segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O "meu" colega Pedro


MARIA ADÉLIA FERREIRA      31.10.16

O Pedro era diferente de todos nós, no curso de 77-78!

Desde logo porque tinha ficado sem o Pai aos 15 anos. Depois porque era bolseiro da GULBENKIAN, isso mesmo em maiúsculas. Não eram para todos aquelas bolsas!! E depois porque tinha sotaque do "Pôarto" que depois perdeu quase completamente, pois ninguém do Norte o perde totalmente.

Escolheu a especialidade de Agronómica, a Minhoca e eu a de Indústrias. Passámos a não estar nas mesmas turmas. Só nos encontrávamos nos momentos comuns aos vários cursos. Nas Reuniões Gerais de Alunos, pedia a palavra para dizer as evidências que conseguiam unir os extremos e mais ninguém notava. Ficámos ambos a trabalhar no Instituto Superior de Agronomia (ISA).


No Pedro os incómodos, faziam-se caminho...
Recordo um momento em particular e algumas atitudes que fizeram a diferença no ISA e por isso ficarão no tempo...
Incomodava-o o facto de os nossos estudantes católicos não estarem organizados. Arranjou um texto de estatutos que lhes entregou, para se guiarem, ajudou-os a organizar para que os levassem à Assembleia Geral. Está agora a fazer um ano que a existência do Núcleo de Estudantes Católicos do ISA (NEC-ISA) foi reconhecida e os estatutos aprovados pela Associação de Estudantes. Se hoje fazem parte dos 16 NECs que existem na Academia de Lisboa, foi porque no Pedro os incómodos, faziam-se caminho...

Ninguém morre a caminho de Fátima!
Soube há alguns anos que ele e a Minhoca faziam parte da equipa de apoio à peregrinação anual do CL a Fátima. Disse-mo a minha filha Teresa que a fez, como aluna do Liceu Raínha D. Amélia, juntamente com os manos Seabra (Teresa e António) e com o Luís Duque. Quando o mês passado lhe liguei via "skype" para Londres, onde está a trabalhar e lhe dei a notícia, ela respondeu de imediato: "Mãe, ninguém morre a caminho de Fátima"!
Até na morte o Pedro foi diferente!

Os alunos estão agora a rezar o terço por ele, vou ter com eles!
No dia 11 de Outubro, quando regressava do almoço, tive de parar na passadeira frente ao Edifício Principal para deixar passar a Anabela, secretária da direcção da AEISA que ia acompanhada por uma das alunas. Reparei então que tínhamos a bandeira a meia haste, abri o vidro e perguntei: "Belinha por quem está a bandeira assim?" Ela respondeu: "pelo papinto"! Achei que tinha ouvido mal, sabia o Pedro a caminho de Fátima!!!, abri completamente o vidro e repeti: "por QUEM?" E ela repetiu: "o PAPINTO!!!!....Os alunos estão agora a rezar o terço por ele no Anfiteatro de Pedra, vou ter com eles". Como se tivesse levado um murro no estômago, parei o carro no primeiro espaço que encontrei e fui com elas. O terço estava a terminar. Uma das alunas deu testemunho da forma como o " Pedro foi aquele Prof que mais a marcou pelo exemplo"! Os Mestres são assim e é isto que os distingue dos professores. Informou sobre a missa na Igreja da Encarnação e sobre a hora da partida do NEC-de Agronomia para Fátima nesse dia. O Pedro fazia questão de se encontrar sempre lá com eles, desde que há 2 para 3 anos começaram a ir também.

Todas as atitudes são educativas
Da última vez que tomámos café juntos, no Bar do Edifício Principal, logo pela manhã, quando nos questionávamos se a chávena devia ser devolvida ao balcão ou deixada na mesa, por estarmos num estabelecimento de ensino, ele disse-me: " a minha filha Inês também acha que todas as atitudes são educativas"! Lá em casa não há televisão....!

Interceda por nós
Nessa "infindável Beleza que agora habita"...., (talvez sentado a olhar pelo NEC, a interceder para que se mantenham, concretizem os seus objectivos e alimentem a recém criada "newsletter", aí junto do Senhor, peça-Lhe por mim para que me ajude a conseguir acompanhar e responder ás suas solicitações, sempre que o pedirem, como o Pedro sempre o fez)... "onde um dia estaremos todos reunidos para além da morte", como afirmou Sto Agostinho, naquele belo poema, interceda por nós.
Páteo do Quercus, Instituto Superior de Agronomia, 31 de Outubro 2016

Dou graças a Deus por ter cruzado os nossos caminhos

JOSÉ PIMENTEL         11.10.2016

Ao meu Amigo Pedro (c.c. à Minhoca e à Inês)

Hoje, naquele meu jeito frágil e angustiado que tu tão bem conheces, tirei o meu fim de tarde para falar contigo. A verdade, porém, é que não sabia muito bem qual a melhor forma de o fazer e, sobretudo, queria fazer as coisas certas: como tu farias; como tu apreciarias. Decidi escrever-te, tendo a certeza de que, desta feita, mesmo que discordes e tenhas a inclinação para me dar uma reprimenda, ainda que suave e complacente como sempre (pois, penso pertencer a um grupo muito restrito de pessoas a quem tu te permitias, ou achavas que valia a pena, dar uma reprimenda, no meu caso, sempre merecida e construtiva), me ouvirás com atenção.

Tu pertences a uma daquelas combinações muito raras da criação de Deus, certamente que encarnada com o propósito de melhorar o mundo e de servir de exemplo aos seus semelhantes.

És profundamente humano na tua disponibilidade, atenção, compreensão, serenidade e amizade pelo próximo. Profundamente cristão e católico na tua racionalidade de olhar, tentar compreender, agir e aceitar a vida e o mundo. Sempre tentaste transmitir-me a tua fé e certeza do caminho a trilhar, sendo que eu nem sempre fui capaz de te acompanhar. 

És, para mim, um verdadeiro amigo. Alegre, com um sentido de humor apurado e peculiar, sempre atento ao próximo e muito, mesmo muito, perspicaz. Basta vezes, a propósito de falhas ou parvoíces minhas, fiz de ti o meu confidente, sem que tu nunca me tenhas recriminado e aproveitado para me indicar o caminho certo para as reparar ou mitigar. 

Para além de tudo isto, tu és brilhante em tudo aquilo em que te empenhas. Enquanto marido e pai; enquanto discente e docente; enquanto criador, redactor-chefe, editor e articulista do “POVO”: essa original e incomparável newsletter que tu próprio definiste como sendo de, “Artigos, comentários e notícias que correm o risco de não ser notícia na comunicação social que nos rodeia, apesar de incidirem sobre o que mais interessa na vida e a um juízo sobre o que se passa à nossa volta”. Simplesmente genial!

Bem sei que já te deves estar a sentir incomodado com tanto elogio e lamechice, mas hoje, tinha de ser.

Vou sentir muito a falta da tua presença, preocupação, apoio, alegria e amizade, quotidianas. Vou sentir muito a falta da tua,  persistente e lúcida, energia orientadora e inspiradora. 

Dou graças a Deus por ter cruzado os nossos caminhos há cerca de 30 anos. Para mim foi um privilégio conhecer-te e uma honra poder gozar, de perto, da tua amizade. 

Obrigada a Deus e Obrigada a ti Pedro, até sempre.

