segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Terrorismo pré-natal

JOÃO DELICADO  VERPARALEMDOLHAR.BLOGSPOT.PT  24.10.16   


Tenho tido a sorte de ter amigos e amigas que esperam uma criança. E apercebo-me do terrorismo pré-natalício a que são sujeitos: é tal a ânsia de perfeição da criança, e tal o apego aos meios técnicos, que os médicos inundam o processo com exames disto e daquilo, com minuciosos resultados expressos até à mais ínfima probabilidade. E há sempre um mísero valor - quatro num milhão, três em mil, dois por cento - a agoirar que algo poderá correr mal. Claro que algo pode correr mal, caramba! O oxigénio pode acabar no planeta. Qualquer ser humano pode morrer de um momento para o outro. E quem diz morrer, diz ter alguma doença chata. Mas vamos gastar tempo a pensar nisso? Uma coisa é prevenir, outra é ‘panicar’.

Fico com a impressão de haver médicos piores do que os pais. Talvez alimentados pelo alarmismo de alguns progenitores mais ansiosos, talvez por querer proteger o estatuto de profissional competente e tecnicamente preparado para o efeito, fazem uso da tecnologia cada vez mais aguda, minuciosa, coca-bichinhos, a que temos acesso. E assim escudados lançam, que nem bombas, as tais probabilidades impiedosas sobre pais já de si sensíveis à fragilidade da nova vida. Por insegurança própria acabam por espalhar o terror sequestrando os progenitores para o seu domínio, arrancando-os do estado de graça, que é o estado natural de uma grávida ou de um 'grávido', e deixando-os em suspenso, à espera do próximo exame, da próxima consulta, do veredicto que há de esclarecer finalmente se a pessoa que ali desponta virá a ter algum tipo de patologia. 

O que eles se esquecem de dizer, é que, de facto, aquela vida é como a nossa: limitada, vulnerável, finita. E, se Deus quiser, há de passar por muitas doenças. E assim tem de ser aceite, porque é assim que as coisas são. Talvez não sejam capazes de falar nisso porque também não é clinicamente correcto pôr-se a falar do espanto e da maravilha. Talvez os tais resultados ganhassem a justa proporção se os médicos começassem por enquadrar as consultas dizendo coisas como: "já pararam a pensar como é que vocês os dois são responsáveis pelo surgir de uma nova vida?"; "já viram bem o milagre que está a acontecer?", "imaginem só todos os gestos de amor que surgirão a partir deste novo ser!".

Ora isto exige dos pais a aplicação de uma inteligente profilaxia contra a obstinação médica: há que ouvir e filtrar a informação; há que lembrar que o médico pode ter necessidade de provar que é bom médico ou pode achar que é apto para a prática da futurologia; finalmente, há que treinar, afincadamente, a saborear o presente. Sim: há que ponderar bem o milagre que está a acontecer, estabelecer morada no território do espanto. E em vez de viver na ansiedade vazia da expectativa, há que viver no sabor pleno da gratidão. O que virá, virá. Cada pai ou mãe terá todos os recursos necessários para fazer face aos desafios que cheguem. 

Entretanto evitem a propaganda do terrorismo pré-natal.
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