quinta-feira, 31 de março de 2016

Feriados

Nuno Melo
JN 31 Março 2016 às 00:02

As esquerdas modernas nascidas dos delírios marxista, estalinista, leninista, trotskista, maoista, enverhoxhista e quejandos conservam a consistência ideológica da gelatina. Aburguesaram-se. Perderam-se no deslumbramento dos salões do poder que finalmente provaram e de que gostaram. Trocaram o fascínio dos jargões revolucionários, pela conveniência do "socialismo" onde cabe tudo. E defendem, consoante as circunstâncias, uma coisa e o seu contrário, com a mesma facilidade com que acreditam que dois dias depois já ninguém se lembrará de coisa nenhuma.
De Portugal à Grécia, com a Espanha pelo caminho, vai sendo assim. O radicalismo que rendeu votos a Tsipras, Iglesias e Louçã, cedeu lugar à vontade de disputar o centro, na ilusão - ou talvez não - da partilha dos despojos do Pasok, PSOE e por este caminho, do PS, a prazo.
Há dias repuseram-se feriados. Dois religiosos - Corpo de Deus e 1 de novembro (Dia de Todos os Santos) - e dois civis - 5 de outubro (Implantação da República) e 1 de dezembro (Restauração da Independência).
A vontade do PS, com a abstenção do PSD e do CDS não surpreendeu. António Costa antecipou em campanha o que faria se fosse chefe de Governo e a ideia colheu simpatia no espaço político à sua direita.
Extraordinário, isso sim, foi o rejúbilo do BE.
Um partido que votou por feriados nascidos dos crentes, mas que há anos se esforça por banir crucifixos e símbolos religiosos das escolas, padres e bispos de cerimónias públicas e se permite graçolas invocando o nome de Deus em cartazes deprimentes.
Também um partido que importou o líder do Podemos, para afirmação mediática de campanha nas últimas presidenciais. Do lado de lá da fronteira, recorde-se, o congénere do BE quer proibir o exército de participar em atos litúrgicos e tem entre os seus membros quem pretenda acabar com as procissões durante a Semana Santa.
A secretária-geral do partido em Sevilha admitiu a hipótese de se terminar com as cerimónias, se os cidadãos e as cidadãs o decidirem. A coligação - Participa Sevilha (Podemos) - apresentou uma moção de apoio à designada "procissão blasfema", realizada em maio de 2014 com o objetivo de ofender as manifestações religiosas... E o "círculo" do Podemos em Vindel, publicou no twitter :
"Exigimos o fim das procissões. São atos que atrasam a nossa sociedade e ofendem os nossos irmãos muçulmanos - @PodemosVindel.
Resta, claro, uma hipótese. A da súbita conversão do BE não ter que ver com fé a mais, mas com vontade de trabalho a menos.

O lugar do outro

Paulo Tunhas
Observador, 2016.03.31

O jogador de xadrez deve pensar que o adversário visa a sua destruição no tabuleiro. Uma das glórias maiores de Maquiavel foi precisamente ter levado esse tipo de pensamento às últimas consequências.
A questão do lugar do outro, e a questão das razões pelas quais nos devemos colocar no lugar do outro, são velhas questões da filosofia. Não das mais velhas, certamente, pelo menos se tivermos em conta a sua formulação explícita, mas mesmo assim velhas questões. Em Leibniz e Kant, por exemplo, no seguimento do cristianismo, elas encontram-se claramente formuladas. E, como quase todas as questões filosóficas verdadeiramente substantivas, por mais abstractas que a linguagem filosófica as faça parecer, elas são susceptíveis de serem traduzidas na linguagem da nossa experiência comum que, à superfície e no fundo, é sempre aquilo que interessa mais. O que diz respeito a todos, ou a quase todos, é sempre aquilo que interessa mais.
Leibniz é, como sempre, muito interessante no capítulo. Por exemplo: como se devem ler os filósofos? Adoptando imaginariamente o seu ponto de vista e procurando o que há de verdadeiro, ou nos parece verdadeiro, nas suas doutrinas, concedendo pouca importância ao que é, ou nos parece, falso. O verdadeiro reside sobretudo no que os filósofos afirmam; o falso, no que eles negam, no acto de negarem. Tudo isso pressupõe, é certo, uma espécie de afinidade do espírito humano com a verdade, ideia que está longe de ser absurda e que encontramos já em Aristóteles e, posteriormente, no filósofo americano Charles Sanders Peirce, entre vária outra gente.
O que vale para a leitura dos filósofos vale também, obviamente, para o comércio habitual entre humanos. Não se trata certamente aqui da suposição da verdade das doutrinas (ou de aspectos das doutrinas), mas da simples veracidade. Supomos naturalmente, salvo má-fé, veracidade nos outros, até quando não a desejamos supor (acontece) e mesmo que posteriormente venhamos a rever tal suposição. E com muita razão: sem essa suposição espontânea, por mais mitigada que seja, não havia vida em sociedade.
Há, no entanto, limites. A não ser que pratiquemos o ofício de historiador, não nos pomos facilmente no lugar de Hitler ou de Estaline, para dar exemplos próximos de nós. Um historiador tem de fazer isso, tem de se pôr no lugar do outro nesses casos. Nós não. Por isso, os historiadores adoptam um ponto de vista diferente do comum. Para o comum, e os filósofos fazem aqui integralmente parte do comum, Hitler ou Estaline não se tentam compreender: combatem-se. Hannah Arendt, que no entanto dedicou a sua vida a pensar o mal, ilustra muito bem essa posição, sob a sua forma mais radical: para ela, Hitler e Estaline eram pura e simplesmente pessoas sem biografia. O filósofo não sai da esfera do comum, por exemplo, na apreciação dos feitos do Estado Islâmico: não se consegue pôr no lugar do outro. O historiador sim. O historiador sai da esfera do comum, do habitual recurso ao bem e ao mal, que é o comum do comum.
Quando o lugar do outro nos é literalmente incompreensível, o exercício de o pensar, de tentar descobrir um acordo, uma comunhão, está à partida condenado ao fracasso. Ou melhor: ele só se pode efectuar de uma forma puramente técnica, através do princípio do pior. Leibniz percebeu isso também, embora sem se referir a formas do mal radical. O general que comanda um exército deve pensar o pior: deve pensar que o general que comanda o outro exército vai agir da forma mais competente e eficaz contra ele. O jogador de xadrez deve pensar que o seu adversário, depois dos gestos tipificados das aberturas, visa a sua destruição no tabuleiro. Uma das glórias maiores de Maquiavel foi precisamente ter levado esse tipo de pensamento às últimas consequências.
E isto é válido, é claro, na nossa vida comum, em que os dois sentidos de “pormo-nos no lugar do outro” (o positivo e o negativo, por assim dizer) convivem um com o outro. Quando a compreensão nos é impossível, quando a adopção dos conteúdos do pensamento dos outros se encontra fora das nossas possibilidades, resta-nos raciocinar de acordo com o princípio do pior, presumindo que o outro vai agir do modo mais eficaz para obter os seus fins. Sob formas certamente muito diferentes, Maquiavel e Leibniz estão cá para nos ajudar.

