (1959) foram fuzilados em Escambray mais de mil cubanos.
Será possível assistir ainda ao branqueamento do comunismo cubano e esquecer que Raúl Castro, eterno ministro da Defesa do regime, foi o criador do «paredón», o local onde ao ar livre funcionaram os tribunais populares/militares que condenavam pessoas e as executavam logo ali contra o terrível muro que os cubanos, esses sim, não apagarão da memória?
Che Guevara foi mitificado e transformado em ícone da esquerda nas t-shirts e em posters. No entanto, foi ele que inventou, segundo Regis Debray, em 1960, na península Guanaha, o primeiro campo de trabalho. Logo a seguir à revolução, passaram pelas suas mãos decisões directas de fuzilamentos como o de Jesus Carrera, um dos chefes de guerrilha anti-Batista que foi presente pessoalmente pelo seu companheiro e amigo Che Guevara a um pelotão de fuzilamento e morto. Não foi o único, pois o mesmo aconteceu a muitos dos antigos companheiros que não conseguiram fugir da ilha.
Como em todos os regimes comunistas, a repressão ao longo destes anos não se limitou a impedir a liberdade política ou de expressão de pensamento, mas a própria população foi toda transformada em potenciais denunciantes (os chamados bufos na linguagem da oposição à ditadura salazarista), o que fez de Cuba um país de pessoas com medo. De triste memória são os CDRs, Comités de bairro que apedrejavam as casas e as famílias de dissidentes ou simples opositores.
Fidel e Raúl criaram os tristemente famosos campos de reabilitação UMAP, de trabalhos forçados e tortura onde eram internados os chamados «aberrantes». Aqui, foram internados milhares de «marginais», entre os quais padres, como o arcebispo de Havana D. Jaime Ortega. Nestes tristemente famosos UMAP, foram internados todos os homossexuais denunciados para sua reeducação até acabar com «os maus vícios» que propagavam. Estes presos foram usados ao longo de décadas como mão de obra em trabalhos forçados, para construir cadeias, universidades e numerosas obras públicas. Em Cuba, como na Rússia estalinista, ou na China da Revolução Cultural.
Todos foram ao longo dos anos da longa ditadura comunista apanhados ou denunciados pela polícia política, conhecida em Havana pela Gestapo Vermelha, ou entregues pelos informadores que no ano 2000 eram cerca de 50.000 pessoas. Desde 1959 mais de 100 mil cubanos conheceram os campos, as prisões ou as frentes abertas. Entre 15000 e 17000 pessoas foram fuziladas («Livro Negro do Comunismo», coord. Stephan Courtois, Quetzal).
No fim da guerra de Angola, o comandante dos cubanos que regressaram (estiveram em nome do comunismo internacional ajudando o MPLA, como é sabido), o general Ochoa Sánchez, foi acusado de narcotraficante. Companheiro de Fidel, ele que vinha da Sierra e combatera na «Baía dos Porcos», foi fuzilado com mais outros três oficiais do exército cubano acusado de organizar um complot para afastar El Comandante.
Como em todos os regimes ditatoriais estalinistas a esquerda, ou alguma esquerda, considerou sempre que o comunismo e seus dirigentes não podem nem devem ser responsabilizados pelos crimes cometidos. São crimes diferentes, são vítimas legitimadas pela justeza dos ideais propagados, são desvios da doutrina, são contrarrevolucionários, são para esquecer, resumindo numa palavra: justificáveis. É politicamente incorrecto dizer que as vítimas de Pinochet são iguais às de Fidel Castro.
No entanto, a vaga repressiva de 2003 teve repercussão mundial mesmo fora dos Estados Unidos, onde muitos milhares de cubanos chegaram ao longo dos anos fugidos em barcos ou em jangadas. Não podia ser silenciada e muita gente o fez. Tinha-se até aí a sensação que havia um certo abrandar da repressão após a queda do comunismo na URSS e que o regime ia proceder a uma lenta transição. Mas quando foi apanhada uma jangada com gente que fugia para os Estados Unidos (50 pessoas), logo foram levador os três responsáveis para um «julgamento» ao ar livre e executados no «paredón». Em Fevereiro, tinham sido presas 75 pessoas. Entre eles, Raúl Rivero, poeta e escritor. Ele e mais 26 intelectuais começaram a ser julgados a 4 de Abril e foram condenados três dias depois. Ele a 20 anos de prisão em Canaleta por «actos contra a independência ou a integridade do Estado». No total, os 75 presos políticos acusados de delito de opinião foram condenados a 1450 anos de cadeia.
Esta brutalidade provocou um sobressalto mundial, chegando a União Europeia a interromper as relações comerciais com Cuba, assim como numerosas organizações internacionais, como os Repórteres Sem Fronteiras, ou a Amnistia Internacional. Fez-se uma campanha mundial que permitiu libertá-los nos anos seguintes. Alguns foram expulsos de Cuba e acolhidos em Espanha, onde vivem, como aconteceu com o jornalista e poeta Raúl Rivero.
Fidel adoeceu em Fevereiro de 2008. Muitos sonharam com eleições democráticas que ele próprio prometera mas que nunca realizou quando chegou a Havana em 1959. Sucedeu-lhe, porém, o irmão que hoje continua a ser o Presidente de Cuba, chefia o partido comunista cubano e é chefe supremo das forças armadas. Uma miserável e terrível ditadura que há mais de 50 anos oprime e martiriza o povo cubano.
Como escreveram os Repórteres Sem Fronteira no «Livro Negro de Cuba»: «Mas a sucessão de encantamentos, as utopias infatigavelmente recicladas, os incessantes passes de magia não são inocentes. Permitiram que regimes ditatoriais como o de Havana desmembrassem os seus próprios povos sem que alguns ousassem erguer uma voz crítica. Os bons sentimentos não conduzem obrigatoriamente à boa literatura, diz-se. São a raiz de algumas das grandes tragédias do século que agora terminou. E quantas desgraças foram impostas a esses povos que dizíamos – e ainda dizemos – defender, embora sem nunca lhes perguntarmos o que pensavam de tudo aquilo! Espantoso, sem dúvida, esse entusiasmo por crápulas exóticos vindo daqueles que se exaltam com a mais pequena limitação das liberdades no seu próprio país, sempre dispostos a saírem para a rua a pretexto da mais ínfima falta de democracia…»
Não posso, pois, deixar de lamentar a visita do Presidente da República português e a sua fotografia com o ditador cubano bem como as palavras por si usadas: «Condolências ao povo cubano.» Fidel e Raúl não têm a legitimidade democrática para representarem o povo cubano. São os rostos da repressão e da opressão da liberdade e da democracia em Cuba.
Estamos provavelmente a assistir à última farsa branqueadora do regime cubano pois, como disse Vargas Llosa, é provável que não lhe sobreviva. Disse mais: «Esperemos que esse processo seja rápido e, sobretudo, que decorra calmamente, que não envolva mais violência que aquela que o povo cubano já sofreu.» Assim o desejo igualmente.