Zé Pimentel 

Pedro Aguiar Pinto: Homília Missa de corpo presente 13.10.16

O professor que ensina Bob Dylan na Universidade de Coimbra

VISÃO         20.10.2016

Há dias, uma aluna de Stephen Wilson dizia-lhe que tem a discografia toda de Bob Dylan (pertencia ao seu pai), mas a jovem tinha dúvidas se a geração anterior entenderia o músico e poeta. E o professor Wilson, 64 anos, achando-lhe graça, respondeu que Bob Dylan gostaria que ela dissesse isso em público. Aos 75 anos, Bob Dylan está tão atualizado que os próprios jovens consideram-no mais contemporâneo do que foi no início da sua carreira.
Na manhã do passado dia 13 de outubro, quando a academia sueca anunciou o Prémio Nobel da Literatura – mal sabia a secretária permanente Sara Danius que passados oito dias ainda não teriam conseguido entrar em contacto com o laureado –, Stephen Wilson ficou agradavelmente surpreendido. Para o professor especialista em Estudos Americanos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, dar o prémio a uma pessoa pouco canónica, como Bob Dylan, é uma polémica escusada, pois o prémio tem todo o cabimento. “Se fossemos achar que só literatura pura pudesse ser ensinada, então Shakespeare, que é basicamente Teatro, também não deveria ser ensinado como literatura”, comentou Wilson com um amigo.
Stephen Wilson chegou a Portugal na década de 80 do século passado. Assistente na Universidade de Coimbra, terminaria por cá a sua tese de doutoramento sobre o poeta americano Ezra Pound. Durante muitos anos dedicou-se a ensinar literatura e cultura americana e também cultura anglo-irlandesa. A cultura americana sempre teve uma vertente forte da cultura pop e de massas, por isso é inevitável que nas suas aulas fale de cinema (com destaque para Martin Scorsese), desporto (adepto de futebol e praticante de râguebi), música e até jornalismo.
Ficou surpreendido com a escolhe deste ano para o Prémio Nobel da Literatura?
Surpreendido, mas muito satisfeito. Penso que foi uma louca e brava decisão por parte da Academia Sueca. Posso estar enganado, mas eles são mais convencionais e conservadores, e ao escolherem alguém que para muitos não faz parte do que é visto como a comunidade literária, uma popular escritor de canções como Bob Dylan, arriscaram. Conheço outras pessoas como eu, que estudam e ensinam Dylan, que já há muito tempo falavam desta possibilidade, mas sempre pensei que tal não acontecesse.
Surpreende-o que Bob Dylan não atenda o telefonema da Academia Sueca?Oh! Isso é Bob Dylan! Eventualmente, há de atender e acredito que vá à cerimónia de entrega do prémio.
Como descreveria a obra de Bob Dylan a uma criança?Por vezes, perguntam-se se gosto dele. E respondo: isso depende de qual dos Bob Dylan se refere. Ele muda constantemente. Bob é um poeta que dedicou o seu trabalho à música. Tem de se ouvir o seu trabalho, muitas vezes ele conta histórias, e temos de respeitar e reconhecer as suas canções, sempre abertas a várias interpretações. Ele é um poeta e um músico, e um não é mais importante do que o outro. Mas agora que recebeu o Prémio Nobel da Literatura o seu trabalho não ficará sozinho, pode ser posto num papel e lido, ensinem-no nas salas de aulas, escrevam sobre ele da mesma maneira que escreveriam sobre poesia.
Qual é a melhor canção para nos iniciarmos no trabalho de Bob Dylan?
Que pergunta difícil. A Academia Sueca falou do álbum Blonde on Blonde, penso que por causa de músicas como Visions of Johanna, mas eu recuaria no tempo e começava com Blowin’ in the Wind e A Hard Rain’s A-Gonna Fall [ambas de 1963]. Temos de ir a meados dos anos 60 do século passado a Mr. Tambourine ManDesolation Row, Just Like Tom Thumb’s Blues. Se tivesse de apresentar Bob Dylan seria com Subterranean Homesick Blues, do álbum Bringing It All Back Home.
Porque é que a sua poesia é tão controversa?
Porque muitas pessoas pensam que Bob Dylan não é um escritor, da mesma maneira que outros Nobel anteriores, como o português José Saramago ou o irlandês Seamus Heaney. O prémio Nobel é sempre controverso. Lembro-me quando Saramago ganhou, em 1998, terem dito que ele escrevia livros mas atacava a religião, passava demasiado tempo nas Ilhas Canárias… A literatura deve ser controversa, tem de se falar sobre ela, tem de se ficar excitado ou zangado. O prémio Nobel não é como uma medalha olímpica, é um prémio que deve fazer pensar sobre ele. Será isto literatura? Qual o futuro da literatura Mas Bob Dylan sempre foi controverso, irritando uns, excitando outros. Nos anos 60, quando passou de cantor folk para uma rock star, em algumas cidades americanas a polícia tinha medo que o matassem durante os concertos, porque ele sempre chocou as pessoas. Sempre transgrediu. Com ele nunca foi fácil.
Como são as suas aulas?
Lemos poemas e as respostas que eles provocam, ouvimos música, vemos concertos. Nas aulas da pós-graduação vemos o documentário de Martin Scorsese chamado No Direction Home.
Já teve oportunidade de conhecer Bob Dylan?
Não, já o vi inúmeras vezes ao vivo, mas ainda não o conheci e nem tenho a certeza se gostaria. Não devemos conhecer pessoas que admiramos para não nos desiludirem. Ele é uma ficção criada por Robert Allen Zimmerman, provavelmente não se consegue conhecer o próprio Bob Dylan. O filme I’m Not There é sobre alguém que o vê sozinho num restaurante, vai ao seu encontro, apresenta-se e pergunta se ele é Bob Dylan. “Não estou aí” foi a resposta.

Todos os Santos

Em vésperas de Todos-os-Santos, e rodeados de montras nas ruas, publicidade na radio e televisão (e emoticons sugeridos à medida que escrevo esta mensagem) com fantasmas, zombies, abóboras, bruxas, e campas, o pai fazia sempre uma reflexão sobre o modo como educamos as crianças, "cedendo à globalização dos costumes e perdendo a função educativa das nossas tradições". Por isso listo abaixo vários textos sobre o Halloween e o que tem de mal e sobre a tradição portuguesa do Pão por Deus e o que tem de bom.

Numa nota pessoal, é curioso que a morte seja aceite como tema de brincadeira infantil nestes dias, quando tão frequentemente se questione a presença das crianças nas cerimónias fúnebres das pessoas de família. Na nossa experiência, a brincadeira só é útil se ajuda a viver, e neste aspecto pode-se dizer que com as coisas sérias não se brinca, mas ajudam-se a viver.


HALLOWEEN
Europa trocou crucifixos por abóboras Cardeal Tarcísio Bertone
Halloween Aura Miguel
TODOS OS SANTOS E O PÃO POR DEUS
O significado do pão por Deus
A importância do Feriado do Dia de todos os Santos Pe. João Seabra

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O meu irmão João

ANTÓNIO LOBO ANTUNES   VISÃO  15.09.2008

Agora, há uma semana, sucedeu aquilo do Pedro e de novo te admirei, mano, a tua eficiência, a tua capacidade de decisão, o teu valor, a rapidez pragmática do teu afecto, eu que de pragmático, pobre de mim, nada tenho. 

É talvez a pessoa que conheço melhor no mundo e todavia quase não falamos. Para quê? São desnecessárias as palavras entre nós, passámos mais de vinte anos, acho eu, no mesmo quarto, num silencioso princípio de vasos comunicantes que até hoje se mantém. Para além do muito amor que raramente lhe manifestei tenho uma imensa admiração por ele e um orgulho sem limites. Herdou do nosso pai (herdaste do pai, sim, tem paciência) a honestidade, o carácter, a coragem e o horror à mentira. Desde criança foste sempre valente. Se assim à má fi la me ordenassem que dissesse duas características tuas respondia logo a valentia e o pudor, formas supremas da elegância. E isto desde que te conheço, tu que nasceste vinte meses depois de mim
(o número vinte deu-lhe para me perseguir hoje)
que era cobarde e despudorado e custou-me tanto ver-me livre dessa ganga nojenta, zangado de vergonha comigo. Foste sempre digno e discreto contigo mesmo e com os outros e bem sei, sem mo teres dito, as difi culdades e as dores que sofreste, a carne viva que escondes e eu vejo, a compaixão que não mostras e eu sinto. E a tua oculta e bondosa generosidade. O rigor também, a falta de complacência para com a ingratidão, a pulhice, os sentimentos rasteiros. Claro que tens defeitos: alguns divertem-me, outros enternecem-me, nenhum me incomoda, talvez por serem os defeitos das tuas qualidades da mesma maneira que um automóvel possui os travões adequados à potência do motor. Se fosse Deus não mudava grande coisa em ti: talvez trocasse um móvel de posição, alterasse uma jarra, substituísse um quadro. Na casa não mexia: agrada-me que seja como é. E depois claro que te foi dada uma inteligência superior e isso não vale a pena mencionar porque no meu caso não me serve de nada, ninguém é tão estúpido como um homem inteligente e muitas das asneiras que fi z conhece-las de ginjeira. Lembras-te da mãe
- Tão inteligentes para umas coisas, tão estúpidos para outras mas eu canalizei tudo para a escrita, construí-me para isso e os teus interesses são mais variados que os meus. E no meio disto somos tão ingénuos ambos, sensíveis à lisonja, por vezes completamente parciais, cegos em relação aos amigos, de julgamento turvado quando os afectos se misturam nele. É curioso como, sendo diferentes, temos coisas idênticas. O pai não queria filhos, queria campeões de karaté. Conseguiu-os e o preço disso foi uma parte nossa amputada e uma sede de amor sem limites, em ti cuidadosamente escondida. A gaita é que eu sou desbocado e tu não, vivo nas nuvens e tu só às vezes, porque eu vivo nas nuvens e das nuvens e tu tens de confrontar-te com uma realidade imediata que te dá um peso específico maior que o meu e uma relação necessariamente pragmática com certos aspectos do quotidiano. Estou para aqui a escrever isto e a pensar na educação que recebemos, normativa, implacável, no limite da impiedade e da dureza. Quantas vezes nos revoltámos contra ela e, no entanto, que importante foi. Um pai que competia connosco e, mais tarde, te invejava. É terrível a relação do fi lho com o pai, julgando-se mutuamente numa ferocidade sem doçura. Nunca foi doce. Nem tolerante. Que egoísmo horrível naquele homem. E por baixo disso tudo uma vaidade em nós, ou antes uma vaidade nele dado imaginar (a imaginação não era o seu forte, nem o sentido de humor, nem a criatividade) que nos havia feito peça a peça e não fez. Não nos poupava mas poupava-se a si. Dito desta forma parece que lhe quero mal. Não quero. Só que não me acho em dívida: o preço foi alto. Levou a vida que quis, como quis, e impunha-nos à força a sua vontade. É curioso, João: dá-me pena que tenha morrido. Movia-se por paixões, entusiasmava-se e gostava de nós através das nossas filhas por lhe ser impossível amar-nos abertamente.
E contudo, mau grado o que acabo de dizer, não duvido do seu amor e de um orgulho genuíno nos filhos, que fazia os possíveis por disfarçar. Estou a ser injusto, de longe em longe descuidava-se. E apesar do que afi rmo, gaita, era, é o nosso pai. Não esqueço as palavras de Herculano a propósito de Garrett que ele repetiu dúzias de ocasiões ao longo dos anos
- Por meia dúzia de moedas o Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita
ou da ordem de Filipe Segundo ao arquitecto do Escorial
- Façamos qualquer coisa que o mundo diga de nós que fomos loucos
e como esses dois preceitos se gravaram na gente. Isto foi importante para além do que declarei a teu respeito e herdaste dele de facto: a honestidade, o rigor e a coragem. É bom ser filho de um homem desta têmpera e essas qualidades nasceram contigo. Talvez com outro pai houvesses sido igual, não sei. Capaz de todas as porcarias menos de uma frase mal escrita: para mim foi um tiro na mouche. Em cheio.
E estou-lhe grato por isso. Estou-lhe grato também pelos irmãos que foram aparecendo, a chorarem como uns danados até aos dois anos, raios os partam. À mãe igualmente claro, de quem a avó nos dizia
- Vocês matam a vossa mãe
numa convicção que me confundia. Via-nos a apunhalá-la com a faca do pão, a da serrilha grande, e ela a torcer-se na cozinha. Felizmente sobreviveu à faca e segue viva da costa. Agora, há uma semana, sucedeu aquilo do Pedro e de novo te admirei, mano, a tua efi ciência, a tua capacidade de decisão, o teu valor, a rapidez pragmática do teu afecto, eu que de pragmático, pobre de mim, nada tenho. Quando acabaste de operá-lo apeteceu-me beijar-te. Claro que não beijei mas sabes que beijei: és o meu irmão João. Aquele a quem me une um silencioso princípio de vasos comunicantes. E com que alegria repito isto dentro de mim: o meu irmão João. O meu irmão João para sempre.
(Artigo publicado na VISÃO em setembro de 2008)