8 dicas para acabar com o seu casamento

António Pimenta de Brito
Observador 31/3/2016

Boa sorte. Quero dizer, boa desgraça. No próximo episódio desenvolveremos o seguinte tema: como lidar com as dívidas depois do divórcio, as depressões dos filhos e a partilha dos fins de semana.
Deixe de conversar com a sua mulher e desabafe com amigos, familiares e, sobretudo, com outras mulheres e “amigas”, aquelas queridas que só querem ser suas “confidentes” (mas que o levariam para a cama sem pestanejar). Pense que há coisas tão íntimas que o vão desmascarar e dar a parte fraca. Não confidencie com a sua mulher, nem pensar. Entregou a sua vida por ela, mas há muita gente à sua volta ávida de saber dos podres e a necessitar de conteúdos para conversas. Não os deixe sós. Depois, não é muito cómodo interromper a sua vida na ribalta ou a sua carreira de sucesso e mais dois bebés com coisas de somenos. Então não é o maior? Nunca conversa com a cara-metade? Há uma imagem para manter e muitas bocas para alimentar, seria um descalabro tentar mudar isto. Assim, facilmente a coisa deteriora-se e no dia em que falam, é tanta a porcaria que já não vai a tempo para consertar.
Saia muito com amigos (e amigas). Então porque casou, acabou a sua vida? É que nem pensar, não é nenhum chato. De vez em quando, é preciso sair à noite, vida louca, uns copos. Não mude assim tanto os hábitos de solteiro. Casa suja? Qual o problema? Ir ao parque a quinquagésima vez porque a cara metade quer? Nem pensar, pense pela sua cabeça. Assim, lentamente vai-se esquecendo da pessoa com quem casou e pensando cada vez mais em si. Vai chegar a um ponto que pensa que a pessoa já não lhe faz feliz. Meio caminho andado para acabar com tudo.
Deixe a família sempre para último. A sua carreira brilhante não se faz com um par de horas de trabalho. Às vezes é preciso ficar para depois das 18h e até para depois do jantar, mesmo que durante o dia esteja na palheta. Nem pense em vir para casa a horas, de ajudar a limpar e cozinhar, ouvir a mulher e ainda tratar dos filhos. Ao fim de semana, faça alguma ação social, há tanta gente a precisar de ajuda. Depois, não se esqueça dos amigos, ou sair ou jogar à bola. Amigos sempre. Depois ao domingo tem os escuteiros, não se esqueça que precisam. E assim vê que a sua vida é super-preenchida e dada aos outros e a coisas interessantes. Não fique em casa, é sempre mais do mesmo. Assim evita confrontações, rotinas e cedências. Fuja de casa.
Não realize atividades diferentes da rotina com a sua cara-metade, como por exemplo caminhadas, ir a museus e concertos, conversar longamente sobre tudo e nada. Nada disso, depois de uma semana estafante, meta-se no shopping a ver as montras, não se esqueça de estar sempre atento ao telemóvel e vejam também muita televisão juntos em casa. Está sol lá fora mas esqueçam, isso é para estrangeiros, o netflix acabou de chegar a Portugal.
Nunca reze, vá ao psicólogo, leia livros ou tenha hobbies. Isso é tudo veneno. Rezar é para beatos. Se casou pela Igreja, foi um proforma bonito, pois a capela era do Séc. XV, a mulher estava com um vestido de sonho, foi imensa gente e o copo de água de arromba. As promessas que fez, aquilo é tudo discurso de velhos, ninguém liga àquilo. Muito menos, rezar em casal, ir à Missa e aconselhar-se com um padre, isso é para beatos e retrógrados.
Depois, se se sentir em baixo, nunca vá a um psicólogo, é gente perigosa que faz com que nos conheçamos e consigamos ser mais felizes, nada disso. A verdade dá muito trabalho. Isso é para deprimidos e frustrados. Por fim, nem sequer pegue em livros. Ler umas “gordas” da bola e ver umas famílias perfeitas em revistas cor-de-rosa é mais fácil. Livros, que o fazem conhecer melhor o ser humano, sonhar e sair de si, nem pensar. Isso é para nerds e intelectuais. Então correr e ginásio? Não é para si. Alivia demasiado o stress e aumenta a sua autoconfiança, algo de bastante mau para acabar casamentos. E hobbies? Não há tempo.
Não faça amor com a sua mulher. Pode ter dois perfis, ou se acha um sex bomb e a chama já acabou ou acha que sexo é só para procriar e tudo é pecado. No primeiro caso, veja pornografia, masturbe-se de vez em quando, também. Assim, ainda mais se vai afastar da sua mulher e ter pena de não fazer acrobacias como aquelas mulheres perfeitas dos filmes. Além disso, assim pensa mais em si próprio do que na sua mulher e filhos. Bom caminho para acabar o casamento. Se for do 2º perfil, continue assim, pois tornará a coisa cada vez mais tabu e acabarão por deixar de fazer, começando a afastar-se um do outro progressivamente, afetando também a alegria da relação e a vida familiar. Bom caminho.
Seja dependente financeiramente do seu cônjuge. Se quer mesmo que o casamento se dificulte, não se esforce por ter um caminho profissional próprio. Ponha-se à sombra da bananeira e espere que tudo recaia sobre o seu cônjuge. Assim, como ele lhe paga tudo, vai começar a mandar em si e assim torna-se num inútil e pau mandado. Se a dependente for a mulher, será sempre a parte fraca pois estará a deprimir-se e a comparar-se com outras mulheres de sucesso a toda a hora. E se o marido começa a descambar, até a trair, a mulher não pode sair de casa, pois vai para a rua. Assim é a perfeita receita dos casamentos de fachada, mulher insatisfeita, homem insatisfeito, todos supostamente perfeitos mas a infernizar a vida de família e todos à volta. Se for homem, é perfeito ser a mulher a sustentar, pois este vai-se sentir ferido na sua posição de macho-alfa e cada vez mais pau-mandado, fartar-se-á nos seus complexos ou a mulher troca-o por um homem a sério. Se o casamento dura, a mulher chega à terceira idade e sente-se diminuída intelectualmente, pois o marido parou de trabalhar e ela chega à conclusão que só sabe limpar e cozinhar, não acompanhando as conversas das pessoas, complexando-se e descarregando nos outros.
Nunca ajude em casa. Lavar a loiça, limpar, pôr a mesa, levar o lixo, passar a ferro, cozinhar, buscar os filhos, divisão de tarefas? É que nem pensar. Isso é para emancipadas feministas que não sabem que quem manda é o macho. Vão mas é ler Simone de Beauvoir para a lavandaria que o meu amigo tem é de ir ler o Finantial Times e ver a bola. Nada de ajudar em casa e partilhar tarefas. Assim, progressivamente a sua mulher não vai aguentar com o triplo papel de mulher, mãe e trabalhadora. Meio caminho andado para começar a não aguentar, silenciosamente o começar a culpar, deixar de ter vontade para fazer amor ou rir com os filhos, acabando tudo como sabemos.
Boa sorte. Quero dizer, boa desgraça. No próximo episódio desenvolveremos o seguinte tema: como lidar com as dívidas depois do divórcio, as depressões dos filhos e a partilha dos fins de semana.
Co-fundador do site datescatolicos.org

