sexta-feira, 1 de julho de 2016

Um golo pode fazer subir o "rating"?

Graça Franco
RR online 01 jul, 2016

Como os jogadores islandeses, os adeptos irlandeses e a tenacidade de Fernando Santos podem contribuir para a melhorar a economia nacional.
Espero que Fernando Santos, Quaresma, Ronaldo e Renato Sanches acabem a fazer pela economia portuguesa mais do que tem feito o ministro Caldeira Cabral. E podem? Devem.
Como? Ensinando-nos o valor do pragmatismo e fazendo disparar a confiança – essa palavrinha mágica que vários estudos provaram resultar para a França da vitória no “Euro-2000”. A importância da “confiança” não domina apenas a linguagem de jogadores/treinadores e comentadores desportivos. Domina os mercados, move consumidores e capta ou afasta os investidores. Comanda muitas das nossas acções.
Se há coisa comum ao economês e ao futebol é a busca e o reconhecimento da confiança. Coisa que leva tempo a conquistar e se desfaz em poucos minutos; e muitas vezes resulta de factores quase “irracionais”. Jogadores, treinadores, adeptos e comentadores concordam na sua influência no resultado do jogo. Basta seguir o Euro para perceber as diferenças entre o comportamento das claques das respectivas equipas para verificar o impacto e a importância dos “injectores de confiança” em campo.
Listemos, por isso as lições do Euro que vão muito para além do futebol. E que podem puxar pela retoma e melhorar o "rating". Um golo pode fazer subir o rating? Pode. Depende de onde, e quando. Por exemplo, se for o golo da vitória na baliza alemã, e em plena final.
Lição “Islândia I”
Não só a equipa consegue levar para dentro do estádio o equivalente a 7% da população (mais de 25 mil adeptos) como a forma como estes fazem sentir o seu apoio é estranhamente eficaz. Portugal, não podendo mobilizar proporcionalmente o equivalente (800 mil adeptos), estava apesar disso em maioria no estádio mas não se fez ouvir com metade da força. Tolheu-nos, como sempre, o medo de “perder”.
Os gritos de guerra dos viquingues chegaram para nos amedrontar. É sempre assim. Nada nos intimida mais do que o rótulo de “falhados”. Paralisa-nos o terror de sermos contados entre os “losers”.
A claque islandesa, pelo contrário, mostrou tal confiança que vendeu a sua equipa assim. A “marca” valorizou-se entretanto. E mesmo que não arranquem a vitória no Euro já ganharam uma gigantesca campanha de marketing nacional. Quem sabia que o país tem mais vulcões do que os seus 120 jogadores de futebol?
Lição “Islândia II”
Não há um único jogador em campo que viva na Islândia. Os 25 seleccionados são na totalidade emigrantes convocados para defender as cores do país. Bjarnasson é conhecido pelos lançamentos que aprendeu a fazer nos treinos como jogador de andebol. Querem melhor exemplo de mobilização da força da diáspora?
Mais do que conseguir o regresso de todos os portugueses que emigraram (mais de 100 mil trocaram Portugal por Londres só em quatro anos) é não quebrar o vínculo e potenciar o efeito lóbi. Encontrar na Europa dirigentes que saibam onde fica o Douro é meio caminho andado na defesa dos interesses do Vinho do Porto.
Lição “sorriso Irlandês”
A Câmara de Paris atribuiu aos adeptos irlandeses uma medalha em reconhecimento pela sua exemplar passagem pela cidade. Até os mais fanáticos foram civilizados. Pagar colectivamente os estragos que o seu excesso de entusiasmo provocou na propriedade alheia e mobiliário urbano, limpar as ruas das garrafas e lixo, provocar a polícia atirando beijos em vez de pedras, são pequenos gestos dos irlandeses que marcam a diferença e espalharam alegria sem boçalidade. Por cá, a falta de civismo crónica é também um potente travão ao nosso desenvolvimento.
Lição “pragmatismo” de Fernando Santos
Muito mais importante do que fazer bonito e mostrar que somos “os melhores” é a humildade de tentar, mesmo modestamente, ganhar. A obsessão pelo resultado é uma das características que nos falta como empresários, trabalhadores ou políticos. Ficamos felizes se apresentamos “um bom protótipo” que continue em exposição e consolamo-nos se descobrimos a melhor tecnologia. Poucos se aplicam em traduzir vitórias morais em contratos ou se indignam por ser os últimos a aplicar a descoberta. Trabalhamos muito, mas não nos importa o bem. Bastam-nos dez livros-brancos e nenhuma reforma.
A capacidade de “desempatar” em futebol traduz-se por saber “ganhar competitividade“ na economia. Obter vantagem através de produtos ou serviços que, mesmo aparentemente “iguais”, vencem a guerra (pelo preço/pelo design/ pela marca). Em rigor, porque importa, o porquê.
Desistimos antes de conseguir o empate. E em matéria de empates Fernando Santos é especialista. Depois, não se preocupa em jogar bonito ou sequer melhor. Aplica-se em não desistir da guerra pelo mau resultado da batalha. Num jogo mostrou isso três vezes.
Lição “Confiança de Quaresma”
Tão importante como não desistir é não “panicar” quando não se parte em vantagem. Os portugueses são muitas vezes maus gestores de stresse. Passamos da euforia à depressão com enorme facilidade. E com o que isso acarreta. Passos Coelho sofreu esse efeito. Os ricos deixaram de comprar automóveis e contraíram o consumo. Má vontade? Não. Medo.
Quaresma deu uma lição de confiança em Deus. Atribuiu-lhe a razão da sua calma. “Tinha toda aquela pressão, o país às minhas costas, mas estava sereno porque sabia que Deus não me ia falhar”. Não falhou. Deus não joga futebol. Mas aí como em qualquer ocasião não falta com a sua ajuda aos que n’Ele confiam e fazem o seu melhor.
Lição “aceitar o desafio de Gary Lineker”
Ficou célebre a definição de futebol como o jogo onde há “onze contra onze e no final ganha a Alemanha!”. Na Europa são cada vez mais a afirmar que a União Europeia são “27 contra um e no final ganha a Alemanha”. No Euro 2016, neste momento, além da Itália, Portugal, Bélgica, Pais de Gales, França e Islândia preparam-se para defrontar a grande favorita. Destruir o mito da sua invencibilidade é uma dupla motivação. Para Portugal será também uma vingança sobre o pior do “troikismo” óptima para varrer fantasmas e recuperar o ego nacional. A reputação “constrói-se” no tempo e aqui pode perder-se em 90 minutos. Só a favorita arrisca o desastre.
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