João Lobo Antunes: “O pessimismo é uma profecia que se cumpre”

EXPRESSO    27.10.2016


Compaixão, doçura, crueza, doença, esperança. “Apesar do progresso, e ainda mais numa especialidade altamente tecnológica como a minha, nunca vi, não conheço arma nenhuma, de qualquer natureza, seja medicamentosa seja instrumental, que faça anular a necessidade da compaixão”. Palavras de João Lobo Antunes, numa entrevista em 2015 à revista E, em que disse, entre outras coisas, ter sido “mais um barco de papel deitado ao rio do que um barco com remos a tomar uma direção”. O neurocirurgião das palavras morreu esta quinta-feira, vítima de um melanoma.
Em sonhos ainda opera. Vê-se na sala de operações com uma coluna aberta e diz: sei fazer isto, mas estou cansado, não quero estar aqui. Quando acorda, verifica que era verdade. Já não quer estar ali. Retirado desde junho, e “sem lágrimas”, o que tinha a dizer nesse campo está dito e outras são as paisagens que agora lhe interessam. E onde se situam elas? Em que lugar do mapa? O livro que publicou há semanas, “Ouvir com Outros Olhos” (Gradiva), contém parte da resposta. São ensaios curtos sobre temas que o “obrigaram a pensar”. Alguns deles cortam, como bisturis. Outros arrumam, ordenam o caos. Mas não estão isolados. Inserem-se numa realidade de escrita mais plena que o autor sempre desejou e que uma profissão tentacular o foi deixando exercer até quase não se confundir dela — ele que é um médico de palavras e um dos maiores neurocirurgiões do mundo, um homem que jamais foge a uma pergunta, um professor, um ativo humanista e um ex-conselheiro de Estado, e mesmo assim, como generosamente afirma, um filho “derrotado” pelo pai.
Eis o presente de João Lobo Antunes, as palavras. As das memórias que anda a escrever e as de um ‘projeto secreto’: a tradução para português de 50 dos poemas em inglês que a filha Margarida lhe remete diariamente desde que soube da sua doença. Às Janelas Verdes, no escritório onde passa muitas das suas horas, Lobo Antunes dissecou esta nova condição. A de ser médico e estar doente. A de ter mais tempo. E a de ser nutrido — porque sempre foi um bom aluno — pelas experiências dos outros, dos que estavam do outro lado, sob as suas mãos.

Em “Ouvir com Outros Olhos”, diz que temeu ficar empedernido com a idade e que os anos o tornaram mais sensível. É o relato de uma mudança? 
O título do livro recorre a uma sinestesia que envolve dois sentidos diferentes, o visual e o auditivo. O que eu queria dizer é que olho para as pessoas — e qualquer olhar é uma intrusão — com outra profundidade, para lá da superfície, tentando perceber a sua realidade, a sua identidade. Muita coisa é dita com o olhar. Há anos escrevi que não se pode dizer com os olhos aquilo que se nega com a palavra. Diria que foi a experiência da doença que me tornou mais sensível. Como se tivesse esticado a corda do violino e esta vibrasse ao menor toque, com maior intensidade e frequência. Por isso, mais do que uma mudança sofri uma evolução, que introduziu outra doçura na relação com as pessoas.

Uma doçura que está em desuso? 
Esta é uma matéria que me preocupa muito. Tenho refletido sobre a alteração da medicina, sobre a razão por que estamos cada vez mais longe dos doentes. E estamos afastados dos doentes pela intersecção das diferentes tecnologias, pela pulverização do saber, pelos múltiplos especialistas que são chamados a cuidar de alguém. Aquilo que era uma relação única, um a um, perdeu-se.

Uma palavra que usa muitas vezes é “compaixão”. 
Compasio é mais do que a simples empatia, vai mais fundo. E cada vez mais interessa às neurociências, pois parece que o nosso cérebro está equipado para sentir compaixão, ou seja, para viver o sofrimento do outro. Apesar do progresso, e ainda mais numa especialidade altamente tecnológica como a minha, nunca vi, não conheço arma nenhuma, de qualquer natureza, seja medicamentosa seja instrumental, que faça anular a necessidade da compaixão.

E a crueza? Avisa logo o leitor de que esta pode ser a sua última coletânea. 
Não é crueza, tenho é a noção do tempo que me irá faltar para escrever alguma coisa de semelhante. O José Cardoso Pires terminava o seu “De Profundis” dizendo: acta fabula est. O que tinha para dizer está dito, e agora parti para outras paragens, fora da paisagem ensaística. Publicar esta coletânea era importante porque me custava acreditar que desapareceria deixando arquivados uma série de textos que me obrigaram a pensar.

O livro dá-nos o ponto de vista de alguém a quem só recorremos quando procuramos — como diz — a transação que visa os seus serviços. Mas esse encontro é mais do que uma transação e o médico é uma pessoa. 
Isso é curioso porque, quando comecei, o que pretendia era salvar vidas. Pensava que a morte ou a incapacidade eram uma derrota quase pessoal. Trabalhei uns anos, ainda era menino médico, numa casa de saúde de freiras, uma casa psiquiátrica onde havia muitas mulheres com processo de demência e declínio mental. E eu queria mantê-las vivas a todo o custo. Já para as freiras, se elas morressem, era uma alma que ia para o céu — uma alma imaculada por não ter sequer o equipamento do mal para cometer o pecado. Com o tempo, a pessoa-médico que sou foi aprendendo a não lutar contra a natureza. Foi uma descoberta consoladora e tranquilizante. Porque esta é uma área ingrata, em que não há possibilidade de compensação ou de regeneração.

Descobriu que entre a doença e a cura existem gradações? 
Sim, e que a ideia triunfante de dominar a doença está implícita nas metáforas guerreiras que usamos: a guerra contra o cancro, o combate, uma arma nova... A metáfora é um instrumento indispensável para se transmitir o que se sente. E muitas vezes a linguagem metafórica do doente só é bem compreendida quando o médico passou pela mesma situação.

O doente pede a cura. E por vezes a cura é ter mais tempo. 
Essa é a grande tragédia da morte. O Fernando Gil tem um ensaio magnífico intitulado “Mors certa, Hora Incerta”, sobre o facto de a morte ser uma certeza sem remissão e o tempo um grande mistério. Montaigne diz que todos os dias conduzem à morte e fala da morte final, ou seja, há muitas mortes. O que assusta é a morte interromper a dádiva da vida. Por vezes, as pessoas pedem mais tempo para coisas que parecem triviais. Um doente pediu-me mais três meses para ver o campeonato do mundo de futebol. Viu-o e depois morreu. Outros pedem mais um Natal, casar mais uma filha. E há outro aspeto que eu próprio experimentei: a vida projeta-se no futuro e se o futuro parece opaco ou enevoado deixamos de fazer projetos. Daí a vertigem em ter colecionado estes ensaios e de escrever um pouco mais.

Fala das suas memórias? 
É um relato para os meus netos saberem o que o avô fez. Uma espécie de diário escrito 40 anos depois, que termina quando regresso a Portugal. Não quis avançar mais porque a partir daí tornei-me diferente, mais ativo como cidadão. Nos Estados Unidos eu era médico e professor, um small fish in a big pond, com algum reconhecimento clínico e uma razoável reputação. Não sei que tipo de peixe sou agora, mas diria que a minha vida foi partida ao meio.