Morre-se depressa demais

Isabel Stilwell
ionline 2016.03.30

Consumimos as alegrias e os desgostos à velocidade da luz. Depois perguntamo-nos de onde vem a ansiedade e a depressão. 
Vivemos tão depressa que damos por nós a entrar num centro comercial e a não saber em que estação do ano estamos. Com os saldos de Verão a começarem antes do Verão vir sequer marcado no calendário, ficamos com a ideia de que já não vale a pena comprar um fato-de-banho porque o Outono está mesmo a chegar. Confusos, rebuscamos na memória os dias longos de praia, os jantares na varanda, as férias, e concluímos que o nosso cérebro se desgastou de tanto uso, porque as recordações que temos parecem antigas e, no entanto, a avaliar pela colecção Outono/Inverno que enche as páginas das revistas, só pode ter sido ontem. 
Não entendíamos quando, em pequenos, nos diziam que o Natal não demorava nada e os dias rolavam penosamente, ou que tarda nada fazíamos anos, e o “tarda nada” era mesmo tarde e parecia-nos nunca mais chegar. Mas, agora, percebemos que o tempo voa, tudo passa a correr, o que é tanto mais idiota quanto era exactamente agora que devia andar a passinhos de bebé (lembram-se do jogo?), porque a recta final está progressivamente mais próxima. 
Olhamos para o calendário e não percebemos o que fizemos aos dias que voaram, mas se olharmos mais de perto as nossas agendas, percebemos que estiveram cheios de acontecimentos, que se atropelaram uns aos outros, sem nos deixar um segundo para respirar. 
Andamos cansados, muito cansados, sobretudos aqueles que têm filhos pequenos, e dentre esses, à cabeça de todos, lá estão as mulheres que acumulam profissão e a casa/família. Nem a invenção das férias pagas, que nem meio século tem, nos veio descansar, porque rapidamente enchemos também aqueles dias com mil “compromissos” obrigatórios. 
O mal não é que as 24 quatro horas do dia tenham encolhido, mas simplesmente que a nossa omnipotência nos deixe com a ilusão de que conseguimos encher o espaço de um dia com tantas e tantas coisas, como se conseguíssemos estar em muitos lados em simultâneo. 
Contudo, o que mais me aflige é o facto de vivermos os acontecimentos profundamente marcantes num toca- -e-foge que não nos deixa reflectir sobre eles, senti-los em profundidade, gozá--los ou lamentá-los, resolvê-los e superá-los, em lugar de os varrer para debaixo do tapete. E obrigamos os outros também a varrer, na nossa intolerância para com a dor que não passa rapidamente, para com o desgosto que se mantém, para com aqueles que se continuam a queixar da mesma coisa, num tempo em que mesmo a maior tragédia é ultrapassada por aquela que vem a seguir. 
Depois queixamo-nos da tristeza que não sabemos de onde vem, da ansiedade que nos toma inesperadamente e, claro, da depressão que se instala, jurando nós que não temos motivos nenhuns para a sentir. 
Basta olhar para a pressa com que gerimos a morte. Homens e mulheres extraordinários parecem desaparecer da face da terra, e da memória, num abrir e fechar de olhos. E por muito que os tenhamos admirado, por muito que nos façam falta, continuamos em frente, não por mal, mas porque somos empurrados pela voracidade dos dias, pelos compromissos e obrigações, porque não podemos deixar cair tudo o que de nós depende. Sem lhes erguermos a estátua que merecem, sem que o seu nome fique sequer gravado numa lápide, que fique para lá da sua vida, da nossa vida, da vida dos nossos filhos, para que um dia, alguém a possa ler e perguntar: “Quem foi este?” Decididamente, não gosto de cremações. Decididamente, quero viver mais devagar.

Os elogios do PS a Cristas

José António Saraiva | SOL | 31/03/2016

Ontem, na Assembleia da República, o presidente do PS, Carlos César, elogiou Assunção Cristas. Disse César: «O atrelado CDS livrou-se do rebocador PSD, ganhou motor e passou-lhe à frente. Parabéns CDS!».
A estratégia do PS, portanto, é mostrar ao país que a esquerda e o CDS de Cristas estão em alegre consonância – e apenas o PSD se mantém no ‘contra’. Passos Coelho é, pois, o desmancha-prazeres.
Esta estratégia parece emocionar algumas pessoas no próprio PSD, que dizem que Passos tem de deixar de olhar para o passado e pôr os olhos no presente.
Poucos parecem perceber o óbvio: o pior que pode acontecer à oposição é ser elogiada pelo Governo. O pior que pode acontecer a Assunção Cristas é começar a ser elogiada por Carlos César e António Costa.
Isso significa que Cristas não faz mossa. Mais: que até pode ser uma aliada do Governo.
Mas, se assim é, em futuras eleições os habituais votantes centristas hesitarão: será que vale a pena votar no CDS? Ou haverá o perigo de o CDS se juntar ao PS para viabilizar um futuro Governo socialista?
A tática de elogiar o CDS para ‘isolar o PSD’ encerra um enorme risco: concentrar no PSD toda a oposição à ‘geringonça’. Ao contrário do que pretende Assunção Cristas, que é dividir o voto de direita, a colagem do PS ao CDS pode concentrar todo o voto da direita no partido de Passos Coelho – visto como o único capaz de ser, de facto, alternativa ao Governo atual.
Ao elogiar Assunção Cristas, Carlos César não está a ser muito inteligente. Para o CDS, esse elogio é um presente envenenado. Para o PS, pode ser um tiro pela culatra. 