A publicidade e a mentira

INÊS DIAS DA SILVA   30.11.16   WWW.FUNDACAOMARIAULRICH.PT/BLOG/


O meu grande desafio educativo diário reside na viagem ao fim da tarde entre a escola e a casa. O estaleiro que se instalou nas ruas de Lisboa só o intensifica, porque a viagem não só demora o dobro, como passamos muito tempo parados, e os meus dois filhos de 8 e 7 anos podem analisar com pormenor as mensagens e imagens publicitárias que inundam a nossa cidade.
Eles sabem o preço de cada oferta de tablet e smartphone, e enfatizam o “SÓ” no preço de centenas de euros. 
– É muito barato, mãe!
Ao que eu vou respondendo que o dinheiro custa a ganhar e que cada euro deve ser usado com discernimento.
Há também alguns momentos de silêncio, normalmente acompanhados pelos anúncios natalícios de várias marcas de lingerie. O silêncio, está claro, fala a alto e bom som, sobre o que eles são: rapazes; e sobre o que as modelos do anúncio são: lindas de morrer. Até aqui tudo normal. A grande questão é que estão despidas, como eles já não me vêem sequer a mim. E por isso pergunto-me enquanto os vejo a contemplar os outdoors, o que estes anúncios lhes ensinam sobre o amor e as relações que terão no futuro com as mulheres? Deixo ao critério de cada um… Mas não me passa pela cabeça advogar pela sua censura, porque o nosso plano é educar os nosso filhos para este mundo e não para um paralelo em que as senhoras andam tapadas nos anúncios de lingerie.
Aparentemente o Governo francês tem pretensões graves de querer criar um mundo paralelo para os seus cidadãos. Um mundo onde as crianças com trissomia 21 não são felizes. E por isso censurou este anúncio. E fê-lo para que as famílias que abortaram crianças com trissomomia 21 não corram o risco de ficar ofendidas.
O nosso 3º filho é uma criança muito diferente das crianças da sua idade. A sua deficiência faz com que seja assim e eu sou lembrada disto sempre que olho para a caixa da Cerelac ou para o pacote das suas fraldas. Se ofendida me sentisse, teria que promover que se retirassem imagens de bebés gordos e perfeitinhos, de todos os anúncios e embalagens.
A grande distinção, pode-se argumentar, é que o meu filho é uma minoria discreta. Em França, no entanto, famílias que decidiram abortar um filho com diagnóstico pré-natal de trissomia 21 é 90%. Uma enorme maioria. A coisa curiosa é que estas famílias francesas não se queixaram, porque o anúncio nem chegou a sair. A acção do governo francês é preventiva; não vão as famílias descobrir agora, que foram enganadas pelo governo, cujos médicos lhes andaram a dizer de forma planeada, que a vida de uma criança com trissomia 21 é tão infeliz que o melhor para eles é não nascer. O anúncio diz que eles mentiram, e não se pode permitir esta contradição.
Não é que não soubéssemos, mas com este exemplo é por de mais evidente que para sustentar o seu poder, o Estado  recorre vezes sem conta à mentira. Sendo chefe de família, como os nossos governantes são chefes de estado, se eu quiser não comprar aos meus filhos os gadgets que estão a ser publicitados sem os ofender, terei que escolher um percurso para casa que  evite os anúncios ou vendá-los durante o caminho.
Mas como quero educar os meus filhos para a verdade e não posso contar com o Estado para me ajudar nisso, faço o esforço, todos os dias de lhes fazer ver que o nosso valor não reside nem nos gadgets que temos nem na perfeição dos nossos corpos. Nesta tarefa, o nosso filho deficiente é muito eficaz, só por ter nascido.