Há um antes e um depois dos EUA? 
Há um antes e um depois de atingir a maturidade técnica, que significa o seguinte: se entrar por aquela porta alguém com um problema complicado, como um tumor cerebral, eu com maior ou menor dificuldade ou sucesso sei o que fazer. É uma liberdade única, a liberdade de voar. Esses anos coincidiram também com um tempo de aprendizagem da democracia em Portugal, que está hoje muito maltratada. Mas não quero ir por aí.

Porquê? 
Pela impureza das palavras que se dizem. O desrespeito pela verdade, a violência dos termos, o estarmos longe daquilo que alguém chamou de ‘democracia humilde’, aquela que aceita o ponto de vista do outro, ouvindo-o. Fernando Gil falava muito da má-fé, que é um sentimento relacional e significa que a nossa posição está tomada antes de ouvirmos o argumento do outro. Passados os 70 anos tenho pena de estar a viver este tempo.

Um tempo de má-fé? 
Sim, um tempo de má-fé.

A propósito de ter descoberto o Portugal democrático ao voltar dos EUA, dez anos após o 25 de Abril, disse numa entrevista: “Os portugueses são os mesmos.” Ainda acha isso? 
Nós aprendemos e codificámos as regras da democracia. O processo está estabelecido, mas não chega. A liberdade e a democracia são uma espécie de oxigénio, que serve para respirar num tempo tão complexo como o nosso. Mas é preciso mais, é preciso construir. E temo que isso não seja possível com a polarização do debate, com a falta de respeito por um sentimento tão simples e elegante como é a decência.

Se não se tivesse ido embora o seu percurso teria sido mais politizado? 
Estive muito envolvido na Juventude Universitária Católica e no jornal “O Encontro”, e tudo isso me permitia uma oposição esclarecida ao Estado Novo. Os meus companheiros dessa altura tornaram-se grandes figuras da política da República portuguesa. Enquanto eu fui só médico. Nunca pretendi ter uma intervenção política, a não ser em três eleições presidenciais [foi mandatário de Jorge Sampaio em 2001 e de Cavaco Silva nas duas candidaturas]. De facto, aquilo que faço, ou que fazia, era ser cirurgião, académico, professor.

Sendo isso tudo, que entendimento do ser humano lhe deu o facto de conhecer os seus processos mais escondidos?
Com o tempo, fui valorizando o aspeto biológico do ser humano. Comecei a olhar para a motivação do comportamento de cada um, para a necessidade de se reproduzir, de sobreviver. E este entendimento trouxe não diria um álibi, mas pelo menos uma benevolência. Muitas vezes dou por mim a ouvir alguém a expor os seus pontos de vista e penso: “Está a falar o bicho.” O bicho-pessoa, o “bicho da terra” do Camões. Não sou diferente dele, percebo as suas motivações. Acontece que além destas há outra coisa que são os valores, transcendentais e indispensáveis para dar coesão à sociedade dos homens. Na minha visão paracristã, digamos, só há um pecado, que é fazer mal ao outro. O resto são derivativos.

O bicho humano é complicado. Compreendê-lo não o fez alguma vez sentir omnipotência? 
A primeira intervenção que fiz sozinho foi a um tumor cerebral, em Nova Iorque, a uma mulher jovem. Era porto-riquenha e chamava-se Miriam, que é o nome de uma neta minha. Foi um milagre ela acordar a mesma pessoa, intacta, depois de eu lhe ter tirado uma fatia razoável do cérebro. Lembro-me da sensação de exaltação, quase de felicidade absoluta, por não ter sido instrumento de uma transformação, por ter recebido alguém e a ter devolvido exatamente como estava, com um tumor a menos. A partir daí, essa sensação manteve-se comigo: o milagre e a gratidão a um ser supremo, que não sei se existe. Claro que tenho também a minha coleção de desastres. Há um que me vem à memória com frequência. A doente ficou cega e eu percebi no ato cirúrgico que isso estava a acontecer. E não dá para rebobinar o filme. Sabe, também tenho um lado de humildade, coisa que as pessoas por vezes não percebem. E que eu guardo para mim.

E o homem altivo e ligeiramente elitista que surge nas descrições que fazem de si? Existe? 
O Eduardo Prado Coelho, que era um grande amigo e colega de liceu, escreveu uma coisa sobre mim que me fez pensar: “Este homem percebeu o que eu acho que sou.” Entre outras coisas, disse que eu era fleumático. Só a absoluta estupidez e uma cegueira total em relação aos próprios defeitos é que permitiriam a alguém que teve uma lição de vida como a minha ser vaidoso. A profissão despejou-me baldes de humildade.

A profissão moldou-o? 
A medicina fez-me médico. Nós aprendemos o básico, a parte artesanal da profissão. É onde muitas vezes falhamos, embora eu tenha sido muito bem educado. Aquilo em que me tornei é uma demonstração brilhante da virtude da educação, do que chamo o ‘currículo silencioso’, que passa por osmose, informalmente, em sítios tão diversos como o restaurante do hospital ou o serviço de urgência. Se eu quisesse apontar a minha qualidade maior, o meu maior talento, diria que fui sempre um bom aluno. Até ao dia de hoje, em que comparo a minha experiência como doente com o que observei ao longo da vida e tento aproveitar isso para a minha melhoria, para a minha tolerância, e até para outra coisa sobre a qual tenho escrito muito que é a esperança.

Como é João Lobo Antunes doente? Qual a sua narrativa? 
Somos todos diferentes e o reconhecimento dessa diferença é fundamental para o ato médico. Saber com quem é que estamos a falar. No meu caso, saber como sou na doença. E eu diria que tenho a necessidade de manter um certo pudor, de não me despir completamente e de conter o medo. Quando adquirimos uma certa prática em ouvir a narrativa, percebemos que nem sempre é útil destapar o medo. Às vezes é melhor abordá-lo pela porta do fundo.

Porquê? 
Porque falar do medo torna-o real. E se não falarmos nas coisas elas não assumem uma realidade tão dolorosa. Podemos usar até o argumento da autoridade, que hoje caiu de moda, e dizer: “O senhor não vai sofrer porque eu não vou deixar”. Eu disse isto ao meu pai. De forma velada, estava a dizer-lhe até onde iria para ele não sofrer. Ele era um homem muito orgulhoso da sua coragem física e ficou tranquilo.

Essa assertividade pode não corresponder à realidade. O médico não controla tudo. 
Mas não deixa de ser uma afirmação séria. É a verdade, eu não vou deixar que sofra.
O seu pai era neurologista. Como lida com a doença quem a conhece por dentro? 
É assustador. Falo do medo do doente mas posso também falar do medo do médico. Um dia perguntei a um dos melhores neurocirurgiões do século XX se alguma vez tinha tido medo. É uma pergunta indiscreta. Ele disse: “Medo? Pânico!” Lembra-me de quando estava a nadar na praia do Meco e percebi que não conseguia voltar para terra. Pensei: “Já te viste em apuros destes na sala de operações e não perdeste a cabeça.” Nós muitas vezes sabemos que o inimigo que vamos enfrentar mete medo, mas no momento do confronto o medo desaparece. Antes, podemos nem dormir, e depois vem a exaustão. Vinha, isso já pertence ao meu passado, já não é o meu presente.

Permita-me insistir: até que ponto seria preferível o desconhecimento? 
Sabe, eu nunca quis saber muito acerca das minhas doenças. Nunca tive curiosidade médica em relação a mim próprio. Era muito novo quando fui operado à coluna e nunca vi os meus exames. O que é paradoxal, porque era o meu pão com manteiga. Agora, o papel da minha mulher, que é médica, é gerir a minha doença.

Deixa isso nas mãos dela? 
Ela é o meu intérprete junto dos médicos. Estamos juntos e o médico fala-lhe, como se eu não existisse. Uma vez por outra isso irritou-me um bocadinho. Mas as instruções eram-lhe dadas porque ela exercia sobre mim essa autoridade. Vivo confortável com isso.

No livro, cita Virginia Woolf quando ela escreve que a doença estabelece uma nova “hierarquia das paixões”. É o que lhe aconteceu? 
A vida normal é um caos desorganizado de projetos, emoções, sentimentos, interesses culturais, familiares, profissionais. Nós vivemos nesse caos. O que faz a doença? Arruma o caos. Fica tudo dominado por uma voz, um cântico monótono. Um cantochão que destrói aquilo que é a vida.

Que envenena, no sentido de Tolstoi no “Ivan Ilitch”?
Escrevi, pensei e li muito sobre a doença, e de um modo geral o que Tolstoi descreve é exatamente o que se passa. Ou seja, foi preciso que um ficcionista — um homem genial — tratasse o assunto desta maneira. Como é que ele soube tudo isto? Alguém lhe contou? Observou? Percebeu? Adivinhou? O grande mistério da criação literária é como se processa essa alquimia, a transformação da vida numa narrativa.

A narrativa e a vida têm tempos diferentes. A doença acelera a vida? 
Uma das características de uma pessoa se ter retirado da vida ativa é deixar de saber em que dia está. Se me perguntar que dia é hoje não lhe sei responder. Mas posso dizer que as duas noites que passei na unidade de cuidados intensivos me fizeram ver como o tempo tem velocidades diferentes. Passa tão lentamente... Mandei tirar o relógio que estava na parede.
Incomodava-o? 