O poder corrompe? O PCP e o BE respondem

Luís Aguiar-Conraria
Observador 30/3/2016

Sabemos quem mais lucrou com o BANIF não ter chegado a 2016: os detentores de depósitos superiores a 100.000€ e de obrigações seniores. Conseguirão o PCP e BE na Comissão de Inquérito explicar porquê?
Partidos que estão sistematicamente fora do poder, e que a ele não ambicionam, são partidos descomprometidos. Isso permite-lhes ser irresponsáveis. O que, dependendo das circunstâncias, pode ser bom ou mau. Durante décadas quer o Partido Comunista Português quer o Bloco de Esquerda estiveram fora do chamado arco de governação. Actualmente, apesar de não estarem no governo, estão comprometidos com a governação. Isso enriquece a democracia por um lado, mas tenho medo que a empobreça por outro.
Com o PCP e o BE fora do poder, estes partidos puderam ficar fora de parte da teia de interesses que capturou o Estado. Mais livre o BE do que o PCP, que sempre foi um partido mais institucional (por causa quer da sua importância autárquica e sindical, quer da sua lealdade para com países com governos ditatoriais comunistas). E, naturalmente, por motivos ideológicos, mais livres das teias lançadas pelos interesses empresariais privados do que das teias associadas ao sector público, incluindo o Sector Empresarial do Estado.
Graças a esta liberdade, podíamos confiar nos partidos mais à esquerda do parlamento para denunciar algumas das negociatas entre o poder económico e o poder político. Era um contributo inestimável que davam à democracia portuguesa. Não é por acaso que Mariana Mortágua ascendeu ao estrelato político com a sua actuação em algumas Comissões de Inquérito. A forma como lidou com Zeinal Bava e Ricardo Salgado são evidências empíricas da liberdade de que falo. As críticas que estes partidos faziam às parcerias público-privadas (PPP), muitas vezes com rentabilidades garantidas de 15% ou mais, eram denúncias importantes.
A renegociação das PPP foi uma área onde o governo anterior falhou, ficando muito aquém do que era necessário. Os partidos de esquerda, muitas vezes com razão, argumentaram que as poupanças conseguidas não eram verdadeiras poupanças, mas sim uma contrapartida pela redução dos serviços que o parceiro privado prestava. O actual ministro do Planeamento e Infra-Estruturas, Pedro Marques, já nos veio mesmo dizer que as poupanças anunciadas com as renegociações das PPP eram três quartos de propaganda e um quarto real. Estranhamente, quer o PCP quer o BE, antes tão vocais a exigir a Passos Coelho que cortasse nas rendas das PPP, pouco têm reivindicado neste domínio desde que apoiam o partido do poder. Sabendo nós que parte das PPP representa um dos maiores escândalos de captura do interesse público, só podemos ficar assustados quando vemos estes partidos a afrouxar as suas exigências.
A Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BANIF inaugurou ontem os seus trabalhos. A Comissão é presidida por um dos mais prestigiados deputados comunistas, António Filipe. É de esperar que os partidos do habitual arco da governação estejam numa posição defensiva. O PSD e o CDS pelo papel que tiveram no adiar da resolução do problema; o PS pelo papel na sua resolução.
É no PCP e no BE que deposito as minhas esperanças em que se venha a perceber o que se passou. Nós sabemos quem mais lucrou com o facto de o BANIF não ter chegado a 2016. Foram os detentores de depósitos superiores a 100.000€ e de obrigações seniores. Sabemos isso porque se o BANIF tivesse sobrevivido até 2016 as novas regras imporiam perdas quer a uns quer a outros, aliviando um pouco os contribuintes. A historieta de que se procurou salvar as poupanças dos coitados dos emigrantes aforradores é isso mesmo, uma historieta. Não são eles que têm poder suficiente para plantar notícias na TVI, nem influência política suficiente para garantir que não se toca nestes activos. Se conseguirmos perceber quem de facto beneficiou com a precipitação da resolução então teremos dado um importante passo para deslindar o mistério.
Depois de um mau começo, com o PCP e o BE, incompreensivelmente, a inviabilizarem uma auditoria externa ao caso BANIF, a Comissão Parlamentar de Inquérito é a derradeira oportunidade para o PCP e o BE mostrarem que a nossa democracia nada perdeu com a sua chegada ao poder.

Parvoíce em Estado Puro




Pode ser que este tipo de declarações aparvalhadas deixe em êxtase algumas esquerdas mais histriónicas e que trocam o pensamento pelo lugar comum mais básico, com fundamentação em “estudos” que, se excluirmos os relatórios da OCDE feitos pelo especialista do costume, nunca conseguem nomear com rigor. É bem verdade que neste milénio os nossos primeiros ministros se excederam na arte do disparate sempre que falam em Educação. António Costa é apenas mais um, só que com menos desculpas, por razões de ordem familiar. Ou não, pois nunca se sabe o que anda pela cabeça das pessoas. Já me cansei de tentar que se distinguisse uma prova final com 30% de peso na classificação de um exame eliminatório. É escusado; pior do que gente burra é aquela gente que sabe que está a distorcer a verdade mas o faz por conveniência demagógica e populista. É o que acho de muita gente do PS e do Bloco a este respeito. Sabem que estão a falsear a verdade, mas insistem nisso. Tal como nos tempos de MLR ou Crato é inútil tentar manter um diálogo ou debate racional, porque eles não estão sequer disponíveis para isso. excluo desta apreciação, os muitos professores no terrenos que colocam o rigor acima da sua filiação partidária. Convivo com eles todos os dias, não os confundo com isabéismoreiras.
Dito tudo isto, gostava apenas de saber porque é que, se estes “exames” são tão maus e tão “nocivas” as “más práticas” das escolas que “afunilavam o seu trabalho só a pensar em preparar os alunos para os ditos cujos, se vai permitir a manutenção este ano da sua realização. Se uma prática é má e os seus efeitos são nocivos, não se entende que se autorize a sua permanência. Porque se era tamanha a urgência pela eliminação da prática de “apuramento da raça” porque é que se anunciou que este ano ainda se pode continuar a fazer isso. O argumento fecal que invoca em vão a “autonomia das escolas” é apenas isso mesmo… algo que fede imenso.Assim como atirar para cima do PR e de ISabel Alçada a paternidade do “compromisso” a esse respeito. Poderia explicar melhor, mas só se valesse a pena perder tempo a bater com a cabeça em cimento. O que não me apetece.
Isto é mau, demasiado mau. Um PM que parece achar que está numa disputa de fedelhos em busca da maior baboseira do pátio. É um espectáculo deprimente e augura um período mau, bastante mau, em termos de Educação se é a este nível que vamos continuar a tentar discutir estes temas.
Por fim, quem achar que este texto é uma defesa de Passos Coelho ou Crato, desengane-se. Passos Coelho é alguém também profundamente ignorante nestas matérias, que só sabe falar depois de ler sebentas mal lambidas. Neste caso, apenas teve a imensa sorte de António Costa ter atingido um patamar novo de excelência na baboseira.
AntCosta

Os interrogatórios a Sócrates devem ser divulgados?

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 31/03/2016 - 00:05

A defesa da privacidade e do segredo de justiça não podem ignorar o dever de prestar contas quando estão em causa crimes tão graves.

Imaginemos que até hoje nada se sabia do processo envolvendo José Sócrates, para além dos crimes de que é suspeito: corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal. O segredo de justiça teria sido rigorosamente preservado; o Ministério Público, como é seu hábito, emitiria somente comunicados obscuros em português gongórico; e o ex-primeiro-ministro andaria entretido a fazer digressões pelas televisões e auditórios do país, queixando-se de perseguições, cabalas e urdiduras, e indignando-se perante a terrível infâmia a que estava a ser sujeito. Pergunta: enquanto participantes num espaço público, nós estaríamos mais mal ou mais bem servidos com tão cumpridora ignorância?
A resposta é óbvia. Embora haja um problema evidente com o segredo de justiça em Portugal, a ter de escolher entre um sistema com fugas e um sistema opaco, eu escolho o sistema com fugas. Quem defende o segredo de justiça de forma absoluta, como acontece com tantos ex-admiradores de José Sócrates, está a desvalorizar a importância de todos nós sermos agentes activos no debate democrático. Esta ideia de que divulgar as gravações dos inquéritos judiciais não é mais do que voyeurismo ou populismo denuncia uma visão profundamente passiva da cidadania, que apenas atribui a cada um de nós e à comunicação social o triste dever de aguardar pacientemente que o poder judicial faça o seu caminho, sem vigilância nem escrutínio. Ora, os vários poderes numa sociedade democrática não são apenas complementares – eles são conflituantes. E é por isso que em nome do interesse público é tantas vezes admitida à comunicação social a quebra do segredo de justiça.
Convém não esquecer que um político se torna figura pública por opção deliberada, e deve a sua projecção e carreira à confiança que os eleitores nele depositaram, em troca da promessa de uma administração honesta da coisa pública. A defesa da privacidade e do segredo de justiça não podem ignorar o dever de prestar contas quando estão em causa crimes tão graves, e é por isso que a lei permite que qualquer pessoa se possa constituir assistente num processo que envolva crimes de corrupção ou tráfico de influências. Esse é um dos argumentos que podem justificar a divulgação dos interrogatórios por parte do Correio da Manhã. Outro argumento, mais importante, é este: demonstrar aos leitores que as declarações públicas de Sócrates e dos seus advogados sobre a inexistência de indícios são pura e simplesmente mentira. A facilidade com que um ex-primeiro-ministro divulga o seu discurso nos media exige um exercício de contraditório que os meios judiciais, pela sua própria natureza, não estão em condições de oferecer. A comunicação social está – e ela também serve para isso.
O Correio da Manhã teve atitudes inconcebíveis ao longo da operação Marquês, a mais grave das quais foi ter pedido, através de dois jornalistas da casa que são assistentes no processo, que Fernanda Câncio e Sofia Fava fossem constituídas arguidas. É uma decisão tão idiota que custa a crer que alguém a tenha tomado. Mas o interesse jornalístico do seu trabalho é inegável e o modo como toda a comunicação social está a ignorar as gravações é um absurdo. O Correio da Manhã envolveu-se demasiado no caso Sócrates? É possível. Mas boa parte dos jornais está – outra vez – a envolver-se muito menos do que devia.