Homicídio a pedido da vítima: à espera do debate

Parece-me é que dificilmente haverá quem defenda uma lei onde qualquer pessoa que expresse a sua vontade em morrer tenha o direito a ser executada pelo Estado.

Só existem dois países do mundo onde a Eutanásia é legal: a Bélgica e a Holanda. Em ambos os países esta prática é definida como a morte de alguém que o tenha pedido e que seja executada por um terceiro. Ou seja, aquilo que neste dois países é legalmente definido como Eutanásia é, na lei portuguesa, definido como homicídio a pedido da vítima (cfr Código Penal, artº 134º.).

Em ambos os países o homicídio a pedido da vítima só é permitido em casos de grande sofrimento, onde não haja esperança de melhoria. Em ambos os países é preciso que a eutanásia seja autorizada pelo médico. Em ambos os casos é o médico que executa a eutanásia.

Evidentemente que os modelos belga e holandês não são os únicos possíveis. É evidente que poderá haver uma lei que legaliza o homicídio a pedido da vítima mais restritiva ou mais liberal do que estas. Parece-me é que dificilmente haverá quem defenda uma lei onde qualquer pessoa que expresse a sua vontade em morrer tenha o direito a ser executada pelo Estado.
Ora, como já anteriormente afirmei, não me parece que o movimento Pelo Direito a Morrer com Dignidade defenda um quadro legal muito diferente do que aquele que hoje existe nos dois países que referi. Ou seja: a morte a pedido da vítima ser possível nas circunstâncias que a lei previr; ser necessário um agente nomeado pela lei para aferir se no caso em concreto se aplica a lei; a morte ser executada por um profissional de saúde autorizado pela lei.
É neste contexto que tenho defendido que aquilo que estamos a debater neste momento em Portugal não é a autonomia pessoal, mas sim saber se há condições em que o Estado pode permitir e promover o homicídio a pedido da vítima.

Por isso peço desculpa ao Professor Rosalvo Almeida, mas perguntar se o Estado pode decidir se há vidas menos dignas não é uma pergunta capciosa, como afirmou no seu artigo de 5 de Setembro, mas uma pergunta que se impõe diante da proposta que o Estado autorize e promova a morte de um cidadão em casos de sofrimento e doença. Mais ainda, relembro que aquilo que se está a discutir, aquilo que é pedido na petição a favor da eutanásia que se encontra agora no Parlamento, não é a mera despenalização da eutanásia, mas sim a sua legalização. Seria bom que o senhor professor, tão lesto em acusar os outros de usarem falácias, não as utilizasse só para "ganhar" o debate.

Peço também desculpa à Professora Laura Ferreira dos Santos pela minha insistência, ou perseguição como afirma no seu artigo de dia 1 de Novembro,  em debater este assunto. Eu bem sei que seria bastante mais cómodo que o debate se limitasse aos apoiantes da eutanásia. Bem sei que se me limitasse a aceitar a autoridade do Professor Rosalvo Almeida que garante que a minha argumentação é uma falácia (mas sem nunca a refutar) a vida seria mais agradável. Infelizmente um debate público inclui o contraditório, até de quem não possui a autoridade sapiencial dos professores acima citados.
Por isso continuarei à espera de quem aceite debater realmente o problema da legalização do homicídio a pedido da vítima. Infelizmente, já percebi que o Professor Rosalvo Almeida e a Professora Laura Ferreira dos Santos só estão disponíveis para sermões.

Repitam comigo: Fidel era um di-ta-dor

JOÃO MIGUEL TAVARES  PUBLICO    29.11.16


A falta de amor que este país tem à liberdade nunca cessará de me espantar. Foram demasiados os obituários e os comentários a propósito da morte de Fidel Castro que me fizeram ter vergonha do país em que vivo. Do PCP, a este respeito, ninguém espera nada. Mas receber uma newsletter da revista Visão com o título “Hasta Siempre Comandante Fidel”, certamente escrita – vamos ser optimistas – com a inconsciência própria de quem olha para Cuba como uma photo opportunity, com os seus carros anos 50, as cores garridas e os charutos, não cabe na cabeça de ninguém. Cuba não é uma conta de Instagram. Cuba é uma ditadura. Defender Fidel, romantizar Fidel, mitificar Fidel, é defender, romantizar e mitificar um ditador, que condenou milhares de pessoas à morte directa por fuzilamento e à morte indirecta por afogamento no Estreito da Flórida.
Não há meio-termo nisto. Essa conversa de que “a História o há-de julgar”, ou de que “para uns morreu um ditador, para outros um herói”, só pode dar a volta a qualquer estômago democrático. Desde quando é que Fidel Castro ser um ditador passou a questão de opinião? Fidel Castro só deixará de ser um ditador quando a definição de ditadura for alterada nos dicionários. Cuba é um regime onde todos os poderes do Estado estão concentrados num partido; esse partido não admite a oposição livre às suas ideias – “pela Revolução, tudo; contra a Revolução, nada!” –; o partido e o seu presidente possuem poder e autoridade absolutos; não existe democracia; a liberdade de circulação é limitada; existem presos políticos e houve pelotões de fuzilamento que trataram de eliminar qualquer resquício de resistência nos anos quentes da revolução. Che Guevara admitiu-o na ONU, em 1964 (há imagens): “Sim, fuzilámos, e continuaremos a fuzilar enquanto for necessário.” Se isto não é uma ditadura, é o quê?