Imenso. O tempo ‘coisificado’ não me apetecia.
No livro fala da “imunologia da esperança”. Como se esperar fizesse parte da cura. 
A esperança é um sentimento. Pascal trata-a como um privilégio dos cristãos. E a gestão da esperança é uma das coisas mais difíceis na prática médica, do ponto de vista ético e moral. A esperança prolonga-se num tempo em que vão acontecer coisas melhores. Estamos a viver uma experiência que nos derrota e faz sofrer, e vamos projetando no tempo a transformação dessa vivência em algo que é bom e que nos traz felicidade. Se forem pequeninos pacotes de felicidade já não é mau. Naquilo que eu faço, ou fazia, a esperança está ligada ao desfecho de uma luta. A existência dessa luta alimenta a esperança, baixar os braços mata-a. Quando a pessoa acha que vai ficar melhor, isso ajuda o processo de cura. Portanto, o pessimismo é uma profecia que se cumpre.

E quando a esperança aponta para trás, para voltar a ser-se o que se era? Aí pode ser destruidora. 
Pode haver um sentimento nostálgico — como eu era e como estou agora. Aliás, volto ao Fernando Gil, que morreu com uma doença oncológica e rápida. Num e-mail, ele disse-me: “Já não posso ouvir que estou com bom aspeto!” Este é o tratamento superficial da esperança, uma espécie de pomadinha. Estás com tão boa cara, nunca te vi tão bem! E a pessoa sente-se miserável. Para alguém que está doente isso é negar a doença, é muito desagradável.

É uma mentira?
É uma mentira. Nesse texto do Tolstoi, a certa altura chega um cunhado que o protagonista não via há muito tempo. E quando o cunhado olha para ele, a sua face é um espelho. Ele vê na reação do cunhado quanto mudou. É muito forte esta ideia de que a face do outro é um espelho do nosso estado.

Disse um dia que o ideal da cirurgia é sair com a bata imaculada. Na vida isso não é possível. Tem arrependimentos, remorsos? 
Não tenho arrependimentos, tenho coisas que preferia não ter feito. Guardo-as para mim, com vergonha. E consigo recuar à minha infância. Há episódios da minha infância em que não fui autêntico, em que fiz mal. Porém, se me perguntar se no percurso da vida quereria ter feito de outra maneira, respondo-lhe que não. Por uma razão: acho que fui mais um barco de papel deitado ao rio do que um barco com remos a tomar uma direção. Deixei-me ir na corrente das coisas que me aconteciam. Não ficou nada por fazer, a não ser falar alemão, tocar um instrumento como piano, violoncelo ou clarinete, ou ver as terras que gostaria de ter visto e que agora, velho, já não verei. Gostei muito de África e gostaria de ter conhecido as outras Áfricas, mas fui sempre muito absorvido pelo meu trabalho. A vida chupou-me o tempo.

A metáfora do barco de papel não se adequa ao estudante obsessivo e focado que foi.
Isso fui eu a aprender a andar. Depois, um dia, veio cá um senhor americano, convidou-me para ir a Nova Iorque, fiz as malas e fui. Deixei que as coisas me acontecessem e aproveitei as oportunidades que surgiram.

Disse uma vez: “Sou das pessoas mais benevolentes que conheço”. Não disse bondosa. Qual é a diferença? 
A benevolência surge da capacidade de reconhecer nos outros os nossos defeitos. Da irmandade secreta entre as faltas que os outros cometem e as que cometemos. Mas tem limites. Há coisas com que já não sou assim tão tolerante. Nomeadamente, algumas falhas de carácter. Não que isto tenha mérito moral — não tem nenhum.

Já o Yascha Heifetz teve aquela tirada: “Há quem venha aos meus concertos para ver se toco uma nota errada.” Teve de lidar com a inveja, sentimento que — dizem — é muito português? 
Eu sou português, e o Schadenfreude não é um conceito nosso. O regozijo pelo azar do outro está na natureza humana. Não sei por que razão foi preciso acrescentar esse condimento tão azedo ao ser humano. No entanto, se me perguntam se fico satisfeito quando o Benfica perde, tenho de dizer que sim. O Gore Vidal tinha uma frase extraordinária: “Com o triunfo dos meus amigos morre sempre um bocadinho de mim.” Mas isso eram rivalidades entre escritores, que como sabe é uma coisa violenta. Agora, se sinto regozijo pelos azares dos outros, acho que não.

E os outros com os seus? 
Pergunte-lhes. Tenho alguma evidência de que não fui imune a calúnias, algumas delas gravíssimas e perturbadoras. Porém, a inveja é um sentimento que se autocastiga, quem a sente deve passar tão mal que nem vale a pena preocuparmo-nos com isso.

Nas memórias que está a escrever, como decidiu o que iria incluir? Que retrato de si próprio vai daí resultar?
É o retrato de uma trajetória, cujo título em inglês seria sem dúvida “On the Making Of a Neurosurgeon”. Numa palavra, como é que fui feito. Sempre me interessou desmontar os mecanismos da minha própria educação: como me fiz assim, quem me fez assim, quando, onde. Não fiz um relato cronológico, fi-lo por blocos.

Fala do seu pai? 
Falo do meu pai. Já escrevi dois textos sobre o meu pai — um deles chama-se “História de um velho”. Foi uma figura importante para os seis filhos, com tudo o que isso implica de bom e de mau, de alegria, de partilha, de sofrimento, de angústia. Eu tive com ele uma relação muito complexa. Mas, sabe, quando a alma é bem formada a biologia acaba por vencer. Neste caso, o pai derrotou o filho. Quando percebi que assim era, fiquei em paz. Soube que ia perder, porque não estava equipado para a última revolta, para matar o pai.

Dele, o que mais o marcou? 
O rigor. Era a pessoa que estudava nas fontes, que conferia a citação correta, que procurava a verdade científica, não deixando pedra nenhuma por virar. Era de uma exigência enorme. E depois tinha outra dimensão extremamente desagradável: era de uma enorme arrogância intelectual. Muitas vezes me rebelei contra isso. Por exemplo, ele detestava o Montaigne e eu idolatrava-o.

Fez o contrário, como pai? 
Tentei passar às minhas filhas o sentimento de terem uma rede, de que sempre que elas caíssem eu estaria cá em baixo para as segurar. Acho que o que elas sentem em relação ao pai é uma extraordinária segurança. E tolerância. Cada uma fez o que lhe apeteceu. Há uma frase de Tolstoi que gosto muito de citar: “Tout comprendre c’est tout pardonner.” Esta foi a divisa na relação com as minhas filhas.

Sente saudades de operar? 
Retirei-me em junho. Foi muito emotivo para os que trabalhavam comigo. Para mim, naquele dia, saí de cena, baixou o pano. Sem lágrimas, não senti nada. Tenho sonhos em que estou a operar, em geral a medula — um trabalho meticuloso que eu era muito bom a fazer. Se falhar, a pessoa fica paralisada. No sonho, entro na sala de operações e digo: estou cansado, não quero estar aqui. Por vezes, imagino que tenho uma coluna aberta e penso: dá cá os instrumentos que eu sei fazer isto. Sei, mas já passou.

Texto originalmente publicado na edição de 24 de dezembro da Revista E

Frase do Dia

“(...) nunca vi, não conheço arma nenhuma, de qualquer natureza, seja medicamentosa seja instrumental, que faça anular a necessidade da compaixão.

