As costas de Bruce

José António Saraiva | SOL | 01/06/2016

Até hoje fui, se tanto, a meia dúzia dos chamados ‘megaconcertos’. Recordo dois em 1990 (Rolling Stones e Tina Turner) e um em 1992 (Genesis, com Phill Collins), todos no velho Estádio de Alvalade. E terei assistido a outros tantos pela TV.

Devo confessar que este tipo de eventos me diz pouco. Não consigo vibrar em conjunto, como vejo aquelas pessoas fazer, erguendo os braços no ar e rodando as mãos, ou levantando os smartphones acima das cabeças para tirar selfies. Quando me vejo no meio de uma multidão, constrange-me ver toda a gente a fazer a mesma coisa e apetece-me fazer o contrário. Até porque me interrogo: será que estas pessoas sentem todas o mesmo?
Nunca gostei de fazer parte da carneirada, e por isso deixei há muito de ir a concertos. Também não frequento manifestações políticas e raramente vou ao futebol.
Há oito dias exatamente assisti pela televisão ao concerto de Bruce Springsteen no Rock in Rio. E o que vi? Vi um gigantesco mar de gente que enchia por completo o ecrã do televisor. Em palco, um grupo um tanto grotesco de indivíduos agitava-se freneticamente e produzia imenso ruído. Um deles tinha uns sapatos três números acima do seu e um lenço amarrado na cabeça como se estivesse a proteger-se do sol, embora fosse de noite.
Todos aqueles indivíduos, incluindo Springsteen, pareceram-me patéticos. Porquê? Porque tentavam desesperadamente parecer o que já não são. Tentavam mostrar-se irreverentes, inconformados, rebeldes, em rutura com a sociedade e o sistema - e terão sido tudo isso há uns 30 ou 40 anos. Mas deixaram de ser. São um grupo de velhotes que tentam imitar o que foram.
Dizia um colega meu que uma pessoa tem de aprender a envelhecer com dignidade. Aquele grupo parecia ter faltado a essa lição...
Entretanto, todo aquele mar de gente que enchia o ecrã do meu televisor ouvia-os em êxtase. Nos rostos daqueles homens e mulheres havia expressões iluminadas, como se estivessem a assistir a um milagre. Erguiam os braços ao céu, agitavam as mãos, davam graças ao Senhor por estarem ali. O som não devia ser grande coisa, pois não podia chegar a toda a parte em boas condições, mas isso não era importante. A própria voz de Springsteen não devia ouvir-se bem, mas isso também não era o mais importante. Aliás, na maior parte do tempo, ele gritou mais do que cantou, emitindo sons guturais. Dir-se-á que o rock é mesmo assim. Talvez por isso nunca fui grande amante de rock.
De qualquer forma, olhando para aquela gente toda que estava ali a pé firme às duas e tal da madrugada, eu dizia para comigo: ‘Se eles não estão ali pela música - pois em casa, num CD, ouviriam muito melhor -, estão ali porquê? Deslocam-se ali para quê? A resposta só pode ser uma: para celebrarem em conjunto, para aplaudirem em conjunto, para vibrarem em conjunto, para atingirem em conjunto o êxtase. Mas isso não chegaria. Toda aquela gente está ali porque, numa sociedade que abandonou a religião, as pessoas têm necessidade de ter ídolos. E eles vão ali para seguir um ídolo.
Por isso, Bruce, por muito mal que cantasse, seria sempre aclamado em delírio. O que interessava ali não era ele - era o mito em que ele se tornou. Todos o queriam tocar. Uma rapariga a quem ele apertou a mão ergueu-a no ar como quem diz: não vou lavar esta mão nunca mais. Uma jovem foi ao palco abraçá-lo e ele ensaiou com ela uns passos de dança. Mas depois a rapariga abraçou-o outra vez. E logo a seguir uma terceira, num abraço apertado. Para aquela jovem foi o momento mais importante da sua vida: o momento em que abraçou o seu Deus.
E é aqui que também me distancio. A idolatria incomoda-me. A idolatria associada a estes fenómenos de massas promovidos com grande aparato mediático são para mim detestáveis.
Dir-se-á que não entrei na onda e sou ‘um caso perdido’. Acredito que sim. Mas exatamente por isso posso ter sobre este fenómeno um olhar crítico. Coisa que, para os que estiveram no Rock in Rio, é certamente impossível. Ora é sempre bom haver um ponto de vista diferente.
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