Dinheiro não é capital

João César das Neves
DN 2016.03.31
Em Portugal não há capital." A frase do banqueiro José Maria Ricciardi ao Expresso do passado dia 25 é uma das mais importantes afirmações sobre a economia portuguesa. Só se entende o que se passou e vai passar por cá quem souber que aqui não há capital. Infelizmente muitos, mesmo em posições de topo, ignoram ou tentam esconder esta realidade.
A economia cresce pouco ou nada porque não há capital. O país está à venda e as pessoas emigram porque não há capital. Os bancos andam anémicos, a dívida é enorme e as contas públicas não equilibram simplesmente porque não há capital. Isto é assim há décadas. Agora temos um governo que não gosta do capital, mas já antes não havia. Todos os sintomas que vemos à nossa volta mostram a falta de capital e todas as descrições da nossa crise são formas diferentes de constatar essa ausência.
Por que razão não há capital? Não é por sermos um país pobre; primeiro porque não somos, e segundo porque quando éramos tínhamos mais capital do que agora. Não há capital por duas razões. A primeira é que o povo não poupa. A taxa de poupança das famílias portuguesas, que no final do ano passado estava em 4,1%, situa-se no registo mais baixo da nossa história, e um dos valores mínimos da União Europeia; cerca de um terço dos países com os quais gostamos de nos comparar. Sem ovos não se fazem omeletas, e esta razão chega e sobra para que em Portugal não haja capital. O nosso país, que há duas gerações era campeão mundial da poupança, mudou de hábitos e gasta o que tem e o que não tem, sem pensar no futuro. Assim não pode haver capital.
É crucial notar que esta razão, de longe a mais importante, nada tem a ver com políticos, empresários ou banqueiros. É o povo, todo o povo, que toma uma atitude de consumidor e devedor em vez de aforrador e investidor. Existe outro motivo para a nossa situação, que tem a ver com o mau uso do pouco capital que temos. Aí podemos assacar culpas a governos envolvidos em despesas improdutivas, banqueiros que emprestaram a projectos tontos ou especulativos, e empresários sem visão ou capacidade. Esses, que tantos acusam dos nossos males, são justamente condenados, mas não constituem o elemento determinante que, de algum modo, está também por detrás deles. Porque foram as populações perdulárias que elegeram e apoiaram os governos esbanjadores e eram clientes dos projectos vácuos e empresários incompetentes. A culpa de Portugal não ter capital é dos portugueses. Todos.
Quando não há poupança, a solução é usar crédito. Foi isso que as nossas empresas e famílias, além do governo, fizeram com afinco durante duas décadas, acumulando uma das maiores dívidas mundiais. Crédito parece, mas não é capital. Pode ser uma forma temporária de aceder a fundos que, aplicados de forma produtiva, venham a transformar-se em capital. Mas uma abundância acumulada com dívida tem um perigo evidente. Precisamente aquele que hoje nos assola.
Por que razão os portugueses não poupam? Com taxas de juro como as de hoje em dia não espanta que isso aconteça. Os valores miseráveis obtidos nas aplicações de fundos constituem uma vergonha que arruína aforradores, idosos, pensionistas e todos os que vivem do pé-de-meia que honestamente acumularam. No entanto, essas taxas são iguais em toda a Europa, que poupa muito mais do que nós. Além disso, a razão destes níveis doentios, em vários casos até já negativos, está na mesma atitude gastadora que dizimou a poupança. As taxas só estão baixas porque o Banco Central Europeu, contra a opinião da Alemanha parcimoniosa, tem andado a injectar quantidades gigantescas de dinheiro, precisamente para apoiar os países endividados.
Aqui aparece de novo a evidência de que dinheiro não é capital. Essa liquidez pode aliviar temporariamente a factura dos devedores, como o Estado português, mas não se transforma em recursos produtivos que gerem crescimento e resolvam a crise. Pelo contrário, serve, quando muito, de anestesia local, mas com o enorme custo de desincentivar a poupança e estrangular a rentabilidade dos bancos. Não é fácil que este clima de taxas de juro ínfimas seja propício ao crescimento sólido e saudável que Portugal e a Europa precisam para vencer definitivamente a crise.
Portugal não tem capital porque viveu vinte anos acima das posses. É verdade que em 2008 isso acabou. Desde então anda a apertar o cinto e a vender o capital ao estrangeiro para pagar as contas. Essa austeridade é necessária, mas não é solução. Enquanto a poupança continuar a descer, a situação vai-se agravando.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Devoção reparadora dos 5 Primeiros Sábados

O futuro Made in Portugal

Stephan Morais
Observador 29/3/2016

Portugal, integrado na União Europeia, e apesar de muitos portugueses não terem essa consciência, é hoje em dia uma das mais avançadas economias do mundo - e será ainda mais no futuro.