A gente já sabe que um ditador de direita é um fascista, enquanto um ditador de esquerda é um revolucionário bem-intencionado a quem as coisas correram mal. Mas, pelo menos, digam a palavra: di-ta-dor. Com certeza que Fidel Castro pode ser considerado um ditador heróico pelos seus admiradores, e encaixar na categoria do déspota iluminado. Mas digam o raio da palavra: di-ta-dor. E admitam que estão a defender um di-ta-dor. Aquilo que não se suporta são os textos sonsos, como aquele que Francisco Louçã escreveu neste jornal, afirmando que “Fidel sai da vida como um vencedor”. Sim, Louçã admite que o senhor “manteve um regime de partido único”. Mas depois lá vem o velho “mas”, que tudo suaviza, tudo compreende, tudo desculpa: “mas”, diz Louçã, “ao contrário da história trágica da URSS, permitiu e até estimulou formas de diversidade cultural”, como os “livros de Leonardo Padura”. Bravo! Eis uma frase que poderia ser aplicada, sem tirar nem pôr, a Oliveira Salazar, ou não fosse o neorrealismo o movimento literário mais marcante do Estado Novo. Porque não começar também a elogiar Salazar ou Pinochet, que mataram menos gente e deixaram os seus países mais desenvolvidos?

Um ditador é um ditador é um ditador é um ditador. Só que Louçã nunca usa a palavra no seu texto. Tal como nunca usa uma outra: liberdade. Lamento: qualquer pessoa que defenda Fidel e o seu legado é uma pessoa capaz, em certas circunstâncias, de desprezar a democracia. Serem tantos a fazê-lo, no Portugal de 2016, é uma tristeza enorme. Mas não desesperemos. Fidel morreu a 25 de Novembro, o que só pode ser visto como um sinal dos céus.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Fidel Castro, o 25 de Novembro e a opção ocidental

JOÃO CARLOS ESPADA   OBSERVADOR  28.11.2016

Na passada sexta-feira, dia 25 de Novembro, foi lançado em Lisboa o livro precisamente intitulado O 25 de Novembro e a Democratização Portuguesa (Gradiva, 2016). Sob a coordenação de António Barreto, João Salgueiro, Luís Valença Pinto, Manuel Braga da Cruz e Vasco Rocha Vieira, a obra foi apresentada por Jaime Gama e Manuel Braga da Cruz.

Em boa verdade, a iniciativa assinalou bastante mais do que o lançamento de um livro. Culminou um vasto programa de iniciativas da sociedade civil (onze, com efeito) que tiveram lugar durante o ano passado para assinalar os 40 anos do 25 de Novembro de 1975. O livro agora publicado dá conta das comunicações apresentadas em todas essas iniciativas. Um primeiro conjunto de comunicações tinha já sido publicado pela revista Nova Cidadania (No. 58, Primavera de 2016).

Por que motivo terão estado tantas pessoas envolvidas na evocação do 25 de Novembro — sem subsídios do Estado, ou sequer de partidos políticos? A pergunta talvez tenha alguma pertinência, sobretudo tendo em conta que — precisamente a 19 de Novembro do ano passado — a actual direcção do Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista decidiram no Parlamento que a celebração dos 40 anos do 25 de Novembro “não tinha relevância”.
Uma resposta pode certamente ser encontrada no Manifesto que deu origem ao programa de comemorações e ao livro agora publicado (originalmente assinado pelos já referidos António Barreto, João Salgueiro, Luís Aires de Barros, Luís Valença Pinto, Manuel Braga da Cruz e Vasco Rocha Vieira):
O 25 de Novembro é o oposto, não do 25 de Abril, mas do 11 de Março. O que o 25 de Novembro veio destruir foram os excessos da pretensa ‘revolução socialista’ e não as conquistas da revolução democrática de Abril. (…) O 25 de Abril era democrático, não necessariamente ‘socialista’. Não visava a substituição de uma ditadura autoritária por qualquer outra ditadura socialista.”
Com efeito, o 25 de Novembro de 1975 veio repor a democracia de tipo ocidental em Portugal. E veio desfazer os mitos terceiro-mundistas fundados na dicotomia “fascismo ou revolução”.
Essa dicotomia terceiro-mundista infelizmente teve uma longa vida entre nós. Durante cerca de 48 anos, sobretudo após a parcial vitória anglo-americana na II Guerra e a democratização do continente europeu ocidental, Portugal continuou, inexplicavelmente, com um regime autoritário (ainda que moderado, por comparação com os restantes).

Embora eu não seja historiador (e não alimente a menor curiosidade pelo fenómeno terceiro-mundista do salazarismo), parece que a principal justificação para a ditadura autóctone era a ameaça do comunismo (além da muito legítima memória da anarquia terceiro-mundista da chamada I República). Por qualquer motivo extravagante, não nos ocorreu que entre o autoritarismo de Salazar e o totalitarismo comunista havia a não-revolucionária alternativa da democracia constitucional pluralista ocidental.

Por outras palavras, vivemos durante cerca de 48 anos, por assim dizer, sob a “infeliz dicotomia” (uma expressão de Dahrendorf sobre o atavismo das culturas políticas continentais) do “salazarismo ou comunismo”.