João Lobo Antunes

Morreu João Lobo Antunes, o neurocirurgião da tradição humanista

PUBLICO    28.10.2016

Terão sido muitas as vezes em que o neurocirurgião João Lobo Antunes se deparou com o outro na sua mais profunda nudez anatómica. Prémio Pessoa em 1996, distinguido por ser um “renovador e intérprete da tradição médica humanista”, era ele que relia o acto cirúrgico como um acto sagrado, numa sucessão de imagens que remetem para um ritual. As mãos limpas, purificadas, a vítima inocente, a dormir. À sua frente, o órgão onde convivem emoções, sentimentos, memórias, uma consciência. O médico português morreu de cancro nesta quinta-feira, em Lisboa, aos 72 anos. O velório será esta sexta-feira a partir das 18h na Basílica da Estrela, em Lisboa, e as exéquias fúnebres serão no sábado às 10h, presididas pelo patriarca de Lisboa, Manuel Clemente.
“Enquanto as mãos me obedecerem e o cérebro souber mandar, vou continuar”, disse o neurocirurgião, em Junho de 2014, na última aula como professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, assegurando que, apesar da jubilação, a prática cirúrgica era então ainda futuro. Um ano depois teve de abandonar a sala de cirurgia devido à doença.
A palestra em 2014 foi uma revisitação da sua história, numa aula a que chamou Uma vida examinada, dada para uma plateia que transbordava no Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa. A sua profissão, um tema que se entrelaça com a sua vida, surgia ali como se se tratasse de uma característica genética. O seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, tinha sido médico, assim como dois irmãos, António Lobo Antunes (que se especializou em psiquiatria e só depois se dedicou inteiramente à literatura) e Nuno Lobo Antunes.
Mas em 2006, numa entrevista ao PÚBLICO, o neurocirurgião revelava mais sobre a relação que tinha com a medicina. “Provavelmente a medicina era aquilo que se adaptava melhor ao meu tipo intelectual e temperamental, à minha visão larga e abraçante da vida e das pessoas. Quando perguntávamos aos alunos que queriam entrar para Medicina ‘por que é que escolheu Medicina?’, a resposta era, invariavelmente, ‘porque quero ajudar os outros’. Não foi certamente por essa razão explícita que eu fui para Medicina, como se a medicina pudesse ser outra coisa”, explicava. “Por isso, digo que a medicina me fez médico, a medicina assim o quis.”
Na sua última aula, em 2014, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa SANDRA RIBEIRO
Da medicina à escrita
Nascido em Lisboa, a 4 de Junho de 1944, João Lobo Antunes é o segundo de seis filhos de Maria Margarida Machado de Almeida Lima e João Alfredo Lobo Antunes, uma família da alta burguesia de Benfica. A educação rigorosa que teve traduziu-se no seu brilhante percurso pelo Liceu Camões e pela licenciatura em Medicina, que concluiu com média de 19,47. “Estudava das 9h às 13h, parava para almoçar, continuava das 15h às 20h, parava para ir jantar e voltava das 21h até às 23h”, disse, na sua última aula.
Depois da licenciatura, fez uma passagem pelo Hospital Júlio de Matos e por outras instituições. Entre 1971 e 1984 trabalhou no Instituto de Neurologia da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, onde se doutorou com uma tese sobre a regulação nervosa da função reprodutora no macaco.
A estadia nos Estados Unidos foi importante para mostrar um novo modo de estar. “A competição era muito grande, mas eu sabia que, com trabalho, com resultados, era julgado só por isso, não era julgado por ser filho do pai, ou irmão do outro, ou sobrinho do professor”, disse, numa outra entrevista ao PÚBLICO, em 1995, revelando um dos contrastes que sentiu entre a cultura norte-americana e a portuguesa.
Apesar disso, voltou a Portugal em 1984. Cá, destacou-se na sua área. Entre 1984 e 2014 foi director do Serviço de Neurocirurgia do Hospital de Santa Maria. E foi acumulando cargos. Foi presidente da Sociedade Europeia de Neurocirurgia, do Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa. Ainda em 2015, foi eleito presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.

Devo dizer-lhe que é escassa a produção literária sobre a doença vascular cerebral. A razão é simples: é que ela seca a fonte de onde brota o pensamento.
João Lobo Antunes a José Cardoso Pires
Em 1996, o mesmo ano do Prémio Pessoa, João Lobo Antunes publicou Um Modo de Ser (Gradiva), a primeira de várias obras que foi escrevendo, como uma biografia de Egas Moniz, de 2010. Em Um Modo Ser, foram reunidos textos lidos pelo neurocirurgião em conferências. Há capítulos sobre a ética em medicina, o tratamento da dor, o erro durante a prática médica ou as dificuldades da educação dos estudantes de Medicina. Da leitura de vários capítulos, é notório que se está diante de um homem pragmático, sem medo de temas polémicos e com um grau alto de exigência.   
Com esse livro, o neurocirurgião “não aparece só como uma figura distinta da medicina portuguesa”, explicava em 1996 a investigadora Maria de Sousa, que fez parte do júri do Prémio Pessoa, mas contribuía para “criar uma memória colectiva que dá origem a um sentimento de escola”, ou seja, o médico situava-se “na grande tradição da medicina humanista”.
No ano seguinte, a publicação do De Profundis, Valsa Lenta liga dois prémios Pessoa de anos consecutivos. Naquela obra, José Cardoso Pires (1925-1998) escreve na primeira pessoa a experiência de um acidente vascular cerebral que sofreu em Janeiro de 1995, em que acabou por ser seguido por João Lobo Antunes. “Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena e fiquei. Sinto-me mal, nunca me senti assim, murmurei numa fria tranquilidade”, lê-se logo no início da narrativa, em que o escritor pinta um quadro de perda de personalidade e distanciamento desencadeados pelo acidente.
A obra foi uma das justificações para Cardoso Pires ser galardoado com o Prémio Pessoa 1997. João Lobo Antunes, a convite do autor, tinha escrito o prefácio do livro. “Devo dizer-lhe que é escassa a produção literária sobre a doença vascular cerebral. A razão é simples: é que ela seca a fonte de onde brota o pensamento”, refere o neurocirurgião, num texto intitulado Carta a um amigo-novo, em que explica a raridade e a riqueza daquele testemunho. “Os fenómenos que descreve são mais facilmente apreensíveis através dos seus instrumentos narrativos do que através de um relatório minucioso de um qualquer neuropsicólogo.”
Na esfera pública, João Lobo Antunes destacou-se ainda por ser mandatário da candidatura à Presidência da República primeiro de Jorge Sampaio e, passados cinco anos, de Cavaco Silva. “É muito mais aquilo que os une do que aquilo que os separa”, diria em 2005, numa pequena entrevista ao PÚBLICO sobre as razões que o levaram a apoiar Cavaco Silva.
Lobo Antunes com Sampaio no anúncio da recandidatura a Belém, em 2000 PEDRO CUNHA
Lobo Antunes, em 2010, na recandidatura de Cavaco à Presidência NUNO FERREIRA SANTOS
O mistério do cérebro
Mas o seu dia-a-dia era o hospital, onde gostava de manter um ritmo de 400 intervenções cirúrgicas por ano, e trabalhava ainda ao domingo, em casa. “Sou um ritualista”, disse numa entrevista ao semanário Expresso, em 2000, explicando que não quebrava as regras. “Quando eu digo a mim mesmo que antes de me ir embora tenho de ir lá acima ver o doente do quarto número tal, vou, mesmo que não me apeteça nada, que não seja preciso, que o doente de manhã tivesse estado bem e já seja muito tarde.”
É nesse contexto, de trabalho e respeito para com os doentes, que refere dois filósofos, Fernando Gil – que se tornou um importante amigo – e Immanuel Kant: “Construí-me dentro da doutrina médica, no sentido mais vasto, mais humano, o sentido da filosofia de uma profissão que, como o Fernando Gil escreveu num texto admirável, é a profissão que mais próxima está do ‘imperativo kantiano.’”

A arte cirúrgica é a que permite a revelação mais límpida daquilo que é fascinante, que é o pulsar da vida, que é o saber que ali se anicham sentimentos, emoções, a atenção, a vontade, a memória.
João Lobo Antunes
Vivendo o risco diário de mudar para sempre o mais íntimo de cada um, o neurocirurgião explicou o mistério que é operar o cérebro humano. “Na arte (no sentido artesanal, não no sentido artístico) que pratico, criei uma intimidade com um órgão único que é o cérebro, que tem uma beleza estética, até formal, que me encanta”, disse ao Expresso. “A arte cirúrgica é a que permite a revelação mais límpida daquilo que é fascinante, que é o pulsar, o pulsar da vida, que é o saber que ali se anicham, sabe-se lá onde, sentimentos, emoções, a atenção, a vontade, a memória, etc., num barro que parece uniforme, mas que não é. Isto convive, ao mesmo tempo, com o terrível saber que um passo em falso pode de alguma forma destruir esta harmonia para sempre.”
Quando chegou aos 70 anos e deixou de ter de pôr o despertador para ir para o Hospital de Santa Maria todas as manhãs, coisa que lhe dava imenso prazer, João Lobo Antunes decidiu que ia entreter-se com a sua história e escrever as suas memórias, procurando explicar como é que se fez cirurgião do cérebro, disse numa entrevista ao Jornal de Letras (JL) em Outubro do ano passado.
Trabalhou neste projecto com empenho – era assim em tudo o que fazia – até que a doença o impediu de continuar, disse ao PÚBLICO Guilherme Valente, seu editor e amigo. O responsável pelo catálogo da Gradiva manteve-se em contacto com o médico-escritor, mas não sabe em que ponto deixou ele esta última obra. Se a terminou, a editora dos seus Inquietação Interminável – Ensaios sobre Ética das Ciências da Vida (2010) ou do mais recente Ouvir com Outros Olhos (2015) está disponível para a publicar. “Tem-me dado muito prazer escrever estas memórias”, disse Lobo Antunes ao JL em 2015. “A ameaça de mortalidade que a minha vida atravessa neste momento, que tenho encarado com relativo optimismo, faz com que esteja envolvido nessa tarefa quase como uma vertigem.”
No seu último livro publicado, João Lobo Antunes fala do imenso Portugal que passou pelas suas mãos, sob a forma de “gente tão variada na pronúncia, nos costumes e no temperamento”. Por cada uma destas pessoas, o neurocirurgião teve a oportunidade de ouvir a sua história pessoal e o sofrimento. Porque, como muitas vezes escreveu, “a saúde é silenciosa”, e é na dor, no medo e na desesperança que se vive a “miserável solidão da doença”.
Por isso, perante uma medicina cada vez mais “empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia”, João Lobo Antunes elogiava a prática de se ser emocionalmente tocado pelas histórias da doença, em que a luta contra a solidão do doente nasce da empatia do médico: “A imperturbabilidade não é um dote a cultivar, mas um verniz com que nós pintamos nos primeiros anos do ofício, que o tempo, pacientemente, vai substituindo pela virtude da compaixão.”