Nos últimos anos assistiu-se em Portugal a uma verdadeira revolução de inovação, em particular em novas empresas dedicadas à tecnologia – as startups. De uma posição de partida de praticamente inexistência, passámos para um país onde as startups fazem capas de revistas e onde proliferam em todo o país incubadoras e aceleradoras de empresas. É um movimento que, apesar de ser em parte uma moda, é muito benéfico para um país que em geral tem baixa auto-confiança e pouca visibilidade positiva internacional. E, na realidade, algumas startups portuguesas começam já a conseguir angariar dezenas de milhões de euros junto de investidores internacionais (e nacionais) tanto em Londres como em Silicon Valley, algo inédito na história económica de um país tradicionalmente avesso ao risco.
Farfetch, Talkdesk, Outsystems, Uniplaces, Feedzai, Seedrs e Veniam, em particular, são exemplos disso mesmo e muito provavelmente outras conseguirão atingir patamares semelhantes. Este movimento deve-se essencialmente à existência de uma geração altamente qualificada, global e sem complexos de partir à conquista do mundo desde Portugal. Deve-se igualmente à existência de um conjunto de atores que têm evoluído em paralelo e que têm contribuído para o crescimento do “ecossistema” de inovação empresarial – universidades, aceleradoras, incubadoras, business angels e fundos de venture capital. Portugal é hoje em dia considerado internacionalmente como parte do grupo de 15 ecossistemas de referência na Europa.
Na base deste movimento global está uma revolução, por vezes apelidada de 4.ª revolução industrial. Embora a indústria propriamente dita ainda não tenha sido profundamente afetada pela revolução em curso, em breve sê-la-á quando máquinas, produtos e sistemas de informação estiverem em permanente comunicação. Isto porque a evolução tecnológica a que estamos a assistir está a propagar-se logaritmicamente, ou seja, a uma velocidade crescente. Embora a maioria das pessoas possivelmente não note mais do que o facto de que ter um smartphone lhe mudou alguns hábitos, a realidade é que em muitas áreas e em particular em alguns países as mudanças começam a ser significativas e profundas.
Em grande parte, esta nova era, caracterizada por uma enorme expansão global da Internet e em paralelo pelo aparecimento de smartphones possibilitou o desenvolvimento de aplicações (software) que vieram transformar o dia-a-dia de quem as utiliza. As redes sociais que promovem um contacto digital entre os seus utilizadores explodiram e a forma de interagir entre as pessoas nunca mais foi a mesma, o que está a gerar uma revolução sociológica irreversível.
Outra das grandes consequências da explosão de aplicações foi o aparecimento de serviços online e mobile que vieram revolucionar progressivamente inúmeras indústrias. Sendo o caso mais conhecido a Uber, que tem vindo a revolucionar mundialmente o sector dos transportes terrestres, têm vindo a surgir nos últimos anos inúmeros serviços online que estão a revolucionar todas as indústrias possíveis, desde uma simples compra de bilhetes ou entrega de comida em casa, até à contratação de recursos humanos para limpezas ou a resolução em crowdsourcing de grandes problemas científicos internacionais. De repente, não só é fácil saber respostas a todas as perguntas que possamos imaginar no Google ou na Wikipedia, mas passou a ser fácil encontrar uma solução online para nos facilitar a vida pessoal e profissional. Os bancos, por exemplo, nos mercados mais avançados estão a começar a perder quota de mercado significativa para as empresas de fintech em todos os seus produtos de valor acrescentado, desde a concessão de empréstimos e troca de divisas, às soluções para meios de pagamento e em produtos financeiros como factoring, leasing e outros. O mesmo está a acontecer em todas as indústrias, ainda que muitos consumidores e empresas não se tenham apercebido ainda.
Esta é a parte ainda assim visível da nova economia, mas há muito mais a acontecer. Por detrás de todas as interações que temos online, há uma recolha de dados (big data) constante por parte das aplicações que usamos e é aí que entra uma das grandes evoluções a que estamos a assistir. A análise desses dados não só possibilita a criação de novos serviços e modelos de negócio, como permite que programas especialmente desenhados para o efeito aprendam com a análise dos dados (machine learning) e possam essencialmente prever comportamentos futuros e propor novas soluções e serviços à medida do consumidor ou da empresa. Para dar um exemplo prático, a empresa portuguesa Unbabel consiste num serviço de tradução de conteúdos online onde essa tradução é inicialmente feita automaticamente pelo software da empresa, posteriormente corrigida por um de entre as dezenas de milhares de tradutores humanos especialistas associados à empresa espalhados por todo o mundo e, finalmente, o software integra essas correções automaticamente ficando assim cada vez mais perfeito para futuras traduções. O serviço fica muito mais barato do que uma tradução puramente humana, é rápido e cada vez melhor. Em virtualmente todas as indústrias algo semelhante está a acontecer.
Mas não é só na internet e na robotização que estamos a assistir a uma evolução exponencial. O sector provavelmente com maior impacto potencial futuro literalmente na vida das pessoas é o da biotecnologia. Sistematicamente têm vindo a ser aprovadas pelas entidades reguladoras mais avançadas novos ensaios clínicos, medicamentos e terapias que se propõem resolver as maiores causas de morte a nível mundial, nomeadamente o cancro, doenças cardíacas e degenerativas. A descodificação do genoma humano veio permitir avanços enormes na descoberta de soluções potenciais para todo o tipo de problemas de saúde e mais uma vez a velocidade com que estes avanços se estão a processar é tal que se espera que a esperança média de vida suba muito significativamente nas próximas décadas.
Portugal, integrado na União Europeia, e apesar de muitos portugueses não terem essa consciência, é hoje em dia uma das mais avançadas economias do mundo, e será ainda mais no futuro devido também à ciência e inovação próprias que começam a ser uma referência internacional. O Made in Portugal também está a criar o futuro que se aproxima de nós a alta velocidade.

O blog Povo faz hoje 8 anos

No dia 30 de Março de 2008, o Povo iniciou-se no mundo dos blogues. Até aí era apenas uma mailing list que só chegava aos seus leitores por uma mensagem, tentativamente diária de e-mail.
Desde então todas as mensagens e respectivos anexos (imagens, por exemplo) passaram a poder ficar armazenadas no blog http://o-povo.blogspot.com e catalogadas por assuntos.
Esta foi a primeira mensagem arquivada no blog: Alteracoes a lei do divorcio, novidades no Povo e "Divorcio abre nova guerra"De então para cá o Povo acumulou (e catalogou) 10 857 artigos (posts) e foi visto 2 337 665 vezes (pageviews).

Agnosticismo


O agnosticismo é uma coisa admirável desde que admita que a coisa que não compreende possa ser superior à mente que não a compreende
G. K. Chesterton

Jesuítas, Construtores da Globalização

De Rerum natura, 2016.03.29



No dia 18 de Março, os CTT - Correios de Portugal lançaram uma emissão filatélica dedicada aos «Jesuítas, construtores da globalização». É uma emissão de quatro selos e um bloco filatélico, com trabalho gráfico de Design&etc. Em breve sairá um livro dos CTT com o mesmo título da autoria de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais. Transcrevo o texto da pagela que acompanha a edição filatélica.

A entrada da Companhia de Jesus em Portugal, em 1540, constituiu um dos eventos mais assinaláveis da nossa cultura. Em paralelo com o esforço missionário intercontinental, a Ordem fundada por Inácio de Loyola ergueu entre nós, em poucas décadas, uma rede de instituições de ensino secundário, chamadas colégios, e universidades (criou a segunda universidade portuguesa, em Évora, em 1659). Com base numa metodologia de ensino nova, os Jesuítas criaram a primeira rede de ensino da nossa história que se ligava com instituições de ensino regidas pelo mesmo método em diversas partes do mundo. Os colégios portugueses dos Jesuítas, que chegaram a ser trinta antes da expulsão da Companhia pelo Marquês de Pombal, estavam distribuídos pelas mais importantes cidades do país, passando pelas ilhas e pelo mundo ultramarino português. Com o regresso dos Jesuítas, após as expulsão e outras que se seguiram, a aposta da Companhia na educação, na cultura e na ciência continuou a deixar marcas na história portuguesa. Refira-se o Colégio de São Fiel, fundado no século XIX, onde se formou o primeiro Nobel português, Egas Moniz, e se fundou a revista Brotéria, que continua a ser publicada. 