Esta dicotomia foi imediatamente reposta após o 25 de Abril pelo terceiro-mundismo do chamado PREC. Nessa altura, a velha dicotomia “salazarismo ou comunismo” passou a ser chamada “fascismo ou revolução”. Em nome dela, as chamadas forças revolucionárias — lideradas pelo PCP e pela extrema-esquerda — tentaram a todo os custo impedir a estabilização da terceira alternativa que também o salazarismo tentara ignorar: a tranquilamente civilizada democracia constitucional pluralista ocidental.

Foi a esta obsessão terceiro-mundista com infelizes dicotomias – do “salazarismo ou comunismo” e do “fascismo ou revolução” — que o 25 de Novembro de 1975 pôs cobro. Foi o 25 de Novembro de 1975 que efectivamente repôs a esperança democrática ocidental que o 25 de Abril de 1974 anunciara. E foi graças a esta democracia ocidental que vivemos durante os últimos 41 anos em liberdade e em imenso progresso económico e social.

Parece, no entanto, que “old habits die hard“. De súbito, vai por aí uma grande comoção com a morte do ditador Fidel Castro. E um debate existencial parece apaixonar as mentes autóctones: qual foi o legado de Fidel Castro?

Bem, a resposta é óbvia e o tema totalmente desinteressante: o torpe ditador terceiro-mundista construiu em Cuba uma horrível prisão comunista.

Convém apenas recordar que Fidel impôs essa paupérrima prisão em Cuba com base na infeliz dicotomia do “fascismo ou revolução” — a que o nosso 25 de Novembro de 1975 felizmente pôs cobro. Pelo menos, até agora.

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Black Fidel

PAULO NÚNCIO   29.11.16  ECO.PT
Fidel Castro morreu na passada 6ª feira. Paz à sua alma. Mas não deixa de ser irónico que o ditador que mais combateu o Ocidente tenha morrido precisamente numa Black Friday. Ironias à parte, Fidel Castro representou mais um capítulo do extenso livro negro do comunismo no mundo. Desde Lenine a Estaline, passando por Mao, Ho Chi Minh, Kim Il Sung e Pol Pot, o comunismo representou uma tragédia de dimensões planetárias.
Como constatou o historiador e investigador Nicolas Werth no seu livro, a abertura de numerosos arquivos e o acesso a muita documentação, depois do desmoronamento da União Soviética, permitem hoje afirmar que o comunismo representou a doutrina do Estado todo-poderoso, a descriminação sistemática de grupos sociais, as deportações em massa e, com demasiada frequência, os massacres gigantescos que levaram à morte de dezenas de milhões de seres humanos.
E o que é que Fidel Castro tem a ver com esta tragédia? Infelizmente, o “totalitarismo tropical” de Cuba é uma parte integrante do mundo comunista. E a natureza totalitária do regime tem respaldo nas frases atribuídas ao próprio Fidel. A começar pelo sistema de partido único e na supressão das liberdades individuais e políticas (“Eleições! Para quê?”, 1959), nos tribunais populares, criados exclusivamente para pronunciar condenações, em que o ditador intervinha pessoalmente (“Eu digo-lhes. Escolham: é Matos ou eu”, 1959), a acabar na repressão do mundo artístico (“Dentro da revolução tudo, fora dela nada!”, 1961).
Mas o legado do castrismo é muito mais profundo e sangrento. Um rasto de repressão, perseguições, execuções e fuzilamentos, presos políticos e de opinião, tortura e campos de trabalho, todos associados a lugares, datas, factos, carrascos e vítimas concretas.
Numa época em que os radicalismos políticos estão, e bem, debaixo de todos as críticas e preocupações, o comunismo vai passando pelos “pingos da chuva”. Por detrás de um ideal de emancipação e de criação do “Homem-Novo”, os regimes comunistas praticaram atrocidades contra os direitos humanos que continuam hoje, em pleno século XXI, a ser propositadamente esquecidas.
O último exemplo gritante deste branqueamento da história foi dado por Jerónimo de Sousa que, depois da morte de Fidel Castro, declarou que “o PCP presta homenagem à sua excecional figura de patriota e de revolucionário comunista evocando o exemplo de uma vida inteiramente consagrada aos ideais da liberdade, da paz e do socialismo”
Para além da cegueira ideológica e da amnésia voluntária, esta afirmação ofende a memória dos cubanos perseguidos, torturados e executados pelo regime comunista de Fidel. Mas, sobretudo, esta afirmação corporiza um discurso radical e populista contra os valores democráticos que todos dizemos defender. Que, como todos os radicalismos, deve merecer a nossa maior preocupação.

Não são “erros”, mas crimes

JOSÉ MILHAZES   28.11.16   OBSERVADOR

Se Catarina Martins tivesse empregue a palavra "crimes" não teria coragem de lhe chamar "grande homem". Então um grande homem podia tratar tão mal as minorias defendidas com tanto ardor pelo Bloco?