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O rosário para crentes e não crentes

ECCLESIA      26.10.2016                                                                               ENCONTRE O LIVRO AQUI



O selecionador nacional de futebol, Fernando Santos, destacou esta terça-feira em Lisboa a relevância da oração do terço para todos os campos da vida, durante a apresentação do livro “O Rosário para Crentes e Não Crentes”.
Em entrevista à Agência ECCLESIA, o técnico que conduziu Portugal à vitória no último Campeonato da Europa disse que “rezar o terço é sempre auxiliador, seguramente uma das orações mais belas de fazer”, uma “oração fantástica de louvor a Nossa Senhora” o que “só por si seria suficiente”.
“Mas acho que é muito mais do que isso, é um fator de meditação, de interiorização, de reflexão sobre a vida”, salientou.
Lançada na Basílica dos Mártires, em Lisboa, a obra “Rosário para crentes e não-crentes” é da autoria de José Luís Nunes Martins e Paulo Pereira da Silva, que já antes haviam publicado um livro nesta mesma linha, sobre a Via-Sacra.
Segundo o filósofo e cronista José Luís Nunes Martins, este novo projeto destaca a “riqueza” de uma oração e de um conjunto de “temáticas” nelas contidas, que podem dizer muito a todas as pessoas e a uma sociedade marcada por diversos desafios.
“Se estou a rezar a segunda Avé-Maria e a pensar na lista de compras, se calhar é uma boa altura para pensar naqueles cujas listas de compras são meros sonhos e pedir por eles e rezar por eles”, exemplificou o autor.
Já para o empresário Paulo Pereira da Silva, a “perspetiva” foi “tentar aprofundar cada um dos mistérios do Rosário”, cuja linguagem “não é muito fácil para algumas pessoas”.
“É importante descodificar mas mais do que isso é importante que as pessoas percebam a beleza, a paz e tudo aquilo que o Rosário nos pode trazer hoje. É algo que para mim faz parte do bem-estar de cada dia”, confidenciou.
Um dos objetivos deste projeto é levar as novas gerações a descobrirem e valorizarem mais a oração do Rosário, no seu quotidiano.
Para Fernando Santos, isto é algo que deve desafiar as comunidades cristãs a mexerem-se e a fazerem também a sua quota-parte na educação dos mais novos.
“Se nós esperarmos que tudo caia do céu vamos ter muita dificuldade, temos de trabalhar para que isso aconteça”, apontou o selecionador nacional de futebol.
Com a chancela da Paulus Editora, o livro “O Rosário para Crentes e Não Crentes” conta ainda com o contributo do fotógrafo Francisco Pereira Gomes que já colaborara com os autores na publicação “Via-Sacra para Crentes e Não Crentes”.

Mistérios do Orçamento

JOÃO CÉSAR DAS NEVES   DN  27-05-2016

Para variar da sua série policial favorita, a leitura do Orçamento do Estado tem uma comparável dose de enigma e emoção. Para isso tem de desligar das lutas habituais, em defesa de interesses, e ler os documentos.
O primeiro mistério é o que lá não está. Ao contrário do que temia a generalidade dos analistas, neste ano não há Orçamento rectificativo. Afinal, o governo conseguiu mesmo cumprir o que apresentara nas contas de Fevereiro. Isto é um grande mistério porque os tais especialistas não estavam errados. O próprio documento admite que o crescimento deste ano não será os 1,8% previstos mas apenas 1,2% (o FMI diz 1%, a Universidade Católica 0,9%). Certamente por isso, uma grande quantidade de valores orçamentados falhou a meta. Ainda pelas contas do governo, a receita corrente ficará 1,9% abaixo do previsto e a receita total 1,7%. Do outro lado, as despesas com pessoal e prestações sociais, maiores fatias dos gastos, subiram ambas 0,5% face ao orçamentado. Por isso, o défice total acabou 10% maior, falhando a promessa de descer para 2,2% do PIB; mas por pouco, ficando nos respeitáveis 2,4%.
Como foi isso possível? Esquadrinhando as 255 páginas do relatório do Orçamento fica-se sem resposta. Aqui, o mistério só se resolve com a perspicácia de um Holmes ou Poirot; a qual, depois de explicada, parece óbvia. Lendo o Effective Action Report, texto que o ministério tem de enviar para Bruxelas, nota-se que as suas singelas 11 páginas estão cheias de um assunto quase omisso nos textos em português: as cativações, despesa prevista mas não autorizada. O governo confidencia pressurosamente aos inspectores comunitários que 1572,5 milhões de euros do que prometeu gastar, metade da redução conseguida no défice, afinal era só a fingir, ficando congelados à partida. Este foi o passe de mágica que permitiu realizar a contradição de garantir a eliminação da austeridade e o cumprimento das metas: fazer despesas sem gastar dinheiro; cumprir promessas sem registar perdas.
Quanto às contas para 2017, alguns álibis são habituais. O projecto assegura que para o ano, finalmente, a dívida pública descerá em percentagem do PIB, promessa feita nos últimos quatro orçamentos, apesar de ter mais do que duplicado desde 2001, subindo todos os anos, excepto em 2007 e 2015. Mas o artifício mais importante está nas próprias medidas políticas. O Orçamento promete, simbólica e corajosamente, reduzir o défice total em exactamente um terço do seu valor, de 4538 para 3015 milhões de euros. Mas, como garantiu subir salários e pensões e cortar no IVA e IRS, o défice aumenta mais de 4%. Mesmo com medidas imaginativas, como a subida do esquecido imposto sobre o álcool e as bebidas alcoólicas, que prejudica os restaurantes, aos quais desceu o IVA, o défice sobe 191 milhões. E então? Eis que surgem inesperadamente uns "outros efeitos" que valem 800 milhões e "cenário macroeconómico", que acrescenta mais 900 milhões, e lá se consegue o valor desejado. Que são estes estranhos elementos? A lupa do detective descobre a nota do Quadro III.1.1. do relatório, explicando que o primeiro inclui "os dividendos do Banco de Portugal, a recuperação da garantia do BPP e poupanças em juros e em PPP", enquanto o segundo "incorpora os impactos da evolução macroeconómica na receita fiscal e contributiva e na despesa". São rubricas conjecturais, com o mesmo propósito das cativações. A política do governo, inspirada por promessas eleitorais a favor de grupos de interesse, prejudica a situação financeira nacional. Depois, um inesperado golpe de teatro consegue aquilo que a audiência julgava impossível. No final, esta estratégia de truques só pode falhar e arruinar o país, mas é sem dúvidas emocionante.
O aspecto mais misterioso do Orçamento é também a vantagem incomparável deste governo: não se ouvem protestos, não há manifestações nem críticas dos que tanto barafustavam contra a austeridade. Os serviços sofrem uma cativação de 1,5 mil milhões de euros e ficam calados; a receita total sobe mais do que o produto interno, mas o povo aceita; a economia está exangue, com crescimento anémico e quase sem investimento, e tudo continua calmo. Desapareceram os urros de indignação de anteriores orçamentos por coisas semelhantes a estas. A resposta para o enigmático silêncio não surpreende: os manifestantes participam da maioria. Para ter o PCP e o Bloco do seu lado não é preciso acabar com a austeridade; basta ter o PCP e o Bloco do seu lado. Afinal, comprar a paz social é fácil. Veremos por quanto tempo.

Frase do dia

"Cada alma que se eleva, eleva o mundo.” 
                                         
                                                   Élisabeth Leseur 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

NecTalks: O desafio de levar Jesus para as Universidades

VOZ DA VERDADE  23.10.2016
veja aqui o video

Há 5 anos eram 4. Hoje são 16. Os Núcleos de Estudantes Católicos (NEC) multiplicaram-se em Lisboa e, no dia 15 de outubro, estiveram reunidos, pela primeira vez, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, para crescerem uns com os outros. Foram vários os oradores convidados para o primeiro NECTalks que testemunharam que, na vida académica, mas não só, “muda-se o mundo a amar”.

O auditório está cheio e a atmosfera é familiar. Nas cadeiras, a sorrir, cumprimentam-se estudantes dos 16 núcleos católicos de Lisboa. E outros que não são nem estudantes e possivelmente, nem católicos. Uns mais velhos, outros acabados de chegar. Tinham para lhes falar nove convidados, entre os quais D. Manuel Clemente, padre Tolentino Mendonça e João César das Neves. Com o tema ‘Transformados em Cristo, transformaremos o mundo’, o objectivo passou por encontrar respostas para a pergunta: “De que forma viver a fé na vida académica e, futuramente, profissional?”.
Vasco Garcia, estudante universitário e apresentador do NECTalks, explica que a raiz do “crescimento exponencial de núcleos de estudantes católicos está “intimamente ligada à Missão País”. Um projeto que leva universitários a servir comunidades distantes nas férias entre semestres. Com “alegria” e com a “certeza” de que a missão não pode ficar por ali, estes estudantes católicos decidiram organizar-se de forma a tornarem-se “grupos abertos” que “procuram trazer um bocadinho da missão e de Jesus para dentro da faculdade e torná-la quase uma igreja”. Agora, decidiram juntar-se e trazer oradores que os desafiassem a levar Cristo para dentro das Universidades. 