A Ordem de Santo Inácio exerceu uma forte influência na cultura e da sociedade portuguesas, formando figuras que deixaram obra relevante em várias áreas e que contribuíram para a modelação da identidade portuguesa. Destacamos cinco dessas figuras.

Merece relevo maior São Francisco Xavier, de origem navarra, que se tornou, no Padroado Português, no primeiro grande missionário do Oriente,  muito venerado em Portugal e no Oriente. Xavier foi um líder que moveu atrás de si multidões. O grande “missionário da Índia”, nome por que ficou conhecido, foi fundamental no desbravamento de caminhos para implantar a cristianização na Ásia, sendo de realçar o seu pioneirismo na evangelização do Japão. Membro fundador da Ordem, foi o grande construtor de uma instituição que se afirmou desde o início como global.

São João de Brito foi, ainda no século XVII, um missionário mártir no subcontinente indiano, após ter desenvolvido uma evangelização aculturacionista, isto é, uma missionação que procurava um intercâmbio entre a mensagem cristã e a cultura local. Existe hoje um Lisboa um colégio de referência com o seu nome. 

No Novo Mundo, afirmou-se no século XVII o Padre António Vieira, que, vivendo entre a selva e a corte, ergueu uma ponte entre as civilizações europeia e ameríndia. Tornou-se o grande missionário da América, um pregador exímio que fez transbordar auditórios e que deixou uma vasta obra de grande valor literário e contendo pensamento avançado para a época, que acaba de ser publicada no Círculo de Leitores em 30 volumes. Além de ter elevado a língua portuguesa a uma perfeição nunca antes alcançada em prosa (Fernando Pessoa não teve dúvidas em elevá-lo ao estatuto de “Imperador da Língua Portuguesa”), as suas profecias, os seus projectos de reforma política, social e eclesial, os seus protestos contra os excessos da Inquisição e dos esclavagistas continuam hoje a ser uma lição. 

Nos tempos mais recentes cumpre destacar a figura do Padre Manuel Antunes, director da Brotéria e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, por cujas extraordinárias aulas passaram milhares de alunos. Considerado um dos maiores pensadores do século XX português, deixou uma obra imensa e variada que foi há poucos anos reunida e publicada em 14 volumes pela Fundação Gulbenkian. Dialogou nos seus ensaios com os grandes pensadores contemporâneos, actualizando a linguagem da cultura de uma forma tão diáfana como profunda. No pós 25 de Abril, o seu livro Repensar Portugal tornou-o um pedagogo da nossa democracia. 

Por último, recentemente falecido, Luís Archer, também director da Brotéria e  professor da Universidade Nova de Lisboa, é um nome maior da ciência nacional. Foi um dos pioneiros do ensino e da investigação em Genética Molecular e em Engenharia Genética.  Organizou e dirigiu o primeiro laboratório da Gulbenkian nesta área, tendo formado gerações de cientistas. Durante muitos anos presidiu ao Conselho Nacional de Ética, tendo escrito obras de referência em bioética. A sua obra completa está a ser publicada  pela Fundação Gulbenkian. 


José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais

terça-feira, 29 de março de 2016

Como rezar o Regina Caeli?

senza pagare, 2016.03.29
Durante o tempo pascal, que vai do Domingo de Páscoa até ao Pentecostes, em vez da Oração do Anjo (Angelus) reza-se o Regina Caeli, para sublinhar a alegria cristã pela ressurreição do Senhor.

Português:

V. Rainha do Céu, alegrai-vos, Aleluia!
R. Porque Aquele que merecestes trazer em Vosso ventre, Aleluia!
V. Ressuscitou como disse, Aleluia!
R. Rogai por nós a Deus, Aleluia!
V. Alegrai-vos e exultai, ó Virgem Maria, Aleluia!
R. Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente, Aleluia!


Oremos. Ó Deus, que Vos dignastes alegrar o mundo com a Ressurreição do vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, concedei-nos, Vos suplicamos, a graça de alcançarmos pela protecção da Virgem Maria, Sua Mãe, a glória da vida eterna. Pelo mesmo Cristo Nosso Senhor. Ámen.

Latim:

V. Regina caeli, laetare, alleluia. 
R. Quia quem meruisti portare, alleluia. 
V. Resurrexit, sicut dixit, alleluia. 
R. Ora pro nobis Deum, alleluia. 
V. Gaude et laetare, Virgo Maria, alleluia. 
R. Quia surrexit Dominus vere, alleluia.

Oremus. Deus, qui per resurrectionem Filii tui, Domini nostri Iesu Christi, mundum laetificare dignatus es: praesta, quaesumus; ut per eius Genetricem Virginem Mariam, perpetuae capiamus gaudia vitae. Per eundem Christum Dominum nostrum. Amen.



Na cabeça de Francisco Louçã

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 29/03/2016 - 07:58

Um dia eu gostaria de conseguir compreender uma cabeça de esquerda como a de Francisco Louçã. Aliás, queria pedir desculpas antecipadas a Francisco Louçã por estar a usar a sua cabeça. Ela está aqui no papel de sinédoque – assim como quem diz Moscovo para falar da Rússia toda –, enquanto cabeça representante de numerosas cabeças de esquerda que pensam mais ou menos o mesmo do que ele. A escolha recaiu na cabeça de Louçã por dois motivos: 1) é a cabeça de esquerda que neste momento tenho mais à mão; 2) resolvi escrever esta crónica após ler o seu texto “Brasil: um golpe de Estado em transmissão directa”.
São José Almeida já assinou aqui no PÚBLICO um excelente artigo sobre o tema (“Corrupção é corrupção. Ponto final. Parágrafo”), alertando para o inconcebível relativismo moral que subitamente tomou conta de boa parte da esquerda portuguesa, que resolveu transformar Lula e Dilma em desamparadas vítimas da tenebrosa justiça brasileira. Escreveu Francisco Louçã: “Assistimos no Brasil a um golpe de Estado em transmissão directa. É assim que se procede no século XXI: em vez de tanques nas ruas é um juiz que derruba um governo.” Embora admitindo que “o PT alimentou a monstruosidade” do Petrolão, Louçã reduz as suspeitas de corrupção a um “ódio de classe contra Lula, torneiro mecânico feito grande do país”. O facto de a justiça brasileira estar a atingir transversalmente todo o sistema político, e não só o PT, parece ser para ele um detalhe sem qualquer importância.
É por isso que tenho um problema com a cabeça de Francisco Louçã: eu não deveria estar em desacordo com ele no combate à corrupção. Francisco Louçã e respectiva cabeça são co-autores de livros como Os Donos de Portugal (2010), Os Donos de Portugal em Angola (2014) ou Os Burgueses (2014), obras de referência na caracterização da classe dominante portuguesa (reparem que até estou a usar linguagem marxista) e das redes de poder clientelar que ela estabelece. Faço notar que eu só sou de direita até nove décimos da escala social – quando se entra no último décimo, poderia perfeitamente ir discursar para a Festa do Avante. Em todas as comissões de inquérito a banqueiros, estive sempre ao lado do Bloco de Esquerda. Soubesse eu usar pompons e ter-me-ia candidatado a cheerleader da claque de Mariana Mortágua na comissão do BES. Houvesse posters seus à venda nos quiosques e teria colado um na porta do meu quarto depois de a ouvir fazer perguntas a Zeinal Bava.
Mas eis que de repente as acusações de corrupção caem em cima de Lula da Silva, o menino bonito do socialismo planetário, e tudo o que antes era sólido se dissolve no ar. Afinal, existe uma corrupção de direita e uma corrupção de esquerda. A corrupção de direita está sempre baseada em factos indesmentíveis e é a coisa mais vergonhosa do mundo. A corrupção de esquerda está sempre baseada em teorias conspirativas e é a coisa mais injusta do mundo. Francisco Louçã e a sua cabeça partiram-me o coração: eu pensava que tínhamos uma plataforma mínima de entendimento e que poderíamos encontrar-nos na rua e concordar sobre Ricardo Salgado, José Sócrates ou Lula da Silva. Afinal, não. Só há plataforma de entendimento à direita. O Ricardo Salgado, esse, é de certeza ladrão. Já Sócrates é um presumível inocente. E Lula da Silva uma infeliz vítima de conspirações. Que chatice, Francisco. Receio bem que tenhamos ficado sem tema de conversa.