É útil ouvir várias posições sobre uma mesma pessoa, tanto mais quando se trata de uma figura da envergadura de Fidel Castro, mas cansa ouvir a fórmula “se por um lado…, por outro” para justificar mais um ditador carniceiro.
Na semana passada, quando ouvi na Antena 1 uma conhecida professora e investigadora falar do “populismo”, notei que ela apenas foi buscar exemplos à direita, como se essa doença não afectasse a esquerda. Falou de Hitler, mas se substituísse esse nome por Estaline, ninguém daria conta de nada, porque encaixava como uma luva no mesmo texto.
Fidel Castro era um populista e demagogo, ficando os seus discursos longos, ocos e enfadonhos como um dos exemplos mais evidentes disso. O seu ego era mais importante do que o tempo e a paciência dos ouvintes.
É verdade que ele e um grupo de barbudos derrubou a ditadura odiosa de Fulgêncio Batista, mas não é menos verdade que ele impôs uma ditadura igual ou pior, porque as ditaduras não são boas quando são de esquerda e más quando são de direita. Ditadura é ditadura e o resto é demagogia.
O regime de Fidel matou milhares no seu próprio país, muitos mais do que Pinochet ou Salazar, mas se a esses juntarmos as vítimas da “ajuda internacionalista” a Angola, Etiópia, etc., etc. , ele talvez roube a palma da crueldade a Francisco Franco ou a outras figuras odiosas da direita. Por isso, deve-se fazer um minuto de silêncio não pelo carrasco, mas pelas vítimas.
Um parêntesis para falar da “ajuda internacionalista e humanitária” do regime de Fidel. Será que ainda haja alguém que não saiba que não se tratava, nem se trata de ajuda, mas de puro negócio? Será que ainda haja alguém que não saiba que, por exemplo, Angola pagou muito caro pelo “apoio” cubano? O governo do MPLA, ou mais precisamente, o povo angolano, pagaram com as suas riquezas naturais. Será que os médicos exportados por Cuba são voluntários e não recebem salários pelo trabalho que fazem? Claro que recebem, e ainda bem que assim é, mas não me venham falar de internacionalismo proletário ou de ajuda fraternal desinteressada.
É verdade que a medicina cubana fez fortes avanços, mas isso não justifica que grande parte da população viva na miséria. E para que serve uma boa medicina se a população vive em condições desumanas? Não será para ganhar dinheiro com a exportação de médicos e com a realização de operações cirúrgicas pagas pelos estrangeiros com os malditos dólares ou rublos?
É verdade que o embargo económico americano foi contraproducente e dificultou a vida aos cubanos, mas não pode servir para justificar todas as asneiras da “experiência socialista” do regime de Fidel. Não nos devemos esquecer que, entre 1961 e 1991, Cuba recebia apoio do bloco comunista do Leste da Europa, que os comunistas portugueses continuam a considerar o “paraíso perdido”. Então a superpotência soviética não tinha meios financeiros para transformar a pequena “ilha da liberdade” numa montra para o Ocidente, um lugar de “virtudes socialistas” para onde os norte-americanos quisessem fugir, a nado ou de barco, do maldito capitalismo?
Para mim não me estranha este tipo de propaganda, pois ela é copiada a papel químico da soviética, que deu os resultados que todos nós sabemos. Por exemplo, a Segunda Guerra Mundial servia e serve para explicar todas as dificuldades da economia e da sociedade soviéticas, não obstante ela ter terminado em 1945. Os maiores obstáculos à agricultura soviética eram a Primavera, Verão, Outono e Inverno, como rezava uma velha anedota soviética.
Fidel Castro privou os cubanos dos mais elementares direitos cívicos através de um sistema repressivo que pouco diferia do regime estalinista. E é ridículo explicar isso com o embargo norte-americano ou com a defesa da revolução. Não, a explicação disso é simples e clara: o regime de partido único não sobrevive sem ditadura e repressão.
Aqui até estou de acordo com Catarina Martins, do BE, que afirmou que essa força política nunca deixou de denunciar, desde logo um regime de partido único que negava liberdades e que perseguiu pessoas pela sua diferença”. Mas acho estranho, para não dizer intelectualmente desonesto, o eufemismo por ela empregue: “erros”. Não são erros, mas crimes contra a lei e a humanidade. Se Catarina Martins tivesse empregue a palavra “crimes”, talvez não tivesse coragem de lhe chamar “grande homem”. Então um grande homem podia tratar tão mal as minorias defendidas com tanto ardor pelo Bloco de Esquerda?
Ai quando os cubanos e a opinião pública mundial tiverem acesso à informação plural e aos arquivos da polícia política e do Partido Comunista de Cuba! Alguns irão abrir a boca de espanto, mas outros continuarão a justificar os crimes revelados, como as ligações do regime cubano ao tráfico de droga e ao terrorismo na América Latina e noutros cantos do mundo.
Isto não vos faz lembrar o XX Congresso do Partido Comunista, não do Português, que apenas terá lugar no início de Dezembro, mas do PC da URSS, que teve lugar em 1956, quando foram denunciados os crimes de Estaline? A mim faz, assim como me traz à memória a posição de muitos admiradores e seguidores do ditador soviético: foram cometidos erros, mas…
Mas o quê? Sejamos honestos e tiremos as devidas conclusões para que tragédias semelhantes não se repitam. Repito a minha posição: entre Hitler e Estaline, venha o diabo e escolha. Os direitos humanos são universais, e não propriedade da esquerda ou da direita, divisão cada vez mais obsoleta.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Abertura do Ano Jubilar do Centenário das Aparições de Fátima