D. Manuel Clemente
Ser cristão é Cristo em ação
De sorriso fácil, sem ‘cábulas’, foi o Cardeal-Patriarca de Lisboa a abrir o painel. D. Manuel Clemente começou por sublinhar a importância da “descoberta de que Jesus está vivo” e que confronta “não como alguém que nos fala do passado, mas que nos fala do presente”.
O Cardeal-Patriarca lembrou a missão de cada cristão. “Onde é que Jesus tem boca para falar? Na boca dos cristãos. Onde é que Jesus tem mãos para estender? Nas mãos dos cristãos. Onde é que Jesus tem coração para sentir e até para sofrer? Na vida, no sofrimento e na paixão de tanto cristão. Onde é que Jesus nos espera? Precisamente nos outros. Até naqueles onde o seu espírito já chegou e eles não sabem. O espírito de Jesus anda mais depressa do que nós. E esta realidade foi aquela que vocês encontraram. Por isso, resultou. Em contacto com esta realidade encontraram a própria realidade”.

Elvira Fortunato
“Não vou mudar o mundo, mas posso mudar o mundo de algumas pessoas!”
A professora e investigadora na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, e que vai integrar, no próximo mês, o Grupo de Alto Nível de Conselheiros Científicos da Comissão Europeia, focou-se na “atitude do investigador” e na forma como a ciência se pode pôr ao serviço de um “mundo melhor”. Elvira Fortunato garantiu que com “trabalho” é possível “mudar o mundo de algumas pessoas”. E, se cada um fizer a sua parte, o mundo muda. “Se muitos mudarem o mundo de algumas pessoas, essas pessoas acabam por ser muitas”, frisou. Pioneira na demonstração da possibilidade da utilização do papel para aplicações de eletrónica, insistiu na procura de alternativas aos males que estão a assombrar o mundo.

Luís Mascarenhas de Lemos
Para em tudo servir melhor
Docente na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, escuteiro e responsável de campos de férias, Luís lembrou que é preciso pôr os “talentos” a render. Até porque “se ficam adormecidos a ser os melhorzinhos a ler os livros todos, a decorar a matéria toda” não vão dar “árvores nem frutos”, garantiu.
Luís lembrou ainda a tarefa importante dos cristãos universitários. “Se há pessoas que têm responsabilidade de boicotar a solidão e a tristeza são vocês! Não há instrumento mais rico do que a experiência de amor que Deus nos convida a fazermos na relação uns com os outros”.
E a experiência do serviço que é “uma experiência do amor” também é “possível na faculdade”, sublinhou Luís. “Com a senhora da secretaria, numa palavra simpática com a senhora do bar todos os dias ou até na honestidade de não copiar no exame”.

Filipa e Miguel Câmara Machado
“Fala de Deus. Se necessário, usa palavras”
São casados há 3 anos e estiveram ‘em casa’. Docentes na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Filipa e Miguel animaram campos de férias e estão profundamente ligados à espiritualidade inaciana. Quiseram deixar desafios a quem os ouvia. O primeiro: “falar de Deus através da maneira de estar”. Viver o dia-a-dia com “alegria” e paz”. E “isto converte mesmo”, garantiram.
Sublinharam ainda a importância de “ter em conta o contexto de cada pessoa específica” quando se fala de Deus na universidade. Sem nunca esquecer de “falar para fora e agarrar na minha maneira de pensar e tentar falar com os meus colegas de uma maneira que chegue ao contexto deles”, desafiaram. Para isso, deixaram dicas muito práticas: “encontrar os colegas onde eles estão”, “usar palavras que não tenham imediatamente uma conotação negativa”; “ser tolerante” e “centrar ao máximo a mensagem no essencial que Jesus nos veio dizer: o amor, o perdão”.

Diogo Bragança
Ser Cristo na Universidade
É aluno de Física no Instituto Superior Técnico, estuda há 3 anos num grupo de ciência e fé e foi precisamente aí que mais insistiu. “O nosso nível de conhecimento da fé tem que estar ao nível dos nossos conhecimentos técnicos”, sublinhou Diogo. “Não posso saber muito sobre os buracos negros em rotação e depois não saber nada sobre o milagre do sol em Fátima. Tenho de saber explicar o milagre do sol em Fátima a alguém”. Isto porque a missão de um cristão na universidade passa precisamente por “levar Jesus aos outros”. E “nada melhor do que um vínculo para aproximar essa pessoa da Igreja”, garantiu Diogo. “É neste trabalho individual que Deus nos usa como instrumentos. Deus trabalha em nós para trabalhar noutras pessoas. É assim que se transformam os corações”. Diogo lembrou, por fim, a importância de “evangelizar através do exemplo”. Porque “um cristão é um outro Cristo na universidade”. E desafiou: “As pessoas têm que ver o rosto de Jesus no nosso rosto”.

Maria Teresa Ribeiro
“Torna toda a tua vida num lugar de beleza para Deus”
A professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, especialista em conjugalidade, terapia familiar, mediação familiar e comunitária, começou por sublinhar a importância de “escolher fazer bem tudo aquilo que fazemos”, de “ser exigente com a nossa própria vida” e de “pôr a render os talentos que Deus nos deu”.
Partilhou histórias e lembrou que “somos convidados a viver uma cultura de vínculos, de laços, de alianças, por oposição à cultura dominante individualista”. E se “ser cristão é acreditar que Deus nos criou por amor, através do amor e para o amor”, somos convidados a dar o passo seguinte: “Se isto é bom para nós, não o queremos também para os outros?”. Maria Teresa apelou, por isso, à partilha desta alegria: “No nosso dia-a-dia, há que despertar o desejo de Deus no coração de cada um. É preciso abrir o coração a Cristo. Deixar que ele nos diga por onde começar. É preciso viver numa atitude de permanente conversão e descoberta”. E terminou com firmeza: “Estamos aqui todos juntos porque Deus é amor. É essa certeza que deve guiar a nossa vida de universitários”.

João César das Neves
Transformados em Cristo, transformaremos o mundo
O professor catedrático da Universidade Católica, doutorado em Economia e autor de mais de 40 livros, garantiu que é possível mudar o mundo. Mas há uma condição essencial para que isso aconteça: ser “parte da Igreja”. Porque “não sou eu que mudo o mundo. É a Igreja e eu faço parte dela”. E como é que se muda o mundo? “Muda-se o mundo a amar. Não é a estudar, a trabalhar, a fazer sacrifícios. É a amar. Não interessa o que se faz, interessa o amor com que se faz”, garantiu César das Neves.
E o essencial é “amar a Deus”. Até porque esse é o “primeiro mandamento”. E depois “amar o próximo”. Que não é o mesmo que amar a “humanidade, os santos, os pobres”. É mesmo “o próximo”, insistiu César das Neves. E terminou: “Será que eu consigo fazer isto? Não. Mas isto não é uma coisa que se faça, é uma coisa que se pede”.

Sara Menezes
Enfrentar
Aluna de Direito na FDUL, Sara veio contar a história da sua conversão. E garante: “Se há três anos me perguntassem se eu estaria aqui, eu diria que era impossível”. Conta que participou na Missão País “completamente contrariada” e essa acabou por ser das “semanas mais difíceis e mais maravilhosas” que já viveu e que lhe mudaram “a vida toda”.
Este ano foi batizada e crismada, depois de uma semana que lhe trocou as voltas. “O meu papel era levar a fé aos outros. E aconteceu o inverso: a fé chegou até mim através dos outros”. Partindo da sua experiência, Sara alertou para a importância de se levar Jesus a quem menos parece querer recebê-lo. Até porque “a missão é isso mesmo: aqui e agora”, garantiu. “É quando estamos no nosso dia-a-dia e a fazer aquilo que é a nossa rotina que temos que sair da nossa zona de conforto. Enfrentar aquilo que é posto no nosso caminho”.

Padre José Tolentino Mendonça
A certeza do amor
“O essencial não é o que pensamos de Deus ou o que podemos dizer acerca dele. É o que cada um ouve Deus dizer a respeito de nós próprios no nosso coração”, começou por dizer o padre Tolentino. E o que se ouve é amor. “É por causa desse amor que somos cristãos. É por causa da experiência, do sabor, do excesso, da largueza desse amor que estamos aqui. Acreditamos nesse amor porque percebemos que podemos confiar em Deus porque Ele nos dá esse amor”. Uma descoberta que tem urgência em ser partilhada. “A missão de um cristão é fazer com que cada pessoa descubra a excelência desse amor que muda a vida”. No fim, o padre Tolentino deixou um convite: “Tu és amado. Digam isso a toda a gente, segredem isso uns aos outros. E se não puderem gritar a toda a gente, segredem isso a um só ouvido”.

Mensagem do Presidente da República
“Obrigado”
Também o Presidente da República quis deixar a sua mensagem aos jovens estudantes reunidos no NECTalks. Num vídeo de 4 minutos, Marcelo Rebelo de Sousa agradeceu o “contributo dos estudantes universitários católicos em instituições sociais e culturais, no período de crise que acabámos de viver”.
Nesta mensagem, o Presidente da República garantiu que “a crise foi menos penosa devido ao contributo de instituições” onde está presente o papel dos estudantes católicos.