A minha Páscoa: de Babel ao Pentecostes

PAULO RANGEL Público 29/03/2016 - 07:32
  1. A semana que passou e a que agora passa, por razões que não vêm ao caso, fizeram acudir-me à memória as minhas férias escolares, as férias de há quarenta anos. As férias da Páscoa tal como as do Natal eram sempre passadas em casa, por entre a nossa casa, a de amigos e a de vizinhos. E numas ou noutras, as da Páscoa ou as do Natal, já não sei dizer bem – o mais provável é que fosse em ambas –, havia sempre tempo para passar os olhos por um álbum que dava pelo nome de Grande Bíblia Ilustrada ou qualquer coisa aproximada. Por vezes, quando calcorreio livrarias de marca, destas muito estilizadas, de oferta colorida, digital e escassa, típicas das franquias de centro comercial, suspeito ver esse livro ou algum dos seus sucessores ou sucedâneos algures no escaparate. A verdade é que para uma criança numa família católica dos anos 70, os tempos de Páscoa e de Natal eram tempos fortes e sagrados, mais no sentido mítico e mágico de Mircea Eliade do que no sentido austero e tradicional, quase eclesiástico, que por aí tão displicentemente se supõe ser os das ditas famílias católicas de então. Foi nesse álbum, de imagens grandes e letras gordas – algures entre o texto corrido e a banda desenhada – que, me recordo pela primeira vez, de ver e de ouvir falar de Sansão e Dalila, do grande Nabucodonosor, da adoração dos Bezerros de Ouro, das histórias da Babilónia, de Saúl e da funda David contra Golias, da Arca de Noé, de Dario e Daniel e a cova dos leões, dos Persas, de Jonas e da Baleia, da sabedoria de Salomão e do episódio das duas mães, do fratricídio entre Caim e Abel. Estava tudo lá. Foi tudo aí.
  2. Curiosamente, a imagem mais forte que me ficou desse e de um outro livro aparentado que andava lá por casa – não sei mesmo se não seria a imagem da capa de algum deles – foi a Torre de Babel. Uma torre belíssima, de ampla base e grande altura, toda em pedra algures entre o castanho e o dourado, muito trabalhada, de formato piramidal, a furar todas as nuvens e a romper mesmo o céu – seguindo de perto as indicações da pintura de Brueghel. Na cúpula, uns magros andares redondos estavam incompletos e ameaçavam ruína, já indiciando a fúria e ira divina provocadas por um alegado atrevimento humano. E os sucessivos andares, dispostos como se de um bolo de noiva se cuidasse, estavam repletos de gente de todas as raças, feições e compleições, vestida dos modos mais díspares, correndo e esbracejando, dando a sensação de desnorte, desorientação e desentendimento. Era essa – e é ainda – a minha Torre de Babel. De pequeno, ficara-me a ideia de que Deus criou o mundo com uma língua única, comum a todos os humanos. O versículo 1 do Capítulo 11 do Livro do Génesis não pode ser mais lapidar: “E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala”. A língua única – que eu suspeitava que fosse mais o esperanto ou o latim do que inglês – deveria ter sido uma das coisas boas que Deus criou. Na verdade, toda a narração da criação, logo nos capítulos I e II do Génesis, está pontificada pelo inciso “e viu Deus que era bom.” A fala única – embora não coubesse nessa descrição inicial – seria decerto uma decorrência sua e, por isso, uma das coisas boas herdadas dos tempos da criação e não tocada pela expulsão imposta a Adão e Eva.
  3. O episódio da Torre de Babel, geralmente visto como uma alegoria da soberba humana, que quer comparar-se à grandeza divina, era, apesar de tudo, um sinal de arrependimento divino. Ou então pior ainda, mas mais provável, um castigo divino. Nuns estreitos versículos, que nem sequer têm correspondência na mitologia babilónica – embora apareçam em narrativas da mitologia suméria e tenham longos desenvolvimentos e versões na tradição de escrita do judaísmo e do Alcorão –, Deus aparta os seres humanos uns dos outros, fazendo-os falar línguas diversas e espalhando-os pelos confins da terra. Afinal, pensei eu, Deus viu que não era bom os humanos entenderem-se facilmente entre si, que isso tinha perigos e riscos, os expunha a tentações e o melhor era dificultar o entendimento e a compreensão.
  4. Há poucos anos, mesmo há poucos, com o meu autodidactismo bíblico, de vezo mais protestante que católico e com aquela liberdade que só a ignorância licencia, dei-me conta de que o Pentecostes cristão era – para usar uma linguagem cara à política portuguesa dos últimos tempos – uma reversão da Torre de Babel. O Pentecostes, a experiência da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos em forma de línguas de fogo, cinquenta dias depois da ressurreição de Jesus, era a “contra-Babel” do Novo Testamento. Havendo em Jerusalém judeus vindos de todo o mundo – da Mesopotâmia ou de Cirene, da Frígia, do Egipto ou da Capadócia – e havendo medos, cretenses, partos e árabes, todos conseguiam entender e compreender o que os apóstolos diziam. O Espírito, diz-se nos Actos dos Apóstolos, capítulo II, versículos, 4,6 e 8, capacitou-os para falar línguas. Mas, surpresa das surpresas, não se deu ali a inversão da multitude da Torre de Babel, passando todos a ouvir e a falar a mesma língua. Não, no Pentecostes, Deus não quis voltar ao paradigma anterior a Babel em que os humanos falavam e entendiam uma única linguagem. Naquele dia de revelação dos seguidores de Cristo, todos compreendiam os Apóstolos, mas cada um ouvia-os na sua língua, na sua língua própria. Todos compreendiam a mensagem divina, mas ela revelou-se a cada um na sua língua própria, na sua cultura própria, na sua especificidade própria, na sua diversidade e particularidade.
  5. No fundo, Deus viu que afinal a existência da diversidade – criada num capricho antropomórfico de reacção à soberba humana – era afinal boa e profícua. E quando tratou de fazer uma nova aliança, não quis regressar ao mundo monolítico e redutor da língua única. Eis um pensamento que dominou a minha Páscoa. Que vale muito para a Igreja e para os problemas que nos afligem. E que vale muito para a Europa e para os problemas que nos torturam.