WWW.FATIMA.PT       27.11.16

D. António Marto, bispo da diocese de Leiria-Fátima, presidiu esta manhã à eucaristia que marca início do advento, na Basílica da Santíssima Trindade. A celebração que marca também o princípio do Ano Jubilar começou com a passagem pelo Pórtico Jubilar.
O prelado relembra que «o tempo do Advento é bem mais que a simples espera e preparação do dia do Natal», porque o Natal «não se reduz à recordação romântica de um acontecimento longínquo do passado como é o nascimento do menino Jesus».
D. António Marto disse aos peregrinos que a palavra de ordem do primeiro domingo do Advento é «vigiai, despertai do sono, para não deixar afogar a vida na banalidade dos dias como nos tempos de Noé». «Também hoje podemos viver adormecidos, distraídos, anestesiados pelo “ramram” do dia-a-dia: comemos, bebemos, trabalhamos, casamos, fazemos a nossa vida de família e a nossa atenção reduz-se a este horizonte estreito. Ficam de fora, na penumbra ou excluídas, outras realidades tão importantes e belas: a fé em Deus, o amor de Deus em nós, a vida espiritual, os valores morais. É hora de despertar!», reiterou o bispo da diocese de Leiria-Fátima.
O prelado recordou que «foi esta advertência que Nossa Senhora fez ecoar aqui em Fátima, com uma urgência impressionante, para a humanidade que esquecera Deus, que vivia de costas voltadas para Ele e caminhava para a catástrofe da guerra e da destruição», e assim «Também hoje nos chama a uma vigilância interior, a despertar da indiferença, a voltarmo-nos para Deus, a abrir o nosso coração ao seu amor e a descobrir os sinais da sua vinda ao nosso mundo. Com Deus ou sem Ele a nossa vida e a vida do mundo serão diferentes!».
Ao iniciar o ano Jubilar, D. António Marto, considera que «outra palavra de ordem do Advento é “caminhemos à luz do Senhor”», porque «À sua luz todos os povos podem caminhar para o Reino da justiça e da paz».
«Este caminho nunca está concluído. Há sempre necessidade de recomeçar, de se erguer de novo, de reencontrar e reavivar o sentido da meta, de renovar sempre o horizonte comum para o qual caminhamos, de transformar os instrumentos de guerra e de morte em instrumentos de progresso, de paz e de vida. É o horizonte da esperança que nos chama a fazer um bom caminho», lembrou o prelado esta manhã.
O bispo de Leiria-Fátima afirmou que o Advento «restitui-nos este horizonte da esperança que não desilude porque Deus é fiel», e em Fátima «Nossa Senhora veio trazer e confirmar esta esperança firme de paz».
«É impressionante o seu apelo à oração e ao empenho pela paz e pela defesa da dignidade dos oprimidos e dos inocentes, vítimas de guerras e genocídios sem precedentes na história».
Em consequência disso «a terceira indicação do advento é um apelo a mudar de atitude de vida e a revestir-se das armas da luz, como que a um rearmamento espiritual e moral das consciências para viver a paz de Deus, a paz do coração, a paz com os outros».
«Foi este apelo à conversão que Nossa Senhora fez em Fátima quando pedia penitência. O milagre mais importante de Fátima não é propriamente a dança do sol, mas antes a conversão do coração e da vida de tanta gente, que aqui acontece sem dar nas vistas, e que podemos chamar também a “dança da conversão” ao ritmo da música de Deus que ressoa no Magnificat da Virgem e enche de alegria».
D. António Marto deixou o desafio de viver o ano Jubilar com «alegria e a esperança, como «tempo favorável de ação de graças pelo dom da visita e da mensagem da Senhora e pelas graças recebidas», «de experiência da ternura e da misericórdia de Deus; de devoção terna ao Imaculado Coração de Maria; de conversão e de compromisso com Deus e a favor dos outros e da paz no mundo, a exemplo dos pastorinhos».
O prelado concluiu dizendo que «A passagem pelo Pórtico do Jubileu seja o sinal exterior de que entramos em peregrinação interior e queremos deixar-nos guiar pela Virgem Santa que é mãe e sabe como conduzir-nos até Deus. Deixemo-nos, pois, guiar por Ela neste tempo de perturbação e de esperança!»
A celebração na Basílica da Santíssima Trindade terminou com a bênção papal concedida por D. António Marto, bispo da diocese de Leiria – Fátima, por mandato do Papa Francisco
Este ano para celebrar o 100º aniversário das aparições de Fátima foi concedido ao Santuário de Fátima um Ano Jubilar do dia 27 de novembro de 2016 até ao dia 26 de novembro de 2017.
Diz o documento papal: «Para obter a indulgência plenária, os fiéis, verdadeiramente penitentes e animados de caridade, devem cumprir ritualmente as seguintes condições: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do Santo Padre».
Assim, segundo o documento, a indulgência plenária do jubileu é concedida: Aos fiéis que visitarem em peregrinação o Santuário de Fátima e aí participarem devotamente em alguma celebração ou oração em honra da Virgem Maria, rezarem a oração do Pai-Nosso, recitarem o símbolo da fé (Credo) e invocarem Nossa Senhora de Fátima; Aos fiéis piedosos que visitarem com devoção uma imagem de Nossa Senhora de Fátima exposta solenemente à veneração pública em qualquer templo, oratório ou local adequado, nos dias das aparições aniversárias (dia 13 de cada mês, desde maio a outubro de 2017), e aí participarem devotamente em alguma celebração ou oração em honra da Virgem Maria, rezarem a oração do Pai-Nosso, recitarem o símbolo da fé (Credo) e invocarem Nossa Senhora de Fátima; Aos fiéis que, pela idade, doença ou outra causa grave, estejam impedidos de se deslocarem, se, arrependidos de todos os seus pecados e tendo firme intenção de realizar, assim que lhes for possível, as três condições abaixo indicadas, frente a uma pequena imagem de Nossa Senhora de Fátima, nos dias das aparições se unirem espiritualmente às celebrações jubilares, oferecendo com confiança a Deus misericordioso através de Maria as suas preces e dores, ou os sacrifícios da sua própria vida.
No final da celebração os peregrinos retornaram à Capelinha das Aparições onde foi rezada a Oração Jubilar de Consagração

Oração Jubilar de Consagração

Concessão de Indulgência Plenária Jubilar aos peregrinos de Fátima

Caderno de Advento 2016

Ninguém lava a história como os comunistas

ALEXANDRE HOMEM CRISTO   28.11.16   OBSERVADOR



Décadas de romantismo à volta de Fidel Castro tornaram menos óbvio para o mundo que ele não passou de um ditador como outros. Eis a demonstração de força da máquina comunista de revisão da história.


Morreu um grande líder. Um verdadeiro patriota, cuja razão de viver foi sempre o bem-estar do seu povo. Um homem que se dedicou inteiramente à defesa da liberdade. Um herói popular, que libertou Cuba de uma ditadura cruel. Um político inspirador de causas justas e aliado das lutas das forças progressistas, que estabeleceu o exemplo. Um símbolo da paz cuja memória se deve honrar prosseguindo a luta pelos ideais que defendia. Não, isto não é para rir nem é brincadeira de mau gosto. É mesmo muito a sério: todos estes louvores constam do comunicado do PCP que, em nome dos comunistas portugueses, reagiu à morte de Fidel Castro.
Poder-se-ia implicar com o insólito alheamento da realidade dos comunistas – como se, efectivamente, a realidade tivesse alguma importância para os comunistas. E replicar que Fidel Castro foi um ditador. Que governou a sua ilha com mão de ferro durante décadas e a entregou ao seu irmão para prosseguir o trabalho. Que matou adversários políticos, calou a oposição e suprimiu a liberdade de expressão, de associação e de reunião. Que derrotou uma ditadura cruel para a substituir por outra igualmente cruel e mais duradoura. Que forçou milhares ao exílio. Que perseguiu homossexuais e exibiu completa intolerância pela diversidade social. Que se subjugou aos interesses da URSS, em vez de aos dos cubanos. Que foi protagonista dos mais terríveis atropelos aos direitos humanos. E que todas as suas vítimas merecem muito mais do que serem arrumadas numa obscura nota de rodapé.
Como dizia, poder-se-ia implicar com o insólito alheamento da realidade dos comunistas, mas isso seria não entender a força da sua persistência em reescrever a história. Fazem-no agora com Fidel Castro como fizeram sempre em relação ao negrume dos regimes comunistas. Para o PCP, o centenário da revolução bolchevique serve de pretexto para elogiar as conquistas da União Soviética em termos de avanços sociais e económicos – menorizando os genocídios e o rasto de sangue de milhões de mortos que a máquina repressiva do regime deixou. Para o PCP, a “chamada queda do Muro de Berlim” não foi um momento de libertação, mas a destruição das “realizações económicas, sociais e culturais de mais de 40 anos de poder dos trabalhadores” na antiga República Democrática Alemã. Para o PCP, o “suposto massacre de Tiananmen” pelas mãos do regime comunista chinês não existiu – afinal, tudo não passou de uma campanha difamatória dos EUA. Para o PCP, o regime norte-coreano não merece censura pelos seus crimes contra a humanidade – embora mereçam censura “as pressões, agressões e tentativas de desestabilização do imperialismo” na península coreana. Enfim, a lista é tão longa que dava para encher páginas.
Dir-me-ão que reescrever a história, enquanto a memória perdura, é um acto de ridícula resistência à realidade. Mas tudo deixa de ser ridículo quando, após décadas de insistência numa versão alternativa da realidade, a memória se esbate e a mentira passa a verdade. Décadas de iconografia poética e de romantismo revolucionário à volta de Fidel Castro tornaram hoje menos óbvio que, afinal, o cubano não passou de um ditador como outros da América Latina – eis, aqui, a demonstração de força da máquina comunista de revisão da história. Tão menos óbvio que, nos jornais do fim-de-semana, foi indisfarçável a dificuldade em qualificar Castro como o “ditador” que foi, preferindo-se uma infame sequência de formulações inócuas – “figura marcante”, “histórico”, “controverso”.
Ironia das ironias, no mundo livre foram muitos os que o homenagearam e choraram a morte de um inimigo da liberdade. Inquieta este confronto com a fragilidade dos valores democráticos, tão facilmente encostados quando os elogios a um tirano se impõem. Está claro que o tempo apaga tudo, incluindo a memória. E que essa é a lição que os comunistas nunca esqueceram: reescrever a história compensa, porque uma mentira contada muitas vezes ascende a verdade. Que aprendamos todos a lição, também, e levemos a sério o alerta que a morte do ditador cubano reforçou. Hoje foi Fidel Castro. Amanhã serão os nossos filhos a duvidar da repressão que justificou o Muro de Berlim. Porque ninguém lava a história como os comunistas. E ninguém como os comunistas conta com a história para os absolver dos seus crimes.